Fate
3 Tears in a cold night
Notas iniciais
-... Por favor, me responda a verdade!
-... Foi mal... Mas eu sou a pessoa errada...
Mia sentia o corpo fraco. Nos primeiros segundos, não conseguiu pensar em nada. Lágrimas começaram a se escorrer de seus olhos, que refletiam a dor de suas esperanças despedaçadas.
Lavi, por sua vez, sentindo-se culpado, tentou ampará-la. Porém, ao se aproximar da garota, começou a se lembrar de Lenalee, que havia sido deixada naquele corredor com uma expressão muito parecida, fazendo o corpo dele parar de se movimentar. Ele começou a se arrepender por tê-la deixado sozinha. Contudo, naquele momento de nervosismo, esquivar-se da pergunta da chinesa foi a única forma encontrada para não acabar com todo o caminho que havia trilhado após tantos anos.
- Me desculpe... – Ele pediu.
-... Você não tem que se desculpar de nada... Fui eu quem acreditou nisso por mim mesma... – Ela tentava falar entre soluços – Desculpa...
O rapaz foi se sentindo cada vez pior. Ele tinha consciência, antes mesmo de responder, de que suas palavras iriam machucar Mia... E de que, no entanto, eram uma mentira.
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“Que criança problemática... De modo algum poderia escapar da Ordem... Agora... Venha... Venha!”
Lenalee acordou com os olhos em lágrimas e a respiração ofegante. Havia tido um pesadelo com aquela frase que escutara tantas vezes no passado, nas incontáveis tentativas de escapar da Ordem. E apesar do tormento que aquelas palavras traziam, já fazia algum tempo que a chinesa havia se esquecido completamente delas.
“Um exorcista existe para lutar”
Aquele sonho, formado por lembranças dolorosas, era como um aviso do destino para que a garota jamais se esquecesse de que antes de qualquer coisa, ela era uma exorcista... E uma pecadora.
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Uma missão: Ir até a Londres, que havia se tornado foco de mortes por akumas, e descobrir o que estava causando tantos aparecimentos indesejáveis. Inicialmente, apenas Lenalee e Allen seriam mandados. Porém, devido a algumas suspeitas do Bookman, este e Lavi foram incluídos na equipe, assim como Mia, que iria guiar todos em seu país natal.
Dentro do trem que os levaria até a Inglaterra, a britânica, com seu carisma e animação, aliviava o clima tenso que se formava. O ruivo não desviava os olhos da chinesa, que sentia o olhar dele e mesmo nervosa, fingia não perceber. O de cabelos grisalhos permaneceu a viagem toda em silêncio, apenas observando os companheiros, enquanto o mais velho limitou-se a ler alguns jornais que comprara na estação antes de embarcar.
À noite, o trem chegou a seu destino e os exorcistas caminharam até o hotel reservado a eles pela Ordem para passarem a noite. O lugar onde ficariam hospedados tirava o fôlego do grupo todo: Uma recepção impecável, corredores que lembravam o de um palácio, quartos luxuosos e elevadores com enormes vidros que permitiam uma deslumbrante vista da cidade.
- Heeh... Se for assim, eu quero vir mais vezes para Londres... – Dizia Lenalee encantada.
- Isso é muito estranho... A Ordem nunca foi de reservar locais tão luxuosos como esse... – Desconfiava o Bookman.
- Ah, esquece isso coroa... – Falava Lavi exausto e querendo descansar logo.
No andar mais alto do prédio, as garotas se despediram dos outros e seguiram para seu quarto. Após o banho, a chinesa sentou-se na cama ainda muito perturbada com tudo o que havia acontecido no dia anterior. Ela não conseguia mais pensar no ruivo sem sentir o rosto ficar quente e se culpava por isso.
Ao escutar a porta do banheiro se abrir, a morena virou para trás e viu a companheira de quarto com um pijama que deixava à mostra várias ataduras pelo corpo, mas que permaneciam a maior parte do tempo escondidas pelo uniforme da Ordem Negra.
- M-mia? O que aconteceu? – Perguntou Lenalee assustada.
- Ah... – Ela correu para perto da outra e baixou o tom de voz – Isso são só alguns ferimentos que ainda não cicatrizaram... Por favor, não conte para ninguém...
- Foi o Noah que atacou você, o Lavi e o Bookman?
- Não... Os dois me protegeram daquela vez... Esses ferimentos são de antes... Quando eu ainda não tinha encontrado eles...
