Fantasia

5 Capítulo 5 - Felicidade


Notas iniciais
Nós aqui de novo! Este capítulo ficou maior do que o previsto! xP Demorei pra corrigir tudo (eu demoro pra ficar satisfeita... @.@ Gome ne... >.<).
Dedico o capítulo à Yuuka, que me escreve MPs gigantes altas horas da noite, sonhando com o Kakashi-sensei. xD E, também, a todos aqueles que têm me enviado comentários. Fiz este capítulo pensando em vocês, que são a motivação para que eu escreva. :) Espero que gostem!
Só lembrando que Naruto não me pertence, peguei emprestado de Kishimoto Masashi-sensei. *reverência*

“O amor é a primeira condição da felicidade do homem.”

(Camilo Castelo Branco)


O céu lá fora estava alaranjado com o pôr do sol. Kakashi se encontrava apoiado no parapeito da janela da sala e, ao longe, conseguia ver uma massa de nuvens rosadas que se espremiam no horizonte. A luz da sala já estava acesa e alguns ruídos podiam ser ouvidos, vindos da cozinha. Ele suspirou, sem perceber, ao pegar-se pensando quanto tempo teria que esperar para voltar a Konoha.

O dia fora mais curto do que esperava. Embora, a princípio, não tivesse sido confortável o fato de estar longe do seu mundo, num lugar que nunca tinha ouvido sequer falar, agora ele se sentia, de certa forma, conformado. Desejava muito encontrar um modo de voltar, mas seria paciente. Esta poderia ser uma experiência interessante e, até, divertida.

Olhou para baixo. O trânsito na avenida principal, que cortava o bairro, fluía tranquilamente. Tinha aprendido muita coisa sobre o novo mundo naquele dia. Apesar de ter muitas coisas diferentes, possuía, também, muitas semelhanças com o seu. Mais cedo, havia feito outro interrogatório – amistoso desta vez – e a ruiva respondera a todas as perguntas, sem hesitar. Em geral, foram perguntas sobre o modo de vida naquela cidade, incluindo convenções sociais que ele achava importante saber para, no mínimo, interagir com as pessoas sem chamar muita atenção.

Quando comentou isso com Keiko, ela sorriu e disse:

– Se você não quer chamar atenção, comece tirando a máscara. Vai ser muito difícil passar despercebido com ela.

Kakashi decidiu que deveria ficar esperto com aquela mulher: em um único dia, ela havia feito duas insinuações para que ele descobrisse o rosto. Mal sabia ela, que ele só tiraria a máscara na frente de uma mulher em três ocasiões: a primeira, se ela fosse médica e ele paciente; a segunda, se ela fosse funcionária de algum restaurante que estivesse servindo-lhe um belo prato de ramen; e a terceira, se eles fossem fazer algo mais... Bem, era melhor não pensar nisso agora.

Ele deixou escapar um sorrisinho malicioso. Tinha notado que a jovem ruiva lhe dedicava uma atenção diferenciada e precisava confessar que achava divertido o efeito que suas palavras causavam nela. Sempre que ela dava uma brecha, ele insinuava algo ou fazia alguma piadinha e ela acabava enrubescendo, atrapalhando-se, perdendo a fala e coisas do tipo. E depois, ele fazia cara de inocente, como se não tivesse feito de propósito. Tão típico.

Ele sabia que devia dar prioridade a encontrar um meio de voltar para casa, ao invés de perder tempo divertindo-se com joguinhos perversos, mas a sua situação não era tão ruim. Não estava sob ameaça de morte, não estava sendo torturado ou interrogado e nenhum perigo iminente estava à vista, então podia dar-se o luxo de agir com paciência. No fundo, aquele seria o caminho para obter as respostas que desejava e a mulher de cabelos vermelhos seria a chave para decifrá-las. Mas antes, ela precisava sentir-se à vontade com ele, precisava confiar nele de olhos fechados. Era uma tática suja, ele sabia, e diria, até, perigosa. Mas, apesar de Keiko não ser uma inimiga e não oferecer nenhuma ameaça, no fundo, ele achava que ela lhe escondia algo. E isso, com certeza, ele queria descobrir.

Os barulhos na cozinha cessaram e, pouco tempo depois, Keiko apareceu na porta da sala.

