Farewell.
1 Capítulo 1: Farewell.
Notas iniciais
Point of view: Selena.
Comecei a caminhar pela calçada acinzentada na rua da escola enquanto ouvia passos lentos atrás de mim. Parei por um instante e olhei para trás, sorrindo ao perceber que Demi lutava contra as próprias pernas para andar um pouco mais rápido e me alcançar. Segurei nas alças da mochila enquanto permanecia parada de pé observando a garota correr com um sorriso travesso no rosto e beijar a lateral da minha face de forma demorada.
- Oi Selly.
- Olá de novo, Demi.
Demetria era uma garota especial, e eu não precisava ser nenhum gênio para saber aquilo. Durante o percurso até a porta da casa dela nós conversamos e falamos sobre coisas que eram importantes para ela, que eram totalmente inúteis para mim, mas mesmo assim eu continuava deixando ela falar apenas para ouvir o timbre levemente rouco da voz feminina. Dei um sorriso de lado ao abaixar-me um pouco para beijar a testa dela e sorrimos juntas.
- Cuide-se, pequena polegar.
- Pode deixar Selly!
Minha rotina com Demi estava sendo aquela. Nós estudávamos juntas e passávamos a maior parte da aula falando sobre mim. Não parecia, mas eu só conhecia a garota a dois dias e ela já sabia até quais eram meus segredos: eu gostava de cantar, atuar e cozinhar, apesar de não achar que fazia nenhum dos três bem. A tela do meu celular acendeu mostrando um nome na tela. “Demi.”
- E então, ta fazendo o que minha gata?
Sorri com a sensação. Dois segundos depois fiquei séria novamente. Infelizmente foi apenas um sorriso facial. Meu coração nem se quer deu sinal de vida dentro do peito. As vezes eu gostaria de olhar para dentro e ver se ainda existe algo por aqui ocupando o espaço vazio dele. No dia seguinte ao encontrar com Demi na escola, ela puxou-me para um canto e ficou de cabeça baixa por um bom tempo enquanto eu apenas a analisava em silêncio e aguardava que ela começasse a falar.
- Selena, eu preciso te dizer uma coisa... – o olhar dela demorou alguns segundos até finalmente encontrar o meu – Você sabe que eu nunca me apaixonei por uma garota antes, não sabe? – eu assenti – Eu não conseguia gostar de ninguém a dois anos, mas... Eu to confusa com relação ao que eu sinto por você! – ela tinha uma expressão um tanto quanto assustada no rosto – Eu não me apaixonava por ninguém a dois anos, e criei algumas barreiras ao meu redor que ninguém conseguiu ultrapassar, e você age como se elas nem mesmo existissem!
- D-Demi... – engoli a seco procurando uma saída – Isso é bom ou ruim?
- Acho que é você que tem que responder isso.
Demorei ainda mais um minuto olhando o rosto delicado da garota a minha frente e puxei-a pela mão até nossa sala onde a aula já acontecia sem nada dizer. Demi não poderia se apaixonar por mim. Ela não sabia que eu não me apaixonava por ninguém desde que meu coração havia sido pisado por uma garota que mentiu pelo prazer de me ver no chão. No fim da aula naquele mesmo dia, enquanto Demi conversava com uma amiga, eu aproveitei para sair na frente. Meu celular tremeu em meu bolso traseiro e ao puxar o mesmo meus olhos reviraram diante do nome na tela.
“Saudade.”
Jennifer. A vadia que tirou toda a alegria da minha vida. Apaguei imediatamente a mensagem e antes mesmo que pudesse guardar o celular de volta senti braços pequenos envolverem minha cintura por trás impedindo que eu pudesse ter qualquer reação adversa. Caminhei mais lentamente durante um tempo até Demi vir para o meu lado e começar a perguntar sem parar sobre mim outra vez.
- Então você além de cantar, cozinhar e dançar, gosta de atuar? – ela perguntou surpresa – Nossa, por que ninguém te descobriu ainda?
- Digamos que... Eu não conto para ninguém sobre nada disso. Eu prefiro cantar quando não tem ninguém em casa porque eu sou tímida demais para cantar na frente de qualquer um. – ri –
- Eu sou sua fã número um. – senti um certo orgulho na voz dela ao dizer isso –
- Bom, am... Obrigada, pequena polegar. Você está entregue.
Demi sorriu para mim outra vez. Aquele sorriso era capaz de aquecer até mesmo o mais frio dos seres humanos, e não foi diferente comigo, mas infelizmente aquele sentimento não passava de minutos e ela não precisava de uma metade. Ela merecia e precisava de uma pessoa completa. Ao aproximar meu rosto para beijar a face levemente rosada da garota, ela segurou minha nuca para sussurrar em meu ouvido.