- Antes? Quer dizer que-...
- Não precisa se preocupar com isso está bem? – A britânica deu um sorriso melancólico.
- Me desculpe...
- Lenalee... Você conhece o Lavi há muito tempo não é? – Perguntou a mais velha olhando para o nada.
A chinesa sentiu a pele arrepiar-se ao ouvir o nome do rapaz.
- Mais ou menos... Deve fazer uns dois anos...
- E você nunca sentiu nada por ele?
- ... N... Não... – Ela respondeu depois de hesitar um pouco – P-por que?
- É que... Ele parece ser uma pessoa atenciosa...
- Sim, ele realmente é...
-... Deve ter sido por isso que eu me surpreendi tanto com o que ele sussurrou daquela vez...
- E-ele disse algo rude para você? – Perguntou a morena apenas para ver o que a outra respondia.
- Não... Na verdade, fui eu quem agiu errado naquela vez...
Lenalee ia ficando cada vez mais nervosa. Até que Mia finalmente revelou o que havia acontecido naquela manhã.
- Eu... Tinha uma coisa que precisava falar com o Lavi desde a primeira vez que nos vimos... Mas durante a missão em que nos encontramos ele pediu que eu não dissesse nada na frente do avô... E depois que chegamos à Ordem Negra, as pessoas iam se aglomerando à nossa volta e eu não conseguia tocar no assunto... Então escrevi um bilhete pedindo para ele me encontrar num lugar menos movimentado e tentei colocá-lo nas mãos dele.
De repente, a moça de cabelos rosados ficou com o rosto vermelho e terminou sua fala.
- Mas antes de conseguir entregar ao Lavi, ele virou em minha direção e sussurrou: “se você continuar tentando fazer isso vai acabar me provocando”. E-eu acho que ele interpretou mal o fato de eu estar tentando alcançar as mãos dele...
- Ele só falou isso de brincadeira... – Disse a chinesa dando risada.
- Eu sei! Mas ainda assim fiquei surpresa com aquilo...! – Explicava a outra com vergonha.
Lenalee ria da expressão feita pela companheira, ainda que não fizesse o mesmo internamente.
- Obrigada... – Mia falou com um sorriso sincero.
- Hm? Pelo que?
- Por ter me escutado... Sabe... Eu queria falar isso com alguém, mas não sabia para quem contar... Muito obrigada...!
Perturbada as palavras de Mia, que agora dormia, a morena levantou-se e caminhou até o elevador. E, ao abrirem-se as portas, a exorcista percebeu que havia mais alguém no local.
- Lenalee?
- Allen! O que está fazendo acordado?
- É que desde que chegamos não comemos nada, então desci para procurar comida...
- Ah... – Disse ela lembrando-se que tal comportamento era muito característico do amigo.
- E você, o que ia fazer?
- Eu... Só queria tomar um ar... Por que não estava conseguindo pegar no sono...
- Se importa se eu te acompanhar?
- N-não, de forma alguma...
Os dois desceram. E, quando o elevador encontrava-se ainda na metade do percurso até o térreo, as luzes daquele pequeno ambiente se apagaram e o ascensor parou.
- O que aconteceu? – Perguntou Lenalee.
- A luz se foi... – Concluiu Allen – E pelo jeito foi só aqui...
Dos enormes vidros que cercavam aquele espaço, era possível ver a chuva caindo sobre a cidade cuja iluminação ignorava a escuridão da noite. E até mesmo o brilho da lua cheia, que um dia cintilou solitariamente nas noites sombrias, encontrava-se agora ofuscada pelas luzes que se estavam abaixo dela.
- Deve ser por causa da chuva. – Falou a garota.
- Pelo jeito vamos ter que esperar... – Disse o outro se agachando num canto.
A chinesa sentou-se também e aguardou o tempo passar. A temperatura caía cada vez mais e o silêncio que até então preenchia o local foi quebrado por Allen.
- Aconteceu alguma coisa?
- Hã? – Surpreendeu-se ela com a pergunta.
- É que você me pareceu preocupada na hora nos encontramos...
O mais novo olhou para a amiga que não havia respondido nada. Depois de um longo suspiro e, ainda com o olhar desviado para as luzes da cidade que refletiam sobre as vidraças, ela começou a falar.
- Allen-kun... Você também possui feridas que parecem não ter cura...?
