Far, far away
2 I - Alaska: Bombas
Estava tudo praticamente calmo na cidade de Helena, capital de Montana. Bem, se calmo significa bombas caindo então sim, estava praticamente calmo.
–Al! Você viu essa?! Caiu aqui perto! — Lucy se aproximou de mim, ela era uma menininha de onze anos que viajava comigo, ela tinha cabelos castanhos, olhos azuis e um sorriso travesso de criança.
As vezes, quando pensava que nesse mundo não tinha mais esperança, olhava para o sorriso de Lucy.
–Foi bem perto mesmo, hem? — ela havia se aproximado de mim e sentou no meu colo.
–Posso te contar um segredo, Al?
–Tudo o que você quiser — sorri.
Ela aproximou o rosto do meu ouvido e colocou a mão direita no lado da boca, como se quisesse que o segredo não fugisse por ai e se dissipasse no ar. Mesmo estando sozinhas na sala, acreditava na tal teoria inventada: precisamos guardar algumas coisas muito bem guardadas, as vezes nem contamos para ninguém. Acho que temos medo de deixar essa lembrança ir embora se for compartilhada com outra pessoa, por isso se você conta um segredo para a outra pessoa, é no mínimo sensato que você coloque a mão do lado.
–As vezes, sinto muito medo das bombas — ela sussurro.
–Deixa eu te contar um também? Ela assentiu -Eu também tenho — disse bem baixinho colocando minha mão do lado, como em minha teoria.
BAM! Outra bomba havia estourado, eu não tinha visto onde tinha caído só sabia do cheiro de fumaça e do vidro da janela que tinha se espatifado pelo chão.
–Puta que pariu... Lucy! Você está bem? — Indaguei nervosa
–Tô... Só minha perna que está doendo.
Não estava apenas doendo, estava cortado em diversos lugares...
E estava sangrando.
–Puta merda. Você consegue andar?
Ela tentou se levantar, mas foi tomada por um grito agonizante de dor.
–Okay ! Okay! Fica aqui sentada- tirei ela do meu colo e a segurei no colo por um tempo enquanto me levantava da cadeira onde estava sentada e coloquei ela lá — Fica aqui, nãos e mova.
Ela assentiu e eu disparei pelo quarto pegando nossos casacos e o ursinho de Lucy. Alguns cacos estilhaçavam-se mais quando pisava e uma bomba havia estourado de novo. Só que dessa vez, mais próximo.
Voltei até Lucy que agora tremia de medo, dei a ela o ursinho e coloquei-a em minhas costas. Ela não era muito pesada, o que era bom. Sai do quarto e desci as escadas que ligavam a lanchonete ao hotel e corri até a porta dos fundos e sai da lanchonete. O cenário lá fora era horrível: as árvores queimavam e algumas casas estavam em chamas, isso fora os gritos, continuei a correr, sem rumo. Só queria dar o fora dali.
BAM, outra bomba caiu, dessa vez o som vinha de trás, provavelmente tinha caído do lado da lanchonete/hotel.
Puta merda.
Não sabia para onde estávamos indo, nem quando e onde a próxima bomba ia cair, não sabia se íamos sobreviver. Estávamos correndo em plena rua no meio de um bombardeiro.
Puta merda de novo.
–Por ali! — Lucy estava apontando para um conjunto de metal a cerca de alguns metros. Era aquilo, ou continuar correndo a céu aberto contra bombas.
Prefiro a primeira opção
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