Fascínio
32 Coragem e Ação
Notas iniciais
Naquela manhã havia acontecido algo terrível. As pessoas sussurravam com medo de que falar de tragédia tão grande fosse atrair maus agouros. A filha do senhor Foster seria velada naquela tarde, e a sobrinha do pobre homem, Katharine Chevalier, havia desaparecido. A família a procurava loucamente. Não estava em canto algum. Alicia temia que a irmã estivesse entre as pilhas de mortos que surgiam na cidade, mortes terríveis que estavam em todos os jornais. Ou a criança poderia simplesmente ter fugido, não suportado a perda da prima que amava muito.
Todas as opções eram ruins. Por causa do desaparecimento de Katharine a família materna de Marianne Foster, Chevalier, não compareceu ao enterro.
O senhor Foster tinha somente sua família do lado e o duque. Até o irmão de Alan estava enlouquecido por causa de Kate. Finn observava de longe, não podia se aproximar para ver Anne, mas sabia o quanto ela estaria bela, mesmo como morta. Seu coração ainda doía como repartido ao meio por não ter conseguido impedir que acontecesse o que aconteceu. Anne, uma vampira. Ele nem podia imaginar. Vampiros tinham mortes violentas por causa de sua imortalidade, e almas carregadas para a eternidade no inferno. Ele jamais desejou aquilo para a sua garotinha.
Ele observava enquanto carregavam o caixão de Anne para dentro do jazigo da família. Havia muito choro principalmente vindo do Barão, pai de Anne. O duque se mantinha firme, mas Finn podia sentir que estava triste também – Alan gostava de Anne e era este gostar que Finn pretendia usar a seu favor.
Finn sentou-se atrás de uma árvore de forma que ninguém pudesse notá-lo no cemitério. Ele fechou os olhos, sentiu a brisa suave e quente do entardecer, tentou ficar em paz por alguns segundos. A tormenta era avassaladora, destrutiva. Simplesmente guardar para si a dor era pior do que senti-la. Ele teria que conviver com aquilo pelo resto da vida? Que vida ele teria agora?
Ele escutou vozes se aproximando e se pôs de pé, secando as lágrimas que insistiam em vir. Olhou a estrada que conduziria o grupo para fora do cemitério. O Barão e o duque eram os últimos a vir. Eles conversavam sobre algo, provavelmente sobre a falta que ela faria. Finn respirou fundo, seria agora. Ele só esperava que o senhor Foster não o reconhecesse.
Ele desceu até a estrada e se aproximou do duque tentando parecer confiante. Agora ele entendia como Caroline se sentia, intimidada, inferior.
– Duque Jakes? – Disse Finn quando se aproximou dos dois chamando a atenção de Henry e Alan. Os dois pararam para encará-lo.
– Quem é você? – Disse Alan. – Se veio me cobrar algo saiba que não é o momento mais apropriado. – Alan estava com raiva.
– Não senhor... O senhor precisa ouvir o que eu tenho para dizer.
– Diga então. E seja rápido.
Finn olhou para o senhor Foster que encarava o chão com melancolia. – Tem que ser a sós. – Disse por fim.
– Se me der licença senhor. – Disse Alan para o Barão que assentiu e foi embora. – Pode dizer agora?
– É sobre o conde e a senhorita Foster. – Finn foi logo ao assunto. – Eu não sei se o senhor acreditaria em mim, mas Anne não teve uma morte natural.
– Não. Ela adoeceu.
– Mas não foi normal.
– Deixe de enrolação e me diga logo o que quer. – Alan cruzou os braços quase perdendo a paciência.
– Eu preciso da sua ajuda para... Para impedir que... – Finn ficou com medo de contar agora. Não havia planejado muito bem aquele diálogo.
– Você era o amigo dela? – O duque perguntou de repente.
– Como? – A pergunta o pegou de surpresa.
– Você era o amigo dela. – Agora não foi uma pergunta. – O que deu a ela um cordão com pingente de madeira. Eram mesmo amigos ou havia mais do que amizade?
– Senhor, acredite, eu não vim aqui para falar sobre isso. E sim, éramos amigos, mas somente isso.
O duque permaneceu calado o encarando com desconfiança.
Finn respirou fundo. Por que não falava logo? Que se danem as consequências!
– O conde é o assassino de Anne.
Alan juntou as sobrancelhas.
– Do que está falando?
– Ele é... Por favor acredite em mim. Mas ele não é humano e sim um monstro que suga sangue e... Enfim! Ele bebeu o sangue de Anne até matá-la e se não fizermos alguma coisa quanto a isso ela vai voltar igual a ele. Um monstro sugador de sangue. Eu pensei que você seria o único que poderia me ajudar. A pegar a chave do jazigo da família dela e entrar lá comigo para impedir isso.
O duque continuou mudo. Estava meditando cada palavra de Finn. Ainda não havia surtado e saído gritando que Finn era um maluco que precisava ser internado.
