Fantasy Creeps
1 Drunk as a Skunk
- Robert Walker!
A voz gritante do aparelho ao lado de seu ouvido despertou-o subitamente. Levantou-se da mesa, esticando-se para trás na cadeira com os olhos esbugalhados. Os óculos de aro preto estavam tortos em seu rosto e um filete de baba escorreu de seu pescoço para sua blusa. Pelo menos dessa vez ele não tinha derrubado, destruído ou danificado nada com o susto.
— Venha para a minha sala agora mesmo!
Ele comprimiu-se contra a cadeira. Tinha sido pego dormindo de novo? Mas tinha tomado todas as precauções para que pudesse cochilar em paz... tinha até mesmo fechado a porta do escritório.
Olhou para o lado. A porta estava aberta.
Ele coçou a cabeça, confuso. Mas como? E quem...? Se bem que isso não importasse agora. O melhor seria se apressar e inventar uma desculpa conveniente o mais rapidamente possível.
Deu uma rápida passada no banheiro para jogar uma água fria no rosto e seguiu direto para a sala do chefe. Encheu o peito de ar e exibiu seu sorriso mais confiante antes de abrir a porta sem bater. Tentou não demonstrar muita apreensão. A sala do chefe era pelo menos três vezes maior do que o seu escritório, cheio de móveis exportados e quadros de arte moderna feitos por artistas pretensiosos.
— Bom dia, chefe.
— Você está demitido. – ele respondeu friamente.
Um cumprimento bastante simpático. Se bem que as palavras não eram de todo surpreendentes. Mas só por precaução e (quem sabe?) por uma possível segunda chance, ele fingiu estar chocado. Abriu os lábios abobalhadamente e arregalou os olhos, pendendo a cabeça para trás. Como a cereja no topo do bolo, ele prendeu a respiração por alguns segundos.
— M-mas chefe... por quê? – esganiçou a própria voz.
Sua atuação pareceu genuína, e Robert pensou em dar um tapinha satisfeito nas próprias costas. Se nada desse certo, poderia pelo menos ser ator.
Seu chefe, por outro lado, não engoliu nada daquilo. Era um homem baixo e gordo, de uma careca brilhante e um rosto achatado como o de um bulldog. Vestia-se impecavelmente e exalava um forte cheiro desagradável de colônia masculina. Franziu a testa e encarou seu funcionário com tanta repulsa e severidade que Robert se sentiu como uma criancinha acuada. Riscou mentalmente a possibilidade de ser ator e ponderou se sua segunda opção, a de ser um stripper, seria viável para alguém com a aparência dele.
Não seria.
— Não finja que está surpreso, Walker. Não é a primeira vez que você é chamado ao meu escritório. Seu desempenho é lamentável. Se minha memória está correta, você nunca entregou um artigo no prazo determinado, e quando entrega, eles estão tão mal escritos que tenho que mandar os estagiários reescrevê-los pelo menos duas vezes. Os malditos estagiários, Robert. O número de vezes que você faltou é astronômico. Isso sem mencionar todas as vezes em que você dormiu na mesa do escritório em pleno turno de emprego, incluindo hoje.
— Eu não estava dormindo. Eu estava rezando de cabeça baixa segundo os costumes de minha religião.
— Você estava babando.
Droga! Ele achou que tivesse parado com aquela porcaria de hábito de dormir de boca aberta. Amaldiçoou a si mesmo e seu otorrinolaringologista charlatão em voz baixa.
— Isso também é um dos costumes de minha religião. Se me demitir por isso, irei processá-lo.
Os músculos da mandíbula de seu chefe se contraíram e um estalido escapou de seus lábios finos e rígidos. Os olhos pareciam lançar chispas de desprezo no ar. Robert pareceu se encolher. “Mantenha o olhar, não abaixe a cabeça e não recue, ou isso passará uma impressão de medo e resultará em um ataque iminente.” As dicas eram para evitar ataques de animais selvagens, mas ele achou apropriado para o momento. A diferença não era assim tão grande.
— Pegue suas coisas e não volte nunca mais, Walker. – a voz estava metálica. Um sorriso sardônico surgira nas feições brutas do homem. – Tenho certeza de que algum dia encontrará um emprego à sua altura.