- Queria beijar você.
- Eu também... Muito.
E não havia mentira em nem um ponto daquela frase, apenas não haviam sentimentos fortes o suficiente. Saber o quão errado era permitir que aquela garota se apaixonasse por mim me tirou toda a noite de sono. Afastei-me dela sutilmente sem permitir que nossos lábios se encostassem e acenei, indo para casa. Peguei um caderno dentro do baú na minha cama, rabisquei a data no canto de uma das folhas em branco e comecei a escrever.
- Onde quer que você vá, eu quero ir. Para onde quer que você vá, me deixe saber. Não me importo de por a conversa em dia. Eu estou no meu caminho, só não agüento o pensamento em você a quilômetros de distância. – eu gostava mesmo dela, do jeito, do sorriso, dos olhos, de tudo, mas gostar apenas não era o suficiente e eu precisava deixar ela livre para alguém que pudesse ser completo com ela – E eu sei que você está indo para algum lugar para fazer uma vida melhor, eu espero que você encontre na primeira tentativa e mesmo que isso me mate, que você tenha que ir, eu sei que vai ser mais triste se você nunca cair na estrada.
Abaixei a cabeça com o sentimento de frustração que pareceu acertar-me em cheio ao ler o que estava se formando na folha. Mentira. Eu estava frustrada por ter que deixar alguém tão especial partir mesmo que nós só nos conhecêssemos a três, quatro dias. Ninguém precisa de uma vida inteira para descobrir que certas pessoas são como anjos que vem para iluminar nosso caminho, e Demi era uma daquelas pessoas.
- Então, adeus! Alguém vai sentir sua falta. Adeus. Alguém vai desejar que você estivesse aqui, esse alguém sou eu. Vou escrever para dizer o que está acontecendo, mas você não vai perder nada menos que a mesma velha canção. Se você não se importar de por o papo em dia eu vou passar o dia te contando histórias sobre uma terra distante.
Parei de escrever quando as primeiras lágrimas nasceram em meus olhos e virei o rosto para cima, era horrível o medo de machucar ela, mas eu sabia que quanto mais eu deixasse aquilo rolar, mais ela ia se magoar. Ela não merecia.
- Eu vou tentar me segurar, tentar segurar minhas lágrimas para que isso não faça você querer ficar. Tentarei ser adulta agora porque eu não quero ser a razão pela qual você não vive. Adeus.
Dobrei a folha delicadamente antes de colocar a mesma em um envelope. Ao acordar no dia seguinte a primeira coisa que fiz foi procurar outro colégio para onde pudesse pedir transferência. Eu gostava o suficiente daquela garotinha para mudar minha vida apenas para não ver ela sofrer, e esperava que ela entendesse. Eu poderia deixar que o tempo passasse, uma semana, um mês, um ano... Mas não era justo. Ela estava se apaixonando, eu não.
- Oi Selly! – ela sorriu feliz quando passei no portão dela –
- Oi Demi! Parabéns! – abracei-a de lado – Agora temos a mesma idade. – fiz careta –
- Só por alguns meses. Daqui a pouco você faz 19! – senti um soco fraco acertar meu braço –
- Idade é apenas um número, baby.
Observei-a diversas vezes durante a aula pensando se era mesmo aquilo que queria fazer. Eu ia partir o coração dela no dia do aniversário? Torturante. Mas eu não podia esperar mais, não poderia deixar ela ir adiante com aquele sentimento dentro dela. No intervalo não saí da sala, coloquei um bilhete na mesa dela. “Quero conversar com você.” Querer eu admito, não queria, mas precisava.
- Oi...
- Demi... O que exatamente você sente por mim?
- Eu to apaixonada por você... – disse com a voz baixa –
- Você é muito fofa, sabia? – suspirei ao ver o rosto dela avermelhar – Mas então... Eu acho que é hora de acabar com isso, Demi. – ela parou de andar e me olhou confusa – Para o seu bem, sempre. Eu não consigo me apaixonar por ninguém a muito tempo, e você não merece alguém assim, pela metade. Você merece alguém tão lindo e especial quanto você, sabe? Alguém que possa te amar e ser completo contigo, e eu infelizmente não sou essa pessoa então eu estou te deixando. Ou melhor, te deixando seguir. Tome. – virei a mochila para frente tentando ignorar as lágrimas que escorriam pelo canto dos olhos dela – Te escrevi uma carta. Você tem meu número, certo? Pode me procurar sempre que quiser. Seja feliz, minha pequena polegar.
Beijei a testa dela e caminhei de cabeça baixa até em casa. Estava doendo em mim ter que deixá-la seguir, e doía nela ter que ir adiante sem mim, mas era melhor agora. Uma paixão é sempre mais fácil de curar do que um amor.
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