Fantasmas
5 Fim do Tempo
Notas iniciais
Tempo. O que essa palavra significa para nós? Dizem que o tempo cura todas as feridas e faz com que o passado fique para trás. Mas será verdade? Bom, para alguns até pode ser, mas, como devem saber, nada pode ser apagado, ainda está e sempre vai estar lá. E o que você pode fazer? Você pode fingir que ele não está lá e aprender a conviver com isso, ou pode ser fraco o suficiente para deixar que suas emoções te aprisionem em mundo que só o fará sofrer. Mas, e quando nosso tempo, como todas as coisas, chega ao fim? Será que tudo o que vivemos foi em vão ou será que o fim do tempo é apenas outra de tantas adversidades que temos que enfrentar. Será que quando nosso tempo acaba, todas as nossas memórias se vão, assim, sem mais nem menos? Ou podem ainda ser conservadas, mesmo que você não tenha mais tempo? E os nossos fantasmas? Para onde vão? Afinal de contas não poderão nos assombrar como antes. Mesmo, que não fiquem presos a nós depois, eles ainda podem nos assombrar até o último minuto. Mas são apenas as assombrações que não agüentamos que podem nos visitar ou toda uma vida, com todas as coisas boas e ruins, poderia ser lembrada como se passasse um filme na nossa mente? Poderíamos de repente ver uma vida inteira passando diante dos nossos olhos e lembrar de tudo o que carregamos por tanto tempo sem nos dar conta?
–Maravilhosa.- Comentou o senhor Lewis com um leve sorriso.
–Obrigada senhor Lewis.
–Já disse que pode me chamar só de Michael.- Sorriu.
–Desculpe. Então, como está se sentindo Michael?
–Bem, por enquanto...Não é fácil ser um velho.- Brincou, Margaret deu um leve sorriso.
–E a sua tosse?
–Praticamente na mesma.
–Entendo...Sua enfermeira me disse que hoje não queria tomar os remédios e que queria sair.
–É, você me pegou.
–Michael...- O repreendeu.
–Em minha defesa foi por uma boa causa.
–Ah é?- Arqueou uma sobrancelha.
–Não quero passar meus últimos dias enfurnado em um quarto.
–O senhor tem que se cuidar.
–Eu quero aproveitar enquanto ainda posso, afinal, não quero que minha última lembrança sejam as paredes brancas e o silêncio.- Ela assentiu, não podia contestá-lo quanto a isso. Afinal, quem quer passar o tempo que lhe resta deitado em uma cama de um asilo enquanto escuta os ecos da morte chamando seu nome? Houve um pequeno silêncio.- Você lembra minha filha. Bonita, delicada e forte.- Sorriu, Margaret sorriu de volta.
–Ela deve ter sorte de ter alguém como você.
–Não a vejo muito, assim como meus outros filhos.
–Por quê?
–Ela é arquiteta e está morando na Inglaterra, mas me liga bastante.
–E seus outros filhos?
–O mais velho mora na Califórnia, por isso só pode vir de vez em quando, e o mais novo mora aqui, mas também só vem às vezes. Eles têm trabalho e família para cuidar, só vêm quando têm tempo...Mas sabe, semana passada eles me fizeram uma surpresa, todos eles vieram juntos me ver e passaram a semana inteira comigo.- Sorriu.- E enquanto eles não estão aqui eu tenho você.- Margaret segurou sua mão.- Deveria vir mais vezes.- Pediu sorrindo.
–Se o senhor insiste, não vejo por que não.- Sorriu, Michael se entusiasmou, abrindo mais ainda seu sorriso.- O que é isso?- Perguntou pegando a foto que Michael carregava.
–É uma foto minha e da minha esposa, meus filhos me trouxeram. Fazia tanto tempo que eu não via essa foto, nem me lembrava mais dela.
–Sente muito a falta dela?
–Ás vezes.- Suspirou.- Mas eu gosto de lembrar dos momentos felizes que tivemos. Mesmo que ela não esteja aqui eu ainda me lembro de tudo o que passamos. De como a conheci, de quando nos casamos, ou quando tivemos nossos filhos.
–Gosta de se lembrar do passado?
–E por que não gostaria?- Disse intrigado.
–Não sei...Talvez porque...existam coisas que possam te decepcionar.