Era isso, não havia mais chance. Robert sentiu uma espécie de raiva irracional invadir suas veias como ácido. Ele sabia que a culpa era inteiramente dele. Sabia que sua demissão era inevitável. Sabia que ele era o pior jornalista que aquela cidade já havia visto (pelo menos ele era o número um em alguma coisa, pensava). Mas isso não o impediu de cerrar os punhos, levantar da cadeira acolchoada e proferir em voz alta:
— Você não pode me demitir. Sabe por quê? Porque eu me demito primeiro. Essa porcaria de firma é tão incompetente que nem mesmo vai poder fazer nada. Aliás, você foi o pior chefe da história dos chefes... – ligeira hesitação. Como é que o chefe dele se chamava mesmo? Brad? Brandon? Alguma coisa do tipo. Pousou o olhar na escrivaninha do homem a procura de alguma placa indicativa de seu nome, mas não encontrou nada. – senhor Barney, por isso eu agradeço aos céus por esse dia finalmente ter chegado.
— Barney? – ele pareceu confuso por um momento. — Meu nome é Gerald. Você trabalha aqui a sete meses e ainda não sabe o meu nome?
— Tanto faz.
Mostrou ao homem um gesto obsceno com ambas as mãos e esperou para ver se o outro esboçava alguma reação. Ao ver que seu ex-chefe manteve o olhar impassível, virou-se para a porta e saiu sem olhar para trás.
Ele agora parecia ser o centro das atenções na sala. O silêncio reinava no ambiente e todos haviam parado de fazer o que quer que estivessem para encarar o motivador da discussão. Fazendo o possível para evitar os olhares curiosos, Robert manteve o queixo erguido e passou a mão nos cabelos numa tentativa de disfarçar sua tremedeira aparente. Foi de peito estufado e rosto altivo até a sua mesa e colocou seus poucos pertences (um grampeador, um caderno, várias canetas destampadas, um celular, alguns artigos aleatórios de pessoas admiráveis e pacotes coloridos de chicletes baratos) dentro de uma maleta velha e surrada. Lançou um último olhar para o computador da empresa, uma máquina potente que provavelmente equivalia a um mês de seu trabalho, e debateu silenciosamente se seria uma boa ideia apagar o histórico do navegador empanturrado de sites de pornografia. Digitou o usuário e estava prestes a escrever a senha quando se lembrou de que, agora que havia sido demitido (isso é, pedido demissão), provavelmente já não poderia fazer login.
Balançou os ombros. Não fazia diferença. Ele não tinha mais nada a perder. Apertou a maleta com força entre os dedos. Pelo menos agora seus colegas já tinham retomado suas tarefas diárias ao invés de mirá-lo.
Robert suspirou audivelmente e entrou no elevador do andar. O som de dezenas de teclas batendo simultaneamente, o murmúrio de conversas desinteressadas, o cheiro forte de café queimado vindo da lanchonete do prédio, as paredes cor de pérola... ele não sentiria falta de nada daquilo e nem de ninguém. Talvez de Beth, a estagiária que compensava sua falta de coordenação com um belo par de pernas bronzeadas e um sorriso aconchegante. Mas Beth estava com a testa apoiada em cima de sua mesa, o cabelo bagunçado escondendo seu rosto. Provavelmente estava dormindo. Caramba, será que ninguém trabalhava direito nessa porcaria de jornal?
As portas do elevador se fecharam lentamente e ele se encostou à parede de olhos fechados para conter a gargalhada demente presa em sua garganta. Uma música irritante de elevador começou a tocar.
O sol já estava se escondendo entre os arranha-céus de Electric City quando Robert botou os pés no asfalto pegajoso e transbordando de transeuntes. O céu estava pintado em tons de vermelho, rosa e laranja e uma brisa suave soprava no ar. A temperatura estava agradável. Tudo estava bem, exceto pelo fato de que ele acabara de ser demitido pela terceira vez em dois anos e meio e sua cabeça doesse tanto que ele tinha vontade de gritar. É, fora isso, tudo bem.
Olhou para o relógio, que no momento marcava 6:57 pm. O ônibus que parava em frente ao seu apartamento só passaria lá dentro de quarenta minutos.
“Foda-se”, pensou ele irritadamente, “eu vou dar uma caminhada por aí mesmo”.
