Fantasy through the looking glass
2 Descoberta
Após horas caminhando por um campo sem fim, Charllote resmungava:
– Estamos andando a horas e não chegamos em lugar nenhum. Meu Deus...onde é que eu to? Quero voltar pra casa. Eu estou maluca?
–Não...você não está maluca. E para de reclamar? Já estamos chegando, menina tola. — Diz o gato preto caminhando ao seu lado.
–Não me chame assim! — Aos poucos, Charllote conseguia enxergar torres atrás de uma grande colina, era um castelo, um castelo medieval enorme, todo de pedra. — Um castelo! É pra lá que estamos indo, gato?
–Sim, e eu tenho nome.
– E qual é?
–Mark. Sem piadinhas faz o favor.
–Okay né.
Os dois chegaram ao castelo já no luscofusco. Tochas iluminavam o exterior do castelo e um grande portão de ferro separava os dois do interior.
–Hm...como vamos entrar?
–É muito simples. — O gato todo pomposo escalou as tochas até o topo do muro e adentrou o castelo. Enquanto isso, Charllote o esperava do lado de fora.
Sem demorar muito, os portões se abriram, a garota correu em direção ao gato querendo explicações.
–Como fez isso?
–Não é hora de perguntas, apenas me siga e não fale com ninguém, apenas com quem eu permitir.
Alguns guardas estavam parados e reverenciaram a jovem enquanto ela passava. As coisas ficavam estranhas cada vez mais, e Charllote ainda estava cheia de perguntas de como foi parar naquele lugar e o que seus pais estavam pensando já que ela não tinha chegado em casa. Seus pensamentos foram interrompidos assim que ela observou uma criatura majestosa: Um unicórnio alado. Ela subiu as escadas e correu em sua direção.
–Que lindo...mas é real? É mesmo um unicórnio? E voa? — Ela alisava as asas da criatura e logo em seguida deu uma leve puxada no chifre do animal, fazendo-o ir para traz.
–Mas é claro que sou real! — O unicórnio disse com uma voz feminina zombando da garota.
–Você também fala?! Nossa! — Charllote arregalou os olhos e deu um pulo. Impressionada ela bateu palmas. — Mark! Mark! Olha só essa unicórnio, ela fala!
– Todos os animais falam aqui, e o que eu te disse sobre não falar com ninguém ? — Ele alertou novamente a garota — Olá Íris — Ele cumprimentou a criatura alada.
– Ela tem nome?! Que lindo! — Disse jovem ainda impressionada.
–Olá Mark, quem é essa garota e por que a trouxe para cá?
–Ela é sua majestade.
–Oh, por Cesar! Olá vossa Majestade, me perdoe pela falta de educação. — A criatura se aproximou e reverenciou Charllote.
–O que? "Vossa Majestade"? Meu nome é Charllote, me chama assim, e por que todos me reverenciam? — Diz a jovem confusa.
–Como ainda não se tocou, menina burra? Você é a princesa desse castelo, desse reino...você é a princesa perdida. Esse reino não tem governante desde que vosso pai morreu em batalha, está tudo nas mãos do seu tio, Bran, O tirano.
– E-eu...sou uma princesa? Não, isso ta errado. Meu pai é professor e minha mãe uma engenheira ambiental.
–Não, você é uma princesa. — Disse o unicórnio fêmea.
–Nada disso faz sentido pra mim. Sou uma garota normal, como qualquer outra.
–Não, você não é. — Disse o gato pulando nas costas da criatura alada. — Deixe-me explicar. Antes de seu pai morrer ele me ordenou que te mandasse para um lugar seguro. Você não foi adotada? Eu te coloquei na frente da casa dos teus pais adotivos. Durante todo o seu crescimento eu estava te observando, cuidando de você. De longe, mas estava.
–Meu Deus...é muita informação. — A jovem se senta na escadaria de pedra e põe as mãos na cabeça. O gato pula ao seu lado e lambe sua pata.
–Escute...seu tio já está ciente de sua chegada, é melhor entrarmos no palácio para você conhece-lo. Não se preocupe, estarei sempre contigo, princesa.
–E eu também, Vossa...Charllote. — Disse a unicórnio.
Os dois seguiram para dentro do palácio. Assim que entraram, Charllote ficou boquiaberta. O lugar era enorme, iluminado, reluzente, cheio de armaduras, quadros lindos, pratarias...De repente, ela escute uma voz rouca ressoar pelas paredes.
–Charllote! Minha sobrinha! Finalmente! — Ela vê um homem alto e careca, com uma barba grisalha e bem alinhada. Era muito alto e forte, um belo senhor na terceira idade. Ele vem de braços abertos e a acolhe em um abraço apertado.
–Olá...tio? — Ela diz com a voz abafada dentro do abraço.
– Estávamos todos esperando sua chegada, dezesseis anos hein? Terá a festa que merece logo logo. — O gato revira os olhos assim que escuta as palavras de Bran. Assim que ela consegue se desvencilhar do abraço, seu tio a observa. — Mas que roupas horríveis são essas? Está de calça? Por Cesar, o que vocês vestem no outro mundo? Mandarei uma criada e uma dama de companhia para você, não se preocupe.
