Fangirl-ily
15 14. Reações exageradas
Notas iniciais
[DOMINGO — 24 DE JULHO, 2016]
Lily encarava o teto e tentava controlar a respiração que estava ofegante. Era tarde, quase quatro horas da madrugada e ela sabia que era a única acordada na casa. James estava totalmente apagado ao seu lado e, embora ele parecesse extremamente calmo e despreocupado, ela sentia o nervosismo aumentar a cada segundo ao tê-lo tão perto.
Sabendo que não conseguiria ficar ali por mais muito tempo antes de ter um ataque e acabar o acordando, ergueu-se da cama, cuidadosa, afastando as cobertas de cima de si enquanto tentava não fazer barulho. Silenciosa, caminhou até a poltrona onde havia deixado sua fantasia de Estelar e pegou-a, segurando as botas com a outra mão. Sem parar para pensar no que estava fazendo, saiu do quarto e fechou a porta atrás de si, sem conseguir olhar para trás.
Sentindo-se estremecer, escorou-se alguns instantes contra a parede do corredor, imaginando se estava prestes a ter um ataque cardíaco, tão rápidas que eram as batidas de seu coração.
Lily havia acordado há mais de meia hora e, embora à princípio estivesse se sentindo como se fosse a pessoa mais sortuda do mundo, rapidamente a verdade da situação recaíra sobre ela fazendo-a sentir-se claustrofóbica.
Ela havia viajado de carro por quilômetros, até uma cidade para a qual jamais havia ido, a fim de buscar um amigo das garras de sua família problemática. E ela fizera aquilo sem se importar se estava fantasiada, sem se preocupar com o fato de que nunca havia dirigido mais do que alguns quilômetros dentro de Hogsmeade, sem se preocupar se alguma coisa poderia acontecer no meio do caminho – acidentes, assaltos, sequestros ou afins. Sequer passou por sua cabeça o que sua mãe iria pensar de tudo aquilo. Lily somente desligara o telefone e pegara a estrada por causa de Sirius. Sirius Black, o Padfoot do YouTube. O cara que ela acompanhava há anos. O cara que era melhor amigo de seu vizinho, James Potter. Este que era o Prongs, o cara que havia acabado de completar três milhões de inscritos em seu canal e que possuía centenas de fã clubes. O cara que a havia viciado em café. O cara que era parte crucial de seus finais de semana em casa, vagando pelos canais favoritos e assistindo seus vídeos mais vezes do que podia contar.
O cara que, ao entrar em sua vida, a mudara completamente, fazendo-a agir como uma louca – mais do que o normal – e fazer coisas imprudentes como, por exemplo, viajar pelo país para salvar alguém que, não fosse por ele ter se tornado seu vizinho e levado Sirius até ali, jamais teria conhecido.
James Potter, seu ídolo virtual, aquele de quem Lily vivia lendo fanfics interativas porque queria – mesmo que apenas em sua mente – poder beijá-lo ou abraça-lo, sentir seus lábios sobre os delas. Mesmo que fosse apenas ficcional. James Potter, o cara que, por ventura do destino, havia se tornado seu vizinho. O cara com quem, incrivelmente, ela havia transado não apenas uma, mas duas vezes em menos de uma semana.
O cara por quem ela estava apaixonada.
Era demais para que ela pudesse aguentar sem acabar enlouquecendo. Sabia que estava sendo idiota, mas não conseguia controlar suas reações e o fato de que estava prestes a ter o maior surto de toda sua vida. E aquilo era dizer muito.
Respirando fundo, Lily se afastou do corredor escuro e desceu as escadas lentamente. Quando estava pisando no último degrau, sentiu o coração parar quando a porta da frente foi aberta.
— Lily? — A expressão de Peter era a de confusão ao encará-la, totalmente descabelada, usando um moletom e uma calça grandes demais para ela, parecendo tão assustada como se houvesse acabado de ver um fantasma. — O que você...?
— Shh! — Ela sussurrou, sentindo o coração voltar a bater. — Não faça barulho. — Sussurrou e olhou escada acima, imaginando se alguém havia ouvido alguma coisa.
— Você está... fugindo? — Peter continuava a encará-la cheio de confusão, mas, graças a Vader, também estava falando baixo, parecendo ter entendido que ela não queria ser pega.
— Não... bem, mais ou menos. — Lily terminou de descer a escada e parou em frente ao garoto. — Eu preciso que você tire o meu carro da garagem ou apenas abra os portões para mim. Por favor.
— O quê...? Por que você está fugindo? O James te fez alguma coisa? Vocês brigaram? O quê...?
— Não! Nada disso! — Lily interrompeu-o, sentindo-se, se era possível, a cada segundo mais nervosa. — Olha, Peter, eu estou tendo um ataque aqui, okay? Provavelmente vou acabar aos berros daqui a pouco, ter um colapso ou qualquer coisa do tipo, o que não vai ser nada produtivo, então por que você não colabora comigo e abre os portões da garagem e depois que você fizer isso eu te conto o que diabos está acontecendo antes que mais alguém acorde e me impeça de sair daqui e eu acabe morrendo de ansiedade?
— Okay... — Peter concordou, levemente assustado, mas não falou mais nada enquanto caminhava até a porta que dava para a garagem e a abria com cuidado.
Lily o seguiu, piscando quando ele tocou no interruptor e as luzes acenderam, brilhantes demais para os olhos dela que estavam acostumados com a escuridão.
Graças a Vader os portões abriram-se quase sem ruído e ela suspirou em agradecimento à Força.
— Certo, hm... vai me dizer por que está fazendo isso? — Peter questionou enquanto a observava guardar a fantasia no banco traseiro do carro.
— É demais para mim. — Lily disse e fechou a porta traseira, voltando-se para encará-lo. — Toda essa situação é simplesmente demais para mim, entende? Quero dizer: eu estava dormindo com James Potter! Eu acompanho o canal dele desde o primeiro vídeo! Por culpa dele viciei em café. E agora ele é meu vizinho e também o cara com quem eu estava dormindo. Quando acordei, alguns minutos atrás, me senti sufocada. Eu não nasci para isso, Peter. — Meneou a cabeça e sorriu, sem humor. — E aqui estou eu, falando isso para você, o Wormtail, que eu também acompanho desde o início do canal. Sabe, eu sempre quis conhecer os meus ídolos e sempre pensei que seria o máximo. E é, sabe, porque vocês todos são muito legais. Mas é demais para mim. É demais.
— Lily... — Peter começou a falar, mas Lily fez a volta no carro e abriu a porta, pulando para cima do banco e fechando-a em seguida. Abriu o vidro, encarando o garoto por alguns instantes, esperando pelo que ele iria falar. — Eu entendo você. E entendo que não tem sido fácil, com todas essas fãs invadindo a privacidade de vocês dois e tudo o mais. Mas, por favor, dê uma chance para o James. Ele é um cara legal e...
— Eu estou apaixonada por ele, Peter. — Os olhos do garoto arregalaram ao ouvi-la falar aquilo e até mesmo ela se surpreendeu com a própria sinceridade. — Eu sei muito bem que ele é legal e tudo o mais de bom que possa haver. Só que isso também é demais para mim. — Suspirou, sentindo-se exausta. — E você pode me achar covarde por eu não ter dito isso pessoalmente para ele e, bem, talvez eu seja, mas... eu preciso de espaço. Preciso pensar. E eu sei que não vou conseguir falar nada para ele se eu o ver agora, pois, como disse, estou apaixonada e isso me faz ficar irracional. É mais provável que eu o beije do que diga que é demais para mim, porque, quando estou com ele, nada disso parece importante. Mas quando estou longe e penso nas coisas que aconteceram nas últimas semanas, é como se o mundo inteiro tivesse virado de cabeça para baixo. — Ela sorriu, triste. — Espero que ele não me odeie por fugir de novo, mas acontece que não posso ficar. — Suspirou. — Quero dizer, eu sinto como se Anakin Skywalker estivesse tentando me estrangular igual fez com a Padmé e eu não tenho Força para afastá-lo, entende?
— Olha, não entendi nem 1% da sua última frase, embora ache que deva se tratar de Star Trek, já que você vive citando esse filme...
— Ai meu Vader, Pettigrew! É Star Wars, pela Força!
— Isso daí. — Ele deu de ombros, como se aquilo não fosse importante. Ela ofegou, sentindo-se pessoalmente ofendida. Como ele ousava falar de Star Wars daquela forma? Por Vader! — Lily, acho bastante improvável que o James te odeie. — Peter rolou os olhos para ela e então sorriu, ignorando completamente a expressão de descrença que ela ainda sustentava depois da desfeita que ele havia feito à franquia de filmes dona de todo o seu ser. — Mas, se quiser, posso dizer que você teve algum imprevisto e precisou sair. Assim você arruma tempo para organizar os pensamentos, que parecem bastante bagunçados – sério –, e depois conversa com ele.
— Você não vai dizer que eu fui uma covarde que fugiu no meio da madrugada porque estava surtando por bobagem?
— Não. — Ele piscou para ela. — Você já foi a heroína ontem, Lily. Salvou o Sirius e tudo. Acho que você tem o direito de ser covarde por algum tempo.
— Sabe de uma coisa, Peter? — Lily sorriu para ele. — Embora seu conhecimento sobre a cultura geek seja absurdamente fraco e ofensivo, até que você é legal.
— Vou ignorar o que você disse e fingir que me elogiou.
— Se isso o fizer sentir melhor. — Piscou para ele, sorrindo levemente.
— Okay, acho que está na hora de você ir, ruiva, antes que alguém acorde. — Ele disse e ela assentiu.
— Obrigada, Peter. Boa noite. — E, dizendo aquilo, deu partida no carro, saindo da garagem lentamente, rezando para que ninguém acordasse. Quando, por fim, estava na rua, Peter acenou um tchau para ela antes de fechar os portões.
Respirando fundo, Lily manobrou o carro e dirigiu até sair da rua de casa, estacionando a algumas quadras de distância. Pegou o celular, discou o número de Marlene e rezou para que a amiga atendesse.
— Lily! — A amiga atendeu no segundo toque. — Ai meu Deus, Lily, onde você está? Eu fiquei preocupada...
— Sim, eu vi a sua grande preocupação, Marley. — Lily rolou os olhos, lembrando-se do dar de ombros de Marlene ao dizer para ela que iria embora.
— Bem, você não pode me culpar, ele era um Mutano realmente gato. Onde você está?