Sua camisa social cor de sangue, seu terno negro e seus sapatos abatidos talvez não fossem o melhor traje para exercícios. Talvez não fossem o melhor traje para nada, mas tanto faz. A cena do corredor era revista em sua cabeça várias e várias vezes, renovando-lhe a raiva. Pelo menos o exercício acalmaria-lhe os nervos.
Caminhou por aproximadamente meia hora antes de perceber que ele tinha se esquecido de uma coisa. Ele havia se esquecido do fato de que era sedentário e não aguentava caminhar por mais do que meia hora. O calor infernal irradiava em ondas intermináveis. O suor brotava-lhe na testa e descia por seu rosto e pescoço, empapando sua camisa e queimando seus olhos. Seus óculos embaçavam-se continuamente e ele quase atingira um poste sem conseguir enxergar direito. Parou duas vezes durante o trajeto, uma para se abrigar dentro de uma loja de móveis antiquados com ar-condicionado e a outra numa tentativa falha de pegar um táxi que o deixasse em um shopping confortável. Ninguém mandou ficar comendo batatinhas ao invés de sair e exercitar seu corpo.
A vontade de caminhar já havia sumido como se nunca tivesse existido em primeiro lugar. Ele simplesmente queria se sentar em um banco qualquer e encher seu estomago vazio com alguma comida engordurada, mas não queria ir para casa ainda- o mero pensamento de voltar para aquele apartamento minúsculo e porco já era sufocante.
Abriu a carteira. Dentro havia alguns documentos envelhecidos – sua identidade, uma certidão de nascimento, o comprovante do Clube do Billu (e daí que era um clube infantil? Tinha comida de graça uma vez por mês) e uma carteira de motorista completamente inútil para quem não tinha carro, junto com cerca de cem dólares que ele levava para emergências somente. Considerou sua irritação e cansaço como uma emergência e decidiu gastar tudo para tentar se animar. O dinheiro seria suficiente para comer e depois voltar para casa.
À sua frente se estendia uma série de bares e restaurantes que ele provavelmente não tinha condições de frequentar. A única exceção era um pequeno pub no canto da esquina com aparência barata. Era um estabelecimento pequeno, quase escondido, de pintura escura e descascada por onde os tijolos transpareciam como feridas em uma pele. Havia um letreiro em néon verde tremeluzente onde se podia ler o nome “The Cat Pub”. Não havia janelas e a única entrada era um buraco central alto e pouco comprido. A porta não era guardada por nenhum segurança. Aquilo iria servir. Atravessou a porta.
Ao entrar, a primeira coisa que notou foi a iluminação – ou melhor, a falta dela. Havia uma lâmpada no meio do ambiente, fraca, que estava pendurada por um fio escuro em cima de uma mesa de sinuca. Havia mais duas lâmpadas coladas junto à paredes opostas, e uma imensa tela de televisão de plasma lançava luz sobre o balcão de bebidas em formato de “S”. Um forte cheiro de uísque e fritura invadia suas narinas e uma música antiga de rock tocava a pleno volume. Mesas pretas redondas e bancos de metal estavam espalhados pelo recinto, que no total não deveria ter mais de cem metros quadrados, quase todas ocupadas por jovens descolados e bêbados inconvenientes.
Robert andou pelo piso de madeira, o barulho de seus passos abafados pela música, até que se decidiu por um lugar em um canto relativamente isolado onde poderia ter um pouco de paz, privacidade e a oportunidade de observar algumas bundas sem ser perturbado.
Um garçom sorridente lhe estendeu um cardápio e ele deu uma breve espiada, analisando o que é que seu bolso lhe permitiria comprar. Passou os olhos entre sugestões de bebidas, petiscos, sanduiches e serviços extras. O garçom prostrou-se ao seu lado pacientemente e perguntou gentil se ele gostaria de alguma sugestão.
— Uma dose de amargura.
— Perdão?
— Uh... uma garrafa de cerveja e um hambúrguer com uma porção de fritas, por favor.
O garçom assentiu encarando-o confusamente e se afastou após anotar algo em seu bloco, deixando Robert a sós com seus pensamentos.
