Fate

1 Capítulo 1


Era uma gélida tarde de inverno, nuvens cinzentas passeavam pelo céu escurecido; uma chuva, com certeza, estava próxima. Lá estava ele, usando um sobretudo preto por cima da roupa de linho. Embalada em seus braços, inconsciente, mais uma vítima. Dormia profundamente com um fino traço de saliva escorrendo por sua boca entreaberta. Ele a carregava nos braços de forma descuidada enquanto se dirigia para longe daquele lugar. Estavam em um parque distante do centro da cidade. Ali, apenas casais freqüentavam com um único propósito: sexo. Por sorte, era cedo, e nenhum eufórico grupo chegara ainda. Geralmente, ele não a levaria a tal ambiente. Gostava de ir a bons restaurantes, elegantes bares, finos hotéis. Um parque? Não era seu preferido local para uma refeição.

Enquanto andava, escutou um baque ao longe, talvez a porta de algum carro... Tinha, afinal, alguém ali?

Nenhuma mulher estava sendo interessante o suficiente para lhe tirar o tédio. Há dias procurava por alguém que lhe trouxesse algum tipo de (mesmo que leve) emoção. Até porque emoções não são normalmente vividas por vampiros. Quando lhe passara a última? Uns meses antes de sua parceira ir embora com outro. Sim, algo parecido com decepção lhe tomara o peito. Afinal, ela era boa de cama.

Nada de extraordinário, pois já sabia o que “decepção” representava mesmo antes de ter comido a primeira mulher na vida (ou caberia mais a palavra morte?). Foi logo 10 anos após sua chegada ao mundo. Não nascera vivo (afinal, qual vampiro nasce?) e quando descobriu que fora achado nos destroços de uma clínica hospitalar 5 dias após ter sido jogado lá, sentiu esta emoção lhe percorrer a espinha e invadir o cérebro. Balançou a cabeça para extrair a desagradável memória. Sentiu novamente o quase imperceptível peso da mulher em seus braços.

Era mesmo uma beldade aquela moça: uma boneca de porcelana. Nunca comera alguém tão bonita quanto aquela. De certo, deveria tê-la levado a algum lugar melhor conceituado. Bem, uma garota de 14 anos deve estar acostumada a ir a finos restaurantes... Ah! Aquela ali não tinha “a permissão para sair com homens mais velhos”. Um sorriso sombrio lhe surgiu na face quando recordou as palavras da menina; seus pais estavam certos sobre tal assunto. Qual era mesmo o seu nome? Não importava, ia esperar que acordasse para lhe dizer (como sempre dizia) que havia desmaiado em meio à conversa e que ele ficara preocupado e a levara ao hospital. Quando chegassem lá, um servo a levaria para uma ala e a faria receber uma transfusão. Depois a deixaria em casa e ela nunca mais o veria novamente. A não ser que se cruzassem ocasionalmente e, mesmo se isso ocorresse, ela não se lembraria da sua face.

Onde deixara o carro? Estava faminto quando pegara a mulher em casa. Ela saíra pela porta dos fundos para que não fosse vista. Segundo ela, todos na casa estavam dormindo. Ele não se preocupou; acordados ou não, era ela a presa daquela noite. Andava apressado agora, não queria que algum casalzinho os visse por ali. De repente, sentiu um fino e gelado pingo cair sobre seu cílio. Depois, sentiu mais outros respingarem sobre suas mãos descobertas, sobre seus cabelos negros, sobre toda a sua face. Sentia cada gota gélida que tocava seu corpo, irritava-se ao ficar na chuva (pensou nos casais: hoje não seria uma boa idéia ir transar no parque). O cheiro de terra molhada chegava forte até suas narinas de olfato aguçado.

Já quase perdendo a paciência, apressou-se. No caminho, pisou fundo numa enorme poça respingando água em toda sua calça e terminou de estragar toda a sua diversão da noite. Um xingamento surgiu em meio ao barulho da chuva. Ora! Até que a garota lhe fora útil. Graças à sua não “permissão para sair com homens mais velhos”, ele fora capaz de saborear uma velha emoção ali no parque: a raiva. Agora, tinha mesmo vontade de matar aquela garota, entrar em seu carro e tomar um banho quente quando chegasse em seu apartamento. Bem... Era a maneira mais conveniente de terminar a noite. Tiraria da garota o resto de sangue que lhe sobrara e iria embora mais satisfeito que o usual. Então, talvez não precisasse caçar por um ou dois dias. Um sorriso lhe surgiu na face quando olhos castanho-claros ingênuos o encararam.

