Fantasmas do Natal
2 Fantasma do Natal Passado
Notas iniciais
Dégel estava ali, parado diante de Afrodite, que, por muitos minutos, não soube o que fazer ou falar. Vendo que aquele ruivo atravessava a cama em um levitar compassado, o loiro recuou alguns passos, até encostar-se em um espelho de gelo.
— Aonde pensa que vai, senhor Winston. – o espírito então perguntava. Mantinha os olhos frios sobre o mesmo, até estar a três passos dele.
— Beber água. – o sueco sorriu amarelo, fazendo um “haha” sem a mínima animação sair dos lábios do aquariano.
— Não pode fugir do passado.
— Quem aqui está fugindo? – em um tom quase que pomposo, o loiro cruza os braços e mantém o nariz arrebitado.
— Mesmo? – o ruivo estendeu uma das mãos. O traje victoriano e o jeito sério do mesmo faziam daquele ato quase um convite à dança. – Por que não vem comigo então?
— Porque eu conheço a história. – o mais novo falava com um ar astuto, virando-se para o espelho e mexendo nos cabelos. – Você vai me levar para um lugar onde meu Natal era feliz e logo em seguida, como passei a odiar essa festa.
— Hunm... Não exatamente isso. Vou te levar para uma festa de Natal bem mais divertida e creio que ali sim você passou a odiar algo, mas não a festa. – empurrou o pisciano com o pé em direção ao espelho.
...
Dez anos atrás...
...
A mansão Winston estava decorada com enfeites natalinos em cada ponto da casa. A música clássica tocava enquanto o casal Winston se encontrava na sala, conversando com os investidores de sua empresa.
Era véspera de Natal e os dois estavam mais ocupados em fazer negócios que cuidarem dos próprios filhos, Cardinale, de quatorze anos e Sigvard de doze. Em uma tentativa de fazer o irmão mais novo, o pisciano mais alto inventava alguma tarefa para que o pequeno não e chateasse mais com os pais.
— Vamos! É fácil pegar o quebra-nozes. – comentou o maior, vendo o objeto no alto da estante de casa.
— Que tal subirmos na cadeira e fazer uma escada humana? – o pequeno perguntou em um tom calmo.
— Quer morrer? – o mais velho perguntou em um tom repreensivo, até o soar da campainha.
... ... Os espíritos de Dégel e Afrodite observavam a cena como se ambos conseguissem entender o que estava acontecendo, e o pisciano sabia. Aquele era o dia que sua mente bloqueava.
O dono dos olhos azuis bem claros estava aterrorizado. Não queria ver aquilo de novo. Arrepiava-se só em pensar no que havia feito, mas ao contrário do que era pensado, não havia arrependimentos em seu coração ou qualquer outra parte sentimental.
— Pensei que não se abalaria com nada, Winston. – o aquariano alfinetou e o loiro o encarou com um olhar irritado.
— Não estou abalado, só não me lembrava desse dia. – comentou tenso. – Albáfica vai chegar agora, trazendo os meus... “amigos” e os irmãos deles.
— E?... – o ruivo mantinha um rosto sério, caminhando atrás daquelas crianças. – Vamos, você deve ver isso.
É, ele devia sim, mas Afrodite sabia bem o que aconteceria, só não se lembrava com quem era... ...
— Alba! – o mais novo ia correr e abraçar o irmão mais velho, mas, como de costume, evitou o contato físico, ignorando a criança e indo ver os pais, que acabavam de se despedir dos sócios.
Com o passar dos minutos, o mais novo dos piscianos percebia que a atenção toda iria para os outros e nunca para si. Ele era o caçula, mas a estrela da família sempre foi Albáfica e isso o irritava desde sempre, tanto que Cardinale orbitava o mais velho para receber o que sobrava.
Os amigos dos três estavam presentes. Seria uma festa particular imensa, se não contassem com o temperamento difícil e indócil de Sigvard. O mais novo, sem dar motivos ou pedir permissão, saíra da sala, indo para o andar de cima, esperando que notassem.
— Eles te ignoram e você faz isso? Mas é uma anta! – ouvira a voz de Vincenzo, bem perto. – Eres uma anta, Frofro! – deu-lhe um tapa na cabeça, que resultou em um soco no nariz como resposta. – Ae! Caspita!
— Frofro é a sua avó. – rosnou. – Meu nome é Sigvard, eu odeio que me chamem de Afrodite. – resmungou, olhando pro italiano, que murmurava alguns palavrões em seu idioma natal. – O que eu posso fazer? Mesmo que eu apronte, eles só vão perceber amanhã.
— Quando Mani e Death estão juntos, geralmente não sobra mesmo atenção pra mim. – deu de ombros. – “Sigu” o que acha de fugirmos? – o canceriano comentou. – Ainda é cedo e dá pra fazer isso.
— É, mas o Alba sempre sabe onde me encontrar. – o loirinho comentou com um ar decepcionado.
— Não é pra sempre, a gente só vai dar uma volta.
E era isso mesmo o que fizeram. Saíram pela porta dos fundos e seguiram em direção a cidade, que não ficava longe. Via a sombra de alguém indo atrás desde que pisaram fora da mansão, mas eram duas crianças que gostavam de brincar e aprontar.