– Após a morte de Lilian eu... – O duque sussurrou. – Fui até a casa do conde e vi uma de suas primas atracada num rapaz na sala. Ela virou o rosto na minha direção quando percebeu que eu olhava, tinha olhos vermelhos e quando sorriu vi dentes pontudos. Eu consegui fugir de lá, mas aquela imagem nunca saiu da minha cabeça. Eu investiguei e descobri... – Ele sacudiu a cabeça interrompendo a própria frase. – Não! Não posso acreditar.
– Mas senhor. – Finn insistia. – É verdade. Temos que ajudar Anne.
– Eu... – Alan olhou para o céu. Não faltava muito para o sol começar a descer no horizonte. Ele observou as nuvens por alguns instantes antes de tomar uma decisão. – Eu posso ajudar você. Mas antes quero uma explicação completa.
Finn quase sorriu. Havia sido fácil já que Alan já havia se deparado com aquelas coisas antes. Ele contou tudo que sabia a Alan, escondendo apenas sua relação com Anne e as saídas dela à casa do conde – sentiu que deveria proteger a integridade dela. – Contou até sua visita ao professor Gulliver e a mulher morta que encontrara na casa do conde. No final Alan pareceu acreditar em vampiros. Disse que conseguiria a chave do jazigo e encontraria Finn em exatamente uma hora na entrada do cemitério, até lá o sol estaria se pondo e Finn conseguiria as armas necessárias.
No horário marcado Finn apareceu no cemitério com uma estaca de madeira e um facão para cortar a cabeça. Ele ainda não sabia como teria coragem de fazer o que planejava, mas precisava ser forte – era o certo a ser feito.
Alan apareceu logo depois, com as chaves do jazigo. Ele estava tão nervoso quanto Finn. O céu estava avermelhado, ficando escuro.
– Temos que ser rápidos. Quando anoitecer será tarde.
Alan concordou com Finn e os dois passaram os portões negros. Caminhar pelos túmulos e lápides não era assustador. O pensamento de que abaixo deles estava cheio de gente morta também não. O que assustava era que, por mais rápido que corressem não podiam parar o sol. Logo anoiteceria por completo e os vampiros despertariam. Se é que já não haviam despertado. O sol já não parecia tão forte assim.
Eles finalmente chegaram ao Jazigo dos Foster. Era bonito, com letras metálicas acima das portas com o nome da família. Olhando parecia ser uma casinha que caberia no máximo duas pessoas magras de pé. Mas quando as portas se abriam se via uma escada que dava para baixo da terra. No final da escada havia uma sala ampla com gavetas nas paredes e caixões que ficavam sobre pedestais de pedra. Alan acendeu um lampião antes de começarem a descer. Lá dentro era frio e muito escuro. Eles olharam com cuidado cada placa nos pedestais. Quando passaram pelo de Lilian Finn sentiu um arrepio na espinha. Anne estava do lado do da mãe.
O caixão dela era comum, de madeira lisa e escura, com detalhes entalhados nela.
– Me ajude a destampá-lo. – Finn queria terminar aquilo logo. Alan permaneceu parado encarando o caixão enquanto Finn empurrava a tampa pesada. À luz do lampião era ainda mais pálido e magro. Parecia até doente – ou estava enjoado com o pensamento do que teriam de fazer a seguir.
– Eu não sei se consigo deixar você fazer isso. – Sussurrou Alan.
– Você precisa. Não podemos demorar muito, lá fora já deve estar escuro, os vampiros já devem ter despertado. – Finn continuou empurrando a tampa que finalmente se moveu e bateu no chão. Finn parou por um momento para olhá-la. Tão linda! O rosto pálido parecia perfeito, ainda mais do que quando ela era viva. Os cabelos negros soltos sobre seu ombro a fazia parecer tão doce, e os lábios bem vermelhos chamavam por um beijo. A voz do duque chamou a atenção de Finn de volta:
– Mas é ela! – Alan encarou Finn. – Não podemos fazer isso com ela... E se for mentira! Se você me enganou para conseguir entrar aqui e pegar alguma coisa... Alguma joia que ela esteja usando... E se vocês foram amantes e esta foi a única forma que você encontrou de vê-la mais uma vez?
– Senhor eu juro que eu não menti. Tudo que eu disse era verdade. – Finn tentou manter a calma, mas o duque gritava, estava dando para trás.
– Eu não te conheço! Como eu pude ser tão tolo de dar ouvidos a um qualquer!
– Duque! Eu...
Foi quando uma lâmina surgiu do peito de Alan. Ela o havia atravessado das costas. Alan soltou o lampião que quicou no chão e tremeluziu, mas não apagou sua luz. Seus olhos arregalaram surpresos com a dor. Sangue jorrou de sua boca o impedindo de gritar. Suas pernas perderam as forças e ele caiu de joelhos. A lâmina voltou para trás desaparecendo, saindo do peito dele o deixando bater de cara no chão. Atrás de Alan havia um homem encapuzado que segurava a lâmina ensanguentada que havia atravessado o duque. O homem puxou o capuz com cuidado revelando o sorriso triunfante, o cavanhaque ralo e os olhos escuros refletindo a luz fraca do lampião.
– Você não desiste mesmo. – Disse o conde para Finn.
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