Fantasia
1 O silêncio que desaba
Notas iniciais
Espero que gostem.
A alvorada chegara camuflada pelo eterno cinza daquela região. Sobre a neve espessa, três garotos andavam com passos longos. Usavam peles e capas, tentando em vão se proteger do vento cortante que havia nas montanhas.
Pararam em frente a uma ponte velha de madeira e ferro. O gelo se acumulava entre as correntes que rangiam cada vez que o vento balançava a velha estrutura. Não parecia sábio atravessá-la.
Um dos garotos gargalhou, o som se perdendo naquela imensidão gelada. Tinha o cabelo comprido e olhos cor de âmbar que pareciam perdidos em sua própria ironia.
- Então é isso? — Jack falou em alto tom — Três anos de procura para encontrarmos uma droga de ponte que nem podemos atravessar?
Os outros dois garotos o olharam. O mais velho deles passou a mão em seu cabelo cacheado, como costumava fazer ao pensar. Tinha uma feição forte e olhos calorosos.
- Sabíamos que não seria fácil, mas decidimos fazê-lo por ela. Deve haver outra passagem.
- Você é um tolo, Sebastian. — Jack sentia-se cada vez mais frustrado — Não há outra passagem! Só a maldita ponte e não podemos atravessá-la!
O ultimo garoto abaixou o capuz e observou a ponte, em silêncio. Seu cabelo era claro e bagunçado, como se tivesse acabado de acordar após um dia inteiro na cama. Apenas um de seus olhos tinha cor, era castanho e parecia brilhar, enquanto o outro era de um azul claro, opaco e sem vida.
- Quem disse que não podemos atravessá-la? — Bernardo se pronunciou após um certo tempo — Nós vamos atravessá-la.
Ele havia decidido. Sabia que ela estava do outro lado, conseguia ouvir o som do coração da garota batendo, e com ela tão perto não podia simplesmente dar meia volta e passar mais três anos procurando por uma forma de tê-la novamente. Era aquela ponte o único caminho.
- Eu posso te ouvir. — sussurrou — Você pode me ouvir também?
Levou a mão até seu coração e concentrou em ouvir o som que ele fazia. Uma brisa fraca acariciou seu rosto, fazendo-o sorrir.
- Eu vou na frente, se tudo der certo, vocês virão logo atrás. — os outros garotos apenas confirmaram com a cabeça, com um semblante sério em seus rostos.
Bernardo caminhou, pisando na madeira coberta de gelo sem hesitar. Percebeu que havia muito barulho em sua volta: um lobo uivava em algum lugar ali perto, a neve derretia com os primeiros raios da manhã pingando em um suave tintilar, a ponte que parecia ranger cada vez mais alto e coração dela... Ele ainda podia ouvir o coração dela. Aquilo o confortava, fazia-o atravessar a ponte sem medo de que pudesse cair.
Já estava na metade do caminho. Podia ver as árvores que se estendiam do outro lado, o castelo de pedra abandonado, as flores que de alguma forma desabrochavam no meio de toda aquela neve...
Virou-se para traz, queria dizer aos amigos que era seguro, que eles podiam vir... Mas então fez-se silencio e ele já não escutava o coração dela. Prendeu a respiração e observou tudo desmoronar, um monte de ferro, madeira e gelo caindo... "Fantasia" foi a única coisa que ele conseguiu pensar enquanto caia.
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