–Por mais que o passado possa doer às vezes, nós temos que aprender a viver sem que ele nos atrapalhe. Eu, por exemplo, me lembro de tudo o que passei, cometi erros, sofri, mas também, acertei e fui feliz.- Margaret o olhava atentamente.- Você não pode ficar sofrendo e deixar de lado uma parte da sua vida por causa de algo que aconteceu no passado, eu sei que é difícil, mas você deve tentar.- Margaret sabia exatamente do que ele estava falando, já conhecia Michael o suficiente para poder desabafar de vez em quando.
–Com licença.- Pediu a enfermeira entrando no quarto.- Sinto muito, mas o senhor Lewis precisa descansar agora.
–Não pode nos dar mais alguns minutos?- Pediu Margaret.
–Sinto muito, mas minha chefe não vai gostar que eu prolongue os horários de visitas.- Explicou.- Mas a senhorita pode vir amanhã, posso deixá-la ficar o tempo que quiser.- Sorriu.
–Feito.- Se levantou sorrindo.- Quer que eu o acompanhe até seu quarto Michael?
–Não querida, ainda posso andar.- Brincou.- É melhor você ir pra casa descansar.
–Claro.- Começou a caminhar até a porta. De repente parou e se virou.- E Michael...Obrigada.- Ele assentiu sorrindo.
...
Michael se deitou em sua cama e ficou ali lendo um livro que sua filha havia lhe mandado da Inglaterra. Michael se lembrava avidamente do rosto de sua bela filha Samantha, especialmente seus belos olhos azuis, cujo quais herdara de sua mãe. A jovem sempre lhe telefonava e mandava presentes, e vez ou outra vinha visitar o pai. Seus outros filhos, Joseph e Patrick vinham vê-lo de vez em quando, Joseph que era advogado na Califórnia não tinha tempo sempre para viajar para ver o pai, apenas algumas vezes por ano, talvez Patrick fosse o que conseguisse ver Michael com mais freqüência já que trabalhava em uma empresa em Nova Iorque.
Michael tinha tantas lembranças de seus filhos, de sua infância, dos sacrifícios que fez para criá-los, dos problemas com a adolescência, tantas memórias boas.
A esposa de Michael havia morrido alguns anos antes, as memórias que ele tinha dela eram dos momentos alegres que tiveram, de como se conheceram em uma biblioteca, do seu casamento em Chicago, todos os momentos que teve ao seu lado.
Os fantasmas de Michael o visitavam freqüentemente, mas não era de todo mal, afinal, ele se recordava dos momentos bons, de tudo o que aprendeu, de tudo o que teve que passar para ir atrás de seus sonhos, dos erros que cometeu, das dores que sentiu, de tudo o que amou e ainda ama, e essas lembranças mesmo que tivessem momentos não tão agradáveis, faziam Michael relaxar, e pensar em como não mudaria nada do que viveu. Ele adorava essas memórias, pois eram sua vida. Mesmo que soubesse que não duraria para sempre, ele sabia que suas lembranças seriam eternas.
Michael fechou o livro e se ajeitou na cama. Sua saúde não andava boa nos últimos tempos, mas ele não se importava. Ele não mudaria nada do que viveu, não queria esquecer nada. Sua vida então começou a passar em sua mente como um filme, um filme espetacular, o qual ele adorava. E enquanto aquelas imagens passavam, ele se via feliz. Finalmente fechou seus olhos para poder descansar pelo resto da eternidade, onde viveria suas melhores lembranças.
Todos nós temos fantasmas que nos assombram com nossas memórias do passado, mas poucos sabem contornar as más lembranças e ver tudo o que já foi vivido e que lhe causou bem. Muitos não conseguem deixar para trás o passado e abandonar a dor, para só assim conseguir seguir em frente. Muitos não aceitam o que aconteceu, mas sabem que sempre há uma solução. Outros se culpam por tudo o que aconteceu e não conseguem esquecer, até que consigam enxergar que não é tarde para se redimir. Alguns se prendem ao passado e não se deixam viver a felicidade que tanto querem, por não aceitarem os fatos e não reconhecerem que merecem uma segunda chance. E outros abrem as portas alegremente para que seus fantasmas tragam de volta sua Vida, tragam de volta tudo aquilo mais se preza, não se pode deixar sua vida para trás, não se pode apenas focar em um lembrança quando existem várias outras que como um todo compõe a essência do seu ser.
Quando as sombras do passado insistem em nos perseguir, não adianta tentar fugir, elas sempre vão estar lá. Mas depende de você fazer com que elas não sejam apenas fantasmas desagradáveis, mas sim doces brisas que sopram em sua mente a parte boa de sua vida.
***
Memórias
Não são só memórias
São fantasmas que me sopram aos ouvidos
Coisas que eu nem quero saber.
Memórias – Pitty
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