— Onde você está?
— Em casa, por quê? Que diabos está acontecendo, Lily Evans? — Marlene não parecia muito paciente.
— Estou indo para aí. Te conto tudo quando chegar. — Lily disso e, sem esperar por uma resposta, desligou.
X—X
— Eu não acredito que você fugiu! — Marlene disse assim que Lily terminou de contar suas histórias. A amiga estava totalmente incrédula diante do comportamento de Lily. — Que merda você tem na cabeça, Lily Evans?
— Não sei... — Lily, que estava deitada ao lado da amiga, encarou o teto (como parecia ter se tornado hábito nos últimos tempos) e suspirou. — É só que...
— É demais para você, já entendi essa parte. Só não entendi porquê. — Marlene arqueou uma sobrancelha, encarando a amiga na expectativa de uma resposta.
— Você lembra de quando Anakin tinha medo de se entregar para o lado negro da força? Quando havia tanto conflito interno em sua cabeça que ele não conseguia decidir para qual lado deveria ir? Qualquer escolha que tomasse afetaria a todos. É o que eu estou sentindo agora.
— Lily Evans, você não é Anakin Skywalker e ficar com James Potter não é o lado negro da força! — Marlene bufou, irritada.
— Mas é exatamente isso, Marlene! — Lily ergueu-se levemente e apoiou o rosto na mão, encarando a amiga, séria. — Ficar com James é escolher ser Jedi. É enfrentar os meus medos e vencê-los. Só que eu sou a droga do Anakin e, pela Força, seria tão mais fácil se eu simplesmente me entregasse para o lado negro e deixasse para lá. Todas essas pessoas no Twitter, as fanfics (aliás, você já leu as fanfics sobre eu e James?), os fã-clubes... Marley! Fã-clubes! Tem um que chama Jily defense squad! Isso é insano! Essas pessoas nem me conhecem direito! Eu nem apareci em vídeos ou expus minha vida o suficiente para que elas soubessem um terço de quem eu sou. E, mesmo assim, elas invadem a minha vida, o meu trabalho, as minhas redes sociais. Divulgam minhas fotos, agem como se eu fosse uma celebridade... tenho até haters! E não faz nem uma semana desde que a foto do nosso beijo foi divulgada! — Suspirou e fechou os olhos, voltando a cair sobre os travesseiros. — É cansativo demais, é demais. Eu não sirvo para isso, Marley. Nunca quis ser famosa ou qualquer coisa disso. Estava muito feliz na minha casa, prestes a entrar para a Universidade, viciada em coisas nerds e trabalhando meio turno numa loja de CD’s. Agora nada disso parece me pertencer mais... e eu não sei como agir!
— Bem, pensando por esse lado, eu te entendo. Deve ser um saco essa falta de privacidade. — Marlene encarou-a e então meneou a cabeça. — Mas talvez você devesse falar isso para o James. Explicar a situação e como você se sente. Acho que ele entenderia.
Lily concordou, sabendo que a amiga estava certa.
— Sim, eu sei. Eu vou falar com ele, juro. Só que hoje, especialmente hoje, depois de tudo... eu precisava ficar longe e pensar. É muito covarde querer isso? — Questionou.
— Quando Anakin escolheu o lado negro ele não foi covarde, embora tenha feito a escolha errada, então por que você seria? — Marlene piscou para ela e então esticou a mão para o abajur ao lado da cama, desligando-o. — Boa noite, Lil’.
— Você sabe mesmo como me motivar. — Lily rolou os olhos. — Boa noite, Marley.
X—X
— Certo, Lily, é só respirar fundo e dirigir calmamente. Você não está cometendo nenhum crime. Você só está indo para casa. Você dirigiu de Hogsmeade à Godric’s Hollow ontem, então esse pequeno percurso não deve ser muito difícil. — Lily repetia para si mesma, incessantemente, palavras de conforto. Eram três horas da tarde e, depois de acordar/almoçar/assistir séries com Marlene, decidira que era hora de voltar para casa. Mesmo que preferisse não o fazer.
Duas quadras antes de chegar, ela pegou o celular e ligou para Petunia, pedindo veementemente para que ela deixasse o portão da garagem aberto para que pudesse entrar com o carro.
Ela não estava sendo covarde. Não mesmo. Estava apenas assegurando-se de não perder tempo e poder entrar rápido em casa. E isso nada tinha a ver com o fato de que temia que algum de seus vizinhos a visse.
Somente quando o portão da garagem fechou atrás de si é que ela soltou a respiração que nem sabia estar segurando. Desceu do carro – já vestindo as roupas que havia deixado na casa de Marlene antes de ir para a Convenção – e pegou a mochila com seus pertences, encaminhando-se para dentro de casa. Ao chegar na sala de estar, porém, preferia não o ter feito.
Petunia estava lá, sentada num dos pufes, chorando. Ela soluçava e tremia e, por mais que Lily quisesse ir até lá e perguntar o que estava acontecendo, ficou com medo do que ela responderia. Sabia que as coisas em casa estavam péssimas. Havia trabalhado dobrado a semana inteira apenas para evitar estar em casa por tempo demais. Odiava o clima que se instalara após Petunia ter voltado com Vernon e, embora não aprovasse o comportamento da irmã, o compreendia. Sabia que ela amava Vernon, sabia que ela era louca por ele. E sabia, também, que apesar daquilo, eles jamais dariam certo. Pelo menos não enquanto estivessem em uma situação tão precária.
Lily ainda estava parada ao lado da porta que dava para a garagem quando a irmã ergueu o olhar para ela, encarando-a com os olhos cheios de lágrimas.
— Lily... — Petunia cumprimentou-a numa mescla de choro e voz rouca.
Suspirando, Lily largou a mochila e foi até a irmã, puxando outro pufe e sentando-se ao seu lado.
— O que aconteceu, Tuney? — Ela perguntou, cuidadosa. — Por que está chorando? Onde estão os outros?
— Mamãe e papai foram ao mercado e Vernon... — Mas ela não conseguiu terminar de falar, porque as lágrimas voltaram a descer com toda a força por seus olhos, fazendo-a soluçar, se era possível, ainda mais alto. Lily puxou-a pelos ombros, abraçando-a cuidadosamente enquanto esperava que se acalmasse.
— Hey, calma, calma... shh...
Lily não sabia dizer por quanto tempo ficara abraçando a irmã, porém lhe pareceu ter transcorrido uma eternidade antes de Petunia finalmente se recompor e conseguir falar.
— Terminei com ele. Eu terminei com o Vernon. — Petunia expeliu as palavras como se elas lhe machucassem. Lily ficou imóvel, tomada pelo choque. Demorou alguns longos segundos até conseguir processar o que a irmã havia acabado de dizer e, quando o fez, afastou-se para encará-la diretamente nos olhos, séria.
— Você está falando sério? — Questionou, estupefata.
Petunia assentiu e mais algumas lágrimas desceram por seu rosto, mas ela se manteve amena.
— Eu... recebi uma carta semana passada... você lembra daquela bolsa em Nova Iorque que eu estava interessada?
— Em Beauxbatons? — Lily franziu o cenho, confusa sobre o rumo que a conversa estava tomando.
— Sim. Bem, eles me mandaram uma carta... eu fui aprovada para a bolsa integral, Lily. Integral! — Petunia fechou os olhos e respirou fundo. — A princípio, ignorei. Quero dizer, aqui em casa estava um inferno e, bem, eu estava com o Vernon e... não fazia sentido eu querer ir para longe dele...
— Até que você percebeu que isso é justamente o que você precisa fazer? — Lily completou para a irmã, entendendo perfeitamente o que estava acontecendo com Petunia.
— É.
— E então você terminou com ele?
— Sim.
Lily assentiu e, por um momento egoísta, alegrou-se ao saber do rompimento. Ficou feliz em saber que Petunia poderia se livrar do grande peso que Vernon era em sua vida. Sentiu-se animada em saber que, finalmente, a irmã percebera o quanto aquele relacionamento era errado. Mas o momento passou tão rápido quanto veio ao ver Petunia cair, novamente, aos prantos. Voltou a abraçar a irmã, sentindo-a soluçar contra seu peito.
Por mais que elas vivessem brigando, por mais que não concordassem em muitas coisas, odiava ver a irmã sofrer. E, naquele momento, Petunia estava sofrendo. Muito.
— Você tomou a decisão certa, Tuney. — Lily murmurou contra seus cabelos loiros, acariciando suas costas. — Sei que agora você não consegue ver e tudo parece errado, mas, daqui algum tempo, quando você estiver finalmente fazendo algo por você, você vai perceber que fez o que era certo.
— Vernon ficou arrasado, Lily... ele não parecia saber o que fazer... eu me sinto... egoísta. Principalmente agora que ele e a família estão brigados, eu... — Mas o resto da frase de Petunia se tornou ininteligível com a nova enxurrada de lágrimas.
— Às vezes, Tuney, precisamos ser egoístas. Às vezes precisamos fazer o que é certo para nós. Mesmo que, sem querer, acabemos magoando algumas pessoas. Não vale a pena você ficar infeliz, brigar com seus pais, deixar de fazer algo que você realmente quer, para continuar nessa situação insustentável. — Mais uma vez, afastou-se da irmã para poder encará-la nos olhos. — Isso não iria durar muito tempo, Tuney. Mamãe está possessa e, por mais que, às vezes, ela exagere, ela só quer o seu bem...
— Que ótima maneira de expressar... — Petunia bufou, irritada.
— Vamos lá, Tuney! Você trouxe o cara que ela odeia para dentro de casa e sequer conversou com ela antes! Você sempre soube o quanto ela desaprovava o relacionamento de vocês, o quanto ela detestava saber do tratamento dos pais dele para com você. E, sinceramente, concordo com ela. Você não merece ser tratada como a filha daquele empresariozinho que não tem onde cair morto. Você merece ser tratada com respeito, porque você é uma boa garota! Nossos pais não nos criaram para sermos pisadas, Tuney. E a mamãe estava cansada de ver você ser pisoteada pelos Dursley! — Suspirando, Lily meneou a cabeça. — Olha, sei que você ama ele e sei que ele também gosta muito de você..., mas não é o momento para vocês.
Petunia riu, sem humor.
— Você faz tudo isso parecer tão fácil, Lily. — Ela suspirou e então ergueu a mão direita, limpando o rosto das lágrimas. — Fiquei tanto tempo com Vernon que não faço a menor ideia do que fazer da minha vida sem ele. — Riu novamente. — Quão patético isso soa?
