Fate
1 My feelings for you
Notas iniciais
Incontáveis gotículas de chuva se quebravam contra os vidros das janelas da Ordem Negra há quatro dias. O cheiro de chuva estava impregnado no ar, o vento gélido encontrava passagem através de frestas antigas e uma sensação melancólica era trazida naturalmente por aquele clima.
Em seu quarto, Lenalee olhava a tempestade enquanto suspirava longamente diversas vezes. Com o olhar sem brilho, que se encontrava parado nas finas linhas d`água que escorriam pelo vidro, ela podia sentir seus sentimentos se despedaçando como cada gota de chuva ao se estilhaçar sobre o chão frio. Já fazia mais de uma semana que uma tropa de exorcistas e finders saíra em missão.
Dentro daquele cômodo silencioso, os pensamentos da chinesa iam para longe dali. Faziam-na lembrar de quando começara a sentir algo diferente por um de seus amigos; um sentimento que começara sem avisos e que a fazia ver as situações do dia-a-dia ao lado dele algo que subitamente passava a ter um significado especial.
De repente, Lenalee percebeu algo se movimentando do lado de fora da janela. Rapidamente, ela se esforçou para conseguir ver melhor do que se tratava. Em meio ao lodo, a chinesa pôde enxergar três vultos encapuzados caminhando em direção à Ordem. Dois deles ela reconheceu rapidamente e, ignorando o terceiro, desceu as escadas o mais rápido que possível, indo ao encontro deles.
– Lavi! Bookman!
– Yo, Lenalee! – Respondeu o ruivo carismático, porém visivelmente exausto. – Há quanto tempo...
Logo em seguida, Allen também apareceu no local. E, logo atrás dele, um grupo de enfermeiras também. Lenalee rapidamente correu para ajudar Lavi, que já estava sentado no chão sem fôlego. Porém, ao se agachar para ajudar o ruivo, este a parou com as mãos e, com um olhar que misturava preocupação e angústia, fez um último pedido antes de desmaiar.
– Ajude aquela pessoa, por favor... – E apontou para o terceiro indivíduo que chegara com ele e o Bookman.
– Lavi! – Gritou ela.
O rapaz estava agora desmaiado nos braços dela. A pessoa que havia chegado com seus dois conhecidos também estava caída num canto, sendo amparada por duas enfermeiras. E, num movimento sutil de uma delas, o capuz que lhe cobria a cabeça e tampava boa parte do rosto daquele indivíduo deslizou pelas longas mechas ruivas e deixou exposta a face feminina delicada.
– Quem é ela? – Perguntou Lenalee, um pouco assustada pelo estado em que se encontrava.
– Ela se chama Mia. É a compatível da Innocence que encontramos no meio da missão. – Respondeu Bookman visivelmente esgotado também.
Depois de alguns segundos de surpresa, Allen tratou de levar a moça até a enfermaria, e Lenalee, com a ajuda de algumas enfermeiras, levou Lavi até os aposentos dele. O Bookman, mesmo cansado, dispensou ajuda e dirigiu-se à sala de Komui.
– É realmente difícil garantir que esses dois estejam sempre afastados, ainda mais agora que serão dois exorcistas. – Explicou o supervisor após ter ouvido um longo registro do Bookman.
O mais velho deixou novamente transparecer sua preocupação.
– Aquele moleque ainda é imaturo demais. — E, por fim, suspirou pesadamente, temendo o pior.
X
Silêncio. Escuro. Lavi acordou no meio da madrugada sentindo o corpo dolorido e a cabeça latejando. Ao seu lado, sentada numa cadeira, ele pôde ver, com a ajuda da pouca luz que vinha de fora, pela janela, Lenalee debruçada na beirada da cama. Percorreu o quarto com os olhos e, não encontrando o “avô”, perguntou-se aonde ele poderia estar.
Subitamente, o corpo da chinesa se moveu, cortando os pensamentos do rapaz.
– Lavi... Que bom, você acordou. Como está se sentindo? – Perguntou ela num tom baixo, quase sussurrado.
– Estou um pouco dolorido ainda... – Respondeu ele no mesmo tom. – Você... Ficou aqui...?