– Sabe, – ela começou – pensei que, talvez, você estivesse a fim de tomar um banho e mudar de roupa. – Disse, tentando soar casual.

Kakashi ergueu a única sobrancelha visível.

– Você está me convidando para tomar banho? – Ele provocou, fazendo seu joguinho pervertido.

Keiko corou na mesma hora.

– Não! Eu... Eu só... – Ela não encontrava palavras.

Kakashi riu baixinho.

– Primeiro você sugere que eu tire a máscara, agora sugere que eu tire a roupa também?

A pele de Keiko assumiu uma cor avermelhada que competia com os seus cabelos. Enquanto ela olhava, incrédula e envergonhada, para Kakashi, ele ria do outro lado da sala.

Ela estava tendo dificuldades para raciocinar. Tudo estava acontecendo tão rápido! De manhã, ela estava amarrada na cama, com Kakashi ameaçando-a de morte, exigindo explicações de como havia sido tragado para esse mundo e tratando-a como uma inimiga. Agora, no fim da tarde do mesmo dia, estava diante de um homem que parecia ser seu amigo há décadas.

Quão lógico era isso? Não tinha lógica nenhuma, ela sabia; além do mais, um personagem de mangá estava, em carne e osso, na sua sala. Havia coisa menos lógica do que essa?

– Eu estava brincando, Aka no Onna. – Ele disse, referindo-se à cor vermelha que Keiko assumia facilmente quando ficava envergonhada, somada ao tom vermelho dos seus cabelos, que faziam com que ela virasse uma “mulher de vermelho”. – Um banho seria bem-vindo, mas, obviamente, não tenho roupas para trocar.

Keiko sorriu, um pouco desconcertada. Ele tinha lhe dado um apelido, ou era só impressão?

Ela forçou-se a voltar à realidade e disse com um sorriso bobo:

– Eu sei... É por isso que pensei, também, em te levar pra fazer umas compras.

Kakashi ficou um tempo em silêncio, parecendo analisar o convite.

– Vamos... – Ela disse, suplicante. – Não vai ser nada demais. Ao que parece, você vai ter que ficar aqui por um tempo, — e ela torcia para que fosse um tempo bem longo — então acho que não vai ser legal você ficar usando a mesma roupa... Uma hora vai precisar lavar! – Ela sorriu e corou levemente, imaginando Kakashi andando pela casa, enrolado numa toalha enquanto esperava as roupas secarem.

Ele fez uma cara de derrota e disse:

– Ok. Você me convenceu antes mesmo de se oferecer pra lavar minhas roupas. – Um sorriso malandro delineou-se por debaixo da máscara.

– Ei! – Keiko protestou. – Eu não me ofereci pra lavar nada!

– Foi o que pareceu... – Ele rebateu, cruzando os braços e encostando-se na lateral da janela. O sorrisinho torto ainda estava ali e Keiko notou seu tom brincalhão.

– Nem vem. – Ela disse, apontando um dedo acusador na direção do jounin. – Eu vou dividir meu apartamento com você e existe uma coisa chamada máquina de lavar roupas bem ali, na área de serviço. Então, cada um cuida da sua própria roupa suja, ok? – Ela estreitou os olhos. – E vou interpretar sua resposta como um sim para as compras. Fico pronta em cinco minutos.

Kakashi observou a ruiva desaparecer no corredor. Estivera, realmente, pensando em dar uma volta para conhecer a cidade e o convite tinha vindo na hora certa. Seria, no mínimo, interessante.

No quarto, Keiko fechou a porta e apoiou as costas nela, sem conter um sorriso. Estava sendo difícil acreditar que seu sonho de ter Kakashi na realidade se concretizara. Não tinha acontecido bem do jeito que ela imaginara – com muito romance “açucarado-até-dar-diabetes” — mas mesmo assim, ter essa certa intimidade, esse ar descontraído entre eles estava sendo bom demais.

Instintivamente, virou-se para mirar o pôster dele, em tamanho real, que mantinha colado na porta; mas a figura de Kakashi tinha desaparecido. No papel, havia apenas o desenho da floresta que figurava como plano de fundo.

