Fantasmas da noite
1 Capitulo Único
A arma dispara.
Pá!
Pá!
Sergio sente em seus ossos. O som estrondoso dos tiros ecoando em sua cabeça, reverberando nas paredes frágeis de seu coração.
Ele acorda de sobressalto, um suspiro ofegante morrendo em seus lábios, seu coração prestes a pular para fora de sua garganta, como se estivesse tentando escapar de seu corpo e da violência dessas memórias.
O quarto se encontra banhado pelo luar, uma brisa quente fazendo as cortinas de tecido diáfano dançarem junto a janela aberta. Ele fecha os olhos, ainda tremendo, sua respiração ofegante.
Raquel se mexe ao seu lado na cama, ressonando suavemente.
E de repente ele consegue respirar novamente.
O alívio toma conta de todo o seu corpo, o suficiente para deixá-lo nauseado quando misturado à adrenalina que ainda pulsa em suas veias.
Ele olha para ela e parece impossível.
Tê-la tão perto.
Tê-la, ainda.
Ele sempre foi um homem de ciência e lógica, planos, cálculos e esquemas, fatos e números.
Até que ela entrou em sua vida, cheia de determinação e ardor, derrubando cada partícula de certeza, infundindo seu mundo com calor e cor.
Os olhos de Sergio percorrem seu corpo, se atendo a cada detalhe, deslumbrado por seus cabelos sedosos espalhados sobre os travesseiros, suas curvas mal cobertas pelos lençóis emaranhados, sua pele macia beijada pelo sol e dourada.
O peito dela sobe e desce em um ritmo suave, e só de olhar para ela, tão preciosa e de alguma forma incólume, Sergio não consegue deixar de sentir como se estivesse testemunhando nada menos que um milagre.
Ela está ali, seu corpo rumorejando com sinais de vida, tangível e real, perto o suficiente para tocar.
A mão dele, compelida por uma força irresistível, vai ao seu encontro, trêmula com antecipação. O ímpeto de tocá-la é avassalador, e as emoções que florescem em seu peito são uma mistura inebriante de assombro, admiração e uma poderosa atração.
Sob seu toque, ainda que breve e leve como uma pena, Raquel reage.
Como se guiada por uma atração magnética mesmo em meio às brumas de um sono profundo, seu corpo busca o dele, moldando-se em um encaixe perfeito, dissipando qualquer semblante de distância entre os dois.
Sergio fecha os olhos, saboreando seu calor enquanto este se espalha como um incêndio onde pele encontra pele, incinerando suas defesas, exorcizando seus fantasmas, transformando seus temores em cinzas.
Tão perto.
Ele esteve tão perto de perdê-la.
Na beira de um precipício ele tropeçou, o som dos disparos o atingindo em cheio, fazendo com que ele perdesse o chão, obliterando sua vontade de seguir, deixando-o em ruínas, atordoado e vazio.
Tão perto.
Tão perto Raquel se encontra agora, que cada respiração dela parece encher seus próprios pulmões de ar e a doce sinfonia de seus suspiros e murmúrios o aproxima de um estado de graça, afastando o gosto amargo de suas memórias mais sombrias.
Sergio jamais alegou conhecer o amor.
Linhas escritas em livros e poemas não passavam de conceitos abstratos e estrangeiros. Aquele sentimento que seu irmão tantas vezes descreveu em discursos apaixonados sempre lhe pareceu exagerado e despropositado.
Ele não necessariamente desacreditava sua existência; havia claramente muitos relatos sobre isso ao longo da história e do tempo para que fosse um caso de histeria coletiva. Mas o próprio conceito parecia tão absurdo para ele quanto as teorias que giravam em torno da construção das Pirâmides ou Stonehenge.
E ainda assim.
Levando seus lábios ao seu ombro nu, ele inala o cheiro familiar dela, se permitindo apreciar a onda de afeição e desejo que permeiam seus sentidos.
Como poderia esse sentimento ser qualquer outra coisa?
Mesmo os mais belos sonetos já criados pelo homem — de Shakespeare a Neruda — empalidecem em comparação às emoções que ele experimenta simplesmente por estar ao lado dela.
"Cariño", a voz dela – rouca de sono – é pouco mais que um sussurro, mas captura seu coração com força incomensurável.
Com os olhos ainda fechados, a mão de Raquel vai de encontro ao seu rosto, gesto que Sergio recebe de bom grado, instintivamente pressionando um beijo na palma de sua mão. "Pesadelos?"
Ele sente as palavras presas em sua garganta e não consegue se forçar a expeli-las – com medo do que mais possa vir a transbordar escapando ao seu controle.
