Notas iniciais
Olá.
Desculpe a demora. Eu deveria ter postado ontem, mas tive um bloqueio dos sérios. Eu sei que o capítulo está pequeno tambem, mas é que foi o melhor que eu pude fazer. Eu quis focar mais na relação do Lukas com o Emil tambem, por isso não tem muito Mathias. Mas vamos resolver isso em breve.
O nome do capítulo é a palavra spøkelse que significa "fantasma" em norueguês.
Boa leitura~~

Ele sempre penteava o cabelo de modo que eles ficassem bagunçados. Os fios loiros caíam para todos os lados possíveis, de alguma forma isso o fazia parecer ainda mais com uma criança e, afinal, será que ele realmente penteava os cabelos? A imagem de Mathias, acordado de manhã cedo, tentando parecer-se o máximo possível com algum cientista maluco fazia muito sentido em sua cabeça. Os olhos dele eram muito vivos, tinham um azul límpido de um céu que ele nunca vira. Era admirável como ele conseguia demonstrar alegria e sorrir enquanto fazia algo tão banal quanto varrer o chão. Ele tinha um porte médio, era alto e parecia ser relativamente forte. Não tinha como não notar a beleza do dinamarquês.

Lukas bateu sua cabeça contra o balcão, censurando-se pelos pensamentos que corriam pela sua cabeça. Não era nada além do comum; mera curiosidade. Mas a simples ideia de permanecer por mais um segundo que fosse devaneando sobre a aparência ou qualquer coisa a respeito daquele idiota era inaceitável. E ele também era muito estranho. Desde que havia revelado sobre Emil, apesar da reação inicialmente espantada e de ter dado sua cota de gritos, ele agiu normalmente. Isso o irritava profundamente. Já não bastava a frustração que sentia em relação a si mesmo por tê-lo contado a respeito, ainda precisava ver aquele estúpido agir como se não fosse nada demais. Era como se estivesse zombando dele indiretamente; como se fizesse piada.

– Você está bem, Lukas?

Ouviu o tom levemente preocupado, porém curioso, de Mathias ao mesmo tempo em que ele parou de varrer, deixando a vassoura de lado.

“Cale a sua maldita boca volte ao seu maldito trabalho!”

Pensou seriamente em responder algo nessas linhas. Mas lhe ocorreu que ele não calaria a boca. Ele nunca calava. Optou então por dizer algo que não prolongasse o diálogo.

– Sim.

O dinamarquês não pareceu comprar a resposta, franzindo o cenho e parecendo ainda mais atordoado e preocupado. Eram estranhas, e provavelmente muito raras, as vezes em que o viam com aquela expressão. Mas não disse nada e ele tampouco diria algo também. Fitou os pés, começando a se sentir desconcertado com o olhar do outro. Ele só queria ir para casa. Se aconchegar no calor de seu lar com um bom livro. A ideia parecia mil vezes mais agradável do que suportar o silêncio de Mathias – que conseguia ser mais incômodo do que vê-lo tagarelando incessantemente.

– Vou embora.

Suas palavras pareceram despertar o outro de uma espécie de transe, os olhos azuis retomaram ao foco e se fixaram nos seus. Agarrou o braço esquerdo no norueguês em um ato reflexo. Ele sorria novamente.

– Já?!

– O que há com essa reação? O turno já acabou e eu duvido que depois de tantas semanas aqui você ainda não tenha capacidade de fechar a loja por conta própria.

– Certo! – Riu nervosamente, pressionando os dedos no tecido da camisa do outro. – Para onde você vai?

– Casa. E me serviria de imenso favor se você não me seguisse dessa vez.

Livrou-se do aperto em seu braço enquanto proferia as palavras com acidez. Despiu-se do avental e vestiu seu pesado casaco escuro. Abriu a porta e sentiu o vento atingir-lhe a face do lado de fora, olhou rapidamente para outro antes de ir embora. Foi o suficiente para ainda ver um sorriso bobo no rosto dele. Pensou ver um quê de mágoa, mas não parecia exatamente chateado. Sentiu-se um pouco abatido com a ideia de ter causado alguma espécie de mágoa em Mathias. Mas pensou estar fantasiando. Não tinha como algo assim abalar a felicidade sobrenatural daquele idiota. Balançou a cabeça para afastar as ideias, estava perdendo tempo demais concentrando seus pensamentos naquele estúpido para seu gosto.

Só precisava do conforto de uma poltrona, uma bebida quente e um bom livro. Andou distraidamente até a sua casa, quase no modo automático. Girou a maçaneta de sua porta, encontrando a casa coberta pela escuridão da noite. Ligou o interruptor e atirou o casaco de qualquer jeito sobre um cabide para chapéus. Soltou um suspiro fatigado e seu moveu em direção à cozinha.

– Você chegou mais cedo do que eu imaginei.

Estancou no chão com surpresa perante a voz conhecida, percorreu o olhar pela estreita cozinha e encontrou a fonte do som. Seu irmão, como o bom fantasma que era, flutuava em sua forma transparente ao lado de seu pássaro tão vivo quanto o dono. Os olhos lilases transparecendo normalmente a calma, escondendo o temperamento potencialmente explosivo de seus donos. Muito parecido com um vulcão inativo. Parece que nunca vai entrar em erupção, mas você tem a certeza de que pode acontecer quando menos se esperar. Emil sabia ser uma caixinha de surpresas quando queria, não imaginava encontra-lo esperando-o em casa.

– E você me assustou.

Lukas abriu a geladeira, procurando por algo enquanto seu irmão erguia uma sobrancelha em sinal de protesto.