Ela fechou os olhos, sentindo uma felicidade há muito esquecida. Não se importava que a imagem em tamanho real do pôster tivesse desaparecido. Agora ela tinha um Kakashi bem real para apreciar...

–x-x-x-x-

O carro deslizou pelo asfalto, quase sem fazer barulho algum. Ele abriu a janela e sentiu o ar da noite acariciar seu rosto; inspirou profundamente. Aquela cidade tinha um cheiro muito diferente do de Konoha. No lugar dos inúmeros aromas das espécies de plantas, ele sentiu cheiro de concreto e fumaça.

No início do trajeto, notou que as ruas eram estreitas e pouco movimentadas, entulhadas de pequenas casas e prédios de todos os tamanhos; mas em pouco tempo, chegaram numa área mais movimentada, com construções maiores, e ele ficou fascinado com a quantidade de luzes. Keiko, eventualmente, apontava para algum ponto e lhe falava algo sobre um monumento ou fato histórico, dando uma de guia de turismo. Ela também respondia às dezenas de perguntas que ele fazia, saciando a sua curiosidade. Estava sendo paciente, afinal, era compreensível que ele tivesse tantas dúvidas. Ela também se sentiria muito curiosa se viajasse para um outro mundo...

Enfim, chegaram a um prédio bastante iluminado, onde propagandas preenchiam praticamente cada centímetro quadrado visível.

– Chegamos. – Ela disse, entrando numa garagem subterrânea. – Este é um shopping, um prédio onde várias lojas estão reunidas num só lugar. As pessoas costumam vir aqui pra comprar coisas, mas, na maioria das vezes, elas só vêm mesmo pra passear e ver outras pessoas.

– Hum... – Ele murmurou. – Deve ser como as feiras que ocorrem nas vilas.

Keiko tinha uma vaga ideia de como seriam estas feiras e achava que elas não pareciam em nada com um shopping, mas preferiu não discordar. Depois de estacionar, desceram do carro e subiram por um elevador.

O shopping estava realmente lotado. Keiko imaginou que as pessoas se assustariam ao ver Kakashi completamente vestido com aquelas roupas chamativas, mas, apesar do mar de cabeças ao redor deles, elas pareciam não se importar muito com um homem mascarado andando no meio delas. Então, a ruiva agradeceu aos deuses, silenciosamente, o fato de cosplayers serem figuras comuns no Japão.

Entretanto, algumas crianças e adolescentes apontavam para o shinobi com ar de admiração, cochichando entre si, e Keiko começou a ficar preocupada que Kakashi se tornasse uma espécie de celebridade momentânea. Já tinha sido suficientemente constrangedor ter Aki comparando-o com um cosplay. Seria pior ainda ter dezenas de pessoas pedindo fotos e fazendo perguntas.

– Vamos entrar nessa loja aqui. – Keiko disse, de repente, puxando-o apressadamente pelo braço para dentro de uma das lojas, a fim de despistar um grupo de garotas que se aproximava perigosamente; todas com câmeras fotográficas nas mãos. Kakashi estava tão admirado com tantas vitrines, que sequer notou.

– Boa noite, – disse uma vendedora, sorridente – posso ajudá-los?

Keiko sorriu de volta e disse:

– Pode sim! – E apontando para Kakashi finalizou: – Temos um guarda-roupa inteiro para encher esta noite.

–x-x-x-x-

Quando Keiko chegou em casa, suas pernas doíam. Tinham entrado em praticamente todas as lojas de roupas masculinas e sapatarias. Além disso, foram duas vezes à praça de alimentação — pois enquanto as sacolas enchiam, seu estômago esvaziava. No entanto, só ela havia tomado ossundaes. Keiko perguntou se Kakashi não estava se sentindo fraco e com fome, mas ele apenas disse para ela relaxar.

Antes de ir embora, passaram em um supermercado para comprar todos os objetos do dia a dia que Kakashi iria precisar: sabonete, xampu, escova de dente e coisas do tipo. No total, gastaram mais de 4 horas fazendo compras.

Para Keiko, aquilo era, definitivamente, um recorde: ela nunca demorava mais do que alguns minutos para comprar suas roupas que, em geral, se resumiam a calças jeans, camisetas de malha e moletons bem folgados.