Em vez disso, Sergio oferece um leve menear de cabeça em uma tentativa silenciosa de aliviar suas preocupações. "Você deveria voltar a dormir", a voz dele ressoa contra sua pele, fazendo-a estremecer.
Ele deveria saber melhor.
Raquel se volta para ele, se aconchegando em seu abraço, seus olhos se ajustando aos tons suaves do que logo será o amanhecer, uma expressão inquisitiva cruzando suas feições enquanto as pontas dos dedos dela deslizam sobre as linhas de seu rosto.
Olhos castanhos – agora inteiramente despertos – o estudam atentamente, desvendando tudo o que permanece não dito sem qualquer esforço, lendo-o tão facilmente quanto tinta no papel.
Ela franze a testa e ele se sente exposto sob seu olhar, incapaz de esconder sua turbulência, de protegê-la de suas fraquezas e temores.
Raquel o enxerga por completo, de maneiras que ninguém jamais fez.
E por alguma razão — algo que Sergio não consegue entender apesar de seus melhores esforços — o que ela encontra nas profundezas cruas de sua alma não a faz se afastar; ao contrário, parece apenas atraí-la para mais perto, borrando as linhas de onde ele termina e ela começa.
Perdendo-se em seus olhos, ele se pergunta como conseguiu viver tanto tempo sem uma parte tão fundamental de si mesmo. E com os sons de tiros ainda ecoando em seus ouvidos e a sombra dessa perda irrevogável pairando em noites como esta, ele sabe com certeza que não seria capaz de sobreviver. Não realmente.
Seu corpo poderia persistir, seu coração ainda batendo, mas Sergio nunca mais seria inteiro, apenas ruínas do que fora um dia — como os restos de uma civilização perdida desenterrada em um sítio arqueológico. Toda a vida que ainda lhe resta resumida a pó.
Com delicadeza o polegar de Raquel roça seus lábios; um único toque seu o suficiente para trazê-lo de volta das profundezas de seus pensamentos.
O efeito que ela tem sobre ele é arrebatador — uma mistura incongruente de magnitude aterradora e desejo insaciável. Os olhos de Sergio se arregalam e ele inala bruscamente, esforçando-se para controlar suas emoções. Raquel, no entanto, tem outras ideias.
Com intenção indisputável, sua mão desliza pela curva de seu pescoço, dedos afundando em seus cabelos; unhas roçando seu couro cabeludo, guiando seus lábios para mais perto de sua boca ávida.
Quando os lábios dela encontram os dele, o gosto dela acende algo profundo dentro dele — uma chama alimentada por uma repentina onda de oxigênio; O mundo ao redor deles cai em esquecimento, e Sergio perde toda a capacidade de pensamento coerente, rendendo-se ao ímpeto de explorar o calor de sua pele e engolir por inteiro cada suspiro e gemido seu.
Cerrando os olhos em uma tentativa de não se perder por completo, Sergio abre mais os lábios, acolhendo sua língua provocadora. O arquejar de Raquel e o gemido longo que ela entoa em retorno é o suficiente para dissolver qualquer vestígio de sua contenção, levando Sergio a se perder nela por completo em vez de em seus próprios pensamentos.
No silêncio do quarto, Sérgio sente seu coração acelerar, cada pulsação sua errática, o súbito fluxo de sangue ecoando em seus ouvidos, deixando-o tonto e atordoado. Seu toque antes gentil se torna firme, dedos cravando em sua pele como se estivesse se ancorando a ela. Raquel sorri contra seus lábios, e então aprofunda o beijo, mordendo levemente seu lábio inferior, saboreando seu gosto familiar, provocando um gemido ofegante.
Então, tão repentinamente quanto começou, Raquel interrompe o beijo, os olhos escuros nunca deixando os dele enquanto ambos arquejam tentando recuperar o fôlego. Ela inclina a cabeça ligeiramente, os olhos se estreitando como se procurasse por algo.
Sergio, confuso quanto à intenção dela, espelha sua expressão. Mas se sentindo constrangido sob a intensidade de seu olhar, ele é o primeiro a ceder.
"O quê?", ele murmura com um lampejo de desconforto cruzando suas feições.
Ela murmura suavemente, segurando o rosto dele em suas mãos. Sua expressão muda assim que ela parece encontrar o que estava procurando.
"Aí está", ela sussurra, plantando um beijo doce em seus lábios, satisfação fazendo seus olhos brilharem. "Só você."
A testa de Sergio franze sem que ele consiga disfarçar sua confusão. Ela solta um longo suspiro, sabendo muito bem que ele não será capaz de simplesmente deixar para lá.
"Eu só queria ter certeza", ela oferece simplesmente, passando os polegares sobre as covinhas que adornam seu rosto.