Sua cabeça ainda doía e ele ainda estava coberto de suor. Encostou a testa na mesa fria, frustrado. O que é que ele iria fazer com a sua vida agora? Como ele iria pagar o aluguel? Por que diabos ele ainda estava com 27 anos e solteiro? Existia alguma possibilidade dele se casar com alguém rico e desesperado que poderia lhe prover um estilo de vida luxuoso em troca de sexo selvagem? Oh Deus, ele já tinha passado de stripper para prostituto de luxo. Não tinha como aquele dia ficar pior.
— Olha só quem está aqui!
Tinha sim.
Robert se virou para a fonte da voz, usando toda a sua força de vontade para não enfiar os óculos dentro de seus olhos até alcançar seu cérebro e se matar. Só conseguia distinguir uma silhueta escura parada à sua frente, mas ele reconhecia o tom. E como ele odiava aquele tom.
Daniel Wilson. Um agora ex-colega de Robert. O queridinho do chefe. Contador de piadas ruins profissional. Babaca do mês, ainda sendo procurado pelo departamento de babacas. Emplacador incessante de seu próprio ego e da sua coleção estúpida de ternos chiques. E, naquele dia, alguém que havia sido dispensado mais cedo do trabalho por “indisposição”. Wilson soltou uma risada afetada e se sentou relaxadamente em uma cadeira do lado de Robert. Oh, não. Oh, merda, não. Ele exalava um forte cheio de bebida e parecia segurar uma garrafa em suas mãos.
— Você não me parece muito doente, Wilson.
— Eu tenho um segredinho pra te contar – a fala de Daniel estava tão embolada que Robert teve que se esforçar para entendê-lo. Ignorando o olhar de repulsa do outro, ele se inclinou perto de Robert e abaixou a voz, sussurrando em tom conspiratório– Eu só inventei isso para sair no trabalho.
— Uma revelação bombástica.
— Mas cara, valeu a pena. Aquele lugar é uma droga suprema. Uma grande bosta. Um lixo.
— Tudo é uma droga, Wilson.
Ele inclinou a cabeça, estudando-o com olhos azuis embaçados. O silêncio se prolongou por alguns milésimos de segundos antes dele estender a garrafa de vodca para Robert, que estreitou os olhos desconfiadamente. Por que diabos ele estava agindo de modo tão amigável? Os dois nunca tinham sido chegados. Seria porque ele estava bêbado? Teria colocado alguma droga ilegal na bebida?
Ah, tanto faz.
— Estou vendo que está precisando disso mais do que eu, amigão.
— Eu já pedi a minha bebida. – respondeu Robert, seco, mas Wilson o ignorou e enfiou a garrafa em sua mão energeticamente. A garrafa estava aberta e seu conteúdo já estava pela metade. Não é a toa que Daniel estava naquele estado.
— Aconteceu alguma coisa? Pode falar para mim. Eu sou todo ouvidos. Quero dizer, não literalmente. Isso seria estranho. É uma metáfora estranha.
Robert hesitou. Uma parte dele queria se levantar e ir embora sem dar mais nenhuma palavra, a outra parte queria contar tudo a ele, mesmo que Wilson fosse um babaca. Talvez fosse bom desabafar a alguém e reclamar da firma e do trabalho. Um estranho senso de companheirismo surge entre os homens quando eles descobrem que odeiam algo em comum. E, aparentemente, Wilson ficava mais suportável quando ingeria álcool. Pelo menos não estava balbuciando nada sobre ternos ainda.
— Eu fui demitido... quero dizer, eu me demiti. Estou desempregado, suado, pobre e sem a menor ideia do que fazer. –admitiu, balançando os ombros.
— Cara, você fez muito bem em ter pedido demissão. – balançou a cabeça em sinal de apoio. — Como eu disse, aquele lugar é um inferno. Só não saio porque me pagam bem e eu preciso de dinheiro para comprar os meus ternos.
Durou tão pouco tempo. Robert gemeu em voz baixa e apoiou os cotovelos na mesa, enterrando a cabeça na palma das mãos. Daniel, ou não percebendo a exasperação do outro ou simplesmente resolvendo ignorá-la, segurou no próprio colarinho orgulhosamente e continuou a falar.
— Sabe, o bom desses ternos de cor cinza médio é que eles combinam com todas as cores de camisas. Você pode usá-los tanto no frio quanto no calor, tanto em eventos formais quanto aquelas festas de crianças com refrigerantes e brincadeiras selvagens onde eles se jogam no chão e parecem exercer rituais satanistas, e mesmo assim continuará apropriado. Deveria comprar um desses, amigão. Essa sua camisa vermelha é, sem querer ser grosso, a coisa mais feia que eu já vi em toda a minha vida.