Kakashi também não era exigente, apesar do bom gosto, e teria se contentado com uma ou duas camisetas; mas a ruiva era exagerada e praticamente o obrigou a voltar para casa carregado de sacolas. Por isso demoraram tanto.

Agora, o sofá estendia-se na frente de Keiko como um oásis no meio do deserto. Largou as sacolas num canto e atirou-se nele, arrancando oAll Stardos pés.

– Estou morta.

Kakashi, ao contrário, parecia que apenas tinha ido à mercearia da esquina após um banho. E foi ele quem teve todo o trabalho de experimentar milhares de peças de roupas, além de carregar as sacolas mais pesadas.

– No meu mundo, chamamos isso de sedentarismo. – Ele falou, empilhando as sacolas num canto da sala.

– Aqui também. – Ela respondeu, sorrindo molemente. Com esforço, levantou-se do sofá. – Vamos levar isso pro seu quarto logo. – Disse, apontando para a pilha de sacolas que se formava aos pés do shinobi.

O quarto de hóspedes estava arrumado e limpo, graças à faxina que eles tinham feito mais cedo. O aposento não era usado desde que Keiko comprara o apartamento e vivia coberto de poeira.

Kakashi aceitou a hospitalidade da ruiva — seria uma boa oportunidade para ficar de olho nela e descobrir o que ela lhe escondia – então, ajudou-a a arrumar o ambiente que agora estava, no mínimo, aconchegante.

– Você quer que eu te ajude a guardar tudo? – Ela perguntou, apontando para os embrulhos aos pés da cama.

– Pela sua cara, só te resta forças para caminhar até seu quarto. – Ele retrucou com um sorrisinho sarcástico.

– Eu só preciso comer alguma coisa, aí terei forças para mais uma rodada de compras. – Ela disse, animada.

– Começo a desconfiar que você come mais do que o Naruto.

Os dois sorriram. Era engraçado ouvir Kakashi falando dos outros personagens do mangá como se também fossem reais.

Keiko arrastou-se até a cozinha, abriu um armário e pegou um pacote de salgadinhos. Depois, foi até a geladeira, abriu uma latinha de refrigerante e voltou para o quarto de Kakashi. A porta estava aberta, então ela simplesmente entrou e atirou-se na cama. O shinobi estava guardando as compras no guarda-roupa e ela ficou observando, enquanto comia.

– Não vai me oferecer nenhum? – Ele disse, apontando para o pacote de salgadinhos.

– Não. – Ela respondeu com a boca ainda cheia. – Essas poucas horas de convivência com você já foram suficientes para me fazer perceber que qualquer coisa que eu te ofereça, faz você pensar que eu quero tirar sua máscara ou suas roupas.

Kakashi caiu na risada.

– Você é perspicaz, Aka.

Keiko fez uma careta.

– Quando você me chama desse jeito é estranho... Parece que está me chamando de “baka”.

Kakashi riu, mais uma vez. Ele precisava admitir: a ruiva tinha senso de humor.

Então, Keiko voltou a ficar quieta, comendo. E Kakashi – que já havia guardado as calças e bermudas – começou a arrumar as camisas e camisetas. Aos poucos, as sacolas vazias iam se acumulando num canto do quarto. Finalmente, ele pegou uma pequena sacola preta e Keiko ruborizou.

Era a sacola da loja de roupas íntimas.

Sem cerimônia alguma, Kakashi jogou todas as peças em cima da cama, aos pés de Keiko. Na mesma hora, o barulho da ruiva mastigando os salgadinhos cessou. Kakashi deu uma risadinha. Na pilha, estavam cuecas, meias e bandanas, que eles haviam comprado para substituir a bandana chamativa de Konoha. Ele começou, então, a guardar as peças em gavetas separadas, deixando, de propósito, as cuecas por último.

– Pronto. – Ele disse, apontando para o conjunto de roupas íntimas espalhado na cama. – Você já pode dizer que viu minhas cuecas.

Se Keiko estivesse comendo, certamente teria engasgado.

– Pervertido. – Ela disse, estreitando os olhos enquanto ele ria.

