Far from
1 Capítulo Único
Peguei um lápis e um bloco que havia sobre a minha escrivaninha. Olhei a página em branco e desejei que todos os meus anseios fosse transcritos para aquela folha. Mas não acho que fosse possível. Minha solidão, minha saudade, minha falta dela. Era tudo o que eu sentia e conseguia sentir.
Ouvi a voz da minha antiga terapeuta falando no meu ouvido, de novo. Aquela voz que me assombra há anos, “comece do início, querido”. Suspirei.
“Espero realmente que isso chegue a suas mãos, temo que não seja possível, mas farei o necessário.” Apoiei o lápis no papel e reli umas cinco vezes, quando decidi que era digno. Agora que fiz minha pequena introdução, vou começar do começo. “Antes de você, eu enxergava as pessoas como máquinas. Um conjunto de sistemas que montam o corpo humano, um agrupamento sem lógica. E então você veio. E hoje eu vejo cada brecha, cada cor, cada expressão de todos que me rodeiam. E Eu lhe agradeço infinitamente por isso. Mas então você foi embora. E foi como um soco no estômago. Aquele enjoo inicialmente, depois a dor, e por último aquela sensação de que seus órgãos não voltaram pro lugar. Foi assim que você me deixou... Sem fôlego. Procurando por você em cada esquina, cada ônibus, cada plataforma de trem que eu subia. E é como se faltasse uma parte no meu campo de visão, um corte na minha visão periferia. E eu preciso acreditar de que você continua aqui. E que se eu esticar o braço, vou alcançar você. Mas quando estico o braço e não te alcanço, eu só me pergunto porque você foi embora e levou consigo a minha alma. Volte. Volte porque não aguento ter que ver você na atendente do banco, na minha professora do técnico, na garçonete do bar. Volte porque sinto falta das nossas viagens, de nossas conversas, de seus lábios nos meus enquanto ria, de você me olhando por cima do ombro com uma cara de revoltada. Volta! Por favor. Daquele que te amou, mesmo antes de te conhecer.”
As palavras borraram e eu não entendia o porquê, até ver que era eu quem estava chorando. Achei que fosse melhor que ficasse manchada mesmo, assim mostraria que eu realmente estava sofrendo com isso.
Quadra 13/A. “Eterna amiga e companheira de todas as horas” e não me lembro mais de nada. Em um momento eu estava lendo a lápide e em outro eu já estava não chão. Minha mente nunca funciona muito bem quando lembro dela. O ruim é que isso acontece o tempo todo.
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