— Não é tão patético quanto fugir do cara gato e maravilhoso por quem você está totalmente apaixonada. — Lily adicionou, um pouco para aliviar o estresse da irmã e outro pouco porque precisava falar com alguma pessoa que a entendesse e não com alguém que, como Marlene, a faria odiar-se por ter fugido.
— O... quê? — Petunia franziu o cenho, encarando-a, confusa.
— Bem, eu transei com James Potter. — Lily disse fazendo com que a irmã arregalasse os olhos, surpresa. — Duas vezes. E, nas duas, eu fugi antes que ele acordasse. Quão patético isso soa?
Petunia pestanejou algumas vezes, tentando processar o que a irmã havia acabado de dizer.
— Quer saber do que precisamos? — Finalmente disse, erguendo-se de onde estava sentada.
— O quê? — Lily indagou, desconfiada.
— De muito sorvete. E pijamas. E pipoca. E filme. E então você vai me contar cada mínimo detalhe de toda essa história patética, o que vai me fazer sentir menos idiota, porque você vai ser a idiota. — E então começou a caminhar em direção às escadas até que, na metade do caminho, parou e voltou-se para Lily. — Mas e a Emme?
— Essa é uma longa história, pequena Padawan.
— Bom, então apresse-se e traga logo o sorvete e a pipoca. Estarei de pijama te esperando no meu quarto. — E, dizendo aquilo, Petunia subiu de dois em dois degraus para o segundo andar.
Sorrindo, Lily ergueu-se de onde estava sentada e encaminhou-se até a cozinha para fazer o que a irmã havia dito.
X—X
[SEGUNDA-FEIRA — 25 DE JULHO, 2016]
— Lily, James perguntou por você, ontem, quando passou por mim no supermercado. — Helena Evans comentou, fazendo com que Lily se afogasse com o café que havia acabado de fazer.
Tossindo de modo nada adequado para uma mocinha, Lily demorou alguns segundos até conseguir falar algo, lacrimejante e ofegante, para a mãe.
— Hm... — Ela murmurou e limpou a garganta. — E ele estava bem? Quero dizer, a aparência dele estava...
— Ele estava como sempre, porém pareceu realmente preocupado quando perguntou por você. Disse alguma coisa sobre você não ter respondido...
— Bem, mãe, vou indo! — Lily interrompeu a mãe, depositando a caneca ainda cheia de café (com muita dor no coração) sobre a mesa e correndo em direção à porta.
— Mas falta uma hora para você ir e está chovendo! Pensei que eu fosse te levar para o trabalho hoje... — Helena gritou da cozinha, encarando as costas da filha.
— Preciso passar na casa da Alice antes, mãe e, bem, eu tenho guarda-chuva! Não vou te atrasar com os meus assuntos e... tchau, mãe! — E, dizendo aquilo, escancarou a porta da frente, abriu o guarda-chuva e praticamente correu até estar do lado de fora dos portões. O que, é claro, foi extremamente inteligente da parte dela, afinal tudo o que ela estava tentando fazer era se afastar das perguntas da mãe sobre James Potter que, por ventura do destino, também era seu vizinho.
E, é claro, ele estava saindo com o carro da garagem naquele exato momento.
— Poxa, Lily, como, por Vader, você esquece que James Potter é seu vizinho? — Murmurou consigo mesma enquanto fazia malabarismos com o guarda-chuva e as chaves para terminar de fechar o portão, sabendo que aquele momento de esquecimento lhe custaria – mais – uma humilhação para seu currículo.
— Lily! — James, é claro, a viu e, abrindo a janela do carona, a chamou assim que terminou de tirar o carro da garagem e parar rente a calçada, em frente à casa dela.
Reunindo o restinho de coragem que ainda havia em si, Lily voltou-se para encará-lo e, é claro, ao fazê-lo, deixou as chaves do portão caírem a seus pés, numa poça. Abaixando-se para pegá-las, sentiu as bochechas ferverem.
— Hey, James. — Ela sorriu para ele, sentindo-se corar ainda mais ao ajeitar-se e encará-lo. Pela Força, como ele conseguia parecer a cada dia mais bonito? Céus, aquilo era tão injusto! Como se ela precisasse de mais algum motivo para ser totalmente doida por ele.
— Está indo para o trabalho agora? — Indagou e franziu o cenho, olhando para o relógio no pulso e constatando o horário.
— É, vou chegar mais cedo... essa semana vai ser cheia, vou trabalhar todos os dias de manhã e de tarde. — Respondeu no que achou ser um tom forçadamente amigável. James a encarou por alguns instantes, pensativo, e então sorriu levemente para ela e Lily podia jurar que, pelos próximos dez anos de sua vida, sua respiração não voltaria ao normal.
Esticando-se, James abriu a porta do carona, indicando claramente para que ela entrasse.
— Eu te dou carona. — Disse e aumentou o sorriso, estonteando-a.
Piscando enquanto tentava organizar seus pensamentos totalmente estupefatos, Lily abriu e fechou a boca diversas vezes, tentando encontrar uma desculpa plausível para que não precisasse entrar no carro. Como não achou, deu-se por vencida e então entrou, fechando o guarda-chuva e a porta logo em seguida.
Assim que o fez, James fechou o vidro automático da janela, fazendo com que o silêncio recaísse sobre eles. Tentando distrair-se com o cinto, Lily demorou-se enquanto o prendia e James voltava a dar partida no carro.
— Ei, aquele ali não é o Voldemort? — James perguntou, assim que se ajeitou para sair com o carro, e o homem que saia do conversível preto estacionado do outro lado da rua chamou sua atenção.
Curiosa, Lily esticou o pescoço, inclinando-se levemente na direção de James a fim de ver melhor.
— É... mas o que ele está fazendo na casa do Sr. Riddle? — Lily, confusa, murmurou consigo mesma enquanto observava o homem de terno e bem-apessoado tocar o interfone da casa do velho vizinho.
— Não faço ideia. Talvez o Sr. Riddle seja um eleitor?
— Nah... se você tivesse ouvido metade dos xingamentos do Sr. Riddle quando Voldemort iniciou a campanha certamente não diria isso. Sr. Riddle odeia esse cara. — Lily disse e então suspirou. — O que torna essa visita ainda mais esquisita.
— Sim... — A voz de James soou próxima demais do ouvido de Lily para que ela pudesse evitar o calafrio que a percorreu em seguida. Erguendo os olhos, percebeu que se inclinara um pouco demais na empolgação de observar Voldemort e acabara quase em cima de James.
Sentindo-se corar diante da proximidade, Lily voltou a se ajeitar no banco, finalmente percebendo a dor causada pelo cinto que, ao se inclinar demais, ficara muito apertado contra seu ombro.
— Vi sua mãe ontem. — James comentou, casual, mas sem encará-la.
— Ah, ela me disse. — Lily murmurou e tentou não demonstrar o nervosismo que sentia enquanto olhava para fora.
— Ela também te disse que eu perguntei por você? — Ele prosseguiu naquele tom casual, mas Lily conseguiu notar um tom levemente magoado em sua voz.
Sentindo-se extremamente culpada, ela respirou fundo e então voltou-se para ele.
— Me desculpe por ir embora. — Disse, sentindo-se estremecer ao perceber que estava prestes a mentir para ele. — Marlene me ligou no meio da noite, ela estava sozinha porque o cara que ela conheceu na Convenção foi embora e, bem, precisava de uma carona. — Baixou os olhos, sentindo-se extremamente culpada por estar mentindo. — Não quis te acordar, você parecia tão confortável e... bem, eu fui embora.
— Peter disse alguma coisa sobre você ter um compromisso inadiável. — Ele assentiu, ainda sério, mas seus ombros não estavam mais tensos e suas feições pareciam mais amenas.
— Ah, sim. Marlene não é do tipo de pessoa que fica ok com atrasos. — Rolou os olhos, sabendo que aquilo era verdade afinal Marlene odiava mesmo quando ela se atrasava. — E ontem ela me alugou metade do dia contando as histórias dela e, bem, quando voltei para casa, Petunia...
— As coisas pioraram? Aconteceu alguma coisa? — James encarou-a rapidamente, uma sobrancelha arqueada, preocupado.
Lily deixou-se apreciar sua preocupação, sentindo o coração descompassar ao perceber, pelo que parecia ser a milésima vez nos últimos minutos, quão maravilhoso ele era.
— Ela terminou com o Vernon. — Suspirou, lembrando-se do estado deplorável no qual encontrara a irmã no dia anterior.
— De novo? — James franziu o cenho.
— É. — Deu de ombros, sem saber o que mais acrescentar.
— Entendo... — Ele assentiu e então foi sua vez de suspirar, voltando-se para ela. — Ao que parece, seu Domingo também foi dia cheio.
— É. — Lily assentiu, sorrindo, sem graça. — Me desculpe mesmo por...
— Tudo bem. — James disse e então sorriu, aquele sorriso que parecia derrete-la por dentro. — O que vai fazer amanhã à noite?
— Amanhã à noite...? — Lily sentiu o coração palpitar, imaginando o porquê de ele estar perguntando aquilo.
— Sim? — Ele encarou-a rapidamente, desviando o olhar da rua, fazendo com que ela finalmente percebesse que haviam chegado à loja.
— Petunia... Petunia precisa de ajuda com as malas.
— Malas?
— É! Ela conseguiu uma bolsa em Beauxbatons e...
— Em Nova Iorque? É uma das melhores Universidades depois de Hogwarts! Eles têm algumas bolsas incríveis por lá! — James parecia extasiado. — Isso é incrível, Lily!
— Não é? Eu disse para ela! Ela precisa estar lá antes do final do mês, porque tem que arrumar alguns papéis e tudo o mais... — Lily suspirou, sorrindo. — Vai ser uma loucura, mas é a melhor coisa que poderia ter acontecido com ela agora.
— Foi por isso que ela terminou com o Vernon?
— É... ela percebeu que eles não têm futuro... pelo menos não neste momento. — Lily deu de ombros. — Sinceramente, essa foi a melhor decisão que ela tomou nos últimos tempos. E eu sei que vou morrer de saudades dela e que provavelmente vou chorar e implorar para que ela volte logo, mas, sinceramente, estava um inferno lá em casa. Com a mamãe e o Vernon e eu e meu pai no meio... acho que, para nós, os Evans, vai ser o melhor. Sem falar que para a Petunia vai ser incrível! A bolsa dela é incrível! Ela é incrível! E eu tenho certeza de que vai se sair muito bem.