–x-x-x-x-

Já passava da meia-noite, mas Keiko não estava preocupada com o horário. Ela deslizou até o chão, encostada na parede do corredor, ao lado da porta do banheiro. Suspirou ao ouvir o som do chuveiro sendo ligado, indicando que Kakashi tinha começado o banho. Dobrou os joelhos e passou os braços ao redor deles, com um sorriso bobo estampado no rosto.

Será que aquilo tudo era verdade mesmo? Porque se fosse só uma fantasia sua, podiam interná-la e submetê-la aos mais potentes medicamentos, pois tudo o que sentia era real. Apurou os ouvidos; mas só conseguiu escutar a água caindo. Seu rosto corou levemente ao imaginar Kakashi sob o chuveiro. No momento em que seus devaneios começaram a ficar libidinosos, o telefone tocou.

Ela murmurou algum xingamento grosseiro, amaldiçoando quem interrompia um momento tão sublime, e levantou-se para atender.

– Alô. – Sua voz saiu seca e fria.

– Desculpa por ligar tão tarde... Te acordei?

Era Aki.

– Aki! – Pela segunda vez naquele dia, Keiko sentiu-se culpada por esquecer-se da amiga. — Não, ainda não fui dormir. – Ela respondeu.

–Hmm... – Aki deu uma risadinha safada. – O cosplay ainda está aí, é?

– Ele não é um cosplay! – Keiko sibilou. – A gente precisa ter uma conversa séria. – Disse, ansiosa para contar tudo para a amiga.

Aki deu uma risada gostosa do outro lado da linha.

– Ok, vou fingir que acredito em você, por enquanto, pra não estragar sua fantasia sexual.

– AKI! – Keiko não conteve o grito.

A morena riu do outro lado até perder o fôlego.

– Kei-chan, – ela disse quando parou de rir – amanhã, durante o trabalho, a gente conversa direito, ok? Eu só liguei pra saber se estava tudo bem com você.

– Está sim. – A ruiva respondeu. – Só estou ansiosa pra falar com você.

– Eu imagino que esteja. – Aki disse com um tom pervertido. – Quero saber de todos os detalhes.

– Ai, pelo amor de Kami Sama! – Keiko disse, exasperada.

– Te vejo amanhã, tigresa! – Aki soltou um beijinho do outro lado da linha e desligou.

O barulho do chuveiro ainda podia ser ouvido do banheiro. Levaria algum tempo até o seu ninja favorito sair do banho, então ela ligou a TV e chamou Shippo para subir em seu colo. O cansaço começou a dominá-la e ela acabou cochilando.

–x-x-x-x-

– Keiko? – Uma voz grave chamou seu nome e ela abriu os olhos. As pálpebras estavam pesadas, mas ela conseguiu ver o rosto de Kakashi bem próximo do seu. – Pensei que tivesse morrido. – Ele disse. – Estou te chamando há meia hora; você dorme igual a uma pedra. – Ele deu um sorrisinho.

– Eu não... – Keiko começou a responder àquele comentário, mas parou abruptamente ao perceber que Kakashi estava com os dois olhos visíveis, usando apenas a máscara que cobria o nariz e a boca.

Ela fechou os olhos, apertando-os com força.

– Mas o que você pensa que está fazendo? – Disse, azeda. – Vai usar seu sharingan em mim? Que golpe baixo! Eu sou uma civil e não sei lutar nem briguinha de dedão! Se você me colocasse em alguma espécie de genjutsu, eu não sei se sobreviveria!

Kakashi rolou os olhos.

– Aka, sua baka. – Ele disse, cínico. – Meu sharingan não funciona aqui neste mundo.

Keiko ficou muda, ainda mantendo os olhos fechados.

– Vamos, olhe.

Ela abriu os olhos só um pouquinho. Na pequena fresta de luz que ficou visível, ela mirou, cautelosa, para o olho esquerdo do ninja. No lugar da cor vermelha, típica do sharingan, ela viu um tom escuro de marrom.

Keiko, finalmente, sentou-se no sofá. Kakashi ainda estava abaixado, de frente para ela.

– Que estranho... – Ela murmurou, intrigada.

Inclinando o corpo para frente, ela aproximou o rosto do dele. Os dois olhos pareciam exatamente iguais. A única diferença consistia numa enorme cicatriz vertical no lado esquerdo do rosto do shinobi, que começava na sobrancelha, seguia pela bochecha e desaparecia debaixo da máscara.

