Fate
6 When the fear becomes reality
Notas iniciais
“O que é mais importante para você?”
Eram estas as palavras que ecoavam na mente de Lavi enquanto este tentava encontrar, de uma das enormes janelas da biblioteca da Ordem, o brilho de alguma estrela com os olhos tão opacos quanto o céu daquela noite nublada e chuvosa.
Aquela seria mais uma noite passada em claro terminando registros a pedido do Bookman. O barulho da chuva era a única coisa que ecoava por todo o quartel general. Mas não para Lavi. O cair de cada gota era abafado por um ruído muito maior, mas que parecia só ser ouvido pelo ruivo.
E, com os ouvidos preenchidos por tal barulho, ele não pôde ouvir os passos de alguém adentrando aquele ambiente onde somente ele se encontrava. Contudo, logo viu uma silhueta conhecida e virou-se tomado por um impulso que já conhecia bem.
— Yo... – Ele disse à chinesa que parecia não ter notado sua presença no local.
— Ah, Lavi! – Lenalee tentou disfarçar o nervosismo que sentiu ao vê-lo — O que está fazendo acordado? Já é quase meia noite...
— O velho me mandou terminar uns registros para amanhã... E você? Veio me ver? – Ele brincou.
A garota corou bruscamente, assustando o rapaz que esperava por um soco ou uma resposta irritada. Lembrando-se do beijo que recebera dele no início do dia, ela logo virou o rosto para o lado oposto ao que o outro estava, consciente de que sua reação havia ocasionado um mal entendido, fazendo Lavi pensar que ela estava realmente procurando por ele.
— N-Não... – Ela disse com a voz trêmula, arrependo-se posteriormente de ter respondido aquela pergunta que na verdade não passava de uma brincadeira e que em circunstâncias normais não teria sido respondida – Eu... Só vim buscar alguns livros que o Johnny me pediu... – Ela falou justificando sua presença no local.
— Ah... – Ele levou uma das mãos ao cabelo, bagunçando-o e tentando esquecer a expressão que acabara de ver — ... Quer dizer que ele fica usando os outros para vir até a biblioteca buscar o que ele precisa. – Lavi concluiu.
— Não... Na verdade fui eu quem ofereceu ajuda. – Ela disse se arrependendo mais uma vez de ter falado aquilo após perceber que o semblante do outro mudara novamente e já imaginando que ele havia concluído que ela havia oferecido ajuda como uma desculpa para vê-lo – É porque quando fui levar café para o pessoal da divisão de ciências ele me pareceu mais cansado que o normal...
— Ahn... – O rapaz respondeu deixando transparecer claramente que havia pensado exatamente o que Lenalee temia – Deixa que eu te ajudo a procurar pelos livros – Ele terminou a fala se levantando.
— Não tem problema, eu posso procurar sozinha... – Ela recusou tentando não deixar mais coisas se tornarem mal entendidos – Vai te dar trabalho e você tem coisas para fazer...
— Tudo bem, eu já tava cansado de ficar sentado. Quais livros você precisa?
Ela ficou um pouco indecisa, mas logo tirou do bolso uma lista com os títulos de que precisava e a entregou a Lavi.
— Estes daqui estão mais no fundo da biblioteca – Ele disse já começando a andar.
A garota apenas o seguiu em silêncio e sentindo a tensão aumentar a cada passo dado. O rapaz, que se esforçava para não olhar para trás e acabar cometendo mais um ato impensado, sentia-se incomodado com o fato de estar caminhando em direção a um local onde nem mesmo o barulho da chuva alcançava direito.
— Acredito que esteja por aqui – Ele disse puxando a escada que deslizava entre as enormes estantes abarrotadas de livros.
— Nossa... Acho que de todos os anos que estive na Ordem jamais cheguei a passar por aqui... – Ela comentou olhando para o alto com certo fascínio.
— Acho que quase ninguém vem aqui... – Lavi comentou entre risos.
— Mas você parece conhecer bem este lugar... – Ela falou como se confessasse a surpresa em ver a rapidez com a qual o rapaz achou os livros que ela precisava.
— É porque eu passo muito tempo aqui... – Ele disse descendo com dois livros enormes – Se não fosse por isso eu provavelmente não teria me esforçado para conhecer bem este local... No dia que eu deixasse a Ordem seria um conhecimento inútil... – Ele falou deixando escapar o último comentário.