— Você parece uma irmã muito orgulhosa. — James sorriu para Lily, encarando-a com um carinho para o qual ela não estava preparada para enxergar vindo dele. — Fico feliz por ela. E por vocês, os Evans.
Lily riu, sentindo-se feliz pela primeira vez desde que acordara no meio da noite ao lado de James. Desde aquele dia tudo em que conseguira pensar fora no fato de que havia fugido e de que não podia ficar com ele, de que tudo aquilo era uma loucura. Mas como poderia continuar pensando aquilo quando ele a encarava daquele modo tão... carinhoso? Quando ele dizia que estava feliz pela família dela? Como ela poderia achar demais tudo aquilo, pensar que não seria capaz de lidar com tudo aquilo, quando James a fazia tão feliz somente com algumas palavras?
— Obrigada. — Ela disse, sentindo o coração descompassar levemente ao ver o castanho dos olhos dele parecerem derreter sobre os dela.
— Bem, parece que suas noites também vão ser bastante cheias essa semana. — James falou após algum tempo a encarando. Esticou a mão para ela, tocando em seu rosto e afastando uma mecha de cabelo do rosto dela, naquele gesto que ela estava reconhecendo como dele.
— É... vão ser. — Ela concordou, sentindo-se estranhamente estonteada ao vê-lo sorrir novamente. Por Vader, como ele conseguia fazer aquilo?
— Espero que você tenha algum tempo para mim nesse meio tempo. — Ele piscou para ela. E foi o que bastou para que ela se inclinasse em sua direção, acabando com os centímetros que haviam entre suas bocas, e beijando-o até ficar sem fôlego.
Ela poderia ter continuado ali por todo o sempre, sentindo-o desafivelar o cinto que a prendia contra o banco e puxando-a para ele, assim como havia feito alguns dias antes. Poderia continuar ali, sentindo-o acaricia-la de mil maneiras diferentes, deixando-a tão quente e à flor da pele que parecia prestes a ruir. Poderia continuar ali, derretendo-se em seus braços.
Só que não podia.
— James... — Ela disse, ofegante, afastando-se dos lábios dele quando sentiu suas mãos quentes fecharem-se em sua cintura. — Eu preciso... trabalhar. — Falou e, juntando o último resquício de sanidade que havia em sua mente, voltou para o seu banco, respirando fundo antes de voltar a encará-lo.
— Sabe, você é uma pessoa muito, muito má. — James murmurou e então respirou fundo, fechando os olhos por alguns instantes.
— Me desculpe. — Lily disse, embora não se sentisse nada culpada.
James voltou a encará-la e então sorriu para ela.
— Bom trabalho. — Falou e, inclinando-se até ela, beijou-a levemente na ponta do nariz, fazendo-a rir.
— Obrigada. — Ela respondeu e então, antes que acabasse caindo na tentação que eram os lábios dele e acabasse perdendo o dia de trabalho, abriu a porta do carro e, abrindo o guarda-chuva, saiu. — Tchau, James.
— Até mais, Lily.
X—X
— Ora, ora, aparentemente milagres acontecem. Meia hora de adiantamento, Evans? — Foi a primeira coisa que Aberforth falou quando Lily terminou de destrancar a porta da loja e entrou. Ela ergueu os olhos para ele, estreitando-os.
— Você fala como se eu chegasse sempre atrasada, Abbie.
— Você fala como se eu estivesse mentindo. — Aberforth resmungou para ela, voltando a espanar algumas prateleiras. — O que aconteceu? Caiu da cama?
— Ora, você não precisa ser tão rabugento. — Lily sorriu para ele e então caminhou até o balcão de atendimento, largando a bolsa no lugar de sempre e colocando o guarda-chuva encharcado dentro da lixeira para escorrer.
— Eu não sou rabugento.
— Srta. Pince deve concordar com isso, afinal ela tem saído bastante com você.
O senhor estreitou os olhos, encarando-a com irritação.
— Ops. Finja que não ouviu o que eu disse, chefe. — Lily adicionou, embora nada culpada. — Falando em cair da cama... você sabe alguma coisa sobre o envolvimento do Sr. Riddle com o Voldemort? Pensei que ele odiasse o sujeito, mas hoje de manhã o grande conversível do Sr. Político-extremamente-corrupto estava lá, e ele tocou a campainha do Sr. Riddle.
Aberforth encarou-a como se ela houvesse acabado de falar a coisa mais absurda que ouvira na vida.
— O quê? — Lily indagou, confusa sobre sua expressão. — O que eu falei?
— Voldemort é o filho do Tom, Lily. — Aberforth disse, ríspido, fazendo-a ficar perplexa.
Lily meneou a cabeça, tentando colocar os pensamentos no lugar, porém continuou confusa.
— Mas eu pensei que o Sr. Riddle tivesse apenas um filho, o Tom Riddle Jr, ou algo assim... e eu lembro muito bem dele resmungando qualquer coisa sobre o filho ter morrido muitos anos atrás!
— Voldemort é o Tom Riddle Jr, querida. — Aberforth suspirou, parecendo conformado com a falta de informação da garota. — E, como você deve saber, inclusive melhor do que eu, Tom sempre foi muito dramático... ele gosta de exagerar.
— Mas... ele odeia o Voldemort! Aliás, que nome mais estúpido! Pensei que ele tivesse tido uma mãe com um péssimo gosto para nomes, mas... Voldemort, como se fosse um bruxo malvado das trevas ou qualquer coisa assim. Por Vader, se você pretende mudar de nome, então usa um nome e não um apelido horrendo desses. Francamente, Voldemort... quem vota num cara que se autodenomina Voldemort?
Aberforth a encarava com o cenho franzido, claramente confuso com o devaneio dela.
— Desculpe, é que... o Sr. Riddle falou algumas coisas bastante... ruins do... Voldemort. — Lily suspirou.
— Bem, Tom nunca concordou com a abordagem política de seu filho. Por isso, muitos anos atrás, eles brigaram e Voldemort saiu de casa. — Aberforth suspirou. — Depois que Mérope, a esposa do Tom, morreu, o relacionamento com o filho só desandou.
— Não me surpreende que ele seja um velho rabugento. — Ela disse, sentindo-se compadecida pelo senhor. — Francamente, quem não seria rabugento tendo um filho como ele? O cara é praticamente um ditador. E, por Vader, ele precisa parar de fazer plástica... você já viu a cara dele? Puxou tanto a pele que está quase sem nariz! Eu, definitivamente, não quereria ter um filho que é um político corrupto e ainda por cima não tem nariz.
Sem saber o que dizer para ela, Aberforth meneou a cabeça e então caiu na gargalhada.
[TERÇA-FEIRA — 26 DE JULHO, 2016]
— Fugindo, Evans? — A voz, próxima demais a pegou desprevenida e a fez dar um pulo de susto e bater o cotovelo contra o portão que havia acabado de fechar sorrateiramente.
— Sirius! — Lily reclamou, voltando-se para ele com a expressão irritada. — Você quase me matou de susto!
— Estava devaneando com o James sem camisa? Ou com o Han Solo? Estava mesmo me perguntando quando você pretendia atualizar as suas fanfics. Elas são realmente boas, apesar da pornografia...
— Cale essa maldita boca! — Lily bufou, esticando-se para tapar a boca do garoto, sentindo as bochechas esquentarem. — Pela Força, Sirius, que merda você está pensando em falar isso assim?
— O quê? — Ele se afastou da mão dela e sorriu, fingindo-se de desentendido. — Que você escreve fan...
— Eu fui buscar você em Godric’s Hollow, você está proibido de falar sobre minhas... coisas! — Lily o interrompeu novamente e então começou a se afastar. Sirius apressou-se a acompanha-la.
— Ei, você não pode usar o meu resgate como forma de chantagem! Isso é injusto e, francamente, é nojento.
Lily sorriu, maldosa.
— Você estava pedindo para que eu fosse malvada com você, Sirius. — Piscou para ele e então finalmente fixou os olhos sobre seu rosto semicoberto pela sombra do boné que ele usava, analisando-o. — Você está melhor.
— Se tivesse ido me visitar nos últimos dois dias, saberia que meus hematomas e machucados estão sarando com uma velocidade absurda. Até mesmo na cicatrização eu sou maravilhoso. — Ele brincou com ela, fazendo-a rir.
— Eu te mandei mensagens.
— “Oi, Sirius, como você está?”, “Sirius, tudo bem?”, “Estou atolada de trabalho, não posso ir te ver, mas queria saber como você está”. Sério, Lily? Isso é o melhor que uma pessoa que pegou a estrada para me salvar da minha querida família pode fazer? Imaginava que, pelo menos por alguns minutos, você pudesse ir até a minha casa me dar um oi, nem que fosse no portão, afinal você é minha vizinha! — O tom de brincadeira desaparecera de sua voz, deixando-o com uma sobrancelha arqueada e uma expressão séria que raramente aparecia.
Lily imediatamente sentiu-se culpada.
— Me desculpe, Sirius! Eu...
— Você está fugindo do James, eu entendi.
— Não, eu...
— Sim, você.
Suspirando, sabendo que de nada adiantaria negar, Lily assentiu, contrafeita antes de voltar a fazer seu caminho para o trabalho.
— Eu estou... confusa, Sirius. — Disse enquanto sentia Sirius encaixar seu braço no dela. — É muita coisa para assimilar. Tanta coisa mudou em tão pouco tempo que eu... estou surtando.
— E quando você não está surtando? — Sirius brincou. — Olha, eu te entendo. Quando James começou a gravar vídeos e ficar famoso, antes de criarmos os The Marauders, era bem louco. As pessoas surtavam com ele na rua e a gente acabava tendo que aturar essas coisas também. Mas, como, no final, decidimos ter nosso canal também – já que passávamos grande parte do tempo aparecendo nos vídeos do James – acabamos nos acostumando. Imagino que depois da imagem que vazou de vocês tudo deve ter ficado pior.
— Ficou. — Ela concordou antes de suspirar novamente. — Como vocês aguentam todas essas... fãs loucas?
Sirius sorriu, irônico, para ela.
— Você é uma fã louca. — Ele disse, enfático.