O garoto permaneceu quieto, apenas refletindo sobre a fala dela.
- ... Feridas que nunca saram – continuou Lenalee — mas ficam, entretanto, escondidas sob o casaco da Ordem, longe dos olhares alheios?
O de cabelos grisalhos voltou o olhar para o chão e deixou escapar dos lábios um sorriso triste.
- ... Eu acredito que provavelmente todos nós, que carregamos esse casaco, possuímos algumas dessas feridas... – Ele comentou compreendendo o real sentido das palavras dela.
- ... Eu... Sabia que nunca tive chance alguma de fugir daquele lugar... — Falava a morena chorando — Eu também sabia que estava apenas o prendendo... Tinha consciência de que, na verdade, eu havia aprisionado meu próprio irmão naquela organização... Mas então por quê? Por que a minha felicidade ao vê-lo foi tão maior do que a minha noção de culpa? E por que mesmo agora eu não consigo deixar que esses sentimentos tão egoístas tomem conta de mim?
Allen olhou aquelas lágrimas e, com uma terna fisionomia, a abraçou.
Os primeiros raios de Sol invadiram aquele elevador. E os corpos daqueles dois jovens feridos amanheceram sentados lado a lado, com as mãos unidas inconscientemente, para que nenhum deles cedesse ao frio.
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Após o café da manhã, os exorcistas começaram suas buscas. E pela primeira vez, durante um confronto contra akumas, Mia mostrava a sua arma e o poder de sua innocence: uma enorme foice que parecia dançar nas mãos de sua compatível.
- Qual é? Esses akumas são infinitos? – Gritava Lavi.
- Ei! Aconteceu alguma coisa com a Mia! Ela está caída no chão! – Falou Bookman.
Todos correram até ela e ao levantarem seu corpo do chão, perceberam que este sangrava muito. A capa que carregava a cruz do rosário, agora aberta, deixava a mostra várias gazes e membros enfaixados.
- Ela foi atingida por algum ataque do inimigo? – Perguntou Allen.
- Não... Ela caiu sozinha de repente. – Confirmou o mais velho.
Longe da atenção dos companheiros, Lavi culpava-se profundamente e ao mesmo tempo, havia tomado uma decisão.
De volta ao hotel, a moça debilitada foi colocada na cama e a chinesa tratou de cuidar dos primeiros socorros. Ao entardecer, o grupo encontrava-se exausto e Allen sugeriu que fossem jantar cedo para descansarem.
- Ei, Lavi. Você não vem? – Perguntou o amigo mais novo.
- Vão indo na frente. – Respondeu o ruivo – Eu vou tomar um banho e já alcanço vocês.
O rapaz fechou a porta do quarto e esperou que o elevador descesse. E, logo em seguida, rumou até o quarto onde a britânica encontrava-se repousando.
- Mia... Está acordada? – Ele perguntou.
Silêncio. Alguns segundos depois, passos se aproximaram da entrada e a porta se abriu. Os olhos da garota o fitaram com um misto de susto e curiosidade e por fim, ela deixou que o outro entrasse.
- Aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou sentando na cama.
Ele cerrou os punhos. Estava nervoso. Mas havia decidido continuar o que havia determinado para si mesmo.
- No dia... Que você me perguntou aquilo... Me desculpe... Eu menti...
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Na manhã seguinte, o grupo descobriu, através de uma ligação de Komui, que haviam se hospedado no hotel errado: aquele em que haviam ficado havia sido reservado por ninguém menos que o general Cross, que no final nem chegou a aparecer no local. Este era também o motivo pelo qual tantos akumas foram mandados àquela cidade.
Revoltados após tomarem conhecimento destes fatos, os exorcistas, que só não sentiram que a viagem havia sido completamente em vão por que acabaram usufruindo dos caprichos do general, resolveram de forma unânime que voltariam para a Ordem naquele mesmo dia.
- O que ele tem na cabeça para reservar um andar inteiro só para si? – Perguntava Lavi com raiva.
- Isso é bem típico do mestre... – Comentou Allen.
- Devem ter nos confundido por causa do uniforme com a cruz do rosário... – presumiu Lenalee.
- Vamos embora logo! – Falava o Bookman com ira.
- Pessoal... A estação é para lá... – Lembrava Mia vendo os companheiros indo para o lado contrário, cegos de ódio.
Já no local onde pegariam o trem, o Bookman puxou Lavi para um canto pela orelha para que o resto da equipe não os ouvisse.