Está chovendo, Bernard. Que está acontecendo?

Nada. Fique quieta. Quer ser descoberta por alguém?

Não! É que, mesmo estando tão frio, o seu corpo é quente. ~ A garota se aconchegou em seu peito largo (idiota).

Ele já estava com as presas para fora. Excitou-se ao pensar que em poucos minutos a garota penderia sem vida. Jogaria seu corpo em algum canto e mais tarde (se estivesse disposto) ligaria para a polícia ir buscá-la. Fincou seus exageradamente pontiagudos caninos no pequeno pescoço da coitada. Continuou em pé, imóvel, encharcado pela chuva que não parava, segurando firme em seus braços o corpo, que aos poucos perdia as forças.

Calculara mal. Estava mais do que satisfeito, não agüentava mais nem uma gota sequer. Tonto, apertou o chaveiro eletrônico do veículo. Um pouco ao longe de onde estava, escutou claramente o apito do alarme e viu luzes amarelas piscarem 3 vezes em meio à neblina que surgia. Precisava sair dali. Naquela idade, as garotas possuíam um sangue adocicado demais; ele estava enjoado. Cambaleou até um banco e a deitou ali. Ela usava uma fina blusa decotada e uma saia justa, ele sorriu sarcástico (tentando parecer mais velha?). Seus cabelos ruivos cacheados estavam despenteados. Uma última olhada naquele rosto de boneca-de-porcelana, deu meia volta e andou até seu carro. A garota ainda estava viva, mas dali meia hora, ou menos, o pequeno corpo não agüentaria.

Enquanto se aproximava do carro, ouviu um fino grito feminino vindo de onde havia largado a boneca. Deixou escapar um longo suspiro de “não acredito que uma mulher a encontrou”. Se saísse rápido dali, ela não o encontraria, então ele não teria que fingir preocupação, nem compaixão e nem teria que se obrigar a ser gentil. Seus longos dedos (agora, mais rosados que o normal) abriram a porta do veículo ignorando o desespero naquela voz.

A culpa era exclusivamente daquela mocinha, que não podia sair de casa. A chuva e todo o seu mau humor vieram por conseqüência. Alguns erros fazem as pessoas pagarem com a vida, isso acontece casualmente, ainda quando...

Oh! Você! Ei, você perto do carro! ~ e então, a mulher do grito o encontrou... Fye deixou escapar mais um longo suspiro.

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Não acredito que viemos parar nesse parque! O que você está pensando, Lucas? Eu tenho a cara de algum tipo de putinha? ~ ela abaixou o tom da voz ao falar o xingamento. Sentia-se tonta.

Pare com isso, meu bebê. Já faz mais de 7 dias que estamos nos encontrando. Qual o problema em virmos aqui?

O problema não é virmos aqui. O problema é saber o que esse parque significa, seu palhaço! ~ sentiu sua língua embolar dentro da boca ao pronunciar as palavras.

Você é mesmo daquelas recatadas? Quem não acredita sou eu. Não acredito que não dei ouvidos ao pessoal do escritório! E ainda por cima me dei ao trabalho de te levar para jantar!

Como se isso tivesse lhe custado algo, eu me lembro bem de ter repartido a conta com você!

Você ainda está reclamando? Por que não desce do carro e vai embora sozinha?

É isso mesmo que eu vou fazer ao invés de ter que ficar na sua presença. Seu tarado!

O ruído da porta batendo com força ecoou pelo parque e, logo depois veio o barulho do motor roncando cada vez mais distante. Ela estava nervosa. Pela primeira vez na vida deixara alguém levá-la para sair de carro e, quando menos esperou, fora levada para o último lugar na face da Terra que gostaria de ir. “Parque dos Amores” como era chamado aquele antro de prostituição generalizada. Apenas mulheres de baixo nível que se deixavam seduzir iam parar ali. Ela sempre ouvira boatos, relatos e algumas “experiências próprias”. Olhou ao seu redor. Até que parecia ser um bom lugar para se passear com a família, comer algodão doce e rir à toa. A confusão começava à noite, quando aqueles casais depravados resolviam aparecer; por falta de dinheiro ou pura safadeza.