Talvez ele tivesse morrido e ido para o inferno, onde teria que ouvir discursos enfadonhos sobre ternos pelo resto da eternidade. O calor certamente combinava com as descrições. Levou a garrafa aos lábios e deu longos goles, deixando que a vodca descesse queimando por sua garganta e fazendo o possível para ignorar o recém-iniciado monólogo de Wilson, que agora discursava incessantemente. Felizmente o garçom apareceu naquele momento e murmurou um “com licença” timidamente antes de colocar os pedidos em cima da mesa. Robert pareceu aliviado e Wilson olhou com gula para o prato. Uma cerveja long neck gelada. Dois pães tostados, um hambúrguer de filé mignon grosso entre duas alfaces americanas e cebolas caramelizadas cobertas de queijo cheddar; tudo acompanhado por uma porção generosa de batatas palitos tostadas. O cheiro era delicioso. O estômago de Robert roncou e ele se lembrou de que não tinha comido nada por pelo menos oito horas. Estendeu famintamente a mão para pegar a comida, mas, antes que pudesse alcança-la, Wilson puxou o prato para perto de si e enfiou várias batatas fritas na boca.
— Espero que não se importe. – disse enquanto mastigava. – Estou morrendo de fome. Eu ia pedir comida, mas ao invés disso pedi mais vodca. Sabe como é.
Robert sentiu a pestana de o olho esquerdo latejar e inconscientemente entortou o canto dos lábios num sorriso nervoso que mais parecia uma careta. É, nada de errado. Fora a minha vontade de urinar num pote, colocá-lo dentro de um micro-ondas por cinco minutos e depois atirar o conteúdo escaldante na sua cara, seu maldito filho da puta.
— Está tudo bem, não é como se eu estivesse com fome nem nada do tipo! Pode pegar quantas você quiser, sua pobre, pobre alma. Você merece.
— Eu sei que sim. Finalmente alguém que entende minha dor. – ele fungou alto e colocou a mão engordurada no ombro de Robert, sujando seu terno. — Eu nunca soube que você era um cara tão legal, Robert. Sempre achei que você fosse um imbecil mal humorado.
Robert não respondeu, limitando-se a beber mais vodca. O quanto seria necessário para que tudo aquilo ficasse mais suportável? Esperava que não fosse muito. A garrafa agora já estava quase no fim e o mundo já girava. E ele ainda estava com fome. Empurrou Wilson para trás de leve e pegou seu prato com uma expressão carrancuda.
— Você ficou ofendido? Quero dizer, você não pode me culpar. Todo mundo falava mal de você lá no trabalho. Não era só eu.
— Wilson, você está bêbado. Cale a boca.
— Eu não estou bêbado.
A negação era o maior dos sinais dos bêbados. Juntamente com o cheiro, o comportamento, a garrafa e tudo o mais. Robert mordeu um pedaço do sanduiche e fez menção de se levantar, mas Wilson segurou seu pulso com firmeza e o puxou para baixo.
— Olhe, me desculpe, tudo bem? Não fique bravo. Eu preciso de alguém para conversar. Essa matéria sobre os Assassinatos das Rosas está ocupando demais meu tempo e você é a única pessoa com quem eu converso em horas. Quero dizer, fora o barman. E outras pessoas.
— O quê?
— Eu me sinto solitário, cara. Sozinho, carente. Minha esposa está viajando com minhas filhas na Europa e eu tive que ficar em c-...
— Não, idiota. Quem é Rosa e quem foi que ela matou?
— Quer dizer que você não sabe sobre os assassinatos?
Robert deu outra mordida no hambúrguer antes de balançar a cabeça negativamente. Sentia-se um pouco tonto; o álcool finalmente estava surtindo efeito nele. O nome era levemente familiar. Havia escutado o termo durante o trabalho em conversas esparsas, mas nunca tivera curiosidade de pesquisar o que era. Pensava que se tratava de uma assassina hispânica com o nome Rosa ou coisa do tipo.