– Por que seu sharingan sumiu?

Kakashi percebeu que a pergunta de Keiko foi sincera e aquilo deu ainda mais força para a teoria que havia formulado mais cedo, durante o banho.

Enquanto estava despindo-se, ao tirar a bandana que cobria seu olho esquerdo, ele percebeu que seu sharingan tinha se transformado num olho normal. A constatação, a princípio, deixou-o confuso e irritado. Imediatamente, fez alguns selos com a mão e tentou acumular chakra suficiente para um pequeno jutsu de clones, mas também não conseguiu. Aquilo, definitivamente, havia enfurecido-o.

Sobre o balcão do banheiro, ao lado da pia, havia um hashi de metal que Keiko usava como prendedor de cabelo. Ele pegou o objeto e, facilmente, dobrou-o ao meio. Sentiu um pouco de alívio; ao menos ainda tinha sua força física. Ele esfregou o rosto com as mãos, forçando-se a pensar direito. Havia chegado à conclusão de que a ruiva não parecia, de forma alguma, ser uma inimiga. Ele duvidava que ela fosse uma atriz tão boa a ponto de forjar todos os sentimentos que ele vira transbordar pelos olhos dela durante aquele dia.

Então, uma ideia se formou em sua mente. Era um ponto de vista que ele ainda não havia adotado: e se a ruiva fosse apenas uma espécie de marionete? A pessoa que o havia trazido para este mundo poderia estar se escondendo por trás dela, manipulando os dois. Mas com qual objetivo? Forçou-se a raciocinar sobre isso. Em geral, seus inimigos tentavam capturá-lo para roubar os segredos do sharingan...

Sua mente iluminou-se. Se a pessoa que o trouxera para este mundo tinha como objetivo roubar o seu sharingan, ela havia fracassado, pois seu olho esquerdo estava tão normal quanto o direito. Essa constatação animou-o um pouco e levou-o a pensar em algo mais: se a ruiva era a forma que essa pessoa usava para monitorar Kakashi, então ele precisava mostrar a ela que seu olho não tinha mais poder algum.

Ele sabia que revelar esse fato ao suposto inimigo era o mesmo que baixar a guarda. Mas ele ainda tinha seu taijutsu, sua força física, e poderia usá-la, se fosse necessário.

Foi assim que, depois do banho, ele vestiu uma calça preta, uma camiseta regata da mesma cor, colocou sua máscara e foi até a sala, ao encontro de Keiko.

Achou a ruiva deitada no sofá, ferrada no sono. Chamou-a algumas vezes, mas ela não acordou. Aproximou-se, ajoelhou-se em frente a ela e chamou seu nome repetidas vezes até que, finalmente, ela abriu os olhos, atordoada.

Agora ela o analisava, inclinada para frente, com o rosto bem próximo ao dele, perguntando por que seu sharingan havia desaparecido.

– Eu esperava que você pudesse me dizer algo. – Ele falou, sério.

– Hm... – Keiko murmurou, pensativa. – Tenho uma teoria... – Ela arriscou. – Aqui no meu mundo, as pessoas não têm os “superpoderes” que vocês têm lá no seu mundo. Aqui, ninguém usa chakra pra fazer clones, criar raios, bolas de fogo e coisas assim. Então, acho que esse tipo de habilidade deve ter desaparecido quando você chegou aqui.

Kakashi ficou um momento em silêncio, assimilando o que ela havia dito.

– É uma boa teoria. – Ele disse por fim.

Estava feito. Agora a ruiva sabia que ele não tinha sharingan ou qualquer outro jutsu que envolvesse chakra, então, se houvesse algum inimigo monitorando suas ações, ele também saberia. Um toque delicado e morno na cicatriz da sua sobrancelha esquerda tirou-o dos seus pensamentos.

Keiko estava completamente hipnotizada pela revelação da pele marcada sobre o olho esquerdo de Kakashi. Sem pensar muito, esticou a mão e tocou o rosto dele. A cicatriz destacava-se da pele clara, num tom levemente mais escuro. Keiko deslizou os dedos sobre ela, sentindo o relevo sutil que formava.