Ela sabia que não deveria ter tomado aquele vinho. Nunca se dera bem com bebidas alcoólicas. Abriu a bolsa e deu uma olhada dentro: luvas, celular, carteira e um batom. Preferiu não abrir a carteira, sabia que se decepcionaria ao ver que gastara a maior parte do seu salário com aquele rapaz que não valia nem uma moeda de bronze amassada. Olhou para cima, para o céu nublado. “Chuva.”, pensou ao começar sua caminhada ainda observando as nuvens (andava com dificuldade por causa do álcool). Ventava forte, “ainda bem que saí de casaco” passou por sua mente.

Por que aquele tipo de situação sempre acontecia com ela? Sempre era deixada sozinha, não importava a companhia. Suas “amigas” reclamavam de sua constante sinceridade, os homens reclamavam de sua maneira recatada. O único amigo fiel era Paul, seu lindo e meigo rottweiler. Ela o havia encontrado numa lata de lixo, tão pequeno e brincalhão. Havia 1 ano que isso se passara, ele era tudo que ela tinha. Claro, não poderia se esquecer de Katia. Sua melhor amiga, conselheira, era com quem contava sempre que precisava de ajuda.

Fora deixada num orfanato quando completara 2 anos de vida. Não se lembrava dos pais, nem de onde morava... De nada. Apenas seu nome estava bordado no macacãozinho de algodão. Quando ficara mais velha, a freira que era responsável por ela lhe instruiu sobre uma generosa quantia que fora colocada nos fundos da igreja e que lhe pertencia. Aos 15 anos de idade, ela pôde sair do orfanato, comprar um apartamento e viver moderadamente bem. Conquistara um bom cargo na empresa que atualmente trabalhava e, constantemente, viajava a negócios.

Estava completa, apenas uma coisa lhe faltava na vida: amor. Nunca conhecera tal sentimento, pois nunca encontrara um homem que a fizesse senti-lo. Talvez, porque “fosse mesmo uma pedra, ou porque fosse mesmo uma freira e não se dera conta”. Era o que as suas amigas diziam (ou se eram realmente amigas).

Perambulou por algum tempo e percebeu que não havia ninguém ali. Começou a pensar que seria melhor se os casais estivessem passeando ou até mesmo fazendo obscenidades, pelo menos não se sentiria tão abandonada. Sentou-se em um banco de madeira. Suspirou fundo e levou as mãos ao rosto, sentiu-as ficarem úmidas das lágrimas que teimosamente saíam de seus olhos. Por que chorava? Sentiu que suas costas também estavam ficando molhadas e ouviu o ruído da chuva atingindo o parque.

Destampou a face e fitou o céu negro. Em uma questão de segundos, ela não mais sabia o que era lágrima ou chuva, apenas tinha consciência de sua própria solidão e tristeza. O que a levara a cogitar uma saída com aquele canalha? Ele não a merecia. Um sorriso vazio brotou em seus lábios. Não era por ele que chorava. Não era por nenhum outro que chorava. Chorava por aquele que ela nunca havia encontrado. Levantou-se como se fosse um zumbi e pôs-se a caminhar. Já era tarde para pegar um transporte público e não tinha dinheiro para o táxi. Talvez, se ligasse para Katia...

Sentindo-se desnorteada, de repente, um vislumbre de um farol de carro piscou ao longe. Afinal tinha mesmo um ser humano ali! Ela correu na direção do suposto carro. Correu em direção à sua possível carona. Com toda a sua pressa, acabou por tropeçar na rachadura do piso de concreto, sua mão começou a sangrar com o corte que se abrira. Ela fingiu não ver, não se daria ao trabalho de se preocupar com a mão naquele momento tão oportuno. Quando se coloca de pé, pronta para gritar por ajuda, se depara com um corpo. E, então, o grito é de pavor.

O corpo de uma criança (morta?). Imediatamente, verifica a pulsação. Estava viva! Com uma leve (quase inexistente) pulsação. Tinha que procurar socorro. Tinha que encontrar alguém. O carro! Ainda se sentindo bêbada, carregou a criança magrela no colo e correu vacilante na direção que anteriormente vira os faróis.

Um homem. Encheu os pulmões e gritou contra a chuva utilizando toda a força que ainda lhe restava:

Oh! Você! Ei, você perto do carro!