Lily sentiu a própria boca abrir em choque ao perceber que ele estava certo. Ela era uma daquelas fãs loucas. Ela era uma daquelas garotas que enchiam a timeline de fotos e conspirações e ideias para fanfics de seus casais da internet. Ela era uma fangirl. Só que, naquele momento, tudo estava invertido. Como aquilo acontecera? Como ela passara de fangirl para ídolo em tão pouco tempo?
Não que ela conseguisse entender todo aquele fervor, é claro, afinal ela não havia feito nada além de beijar o cara de quem toda aquela gente era fã. Aquilo não era uma grande coisa (pelo menos não teoricamente, porque, francamente, quem não acharia grande coisa beijar James Potter?). E ela definitivamente não queria ser reconhecida pela internet à fora como a garota que foi pega aos amassos com um youtuber.
— Eu me sinto... objetificada.
— Bem-vinda ao meu mundo. — Sirius assentiu, sério.
— Eu não sirvo para isso, Sirius. Quero dizer, eu já surto o suficiente sozinha para ter de aturar todas essas pessoas surtando também... eu... — Ela respirou fundo, sentindo-se cansada. — É egoísta demais não querer dividir esse momento com tantas pessoas? Quero dizer, eu nem sei o que é que há entre James e eu e tem toda essa gente criando teorias loucas e... eu não quero ser reconhecida como a garota que beijou o James Potter. Eu sou mais do que apenas isso!
— Então deixe elas te conhecerem! — Sirius soltou o braço dela e ficou em sua frente, caminhando de costas.
— Você vai cair... e isso não faz sentido! — Ela bufou. — Eu não sirvo para isso!
— Se você acha mesmo que não serve então deve conversar com o James. Ele está gostando de você, Lily. De verdade. — A expressão de Sirius tornou-se séria e ele parou de andar. — Eu entendo o que você está sentindo, sério, mas não é justo com ele deixa-lo no escuro.
Lily ficou algum tempo parada, apenas encarando Sirius, sentindo-se o ser humano mais desprezível do universo ao perceber que ele estava certo e que ela estava agindo como uma covarde.
— Eu sou um Sith. — Lily disse e então fechou os olhos, só para tropeçar logo em seguida e ser aparada por Sirius que riu.
— Eu que ando de costas e você que tropeça? — Ele riu mais um pouco. — Você é uma piada, Lily Evans.
— Eu sou um Sith. — Ela repetiu e então puxou o braço de Sirius novamente, encaixando-o ao dela e fazendo-o voltar a andar normalmente. — Eu sou um maldito Sith. Eu era Anakin, podia escolher ser Jedi, mas decidi ser um maldito Sith!
— Sinto que você deveria ter esse tipo de revelação quando Remus estivesse por perto. Ele com certeza te responderia com algo do tipo “calma, jovem Padawan, a força continua com você” ou algo assim.
Lily encarou-o levemente divertida.
— É, da próxima vez eu chamo ele para me ouvir resmungar.
— Ele vai adorar, vocês seriam ótimos juntos. Nerds e tudo o mais. — Sirius piscou. — Aliás, como vão as coisas com a Universidade? Resolveu o negócio da matrícula?
Feliz com a mudança de assunto, Lily assentiu.
— Sim! Sexta preciso levar alguns documentos que faltam e pronto! Nem acredito que falta tão pouco! Eu estava tão ansiosa para começar e agora está tão perto. Eu estou-
— Surtando, eu sei. — Ele riu. — Que previsível, Lily Evans.
Ela estreitou os olhos para ele, mas sorriu logo em seguida.
— Falando em ser previsível, onde estão as dezenas de milhares de fãs que sempre acompanham vocês por onde quer que vocês vão? — Lily comentou e então olhou para os lados, fingindo procura-las.
— Bem, hoje é seu dia de sorte. Nada de stalkers. Sou o mestre dos disfarces. — Ele falou e ajeitou o boné na cabeça como se para comprovar seu ponto. — Na verdade, eu posso ter tuitado qualquer coisa sobre ir para o shopping do lado oposto da cidade... — Piscou, fazendo com que Lily sorrisse para ele.
Eles caminharam por mais algumas quadras, conversando amigavelmente sobre qualquer coisa até que, finalmente, chegaram em frente à loja onde Lily trabalhava.
— O que você vai fazer agora? — Lily perguntou para ele, observando-o pelo canto do olho enquanto destrancava a porta da loja. — Para onde você vai?
— Bem, decidi que posso trabalhar em outras coisas além do YouTube, portanto decidi te ajudar hoje.
Ela parou o que estava fazendo, voltando-se totalmente para ele.
— Quê?
— Vender CD’s. Ou qualquer coisa que você faça aí. Vamos lá, Lily! Fazem dias que não saio daquela casa e, sinceramente, por mais que eu ame os garotos, estou ficando entediado com todo aquele papo nerd sobre computadores de Remus, toda a conversa sobre Olímpiadas de Peter e os problemas de relacionamento de James. — Ele fez beicinho. — Por favor, salve o meu dia.
— Já que você faz tanta questão. — Ela deu de ombros e então deu espaço para que ele entrasse. — Você vai ficar com o espanador hoje.
[QUARTA-FEIRA — 27 DE JULHO, 2016]
Quando James acordou sentiu como se houvesse sido atropelado por um caminhão. Sua cabeça doía. Suas costas doíam. Até mesmo pensar doía. Com um esforço hercúleo, ergueu-se do meio dos travesseiros e sentiu-se zonzo.
Ali estava o prêmio por passar noites em claro à base de café. Ele sempre dizia a si mesmo que iria dormir mais cedo, que não passaria a noite em claro, que precisava descansar, mas nunca conseguia cumprir suas promessas.
— Meu Vader. — Murmurou em forma de gemido ao se afastar da cama e então sorriu, percebendo o que havia acabado de falar. Aparentemente o convívio com Lily Evans e toda sua loucura o estava afetando mais do que apenas nos sentimentos.
E por falar em sentimentos... não conseguia conter aquela sensação estranha em seu peito. Uma vozinha no fundo de sua consciência dizendo que havia algo errado. Como se algo ruim estivesse perto de acontecer? Mas o que poderia ser, afinal?
Não era como se Lily pudesse magoá-lo ou qualquer coisa do tipo. Eles estavam indo bem, apesar de toda loucura das fãs. Tinham seu próprio ritmo. Apesar de que James não fazia ideia de para onde estavam indo. O que eles tinham, afinal? Estavam apenas saindo? Eram amigos com benefícios?
Pensar que ele era apenas amigo de Lily, apesar de os benefícios serem extremamente bons, causavam-lhe náuseas. Ele não queria ser apenas o amigo ou o cara com quem ela saía de vez em quando. Ele queria ser algo mais.
Mas, bem, não era como se pudesse chegar até ela e pedi-la em namoro, era? Afinal eles não se conheciam há muito tempo e tampouco estavam juntos há muito tempo. Talvez ela o achasse louco por propor um relacionamento com tão pouco tempo de envolvimento... talvez ela risse na cara dele. Ou, quem sabe, ela aceitasse... contudo, não era como se James fosse se arriscar daquele jeito. Não queria correr o risco de acabar estragando tudo entre eles. Principalmente agora que estavam indo tão bem... o que o levava de novo ao ponto de que ele não fazer ideia de para onde exatamente estavam indo.
— Bom dia, Bela Adormecida. — Peter resmungou para ele assim que entrou na cozinha. — Já arrumou as malas?
— Quê? — James indagou, sem entender do que ele estava falando, bagunçando os cabelos antes de ir até o armário e começar a pegar o necessário para dar início à parte mais importante de seu dia: café.
— Oras, do que! Da viagem para Nova Iorque, James! Na sexta? — Peter encarou-o, completamente chocado com o fato de que o amigo não havia lembrado.
James estremeceu.
— Ah. — Murmurou e sentiu o estômago revirar. Céus, havia esquecido completamente da viagem.
— Você sabe que esse “ah” significa “vou morrer no avião”. — Sirius, que estava sentado ao lado de Peter à mesa, sorriu para ele.
— Vá à merda, Pads. — James bufou, irritado, contudo o aperto no estomago não passou. — Eu só tinha me esquecido completamente do nosso... voo. — O aperto intensificou um pouco mais, fazendo-o sentir-se levemente tonto.
O voo.
— Você precisa superar isso, James. Depois desse Workshop em Nova Iorque muitos outros virão. Você vai viajar bem mais do que viajou até agora. Principalmente depois dos três milhões de seguidores. — Peter adicionou. — E, bem, não é como se você fosse mesmo morrer no ar. As estatísticas de isso acontecer são bem menores do que as de morte por andar de carro e...
— Peter, eu estou pouco ligando para as suas estatísticas. Saber que há zero vírgula alguma coisa de chances de eu explodir no ar não diminui o meu medo de explodir no ar. — James estremeceu, sentindo-se nauseado. — Toda vez que coloco os pés dentro de um avião, sinto como se estivesse no filme Premonição.
— Então você admite que tem medo de avião? — Remus, que estava sentado à mesa em frente à Sirius, lendo o jornal, indagou.
— Não, Remus, estou falando que tenho medo de borboletas. — James rolou os olhos para o amigo. — Céus, vocês implicam com isso toda a vez. Vocês não cansam?
Os três amigos negaram, fazendo com que James rolasse os olhos novamente antes de voltar ao preparo de seu café: nem toda a náusea e nervosismo do mundo seria capaz de fazê-lo perder a vontade de tomar aquele líquido divino. Estava apreciando o cheiro forte do café pronto em sua caneca quando ouviu o resmungo de Sirius.
—... de novo, Peter! — Ele dizia, parecendo impaciente.
Arrancado de seus devaneios, James voltou-se para os amigos, deparando-se com uma cena hilária onde Sirius arrancava os fones do ouvido de Peter e distanciava-os do amigo enquanto Remus caía na gargalhada.
— Ei! Me devolva isso!
— O que está acontecendo? — James indagou, confuso.
— Sirius está reclamando porque Peter está ouvindo BTS de novo. — Remus disse para ele, agindo como se houvesse explicado a situação quando, na verdade, tudo continuava confuso para James.
— Quê?
— Bangtan Boys, o novo amor do Peter. — Sirius respondeu para ele, irônico.
— Não é o meu novo amor! Eu só estava tentando aprender o nome dos caras... — Peter começou a falar, mas foi interrompido por Sirius.
— Sim, e acabou viciando neles. — Balançou a cabeça em negação. — Onde foi que eu errei com vocês, meus filhos?
