Fated
1 First things first
Notas iniciais
– Que tal você parar um pouco de jogar e procurar um emprego? Por que você não faz algum curso profissionalizante ao invés de ficar o dia inteiro sentada na frente desse computador jogando essa porcaria ai? Que tal ajudar um pouco em casa?
E lá vem o discurso nosso de todos os dias. Qual o problema em não fazer nada na vida? É verdade que queria estar trabalhando ou fazendo alguma faculdade, mas que culpa tenho se nada é fácil pra mim? Qual a minha culpa nisso tudo? E se prefiro ficar o dia inteiro jogando alguma coisa, QUE CULPA EU TENHO? Não é como se não saísse mandando meu curriculo aos sete cantos do mundo todos os dias. Não é como se não fizesse entrevistas de emprego a cada semana só pra, dois dias depois, alguém me ligar falando que “infelizmente encontramos outra pessoa para a vaga”. É claro que encontraram. Quem iria contratar uma pessoa tão inútil quanto eu? Quem iria querer esse tipo de desgosto na própria empresa?
Minha mãe simplesmente não consegue entender o quão inútil me sinto todos os dias por não estar fazendo nada. Ela não sabe quantas vezes já chorei por causa disso. Ou quantas vezes olhei para algo desejosamente mesmo sabendo, lá no fundo, que não tenho como comprar pois o orgulho não me deixa simplesmente pedir à ela. Ela não sabe quantas vezes deixei de sair com meus amigos por não ter dinheiro. E, mesmo assim, vive reclamando dos jogos. Se não tenho dinheiro para sair vou fazer o quê? Jogar, é claro. Até fiz alguns amigos bem legais via jogos, ou como gostamos de falar, games.
Al0neHunter: achei que não ia entrar hoje
Nienna: até parece auheuahe, não da pra ficar longe dos gamesss
ta fazendo o que por ai?
Al0neHunter: eu to em call com um pessoal aqui, quer entrar?
Nienna: meh, não gosto muito
Al0neHunter: não precisa falar, só entra, eles são legais
Nienna: ok, me coloca lá, quem sabe eu entre :^)
Al0neHunter: é sério, entra
ta online no skype?
Nienna: to sempre auheuaheue
coloca ai depois eu entro
Al0neHunter: ok
Foi basicamente assim que me arrastaram pro mundo das “calls”. Basicamente são umas cinco ou mais pessoas, todo mundo falando ao mesmo tempo, ninguém respeita ninguém (no sentido de falar) e todo mundo zoa todo mundo. É uma bagunça coletiva. Como sair com um grupo de amigos, mas tudo isso no cyber espaço. Não existe diversão maior. Ok, talvez exista, mas pra mim não.
A primeira vez que entrei em uma call, não consegui falar absolutamente nada. Fiquei em silencio a maioria do tempo até alguém notar que tinha uma garota por ali que não havia falado nada até o presente momento. Começaram a zoar com a minha cara e chamar meu nome até finalmente me pronunciar. Veja bem, é meio estranho falar sozinha dentro do quarto, eu me sentia estranha sabe? Minha mãe já estava mais do que acostumada, meu irmão conversa com os amigos o tempo todo via skype. Mas eu? Nunca pensei que iria fazer isso. O que nunca imaginei também? Que no meio desse pessoal todo, com toda essa vibe games, seriados, quadrinhos e super heróis, acabaria encontrando a pessoa que viria a ser a mais importante da minha vida. A pessoa que pensei nunca encontrar. Aquela que sonhamos as vezes quando vamos dormir, sabe? Aquela pessoa que nos faz acreditar em casamentos e relacionamentos e no amor. Que nos completa, que nos faz feliz. Aquela pessoa que rouba seu coração em apenas alguns minutos e nunca mais devolve. Enfim, essa pessoa. E foi nessa call, com essas pessoas… O quão estranha a vida é?
Algo poderia ter dado errado. Alguma ação teria mudado tudo. Se meu netbook não tivesse estragado, não teria ganhado um computador novo e não teria instalado aquele jogo e não teria conhecido esse meu amigo e ele não teria me colocado na call e eu não conheceria ele. Ou talvez tudo já seja predestinado na vida. E independente dos eventos, acabaria conhecendo ele do mesmo jeito… Quem sabe?
Mas talvez antes de falarmos dele, precisamos falar de mim. É preciso conhecer ambos os lados da história. Ou melhor, ambos os personagens principais. Vamos começar com a garota problema.
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