Lavi virou-se rapidamente para tentar consertar o que havia falado, mas já era tarde. O olhar de Lenalee deixava transparecer a confusão dentro de sua mente.
— Você vai deixar a Ordem? – Ela perguntou se esforçando para fazer-se ouvir com a voz quase sumindo – Quando? – A chinesa soltou após não obter a resposta da primeira indagação.
— ... Não sei – Ele respondeu começando a andar.
— Desde quando sabe que um dia teria que ir embora? – Lenalee insistiu angustiada.
— Desde muito antes de chegar aqui. – E ele sentiu uma pontada onde deveria estar seu coração.
— Por que um dia terá que partir?
Mas desta vez ele já havia resolvido não dizer mais nada. Apenas continuou a andar sem olhar para trás ou hesitar.
— Se você não me explicar eu nunca vou compreender! – Ela falou num tom mais alto, quase gritando.
Lavi logo parou de andar ao lembrar-se da promessa que fizera a Mia. Tentou dar um passo a frente, mas não conseguiu. Se tentasse continuar em frente a voz da britânica parecia fazê-lo parar. Mas ao resolver encarar a garota que agora esperava por uma resposta atrás dele, sentia como se o ruído que perturbava seus ouvidos se tornasse cada vez mais alto.
— Um dia o velho vai dizer que nós vamos partir. Vai me mandar trocar de identidade para que eu possa continuar minha jornada como Bookman e dessa forma conservar apenas as memórias dos fatos desta guerra. – “Eu serei obrigado a me esquecer de você” ele completou em pensamento.
— Por... que...?
Doía. Mas agora ele já havia decidido continuar. Não era mais a promessa que estava em jogo, e sim uma vontade que há muito tempo crescia e agora parecia não parar mais. Um desejo que parecia se acalmar enquanto ele revelava a verdade para a chinesa, mas que parecia fazer a outra parte dele desaparecer; e o ruído novamente voltou a aumentar.
— Porque foi isso que eu decidi fazer a muito tempo atrás. Os seres humanos são uma espécie completamente estúpida que só sabe guerrear. Viver para registrar a história oculta do mundo. Saber de coisas que ninguém mais sabe. Para mim era só isso o que importava.
“Era só isso o que importava” ela escutou novamente ecoando dentro dela e a fazendo sentir calafrios resultantes de um sentimento que ela ainda não compreendia. Algo que mais tarde ela chamaria de “medo”.
— Mas... De repente, eu encontrei pessoas que não me deixava enojado... Que faziam sorrir inconscientemente, antes mesmo de me lembrar fingir fazê-lo. Que me deixavam abalado com a notícia de que poderiam ter falecido durante a guerra, mesmo sendo eu a pessoa que mais estava consciente de que isto acontece naturalmente no campo de batalha... E de repente eu me deparei com uma pessoa em especial que me fazia perder de vista tudo o que já havia sido decidido. Uma pessoa que me fazia sentir algo maior do que eu deveria e me fazia agir de uma forma tão estranha que muitas vezes nem mesmo eu reconhecia como sendo um ato meu...
— Como sussurrar algo para esse alguém especial? – Lenalee perguntou baixando o olhar e lembrando-se do que Lavi havia dito à Mia.
Com passos rápidos, ele aproximou-se da chinesa e apoiou uma das mãos na prateleira que se encontrava logo atrás dela, raspando os dedos no braço da outra e fazendo-a recuar por já ter vivido uma cena semelhante, só que num corredor.
— É... – Ele respondeu sério fitando os olhos dela – “Sussurrar algo” para um indivíduo após ver esse “alguém especial” com outra pessoa no meio da noite é um bom exemplo de agir de forma estranha... – Ele terminou com uma voz irônica ao utilizar as mesmas palavras da pergunta dela para respondê-la.
O rosto, porém, o denunciava por estar levemente rubro. Em pensamento, a garota logo completou aquela frase com a primeira palavra que lhe pareceu se encaixar ali: ciúmes. E ela logo teve certeza de que Lavi deixara bem claro o que queria transmitir, mas não escutaria aquelas palavras saírem da boca dele tão cedo. O que havia acontecido ali era algo que nem mesmo Mia tinha conhecimento: o ruivo aproveitara da situação em que a britânica tentava se comunicar com ele para fazer ciúmes à chinesa, que havia estado com Allen na noite anterior e o fizera sentir da mesma forma.