— Que é isso de Bang sei lá o quê? — James questionou ao sentar-se ao lado de Peter que havia recuperado os fones de Sirius.
— Uma banda coreana. Estão em alta agora, na verdade. As fãs se autodenominam k-poppers. Aqui... — Peter voltou o celular para James e clicou no navegador. — Você consegue pronunciar esse nome?
— Sa-... não, isso parece coreano demais para mim. — James resmungou antes de tomar um longo gole de seu delicioso café.
— É porque é coreano demais, dã. — Peter piscou e então sorriu antes de enfiar um fone no ouvido direito de James e apertar play em sua playlist. Uma música pop-dançante estourou no ouvido de James que franziu a testa, incomodado. Fez menção de tirar os fones do ouvido, mas Peter negou com a cabeça.
— Espere, ouça algumas vezes. Você vai sentir a mágica acontecer. — Disse, fazendo com que James suspirasse, contrafeito, contudo sem tirar os fones do ouvido.
À princípio a música era levemente enjoativa. As batidas da boyband eram... normais e bastante comuns para ele. Não podia chamar de ruim, contudo. Perdido em pensamentos, focou na letra da música, tentando entender o que os cantores diziam em meio ao forte sotaque, tentando desviar os pensamentos de aviões e explosões até que, por fim, parou de prestar atenção, voltando a tomar seu café de forma apreciativa.
Quando sua caneca finalmente estava limpa e seu sono parecia ter diminuído consideravelmente, James afastou-se da mesa, sem perceber que o fone havia caído de seu ouvido, sem perceber que a música que ele ouvia em sua cabeça era ele quem estava cantarolando.
Sirius colocou a cabeça entre as mãos, respirando fundo.
— Perdemos outro soldado, Moony.
X—X
— Não, Frank, não é bem assim... — Lily dizia, frustrada. — Eu sou o Darth Vader.
— Não, você não é! Você é Jedi. — Frank retrucou, sério.
Alice, que estava caminhando entre os dois, ergueu os olhos para Marlene que estava um pouco mais atrás e suspirou.
— Eu não sei como eles conseguem fazer isso por tanto tempo. — Murmurou, contrafeita. Estava acostumada a ser deixada de lado toda vez que Lily e Frank tinham suas discussões nerds. Até mesmo Marlene, que era quase tão nerd quanto Lily, se entediava com as conversas.
— Bem, pelo menos eles estão se divertindo. Assim como o Pads e a Lydia. — Marlene meneou a cabeça, sorridente, indicando os cachorros que caminhavam alegremente à frente deles.
Estava escurecendo e eles haviam decidido levar os animais para passear. Lily sabia que Padfoot estava entediado, afinal na última semana quase não tivera tempo de ficar com ele, afinal trabalhara dobrado e, quando chegava em casa, estava cansada demais para que o levasse para passear.
Contudo, àquele dia ela havia trabalhado apenas de manhã na Movie-Maker – contando com a surpreendente ajuda de Sirius Black que parecia ter realmente gostado do “trabalho” e se dava bem demais com Aberforth – à tarde saíra para ajudar Petunia com as compras necessárias para sua viagem e, depois de tudo aquilo, ainda sentiu-se disposta o suficiente para sair e, assim, também ter um tempo com suas amigas que, até então, estavam reclamando da pouca atenção que estavam recebendo de sua parte.
— O que vocês acham de pedirmos pizza e irmos para a casa da Marley? Fica à duas quadras daqui, os pais dela estão viajando e, assim, o Pads e a Lydia terão o pátio para se divertirem. — Alice propôs, após mais alguns minutos ouvindo a discussão acirrada entre o namorado e a amiga onde, supostamente, Lily não conseguia decidir se era do lado negro da força ou não.
— Apoio! — Marlene, que estivera brincando com Padfoot, concordou. — Meus pés estão me matando de tanto caminhar.
— Por mim tudo bem. — Lily disse e deu de ombros. — Padfoot adora o jardim dos McKinnon.
— É, eu sei. — Marlene estreitou os olhos, mas então sorriu ao ver a expressão do animal. — Você vai se comportar bem, não é? — Perguntou para o cão.
— Você provavelmente não gostaria da resposta dele. — Frank brincou, sorridente, fazendo carinho na cabeça de Padfoot.
— Certo, vamos lá, pessoal. Estou cansada e com fome. Preciso muito de uma pizza e de um refrigerante. — Alice apressou-os.
— Eu não me incomodaria se fosse uma cerveja. Ou firewhisky. — Marlene adicionou, divertida, sorrindo para eles.
— Marley... — Lily começou a reclamar. — Eu preciso trabalhar amanhã.
— Bem, não é como se você nunca tivesse trabalhado de ressaca, é?
— É quarta-feira e eu preciso voltar sóbria para casa.
— Você pode dormir lá em casa, sabe que tem várias roupas suas lá. Eu ligo para sua mãe, digo que estou sozinha, sem meus pais. Ela me ama. Vai deixar você ficar comigo. Vamos lá, Lily. O Frank também trabalha amanhã de manhã e não está reclamando. — Marlene piscou para ela.
— Bem, Frank tem esse incrível poder de não ficar de ressaca. — Lily murmurou para o garoto que sorriu. Então deu-se por vencida. — Ok. Mas você liga para a minha mãe antes de começar a beber. Você fica muito óbvia quando está bêbada.
Eles começaram a caminhar, rindo e comentando sobre as peripécias de Marlene toda vez que bebia quando ela ficou séria de repente.
— Ok, Marley, me desculpe. Juro que nunca mais vou falar sobre... — Lily começou a falar, mas a amiga a interrompeu.
— Ei... olá! — Marlene ergueu a voz e acenou para um ponto um pouco à esquerda de onde estavam. Com o cenho franzido, Lily voltou-se para ver para quem a amiga estava acenando quando sentiu o estômago despencar para algum lugar de onde jamais iria voltar.
Há alguns metros de distância, parados próximos a uma cafeteria, James Potter, Remus Lupin, Sirius Black e Peter Pettigrew se encontravam. E, é claro, os olhos de James ergueram-se e encontraram com os dela que, imediatamente, sentiu as bochechas esquentarem.
— Veja se não é a ruiva do snap. — Peter disse e então sorriu para ela antes de voltar-se para encarar os amigos dela que, fora Marlene que parecia estar adorando cada segundo, não pareciam estar entendendo nada.
— Hey. — Lily cumprimentou-os e então os quatro garotos se aproximaram. — Tudo bem com vocês?
— Hey, Lily. — James, que ainda parecia surpreso ao encontrá-la, sorriu. — Estes são os seus amigos?
— É...
— Provavelmente Marlene, Alice e Frank, não é? — Sirius interrompeu-a, inclinando a cabeça para ela com um sorrisinho malicioso. — Ela vive falando de vocês.
— Sou a Alice... e ela estava falando bem, eu espero. — Alice disse, estreitando os olhos de forma teatral.
— Hm, bem, depende do que você considera “bem”.
— Sirius! — Lily sentiu-se ainda mais constrangida, o que, naquele momento, não parecia ser possível.
— Ei! Você não é o Lupin do Canal do Moony? — Frank interrompeu-os, apontando para Remus com renovado interesse. Remus sorriu levemente para ele, assentindo. — Cara, eu adoro seus vídeos, são muito didáticos. Aquele especial que você fez sobre aplicativos para android salvou a minha pele no meu projeto da faculdade.
— Ah, sério? Fico feliz em ter ajudado..., mas, o que você está cursando? — Ele perguntou, interessado.
— E perdemos dois soldados. — Sirius murmurou, divertido, piscando para Lily. — Aparentemente vocês são os nerds da turma.
— Bem, eles três são. Particularmente não entendo bulhufas da maior parte do que eles falam. — Alice disse e rolou os olhos.
Marlene, que estava tendo uma conversa bastante intensa com Peter, gargalhou. Lily imediatamente voltou-se para a amiga, percebendo, tarde demais, o que a amiga estava fazendo. Ela conhecia bem demais aquele brilho nos olhos de Marlene: fora o mesmo que vira antes de a amiga trocá-la pelo Mutano na Convenção de Cosplayers. Peter não estava muito diferente.
— Ei! Estávamos indo para a minha casa pedir algumas pizzas... vocês querem ir para lá? Acho que já está na hora da Lily parar de monopolizar vocês e apresenta-los para os amigos. — Marlene disse, fazendo com que Lily precisasse se segurar para não gemer alto de frustração.
Que merda ela estava pensando, por Vader? Como ela tinha a audácia de chama-los para a casa dela quando nem os conhecia, pela força? Lily ergueu os olhos para eles, pensando em como se desculpar por tal ato de loucura quando se deparou com algo inesperado: os quatro garotos assentiram, sorrindo, como se aquele fosse um convite supernormal e não algo do tipo “ei, sou uma desconhecida, mas como estou a fim desse carinha aqui vou chamar todos vocês para a minha casa, pois assim vocês podem se socializar enquanto eu flerto”.
Por Vader.
— Também acho! Lily tem mantido vocês em sigilo absoluto. — James, surpreendendo-a, disse.
— É... queremos saber quem são os corajosos que aturam essa ruiva temperamental. — Peter, que tinha o maior sorriso dos quatro, disse.
— E, se quiserem, também podemos ouvir histórias cômicas sobre ela. Imagino que devam existir muitas. — Sirius disse e fez com que Lily quisesse estar morta.
Sorrindo como se fosse Palpatine ao converter Anakin, Marlene assentiu.
— Ah, com certeza.
[QUINTA-FEIRA — 28 DE JULHO, 2016]
— E então ela caiu. — Frank disse, arrancando risadas de todo mundo.
Estavam sentados à beira da piscina da casa dos McKinnon, várias horas depois de terem se encontrado em frente à cafeteria e Marlene ter convidado os Marauders para a casa dela. Aparentemente, nada daquilo era estranho para todos. Exceto para Lily que, apesar de estar se divertindo, apesar de estar amando cada segundo – embora, é claro, suas piores histórias terem se tornado a atração da noite – não conseguia acreditar.
Quer dizer, ali estava ela e seus amigos... junto dos Marauders. Prongs, Moony, Padfoot e Wormtail! Como aquilo tudo acontecera? Como aquele momento podia estar existindo? Lily sentia como se fosse despertar de um sonho muito louco a qualquer instante. Estava pensando seriamente em se beliscar quando alguém a tocou no braço direito, fazendo-a se arrepiar.