Seus dedos foram descendo mais, tocando na pálpebra, passando por ela, chegando à bochecha e, por fim, à borda da máscara.

Ela fitou os olhos do ninja e percebeu que ele a encarava de volta.

– Ah... Me desculpe. – Ela disse, sem jeito e corando, afastando rapidamente a mão.

Kakashi levantou-se e sentou-se ao lado dela. Depois de alguns segundos de silêncio, ele disse:

– Por que existem tantas fotos minhas espalhadas no seu apartamento?

Keiko corou violentamente.

– Eu sou... – Ela sentiu uma vontade terrível de dizer que o amava, que era apaixonada por ele, uma vontade de pedir que ele a beijasse como sempre havia sonhado; mas e se aquilo o assustasse? E se ele se sentisse acuado e fosse embora? – Eu sou sua fã. – Ela concluiu, virando o rosto para o outro lado, envergonhada.

– Hm... – Ele se limitou a um murmúrio.

Keiko arriscou uma olhadela na direção do jounin. Péssima ideia. Kakashi estava com o tronco inclinado para frente, os antebraços apoiados nos joelhos, os dedos entrelaçados, e tinha um olhar perdido, pensativo.

“Tão lindo...”– Keiko sentiu arrepios por todo o corpo e a vontade de voar para os braços dele ficou ainda maior.

No ombro esquerdo, ela viu a tatuagem da ANBU, organização da qual ele fizera parte.

Kakashi percebeu que a ruiva o encarava.

– Vai perguntar se doeu? – Ele falou de repente.

Keiko se sobressaltou.

– Como é? – Perguntou, confusa, acordando dos seus devaneios.

– Todo mundo que vê minha tatuagem pergunta se doeu pra fazer. – Ele disse com uma risadinha.

Keiko riu, sem jeito.

– É... Eu ia perguntar isso. – Era uma mentira necessária.

– Previsível. – Ele riu.

Keiko concluiu que, definitivamente, precisava sair dali. Seu autocontrole estava gravemente abalado: Kakashi vestido de forma tão casual, seus braços definidos à mostra, um sorriso tentador delineado sob a máscara... Tudo isso estava deixando-a louca.

– Ahm... Eu acho que vou dormir. – Disse, levantando-se bruscamente e caminhando até a porta. – Amanhã cedo eu tenho que trabalhar.

Kakashi levantou-se em seguida.

– Eu também estou cansado. – E depois de um curto silêncio, ele completou: – Acho que ainda não agradeci a hospitalidade e a generosidade.

– Esquece, não precisa agradecer nada. – Ela sorriu. – Bom, então até manhã! – Disse, acenando.

– Boa noite, Aka. — Kakashi acenou de volta, com um sorrisinho, e Keiko entrou no quarto.

Depois de fechar a porta e deitar-se, Keiko rezou. Rezou para que, no dia seguinte, pudesse encontrá-lo mais uma vez; para que aquele sonho de tê-lo ao seu lado não acabasse nunca mais e para que ela pudesse ter aquela felicidade para sempre.


Notas finais
Histórias da Tia Su parte II: A idéia para esta fic surgiu numa tarde, quando eu acabava de ler um capítulo de uma fanfic. Estava empolgadíssima com a história, um romance que envolvia Kakashi e Sakura, e peguei-me pensando: "O que eu faria se Kakashi aparecesse agora, na minha frente?". É claro que eu não poderia fazer muita coisa, afinal, eu sou casada! *risos* Mas ainda assim, aquele pensamento ficou martelando na cabeça. Foi aí que me lembrei de todas as vezes, na minha infância, que brinquei de amiguinho imaginário. O que isso tem a ver com a história? Bom, acontece que todos os meus amiguinhos imaginários era animes *hehe* Principalmente os personagens de Saint Seya :P E, para mim, era como se eles realmente existissem nesse mundo...
--------------------------------
Ah, caso não tenha ficado claro, "Aka no Onna" significa "mulher de vermelho". :P E Baka, para quem não está familiarizado com os termos japoneses dos animes, significa "bobo, besta"... ^^'
Bom, meninos e meninas, lembrem-se de fazer a Tia Su aqui feliz, deixando um comentário, ok? *-*
Kissu! =*