A expressão dele permanece em branco. Raquel dá de ombros, "você sabe, me certificando de que os fantasmas não estão mais aí."
A compreensão irrompe no rosto de Sergio, levando-o a esquivar os olhos, incapaz de encarar Raquel.
Por mais que ele tenha tentado manter algumas coisas para si mesmo, não querendo sobrecarregá-la com mais de seus problemas, é claro que La Inspectora não deixaria passar.
Foi estúpido da parte dele até mesmo tentar.
Ela acaricia sua barba, esperando pacientemente por sua reação.
"Sinto muito." Ele diz; sua expressão derrotada.
Raquel aperta os olhos para ele. Deve ser a coisa errada a dizer.
Ela balança a cabeça, certificando-se de que está dentro de seu campo de visão quando diz: "Mi amor, você não tem nada pelo que se desculpar."
Ele bufa, os olhos úmidos apesar de seus melhores esforços. Mas a voz de Raquel fica mais incisiva, rejeitando sua autocensura.
"Sérgio, eu estou falando sério", ela se inclina até que suas testas se toquem e com os olhos fechados e toda a sinceridade que ela consegue reunir, ela insiste, "Você nunca precisa se desculpar."
Ela o beija suavemente, como se para enfatizar suas palavras, afastando qualquer resquício de dúvida. "Não por isso."
Sergio assente calmamente, puxando-a para seus braços e beijando sua têmpora.
Ele não tem certeza de quanto tempo eles ficam assim, próximos o suficiente para sentir as batidas de seu coração, encontrando consolo nos braços um do outro.
Quando finalmente consegue encontrar sua voz novamente, parte sua quase espera que ela tenha adormecido.
"Obrigado", ele sussurra em seu cabelo, depositando um beijo enquanto a puxa impossivelmente para mais perto e os primeiros raios de sol tingem o céu, afugentando a noite.
Raquel aninha o rosto na curva do pescoço dele, sua mão traçando padrões invisíveis em seu peito.
"Sempre que quiser." Ele a ouve dizer, a voz abafada contra sua pele.
"Você tem métodos interessantes." Ele comenta com um leve sorriso. Embora não consiga ver, ele ainda sente o sorriso dela contra seu pescoço.
"Você gostou disso, não é?"
"Claro que sí,” ele admite, deslizando a mão pelas costas dela para brincar com as pontas de seu cabelo.
Ela sorri e então pressiona um beijo de boca aberta na pele sensível logo abaixo de sua orelha. Sergio estremece em resposta, sua pele irrompendo em arrepios.
"O que... para que isso?" Ele gagueja, sentindo o sorriso dela aumentar.
"Só para ter certeza de que tenho mais armas no meu arsenal", ele sente o nariz dela acariciando sua barba, a mão dela deslizando sobre o peito dele, suas unhas arranhando a pele sensível ao longo do caminho. "Nunca se sabe quando e onde elas podem ser necessárias." Ela comenta, pressionando um beijo na curva de seu maxilar.
"Bem, talvez eu possa ser de alguma ajuda", ele murmura, pouco antes de ter seus lábios capturados por ela em um beijo fervente.
Com confiança, Raquel monta nele, os lençóis se acumulando sobre seus quadris, expondo sua pele à brisa suave que entra pela janela. Os olhos de Sergio seguem cada movimento seu, hipnotizados pela visão que ela é.
Ele há muito deixou de tentar entender por que, em um mundo cheio de injustiças, a ele foi concedido algo assim — essa mulher, esse sentimento que ele não consegue nem começar a descrever. Embora não seja um homem supersticioso, Sergio só pode atribuir isso à pura sorte, o mais próximo de uma resposta que ele consegue imaginar.
Raquel deve ver isso em seu rosto — na maneira como ele não consegue tirar os olhos dela, como ele não consegue manter as mãos longe, como ela desperta nele algo que ele nunca acreditou ser possível. Um lado seu que apenas ela tem a chance de ver.
Seja o que for, está refletido no brilho de seus olhos, seu sorriso brincalhão e a maneira como ela se entrega ao seu toque.
“Gosto do jeito que você pensa, Profesor,” ela entoa, antes de se inclinar para capturar seus lábios mais uma vez.
Sergio não oferece resistência.
Ela está realmente aqui, ele pensa, derretendo-se em seu beijo.
Sentindo o peso dela em cima dele, uma mão acariciando sua barba, a outra pressionada sobre seu coração, é impossível ignorar o quão real e sólida ela é.
Ela está aqui, e ele também. E embora pesadelos e memórias amargas ainda possam assombrar suas noites, com ela ao seu lado, nenhuma escuridão é capaz de prevalecer.
fim.
Fale com o autor