— Três dias atrás – disse Wilson com um brilho estranho nos olhos injetados de sangue – descobriram um corpo queimado igual a um peru de natal em uma árvore. Tipo, eu não digo pendurado nem nada, eu quero dizer que o corpo foi empanado... Empanturrado... Empinado... Algo assim em um galho. .Aconteceu no Ciatlin, aquele bairro residencial com um monumento esquisito, sabe? E todo mundo ficou apavorado, porque o Ciatlin é um daqueles bairros pacatos onde a última coisa violenta aconteceu há tipo cinquenta anos quando os cachorros de um vizinho brigaram e todo mundo continua falando disso até hoje. Uma tia minha costumava morar lá antes de se divorciar. Mas como eu estava dizendo... Como eu estava dizendo... Ahn...
Wilson coçou a cabeça, confuso. Robert desceu o resto do conteúdo da vodca em goles rápidos. Seu estomago se contorceu e ele fez um esgar devido ao gosto forte da bebida. Colocou a garrafa em cima da mesa descuidadamente e abriu a cerveja, que já estava quente. Maldição! Mordeu o sanduiche com a fúria de 17 pôneis e cinco hamsters combinados.
— Ah sim! – e Daniel estalou os dedos. – Anteontem, mesmo com alguns carros de policia no lugar, eles descobriram outro corpo queimado no meio de uma rua. Bom, eles não exatamente descobriram. Um carro passou por cima achando que era um saco preto. E, dessa vez, o assassino fez uma estrela de quatro pontas na carne com um objeto cortante.
— Tipo uma faca? – Robert arriscou. A história havia despertado o seu interesse. Ou talvez fosse o álcool atuando.
— Não. Uma faca tem apenas um gume, e pelo o que os detetives que eu investiguei me disseram, as feridas foram feitas por um instrumento cortante de dois gumes.
O que diabos aquilo significava? Robert não fazia a menor ideia. Também ainda não havia entendido porque é que o caso estava sendo chamado de Assassinatos das Rosas se aquilo não tinha nada a ver com flores, nem com uma hispânica de nome Rosa. Fez um aceno de cabeça, pela primeira vez em sua vida incentivando Daniel a continuar a falar.
— E ontem teve outro assassinato. Outro corpo queimado metulado… Melado… Mutelado… depois da morte no bairro.
— Mutilado.
-Isso. O importante – deu um soco na mesa, derrubando a garrafa e um pouco de líquido dos copos e assustando uma menina que passava por perto distraidamente — é que há um serial killer a solta por aí. Ninguém sabe o porquê. Ninguém sabe quem. Ninguém sabe onde. Não, espera, eles sabem onde.
Robert ficou em silêncio enquanto digeria toda aquela informação, juntamente com o resto de seu sanduíche. Em seguida olhou para Daniel, com seus ternos caros, os cabelos loiros ondulados, o rosto angelical e o sorriso presunçoso e tentou entender porque diabos um mariquinha daqueles tinha escolhido escrever sobre um caso tão mórbido. Perguntou em voz alta isso para o outro (ocultando sabiamente a parte dos maricas).
— Porque pessoas gostam de ler sobre serial killers e um artigo bem-escrito sobre o assunto certamente vai me dar algum destaque. – replicou balançando os ombros – Você está desempregado, não é? Tenho certeza de que se você arranjasse algumas informações que ninguém mais sabe você arranjava outro emprego em questão de horas.
— E onde diabos eu vou arranjar isso?
— Se eu soubesse, nós não estaríamos tendo essa conversa.
Wilson deu um riso encarecidamente. Em seguida, parou de rir e soltou uma leve exclamação enquanto enfiava a mão em um dos bolsos, retirando um objeto escuro que Robert reconheceu como sendo seu gravador portátil. Que diabos.
Onde você arranjou isso?
— Eu peguei hoje na sua sala e esqueci-me de te devolver. Você estava dormindo e tudo mais, então não deu pra te pedir permissão. Mas acabou que eu nem precisei usá-lo…
Maldito Wilson! Sempre pegando as coisas sem permissão. Não era a primeira vez que ele fazia isso. Algumas vezes ele “tomava algo emprestado” e os objetos nunca mais retornavam, como se houvessem sido engolidos por um buraco negro.
Espere um momento.