— James. — Ela cumprimentou-o, sentindo-se estremecer por dentro ao tê-lo tão perto. A lembrança dos lábios dele nos dela parecia viva demais em sua mente.
James sentou ao lado dela, colocando os pés de molho na água assim como haviam feito alguns dias atrás. A lembrança fez com que Lily se sentisse ainda mais nervosa do que antes.
— Seus amigos são ótimos. — Ele disse.
— Se por ótimos você quer dizer “adoram zoar a sua cara”, então, sim, eles são ótimos. — Ela rolou os olhos, mas sorria.
— Você tem algumas histórias bem divertidas.
— Ah, qual é, James, você quase morreu de rir enquanto eles falavam. Minhas histórias não são divertidas. Elas são catastróficas.
— E você é exagerada. — James completou no mesmo tom irônico de Lily. — E a Petunia? Pensei que você fosse ajuda-la com as malas hoje.
— Eu ajudei. Não fui trabalhar de tarde e então ela me levou para o shopping e me atordoou com milhares de compras desnecessárias para futuras eventualidades. — Lily bufou. — Suas fãs estavam por lá também. Uma delas quis tirar foto com a Petunia, pensou que fosse a sua cunhada ou algo assim, por Vader. — Estremeceu ao lembrar da cena bizarra onde tivera de se desvencilhar de algumas snitches particularmente insistentes. — Petunia achou hilário. Eu, por outro lado, senti vontade de me enterrar. — Lily demorou alguns instantes até perceber que James estava em silêncio após suas palavras e, ao erguer os olhos para encará-lo, percebeu que ele estava sorrindo de forma estranhamente carinhosa. — O quê?
— Você fica muito fofa quando fala das minhas fãs. Na verdade, parece que vai ficar vermelha para sempre. — Ele inclinou a cabeça. — Pensei que você estivesse mais acostumada com elas, afinal você é uma fangirl, não é? — Então ele ri. — Olha só, aí vai você de novo, vermelha.
— Ora, James Potter, como você é engraçadinho. — Lily bufou, colocando as mãos sobre as bochechas, tentando amenizar um pouco o visual vermelho-berrante-da-vergonha.
— Sirius me disse que está te ajudando na loja.
— Sim. Ele e Aberforth estão construindo um romance. Se eu fosse o Remus ficaria preocupado. — Lily disse e então bufou. — Francamente, demorei séculos para fazer aquele velhote rir das minhas piadas e o Sirius chegou lá em um dia e já o conquistou.
— Bem, Sirius tem esse poder.
— É. Mas ainda acho que é porque ele está trabalhando de graça. — Lily sorriu enviesada. — Aberforth adora não precisar gastar dinheiro. E também tem o fato de que ter Sirius lá é praticamente um farol para clientes. As fangirls descobrem que ele está lá e chamam outras fangirls que chamam outras e, quando eu vejo, já tem um exército de Stormtroopers, só que não são Stormtroopers, são fangirls aos milhares e, meu Vader, nunca vendi tanto CD na minha vida. E eu pensei que a loja acabaria fechada por causa do Spotify e do iTunes. Pelo menos terei meu trabalho por mais algum tempo... e você está me encarando de novo.
Mais uma vez, James sorriu.
— Adoro quando você se empolga falando. Suas comparações são realmente ótimas. Você realmente nunca pensou em ter um canal no YouTube? É sério, as pessoas iriam te amar.
— Haha. Você está quase um comediante hoje, não é?
— Eu estou falando sério, Lily. As pessoas gostam de você. — Ele falou a última parte em um tom diferente e seus olhos aqueceram sobre os dela, fazendo-a estremecer pelo que parecia ser a milésima vez naquela noite.
— É, sim, sim... — Ela não soube muito bem o que responder, então voltou a encarar os pés que estavam totalmente murchos dentro da água. — Mas então, agora que chegou aos três milhões, quais são os planos?
— Bem, minha mãe chega amanhã de Godric’s Hollow. — Ele disse, sério.
— Sério? — Por algum motivo que não soube explicar, Lily sentiu-se imediatamente nervosa. — Imagino que ela deva estar com saudades de você. Faz algum tempo desde que está morando aqui.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— É. Vamos fazer uma janta amanhã e... bem, você poderia ir... se quisesse, claro. — James acrescentou rapidamente, como se estivesse falando antes de perder a coragem. Lily ficou sem saber o que dizer e, percebendo aquilo, ele imediatamente mudou de assunto. — E eu tenho esse workshop, no domingo, no qual ela vai me acompanhar...
— Workshop? Nossa, que legal! — Lily assentiu, feliz por ele e pela mudança no rumo da conversa. — Vai ser onde?
— Em Nova Iorque. — Ele disse e Lily sentiu o sorriso em seu rosto esmorecer. — É, então, essa foi a cara que eu fiz quando descobri que era lá.
— Você não gosta de Nova Iorque? — Ela perguntou, tentando disfarçar a expressão de decepção que obviamente transpareceu em sua face. Bem, ele era um youtuber famoso, e youtubers famosos viajavam o mundo mais vezes do que ela poderia contar. Não seria diferente com James só porque, bem, ele era o James.
— Não é bem isso, é que... bom...
— Ah! Você tem medo de voar! — Lily disse, um pouco alto demais, atraindo atenção dos outros que até então estavam entretidos em uma história qualquer de Sirius. James imediatamente corou, o que fez com que Lily quisesse morder suas bochechas, mas ela se conteve, sabendo que aquele não era um bom momento para ter um ataque como aquele. Sirius soltou uma risadinha divertida e moveu os lábios em uma palavra ininteligível para James que bufou. — Hm, bem, eu lembro de ter ouvido algo assim em um de seus vídeos ou sei lá...
— É. Voar me dá nos nervos. — James disse. Lily arqueou uma sobrancelha. — Certo, eu fico apavorado só de pensar em entrar num avião.
Lily riu da expressão dele, imaginando que até mesmo amedrontado ele continuava maravilhoso. James acabou cedendo e riu com ela, fazendo com que eles acabassem gargalhando sem qualquer motivo aparente além de estarem ouvindo a risada do outro. Ficaram assim por vários minutos, até que o estômago de Lily começou a doer e ela se inclinou para apertar a barriga. E, como já havia tomado alguns longos goles do firewhisky que Marlene havia furtado do bar de seu pai, ficou tonta e acabou caindo dentro da piscina.
Porque, é claro que ela precisava de mais um motivo para que todos rissem dela.
Ao sentir a água gelada por toda extensão de seu corpo, Lily sentiu-se acordar da zoeira que sua mente havia se transformado, um pouco por conta da bebida e outro pouco por causa das risadas e então lembrou o que havia acabado de acontecer e da forma humilhante como havia caído dentro da água e, por conta daquilo, pensou por alguns instantes que, talvez, ela não voltasse à superfície para respirar novamente. Por Vader! Por que tudo precisava ser tão constrangedoramente humilhante para ela?
Encontrava-se debatendo mentalmente sobre o que deveria fazer a seguir: continuar ali embaixo d’água até passar a vergonha – ou seja, para sempre – ou sair dali e aturar as piadas infames que todos os outros provavelmente fariam sobre ela. Estava quase optando pela primeira opção quando sentiu alguém a puxar de volta para a superfície.
— Lily! — A voz de James preencheu seus ouvidos, fazendo-a abrir os olhos para deparar-se com ele em sua frente, os cabelos molhados do recente mergulho. — Você está bem?
— Estou! — Ela disse, sentindo-se esquisita devido ao contato com ele dentro d’água. Era estranha a sensação de sentir-se quente por estar perto dele e fria por estar em contato com a água. E também era muito excitante. — Fiquei muito tempo...?
— Uns trinta segundos debaixo d’água... eu pensei que algo tivesse acontecido e... você tem certeza de que está bem? — A preocupação fazia com que uma pequena ruga se formasse na testa de James, deixando-o com a expressão séria mais sexy do mundo.
Por Vader, ela não precisava pensar naquele tipo de coisa naquele momento. Principalmente quando as risadas espalhafatosas de Sirius e Marlene ecoavam por todo o jardim.
— Sim... eu... estava apenas pensando se deveria vir à superfície e aturar as piadas de vocês ou se seria menos humilhante continuar embaixo d’água até desmaiar e ser levada para o hospital. Como a coisa ficaria mais séria, ninguém faria piada e eu me veria livre de zoações por algum tempo o que seria bom, para variar. — Rolou os olhos. — Mas como muito provavelmente meus amigos conseguiriam achar algum motivo para rir da minha cara mesmo eu estando em estado vegetativo na UTI, não imagino que daria muito certo... — Interrompeu-se ao perceber que, assim como antes, James a encarava com aquela expressão indecifrável. — Eu estou fazendo de novo, não é? Preciso parar com isso, sabe? Toda vez que eu estou perto de você começo a falar demais... pela força, eu estou fazendo isso de novo! Viu só o que estou falando? Eu simplesmente não consigo controlar a minha língua e...
Mas ela não conseguiu completar a frase desconexa que estava formando, pois naquele momento James se aproximou e juntou seus lábios aos dela, calando-a e fazendo-a suspirar.
Lily perdeu a noção do tempo enquanto estava ali, com ele, beijando-o enquanto milhares de sensações preenchiam-na, juntando-se aos calafrios provocados pelo frio da água. Ela esqueceu que havia mais pessoas ali além deles dois e que estas deveriam estar observando-os... esqueceu que estava toda molhada e que a camiseta que estava usando era uma de suas favoritas e que poderia acabar estragando com o cloro. Esqueceu que o mundo inteiro existia, pois, naquele instante, tudo em que conseguia prestar atenção era nos lábios de James sobre os seus e nas mãos quentes dele percorrendo por suas costas sob a água, fazendo-a suspirar e...
Então, com um som espalhafatoso, água foi jogada sobre eles com o impacto que o corpo de Peter fez ao se jogar dentro da piscina ao lado de onde eles estavam.
Peter emergiu e sorriu de forma maldosa para eles.
— Ah... desculpem... estou atrapalhando?
E, daquele instante até quase o amanhecer, uma guerra subaquática teve seu início. Marlene, Alice, Sirius e Remus também se jogaram dentro da piscina, todos de roupa, todos meio bêbados.
Lily achou que aquela era uma das cenas mais fanficcionais que já vivera, mas, ainda assim, com certeza fora uma das melhores.