– Ah... É... – Respondeu a garota envergonhada. – Ah! – Exclamou ela ao se lembrar de algo que pudesse mudar o assunto daquela conversa. – O que aconteceu na missão? Você... – E, de repente, ela parou de falar tentando escolher melhor as palavras que ia proferir – Todos vocês estavam muito machucados... – Terminou ela, enquanto fixava o olhar na região do tórax do ruivo, que estava envolvido por várias ataduras.
– Acabamos nos deparando com um Noah na volta. – Respondeu ele, desviando os olhos dos de Lenalee, como se quisesse evitar que ela percebesse que ele estava omitindo algo.
Agora estava claro para a moça o motivo das feridas enormes espalhadas pelo corpo dele. E a dor de não ter podido fazer nada para ajudá-lo nem naquela hora – e nem agora – a fazia sentir uma certa angústia, que nem mesmo ela compreendia bem.
– Aquela garota que chegou comigo... – Começou ele.
– Mia...?
– Ah. Então o velho já comentou sobre ela...
– Sim...
– Ah... E... Ela está bem?
– Ela estava muito ferida, mas o Allen a ajudou. Agora ela está descansando.
Lavi soltou um suspiro de alívio que incomodou a morena.
– Bom, eu já vou indo então... – Falou Lenalee, enquanto levantava e tentava por um ponto final naquela conversa cheia de reticências.
Naquele momento, no entanto, Lavi escutou o barulho de passos e uma voz que rapidamente identificou ser de Komui, que passava pelo corredor. Numa fração de segundos, o ruivo puxou a garota, que já estava de pé, em sua direção, e ela, perdendo o equilíbrio por causa do movimento súbito, caiu em cima do rapaz.
Apesar da situação constrangedora em que se encontravam, ambos permaneceram em silêncio até que os passos do supervisor não pudessem mais ser ouvidos. Durante esse tempo, ela sentiu a respiração ofegante e quente que provinha dele contra a sua nuca que estava, assim como o resto do corpo, fria por culpa da tensão.
Ao sair de cima de Lavi, no entanto, a garota percebeu que a ferida dele havia se aberto novamente e sangrava muito.
– Me desculpe por ter te puxado daquele jeito... É que se o seu irmão visse você saindo do meu quarto no meio da madrugada... Ia sobrar para mim... – Ele tentava explicar com uma expressão de dor no rosto.
– Para! Você não tem que se desculpar de nada! Sou eu quem deve desculpas por ter aberto os seus ferimentos! – A outra dizia desesperada, ao ver todos aqueles ferimentos novamente abertos.
O rapaz se assustou ao ver a expressão que a mais nova tinha no rosto. Para ele, o futuro Bookman, ver uma pessoa sofrer tanto pela dor da outra era quase incompreensível. Mas, ainda que fosse muito pouco – e ainda que fosse algo proibido –, ele tentava compreender. Quando Lavi voltou a si, percebeu que inconscientemente estendera uma das mãos até o rosto de garota, que tinha agora algumas lágrimas se formando no canto dos olhos.
– Me desculpe... – Pediu ela limpando as lágrimas antes que o outro o fizesse – Eu posso refazer os curativos para você.
– T-Tudo bem, então. – Respondeu ele ainda um pouco assustado com as suas próprias ações.
Sentados à beira da cama, frente a frente, ela estancou o sangue e passava uma faixa pelo tórax do outro, que sentia sua sanidade se esvaindo a cada toque delicado das mãos dela em seu corpo. Já a moça, hipnotizada com o físico do rapaz, fazia com que cada movimento seu fosse o mais lento possível para que o momento durasse ao máximo.
– Prontinho. Está feito. – Lenalee dizia com um sorriso no rosto, mas no fundo desejando que seu trabalho ainda não tivesse acabado.
– Obrigado, Lenalee – Respondeu Lavi, que havia se torturado durante todo o tempo para controlar seus impulsos desprovidos de razão.
– Acho melhor eu ir agora, antes que meu irmão resolva passear de novo por aí... – Ela brincou.
– Haha. – Resmungou ele nervoso só de imaginar a situação. – Nem me fale... – Completou suando frio.
– Até mais!
– Boa noite, Lenalee.
– Boa noite, Lavi.
O ruivo fechou a porta e, encostado nesta, pensava em tudo que havia acontecido naquela noite. Do lado de fora do quarto, a chinesa fazia o mesmo. E, por um instante, ambos puderam sentir o calor dos dois corpos que, mesmo separados por uma espessa peça de ferro, ainda desejavam estar juntos.
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