No meio do caminho, começaram uma briga intensa de bolas de neve, gargalhando, enquanto nem mesmo notavam que seguiam para uma rua muito deserta e conhecida por ser ponto de desova de corpos.
— Vincy, acho que não deveríamos estar aqui... – o loirinho se agarrou ao braço do canceriano.
— Está com medo, Sigu? – o outro falava em um tom ameaçador. – Ha! – gritou, assustando o pisciano, que correu para um beco. – Não fuja do Death Mask! Haha! – o outro correu atrás, enquanto aquele que os seguia fizera o mesmo... ...
— Não! – o loiro gritou, tentando chamar a atenção dos pequenos que corriam. – Voltem! Não! Não! – o coração disparava enquanto o ruivo recostou na parede, encarando como se nada estivesse acontecendo. – Dégel! Pare-os! Você... Você...
— Pra quem não se abala... Você me parece bem preocupado. – comentou o aquariano, observando a agitação. – O que vem a seguir, Afrodite?
— Dégel! Tire-me daqui! Vai acontecer uma tragédia! – agarrou o braço do aquariano. – Ninguém gostaria de ver o que eu vi naquele dia! Tire-me de lá! Agora!
— Você, você e você... Acho que se não estivesse ocupado demais invejando seu irmão e pensando só em você, creio que nada disso teria acontecido, não acha?
— Sim, mas...
— Não tem mas, nem meio mas. – comentou. – Apenas assista... ...
Enquanto o italiano entrava naquela lixeira procurando Afrodite, ouviram vozes estranhas. Algo como “Largue-me” e “O que pensa que está fazendo?” ao lado de fora. O loirinho reconhecia aquele tom autoritário e também o rosnado irritadiço.
— É o Alba... – sussurrou para o amigo. – Ele tá aqui.
— Ele seguiu mesmo a gente. – falou no mesmo tom. Ergueu a cabeça e viu um homem de cabelos longos e brancos imprensar o irmão do pisciano contra uma parede e começar a arrancar as roupas do mesmo. Foi quando abaixou de novo. – Sigu, não olha!
Era tarde. O pequeno observava tudo de um buraco imenso que no lado da caçamba. Ouvia os pedidos do irmão para que aquele homem parasse e sabia que poderia simplesmente sair dali e bater no mesmo, já que, apesar de pequeno, era forte e tinha a ajuda do amigo.
— Vamos! Dá pra gente sair e...
— Shiii... – o pisciano fez com o dedo. – Vamos ficar quietos. – comentou. – Aqui cheira mal, mas não somos bobos. Se aquele cara tiver amigos, estaremos encrencados. – o outro assentiu, mesmo sabendo que não havia ninguém naquela região além deles.
Cerca de meia hora depois de que tudo havia terminado e o pequeno pisciano presenciara o estupro do irmão mais velho, saiu daquele esconderijo, acordando Vincenzo. Albáfica estava em choque no chão e nem mesmo assim, o mais novo teve consideração.
— Ajude-me Sigvard... – sussurrou, erguendo uma das mãos.
— Agora eu existo? – perguntou. – Estou fedendo... Mas ainda sou puro. Você é sujo. Não toque em mim.
— Sigu, isso é cruel da sua parte e... – o italiano ia passar um sermão, mas fora puxado pelo loiro.
— Quieto, Vincy. – olhou pra trás. – Feliz Natal, Alba. – falou em um tom sarcástico.
...
Foi então que Dégel, enfim mudou a expressão de nula, para perplexa. Já naquela idade aquele loiro não era boa coisa, então por que tentar mudar daquele jeito?
— Você podia ter salvado o seu irmão e não fez nada? – o aquariano se irritou, formando uma ventania gelada perto de si, enquanto o pisciano abriu um sorriso maldoso. – Você fingiu?!
— É, fingi. Eu realmente fiquei com peninha do Albáfica, mas passou. Depois disso, ainda me fiz de traumatizado e ganhei a atenção que eu queria. – mexeu nos cabelos. – E daí? Aquilo não foi nada, Alba sempre dramatizou demais.
— Talvez ele realmente não seja tão promíscuo quanto você...
... .... .... ... ~ De volta ao quarto... ~ ... ... .... ...
E adiantava falar? Afrodite não conseguia sentir piedade do irmão mais velho. De volta ao quarto, o Fantasma do Natal Passado parecia irritado e realmente perplexo. Inveja. Afrodite tinha omitido socorro por pura inveja.
— Arderá no inferno, Afrodite! Uma pena meu tempo estar se esgotando com você... Ou veria o que eu faço com seres asquerosos e mesquinhos. – o aquariano não se conformava.
Em uma rajada de gelo, jogou o sueco na cama e o deixou como antes. Adormecido, estado que não durou muito.
O loiro, achando que tudo aquilo novamente foi um sonho, levantara-se e ligou a luz, vendo o quarto perfeito como sempre esteve. Parou diante de um espelho e observou-se. Achava-se lindo e com formas perfeitas. Ainda era “puro” como gostava de falar e com sinceridade, não se importava tanto com o que diziam as críticas...
“Mas então, por que aquele olhar do Albáfica me deixa tão triste?”
Talvez porque o Fantasma do Natal Passado, enfim, cumprira sua missão.
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