Um rápido flashback passou por sua cabeça. Partes específicas do dia pareciam emergir diante de seus olhos. Ele fechando a porta de seu escritório. A mesma porta aberta horas depois. Sua demissão. A epifania do (parcialmente) responsável por parte daquela porcaria de dia como fogos de artificio em uma noite escura. E uma intensa gana, esvaziando sua mente e intensificada pelo álcool.
— Foi você! – e ele não pode deixar de gritar, levantar-se da mesa e apontar o dedo ameaçadoramente. Wilson encarou-o claramente confuso. – Foi você quem abriu a porta hoje no trabalho!
-Bom, sim… eu tinha que abrir a porta para poder entrar…
Ele deu um sorriso amarelo que desapareceu rapidamente ao notar o olhar de fúria de Robert. Seu rosto empalideceu; a confiança que parecia exalar desaparecera. Estendeu as palmas das mãos na frente do peito em um gesto de rendição e se afastou lentamente.
— Olha, eu posso explicar. Só me deixe ir ao banheiro e eu prometo que eu vou fazer você perceber que isso tudo foi apenas um mal entendido.
Silenciosamente e com a melhor expressão apologética que conseguiu reunir, Wilson se levantou da mesa e desapareceu na multidão em passadas apressadas enquanto Robert o seguia com um olhar carrancudo. E se ele não fosse para o banheiro? E se ele estivesse pagando a conta para ir embora? Talvez fosse melhor ele segui-lo. Espremeu-se entre as pessoas, recebendo algumas cotoveladas, empurrões e insultos que ignorou. Esticou o pescoço e olhou ao redor, procurando pela cabeça loira de Wilson ou pelo menos alguma placa indicativa da existência de um toalete naquele pub dos infernos. Não pode conter um suspiro de alivio ao notar Wilson abrindo uma porta de madeira com uma placa com o símbolo de Marte pendurada em seu centro a alguns metros de distância dele. A explosão de raiva que tivera a pouco começou a lhe pesar a consciência. Talvez tivesse exagerado um tiquinho em sua reação ao se precipitar (apesar de Wilson continuar sendo um babaca e, do ponto de vista de várias pessoas, realmente merecesse um esporro). É, talvez o melhor fosse esperar. Tomar mais alguns drinks. Gastar mais dinheiro. Tudo iria ficar bem.
Cinco minutos se passaram. Talvez ele tenha pegado fila. Sem problemas. Dez minutos se passaram. Pode ser que Wilson tivesse algum problema estomacal, pobre coitado. Quinze minutos se passaram. Ok, agora já estava demorando demais. Vinte minutos se passaram. A paciência de Robert já havia se esgotado. Dirigiu-se ao barman pela incontável vez naquela hora.
— Com licença. Estou procurando um cara loiro, baixo, com um terno idiota e uma expressão irritante de presunção.
O barman lançou-lhe um longo olhar e murmurou algo incompreensível. Acenou para alguém do outro lado do pub. Em questão de segundos, dois brutamontes do tamanho de um pequeno país prostraram-se, cada um de um lado, perto de Robert.
— Ele é amigo do loiro do banheiro.
— Eu não sou amigo dele. O que diabos aconteceu? Ele morreu?
Ele resistiu a tentação de rir do “loiro do banheiro” e concentrou-se em desejar, com todas as suas forças, que Wilson tivesse tido um derrame, um ataque cardíaco ou se afogado em uma privada.
— Bem, não. Ele saiu do pub pela janela do banheiro sem pagar. O que significa, infelizmente, que quem terá que arcar com a conta dele é você.
— Mas por que eu?! Ele bebeu igual a um gambá. Eu nem sei se tenho grana suficiente para pagar a minha conta, quanto mais à conta daquele merda!
Calou-se. Os seguranças não pareciam muito amigáveis. Engoliu em seco. Sua única esperança era que o total não fosse assim tão alto.
Dizem que a esperança é a última que morre. Nesse caso, ela se enforcou numa corda rosa antes de todos os demais.
De nada adiantaram seus protestos, xingos, imploradas e discussões; ele acabou pagando para os dois, e para isso teve que utilizar cada cent que tinha levado consigo. O que significava que não apenas ele tinha sido forçado a favorecer o maior imbecil de todos os séculos mas que também teria que voltar a pé para casa num total estado de embriaguez. Naquele momento, ele achava que não tinha como seu dia ficar pior.
Estava quadradamente enganado.
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