–Não se preocupe Bran, levarei Charllote para o quarto dela. — Disse Mark, o gato.
– Olá Mark, e muito obrigada por trazer nossa menina de volta.
–Ah...não se preocupe, ela que nos encontrou. — Disse o gato cheio de ironia. — Vamos princesa. — Ele enrosca seu rabo na perna de Charllote e ela o segue.
–Aqui é muito bonito... — Diz Charllote olhando para todos os lados boquiaberta.
–Fecha a boca pra não entrar mosca. E me escute, não caia na lábia do seu tio, ele é um tirano. Cobra altos impostos, rouba da igreja, deixa todos os vassalos na miséria e rouba da igreja.
–Hm...parece a governante do meu País. — a jovem comenta e em seguida da uma risadinha. — Já pensaram em fazer manifestações? Exigir os direitos e blah blah blah?
–Estamos em outro mundo, princesa. As coisas não funcionam assim...mas você possui uma mente revolucionária, e com você aqui, sei que no futuro teremos um grande avanço. Ainda tem coisas que precisa saber.
Os dois sobem uma majestosa escadaria de mármore e em seguida entram em um corredor cheio de portas. Nas paredes, inúmeros quadros. O gato para em frente a um portão de madeira e diz:
–Chegamos, esses são seus aposentos. Pode entrar.
Charllote abre a porta e se depara com um quarto enorme, com uma cama gigantesca, móveis de madeira, uma lareira e uma varanda espaçosa.
–Uau. Esse quarto é enorme! — Ela diz sorridente e pula na cama. — Nossa! Que lençol sedoso! E esse travesseiro, que fofo! Olha só esse coelho de pelúcia, parece tão real. — Assim que ela aperta a barriga do coelho, ele da uma leve mordida em sua mão, o que fez Charllote solta-lo rapidamente. — Ai!
–Claro que sou real. Não me reconhece, princesa? Sou seu animal guia. — diz o coelho pardo com uma voz feminina. — E eu sou uma Coelha e não um coelho.
– Desculpa...
– Não se ofenda Dalila, Charllote não se lembra de nada.
–Oh...eu que peço perdão pela mordida.
–Ta tudo bem. Nem sangrou.
Logo em seguida uma jovem moça de cabelos ruivos entra no quarto, trajando um vestido longo roxo.
–Princesa, sou Helga, sua dama de companhia. — Ela disse com uma voz doce e reverenciou Charllote. — Seu tio me mandou aqui para cuidar da senhorita.
–E aí? Beleza? Não me chama de senorita não, na boa, me chama de Charllote.
–Tudo bem, senhorita. Oh, Charllote.
–Bom, deixarei as damas se arrumando para o jantar, vou caçar uns ratos e procurar o conde para avisar de sua chegada Charllie. — Disse o gato caminhando em direção a porta.
–Você me chamou de Charllie? — Charllote disse com um sorriso.
–Sim, não é assim que todos seus amigos no outro mundo te chamavam? Pois então. Estou indo.
Logo depois que Mark sai, o portão se fecha. e Charllote tira os sapatos jogando-os pra cima, e Helga corre pra tentar pega-los.
–Nossa...que sapatos diferentes. — Diz Helga ao observá-los.
–É, o nome disso é tênis. Legal né? É bem confortável.
–Princesa, tire essas roupas imundas para que possa tomar um banho e logo depois ir para o jantar. — Disse a coelha Dalila.
–Isso, jantar, estou morrendo de fome. — Disse Charllote e enquanto tirava todas suas roupas deixando a mostra seu corpo largo. Enquanto isso, Helga enche a banheira de água e coloca sais dentro da banheira branca.
– A banheira está pronta, Charllote. — Disse Helga.
Envergonhada Charllote aparece totalmente nua, sua pele pálida parecendo mármore. Ela entra na banheira com água quente e se acomoda. Com uma esponja, Helga ensaboa suas costas.
Já tomada banho, Charllote se enrola numa toalha e segue até o outro lado do quarto em direção ao armário para escolher que roupa vestiria. Assim que o abre toma um susto.
–Não tem nenhuma roupa que seja do século vinte e um não?
–Princesa, nesse mundo, estamos no século dezessete ainda, só terá essas roupas para vestir. — Disse Dalila.
–Tudo bem...
Helga pega um vestido azul simples mas elegante. Longo, de manga longa e ombros bufantes. Para o sapato, pega uma sapatilha que ela diz ser moda em París nessa época do ano, o que leva Charllote a perguntar se tinha voltado no passado, mas Dalila, seu animal guia a explica que estava no que diriam um "Universo Paralelo". Já vestida, Helga escova os longos cabelos loiros de Charllote e põe um laço preto atras de sua cabeça. As duas seguem para fora do quarto em direção ao salão de banquete onde todos a esperavam para o jantar.
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