– É mesmo? Não foi minha intenção! E você não parecia nem um pouco assustado pra mim. Cara de nada, como sempre. – ele deu de ombros, assistindo Mr. Puffin limpar suas penas com o bico num processo duvidoso de higiene pessoal. – Bom que eu assusto alguém, ao menos. Que tipo de fantasma eu seria se não o fizesse?

O mais velho puxou uma caixa de leite da geladeira e a colocou em cima da pia. Passou a procurar por alguma outra coisa no armário da cozinha.

– Eu lembro muito bem de que você assustou pessoas o suficiente nessa cidade num nível que vai nos transformar em folclore em algumas gerações! – Ignorou a careta de desgosto que o irmão fez, puxando uma caneca do armário. – Caso tenha esquecido que ninguém anda mais na floresta por sua causa.

– Aquele seu amigo anda.

Emil observou, sentado no ar enquanto balançava suas pernas. O papagaio do mar fez um comentário complementar – algo em torno de “malditos vikings sem cérebro”.

– Você tinha que mencioná-lo? E ele não é meu amigo.

– Não? Ele é... Diferente.

­– Ele é idiota!

– Você gosta dele.

– Não gosto não!

­– Diga o que quiser. Eu sei o que vejo. – O menor fez um bico infantil ao ver a caneca com leite quente nas mãos do irmão. – Não vai me oferecer um pouco?

Lukas passou direto pelo mais novo, colocando a caneca na mesinha da sala e se sentando no sofá.

– Você não come. E não bebe.

– Mesmo assim! É rude não oferecer bebida ás visitas, Lukas.

O pássaro murmurou algo sobre ser incrível e querer um biscoito – ele também não comia, então não receberia biscoito nenhum. Emil foi até a estante de livros do irmão, remexendo nos volumes e puxando os títulos com certa curiosidade.

– Percebe-se que você gosta muito de ler sobre fantasia. – Emil abriu um grosso livro com capa de veludo sobre fantasia. – Essa coisa é enorme!

O mais velho optou por ignorar o comentário, fazendo sinal para que ele guardasse o livro.

– O que você está fazendo aqui?

O islandês flutuou até o sofá onde o outro estava sentado. Ele olhou para o irmão com a sobrancelha franzida, mas com um ar meio brincalhão.

– Eu morri, não vi nenhuma luz do fim do túnel, fiquei preso por aqui e você é a única pessoa com quem consigo me comunicar. Só para constar; a minha vida não passou diante dos meus olhos...

– Hilário! – Lukas tinha um tom de voz sarcástico. – Que bom que você consegue manter o senso de humor em relação á isso. Sabe que não foi o que eu quis dizer. O que você faz na minha casa?

– Você não tem nos visitado faz alguns dias. As fadas estavam particularmente preocupadas, mas você sabe que elas não gostam nem um pouco de vir para a cidade.

– Nem você.

– É verdade. A questão é que você não parece muito bem. Sempre cansado com alguma coisa e aquele sujeito vem atrás de você às vezes... O que é realmente curioso, já que ele não enxerga nada além de árvores, e não aparentar acreditar em nós, ou nada assim. Da última vez ele estava conversando comigo enquanto olhava para o vento!

Lukas soprou a caneca, o vapor quente subiu e desapareceu no ar. Era verdade que Mathias costumava segui-lo até a floresta – tantas vezes em tão pouco tempo que até havia desistido de impedi-lo. Isso era outra coisa que o irritava. Ele agia como se fosse tudo uma brincadeira de faz-de-conta. Isso realmente o estava fatigando até o osso. Sem falar do auto-controle que impunha a si mesmo em não matar o dinamarquês durante o trabalho usando uma tesoura de poda.

– Então veio para me confortar?

– De certa forma...

– Então me chame de bror.

Emil cruzou os braços, fitando o mais velho de esguelha.

– Por que o faria?

– Não importa como olhe isso. Nós somos irmãos. E no final de tudo, é uma questão de satisfação própria. Você disse que estava aqui para me confortar. Isso me confortaria.

– Você é muito velho ficar dizendo essas coisas. Era muito velho para isso até quando eu estava vivo! Não consigo imaginar isso sendo agradável de alguma forma.

– Por que não tenta agora? – Lukas continuou teimando, bebericando o leite. – Tente se estiver se sentindo confortável em relação a isso.

– Eu provavelmente deveria ir agora, não parecia ser uma boa ideia vir aqui desde o começo... – Ele encostou a cabeça no braço do sofá. – Você sabe que eu não vou desistir nunca.

– E você prometeu.

– E eu vou cumprir. Mas apenas quando estivermos juntos do outro lado... Como uma família.

– Parece maravilhoso demais para que aconteça algum dia.

Emil fitou os orbes azuis do irmão com suas ametistas melancólicas. Era sempre nostálgico reviver essa discussão com ele, mas ao mesmo tempo também era doloroso. Ainda era difícil acreditar que o conheceu mais em morte do que em vida.

– Eu sei disso, Lukas. Eu sei disso.



Notas finais
Sei que não ficou lá essas coisas, mas era importante dar um foco maior para o Emil. E o foco nele não termina por aí. O próximo capítulo vai ser um flashback sobre a morte do nosso querido islandês - e vai ser maior tambem, para compensar o tamanho deste. Vou fazer o meu melhor para postar bem mais rapído. Já que finalmente entrei de férias.
Pode ter acontecido de alguém ter ficado OOC. Eu digo isso sempre, mas é que não conheço mesmo os personagens muito bem e morro de medo. Mas sério, me avisem qualquer coisa mesmo - principalmente erros de ortografia, eu não reviso muito bem. Acredito que um review construtivo é o melhor para a evolução do autor~~
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