Lenalee sentiu o rosto se aquecer, seguido dos lábios que foram tomados pelo rapaz que percebera que havia sido compreendido. Mas nesta ocasião não se limitou somente a um toque como da primeira vez. Era diferente, mais intenso, fazia cada respiração parecer a última e cada movimento ser único. A morena, que num primeiro momento tentou escapar daquele movimento, deixou-se levar pelo desejo de um segundo beijo durante alguns segundos antes de empurrar o corpo de Lavi com as mãos e separar-se dele.
— Para com isso. – Ela pediu virando o rosto.
Ele a fitou com um olhar de não compreensão, como se perguntasse o motivo daquele ato de repulsão.
— Você fala como se tivesse que se esquecer de todos quando partir... – Ela hesitou um pouco antes de continuar. Respirou fundo, envergonhada, mas decidida e soltou o final da frase — ... Mas você não se esqueceu da Mia não é?
— Ah, ela te contou sobre isso? – Ele perguntou um pouco surpreso – O que exatamente ela te falou?
— N-Nada de mais... – A morena respondeu sem jeito se arrependendo um pouco por ter feito aquela pergunta — ...Apenas que vocês se conheceram quando crianças e que você apareceu e sumiu do nada com o Bookman enquanto a vila em que ela morava estava em guerra.
— “Que idiotice. Guerrear é a única coisa que sabem fazer? Chega a dar pena”.
A chinesa virou-se para Lavi recordando-se que já ouvira esta frase anteriormente. O rapaz escorou-se à uma das prateleiras e deslizou até sentar-se no chão, colocando os livros pesados que carregava ao seu lado.
— Eu disse isso durante enterro de vários homens. E uma garota estranha veio tirar satisfações comigo e não parou de falar até eu pedir desculpas. Disse que eu não compreendia a dor que todos sentiam naquele momento e que não guerreavam só porque queriam... Depois que eu me desculpei, o velho disse que teríamos que partir... — O ruivo fitava o nada e o olhar parecia sem vida, como se ele tivesse deixado o corpo no presente e viajado até o passado – Naquele dia eu não consegui fazer a ligação de todos os fatos... Mas hoje eu acredito que consigo compreender melhor. A presença de uma pessoa que me fazia compreender os sentimentos dela e me convencia a pedir desculpas seria uma grande ameaça para o futuro daquele Bookman Junior... Acho que eu devo ter sentido uma pequena ponta daquilo que explodiu quando cheguei aqui... Deve ser por isso que não me esqueci daquele encontro.
— Provavelmente teria se apaixonado por ela se tivesse continuado por lá... – Lenalee concluiu inquieta por dentro e agachando-se ao lado de Lavi.
— Isto é ciúme? – ele perguntou rindo.
— Você sabe que é verdade. – Ela continuou ignorando-o.
Ele riu novamente. Após passar um dos braços sobre o ombro da morena, o rapaz puxou-a para si e encostou os lábios levemente nos dela.
— Boba. Eu não me apaixonaria por nenhuma outra pessoa que não fosse você. – Ele disse com o rosto ainda muito próximo ao dela.
— Está querendo dizer que era o destino?
— Eu não acredito nisso... – Ele afirmou convicto – Não mais. – E beijou-a novamente, desta vez sentindo as mãos da outra sobre seu corpo.
Lavi escutou novamente um ruído. Mas desta vez parecia estar diferente. Ao virar para trás, a imagem que viu o fez congelar por dentro e no fundo ele se perguntou se aquela sensação havia alcançado também aquele coração “manchado de tinta”.
O aprendiz havia sido pego pelo seu mestre.
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O que aconteceu em seguida foi tão rápido que ninguém da Ordem Negra soube ao certo explicar o que fizera o Bookman tomar tal decisão, exceto Lavi e Lenalee. Naquela mesma noite, o mais velho mandou que o aprendiz arrumasse suas coisas e os dois partiram sem deixar vestígios.
“O que é mais importante para você?”
O rapaz olhou pela última vez para aquela enorme construção onde passara os últimos dois anos como “Lavi”. E a frase que até aquele instante não deixava seus pensamentos foi substituída por outra. A mesma frase que ele deixou escrita sobre a mesa da exorcista chinesa.
“Eu não me esquecerei de você”
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