- Ai, ai... Qual é o lance desta vez coroa?
- O que foi aquela expressão sua quando vimos que aquela garota estava machucada? – Repreendeu o mais velho.
O ruivo perdeu a fala e sentiu como se até a respiração tivesse parado por alguns instantes.
- Quantas vezes já lhe disse? Nós bookmen devemos, acima de tudo e de todos, viver fora do esquadro do mundo a fim de registrar a história oculta do mundo. Apenas isso!
Aquela frase, dita desde o dia em que aquele rapaz resolveu trilhar tal caminho e que fora assimilada com indiferença no passado, há algum tempo pesava na consciência dele. Era como se cada vez que ele se aproximava tanto de Mia quanto de Lenalee, uma parte de si o repreendesse através das palavras do avô enquanto a outra questionasse a liberdade que tanto almejava.
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O trem já se encontrava perto da estação mais próxima a Ordem. Num pequeno espaço do lado de fora do último vagão, Lenalee observava o céu estrelado enquanto sentia a brisa da noite bagunçar seus cabelos junto de seus pensamentos. Com um vestido fino e sem o uniforme da Ordem, ela sentia como se, mesmo que simbolicamente, um peso tivesse sido tirado de seus ombros, ainda que momentaneamente. Subitamente, Lavi apareceu atrás dela com passos hesitantes, assustando a moça.
- Yo... – Ele disse sem jeito.
- Oi...- Ela respondeu da mesma forma.
- Viu... M-me desculpe por aquele dia... Eu não devia ter falado aquilo...
- Tudo bem...
- Eu... Posso ficar aqui com você?
- Claro... – Ela abriu um pequeno sorriso – Está tudo bem? – A morena perguntou após perceber a estranha expressão do ruivo.
- Tá... Eu só estava me sentindo meio sufocado naquela cabine e vim tomar um ar...
O rapaz debruçou-se sobre as grades que delimitava o minúsculo local em que se encontravam. Com o olhar para o alto, a chinesa fingia não estar prestando atenção nele. A verdade era que a garota ainda se sentia nervosa só com a presença do ruivo e cada movimento dele fazia ela se lembrar da pergunta que Lavi havia feito e que quase a fizera perder os sentidos e da conversa que tivera com Mia.
- Não está com frio? — Ele perguntou vendo a leve vestimenta em que a moça se encontrava.
- Eu já vou entrar...
Ele suspirou e tirou a blusa que vestia, jogando sobre os ombros da garota.
- Lavi, não precis-... – Ela começou.
- Tudo bem, pode ficar – Ele respondeu cortando a fala dela.
- Obrigada, mas realmente não precisa... – A moça repetiu tirando a peça de roupa de si.
Ainda que estivesse feliz com aquele ato, Lenalee, vestindo aquela blusa que ficara enorme em seu corpo, sentia como estivesse sendo abraçada por Lavi e isso a fazia quase enlouquecer e ficar ainda mais confusa após tantos acontecimentos. Era como se o cheiro do outro se misturasse ao dela e preenchesse seu corpo inteiro, como uma fragrância enfeitiçada.
Ao estender o braço para devolver o casaco, o rapaz a parou e segurou a mão dela.
- Vista isto. Eu não estou com frio – Ele falou.
- Suas mãos estão geladas...
- Minhas mãos sempre foram frias... – O ruivo justificou com indiferença.
-... Dizem que pessoas com mãos frias possuem um coração quente...
Lavi olhou-a assustado. Além de ouvir uma resposta inesperada, ainda recebeu, logo em seguida, um sorriso que conhecia muito bem. E, ao mesmo tempo em que agradecia pelas palavras de Lenalee, também as via como uma ironia em sua vida.
- Um bookman... Não precisa de coração... – Ele disse segurando algumas lágrimas que teimavam em se formar.
A moça deu um sorriso amargo de compreensão.
- Às vezes... Eu sinto como se um exorcista também não precisasse de um... – Ela disse sentindo o coração explodir em tristeza.
Aquelas palavras assustadoras e tristes eram, no entanto, uma verdade que aqueles dois guardavam com sofrimento. Uma dor que ambos compartilhavam por possuírem desejos aparentemente impossíveis de se tornarem realidade e por sentirem o peso do destino que cruelmente carregavam consigo.
Mas ainda assim...
“... Ainda que eu esteja ciente de tudo... Não me arrependo...”
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