Farewell Letter.
1 Capítulo 1
O buraco estava vazio. Continuava nas profundezas de algum lugar, certas vezes soltando faíscas dos resquícios que do que fomos. Ele continuava vivo, mas tinha estado adormecido, torpe, e mergulhado em um marasmo infinito. Sua borda continuava vertiginosa, ameaçadora. Ainda necessito ficar circunspecta ao passar por lá. Pode estar esteticamente estável, mas as voltas que o relógio dá não tem o trancado. Não inteiramente. Ainda posso sentir todos os muros, construídos com toda minha força e resistência, com todo o amor que ainda tinha por mim, mas eles estão mais frágeis a cada segundo, como se uma brisa do teu perfume pudesse rompê-lo completamente, e então cada centímetro desabaria, ruindo-se, emaranhando-se confusamente com as memórias e dores.
Ele é um tanto decrépito e gasto, cansado de atormentar-me noite por noite, risonho por arrancar-me lágrimas freqüentemente, mas já antigo o suficiente pra se encontrar fatigado, perdido entre tantas outras fendas que coleciono secretamente. Em alguns momentos de devaneios, tenho recebido lembranças. Risadas, toques, fantasmas do passado, vivamente costurado bem a minha frente. Desses, desvencilho-me sucintamente, protegendo o que ainda resta do que me tiraram. Balanço a cabeça, tentando afastar a idéia de como essas utopias – recortadas tão repetidamente aos meus olhos mareados -, tentando recordar-me do que eu fui um dia. Inteira de um modo que agora, parece impossível, pueril o suficiente para ser cômico.
Acorrentado, amordaçado e açoitado. O suficiente para ter se camuflado entre as outras agonias que me perseguem, passando-se por abandonado e inexistente. Quase convincente o suficiente para eu acreditar. Quase bom ator quanto meus milhares de sorrisos, quase me persuadindo eloqüentemente a crer em minha própria ilusão mais uma vez. Demasiadamente fácil desistir, dar á minhas fraquezas o que necessitam. Um pouco de medo, algumas pitadas de solidão e outras maiores de nostalgia.
A ferida – que tem recebido tantos pseudônimos metafóricos em cada palavra – tem mantido-se escondida, tentando se encontrar, procurando espaço entre as novas – mais presentes e sedentas de minha alma -, em alguma tentativa de fazer-me sucumbir ao seus próprios encantos. É agradável ceder, fraquejar aos seus pés. É mais fácil, prático, não exige esforços e nem suor. Apenas lágrimas e mais lágrimas. Um pouco de sangue talvez, conotativamente dizendo.
Então, resolvi roubar-lhe tudo. Todas memórias lastimáveis e boas reminiscências. Afinal, o que uma cratera vazia poderia tirar de mim? Pouco eu sabia disso. Tentei abrir suas portas num rompante, soltando o que eu havia guardado. Pancadas, gritos, uma tortura lenta.
Desde que tentei lutar contra, desde que tentei libertá-lo para derrotá-lo finalmente, mais tem gastado de meu corpo e alma. Voltei a trancá-lo covardemente, na esperança inútil de um dia esquecer o que aprisiono lá, mesquinhamente e sigilosamente. Medo? Absolutamente. Um pavor incalculável dessa caixa estourar, e espalhar aquela áurea de falsa felicidade por mim. Causando mais dores lancinantes e uma ou outra lágrima pesada, acompanhadas de um coração estaqueado. Tenho tido medo do buraco se abrir. De vê-la partindo novamente, tão perfeitamente real e impossivelmente distante. Pânico de encarar o que passou. De sentir de novo, de me ver perdida em meus pesadelos, de encontrar-me seguida por sussurros de sua voz, de querer freneticamente estar ao seu lado e encarar um vazio fúnebre e mórbido.
Querendo persistir em você. Em o que um dia eu pude chamar de nós. Insistindo no que já não existe a um tempo. Porque agora, estou uma parte desse nós. Sobrou eu. O resto de tudo sou eu. A sobra do que fomos sou eu. Tenho agüentado, suportado o amor que era para ser dividido entre dois, sozinha. Ansiando pegar em suas mãos que agora são ossos perdidos, em baixo de camadas infinitas de cimentos e plantas, de um túmulo fechado como meus risos retidos e distante como a alegria que você tirou-me ao partir.
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