[POUCAS HORAS DEPOIS]
— Eu vou morrer até o final do dia. — Ela murmurou pelo que parecia ser a milésima vez. — Eu estou morrendo neste exato momento.
— Shh... — Sirius resmungou de alguma prateleira qualquer onde, provavelmente, deveria estar se escondendo para dormir. — Fale baixo.
— Estou trabalhando, Sirius. Não posso falar baixo.
— Shh...
Lily rolou os olhos e então voltou a encher a caneca de café, sem se dar ao trabalho de colocar açúcar. Quanto mais forte fosse, mais tempo a manteria de pé. Depois de passarem mais tempo do que era adequado dentro da piscina – todos lembrando do fato de que precisavam trabalhar/estudar em apenas algumas horas –, seus amigos e os Marauders haviam decidido sair e tentar se secar um pouco antes de finalmente irem embora.
A noite acabou quando o táxi, depois de reclamar do fato de que eles iriam molhar todo estofamento e que precisariam pagar mais caro por aquilo, finalmente aceitou levar os garotos para casa. Ela se despediu com um beijo rápido de James, o que fez seu coração descompassar por um bom tempo até depois de ele ter ido embora. Quando o celular de Lily despertou, fazendo-a xingar até o último antepassado de Anakin Skywalker, ela precisou de muita força de vontade para conseguir se erguer e caminhar até o quarto de Marlene onde trocou de roupa e se vestiu de coragem para enfrentar o que, com certeza, seria um dia extremamente difícil e cansativo.
Ao chegar na loja, porém, sentiu-se extremamente surpresa quando, meia hora depois de já tê-la aberto, Sirius apareceu, um boné tapando parcialmente seu rosto enquanto, uma bandeja com quatro cafés expressos em uma mão e um sorriso levemente sonolento nos lábios.
— Você não achou que eu iria te abandonar, achou? — Ele disse para ela, entregando o café. Contudo, apesar de suas palavras de conforto, Sirius acabou abandonando-a. Ele encontrou uma poltrona no final de um dos corredores e, lá, acabou adormecendo pelo resto da manhã. Almoçaram em uma padaria ali perto, cansados demais para irem até em casa, e então voltaram, com mais café em mãos.
A tarde parecia se arrastar sobre eles e, apesar de seu grande esforço para apoiá-la – okay, nem tão grande assim – Sirius acabou adormecendo novamente enquanto Lily se via gemendo protestos pela noite em claro.
Quando ouviu a porta da loja se abrir no meio da tarde, respirou fundo e juntou forças para sorrir ao recém-chegado. Só para xingar assim que viu quem era.
O sorriso imediatamente sumiu de seus lábios.
— O que você quer? — As palavras escaparam de sua boca, um pouco mais grosseiras do que seria normalmente.
— É esse o tratamento que você dá para os clientes? Como ainda não foi demitida? — Snape tentou brincar, mas ela continuou séria. O garoto suspirou. — Vim aqui falar com você.
— O que você quer? — Ela repetiu a pergunta, a irritação transparente demais em sua voz. De todas as pessoas que poderiam entrar naquela loja, Snape era a última que ela poderia querer.
— Eu... — Ele começou a falar, mas interrompeu-se, como se não soubesse por onde iniciar.
— Anda, Snape, eu não tenho todo o tempo do mundo. Tem mais clientes esperando. — E, graças a Vader, naquele momento duas garotas haviam entrado e, embora Lily reconhecesse uma delas como um dos milhares de fangirls que invadiam a loja em busca dos Marauders, sentiu-se aliviada por ter um motivo para não ter de ficar muito tempo aturando o Snape.
— O que você está fazendo, Lily?
— Eu... estou trabalhando?
— Não, não é isso! — Ele meneou a cabeça. — Estou falando: o que você está fazendo andando com esses caras? Quero dizer, eu entendo que você se sinta... atraída pelo Potter, afinal você é fã e ele tem essa lábia toda, mas...
— Espera só um minuto, deixa eu ver se eu entendi... — Lily estreitou os olhos, esquecendo-se completamente do fato de que havia mais gente ali enquanto sentia a raiva começar a borbulhar sob suas veias. — Você veio até aqui para... o quê? Me dar lição de moral?
— Lily, você está agindo como uma...
— O quê? — Sua voz saiu um pouco mais alta do que o normal, atraindo a atenção das duas garotas para si. Ela ignorou-as completamente. — Eu estou agindo feito uma vagabunda, é isso que você está querendo dizer? Snape, eu pensei que tivesse deixado bastante claro que você não tem nada a ver com a minha vida!
— Você nem parece mais a mesma pessoa, Lily! Olha só o que está fazendo! Não está vendo que isso está te afetando? Nem te reconheço mais e... esse cara só quer se aproveitar de você! Assim como faz com todas as outras fãs! Você não é burra, Lily, mas está agindo como se fosse ao se envolver dessa maneira e... ter suas fotos pessoais divulgadas pela rede! Isso não é coisa que uma...
— Okay, Snape, é melhor você calar a boca agora mesmo. Sério. — O tom de voz de Lily tornou-se rouco, indicando o quanto estava furiosa. — Você vai falar mais merda do que já falou até agora se completar essa frase com “isso não é coisa que uma menina de respeito deve fazer”.
— Mas não é!
— SAIA DAQUI! — Lily gritou, perdendo completamente o pudor. Fez a volta no balcão e pegou Snape pelo braço, praticamente arrastando-o em direção à porta. — Você não tem direito sobre mim ou sobre minha vida. Não tem direito sobre ninguém a não ser você mesmo, então, pelo amor de Vader, faça um favor para a sociedade e cale essa maldita boca antes que acabe morrendo engasgado com tanta merda! Eu pensei que você tivesse vindo aqui para se desculpar! E você vem para falar mais asneira do que nunca! — Ela bufou quando ele se desvencilhou.
— Lily...
— Cale essa maldita boca, Snape! CALA A BOCA! Eu faço o que eu bem entender, quando eu bem entender, com quem eu bem entender e isso não diz nada sobre ter respeito ou não. O respeito começa quando eu não me meto na sua vida para ditar regra imbecil e sem fundamento! Portanto exijo o mesmo de você. Isso é respeito. Agir como eu bem entender sem ser julgada porque eu sou mulher. Isso é respeito. Sair com quem eu bem entender sem ter pessoas se metendo na minha vida. Isso é respeito. Agora entrar no meu local de trabalho e agir como se fosse o meu... o quê? Dono? — Riu, sarcástica. — Isso é falta de respeito, Snape. Você me dá náuseas. Agora, faça um favor e suma da minha frente...
— Lily? — A voz de Sirius soou logo atrás de onde ela estava. — O que está acontecendo... ora, ora, se não é o hater número um do Canal do Prongs! — Ele sorriu, parecendo surpreso e satisfeito ao ver Snape próximo à porta de saída.
O olhar que Snape lançou para Lily foi cruel, como se ela houvesse acabado de traí-lo. Por Vader, como se ele precisasse parecer mais babaca!
— E você é o Sirius Black. Youtuber também, hm? — A voz de Snape destilou tanto veneno ao pronunciar aquelas palavras que Lily sentiu uma imensa vontade de socar a cara de Snape.
— É. E daí? Algum problema com isso? — Sirius, que nem parecia o mesmo Sirius que chegara acabado na loja e dormira a maior parte do dia atrás das prateleiras, estava totalmente acordado e muito, muito irritado.
— Não. Nenhum. Só acho que o seu conteúdo poderia ser mais amplo...
— Pensei que você odiasse meus vídeos. Não sabia que os acompanhava. — Sarcasmo praticamente escorria das palavras de Sirius.
Snape sorriu, maldoso.
— Talvez o seu canal melhorasse consideravelmente caso você abordasse outros temas, tal como “o sistema carcerário de Londres” ou “recuperação para viciados”.
Lily praticamente sentiu o ar solidificar ao redor deles, tamanha era a tensão que surgiu entre eles.
— Do que está falando, Snape? — Lily perguntou, tensa.
Snape inclinou-se para ela, parecendo estar se deliciando com aquela situação. Sirius, por outro lado, parecia uma estátua.
— Ora, Lily, você não soube? O irmão dele, o Reggie, fez alguns passeios recentemente e...
— Não fale do meu irmão. — Sirius o interrompeu e, ao voltar-se para encará-lo, Lily percebeu que seus punhos estavam cerrados e sua expressão era a mais furiosa que jamais havia visto em seu rosto.
— Ora, Padfoot, por quê? Tem vergonha do irmãozinho? Sabe, eu gostava do Regulus. Uma pena que ele é tão inconsequente... imagino que ter um irmão como você deve ter mexido com a cabeça dele, não é?
— O que você...
— Se eu tivesse um irmão gay, quem sabe eu teria feito como ele e incendiado algumas boates, não é? Mas, graças a Deus, nunca vou saber.
O que se passou a seguir foi tão rápido que Lily precisou de alguns instantes até conseguir entender tudo o que estava acontecendo.
Sirius socou o rosto de Snape e, pelo som do impacto, provavelmente quebrara seu nariz. Snape gritou um xingamento ininteligível devido ao grande sangramento que irrompera por seu rosto e então se atirou em direção à Sirius, atingindo-o no peito.
Lily gritou e tentou afastá-los, mas os dois se engalfinharam de tal forma que ela não conseguiria chegar perto sem acabar levando uma trombada também. Sentiu-se desesperar, nervosa pelo desdobramento dos acontecimentos. Tomando coragem, Lily finalmente se aproximou, puxando Sirius – que estava descontrolado socando cada parte do corpo de Snape que estava a seu alcance – e tentando afastá-lo do corpo de Snape – que ela só percebeu não estar mais revidando depois de finalmente conseguir afastar Sirius.
— Sirius, para! SIRIUS! PARA COM ISSO! — Lily gritou, ouvindo a pulsação forte em seus ouvidos, a ansiedade fazendo-a suar. — Você vai acabar matando ele!
— E daí? — Sirius, que parecia prestes a se atirar novamente sobre um Snape ensanguentado que tentava se levantar, disse, desvairado.
— E daí que isso vai acabar muito mal para você! Para, Sirius, chega! Deixa ele para lá!
— Por que você se importa com ele? — Sirius finalmente baixou os olhos para ela, encarando-o com raiva.
— Eu não...
— Black... você me... paga! — Snape, que conseguira se erguer, disse, encarando Sirius com o que deveria ser o seu olhar de desprezo (o que era difícil definir devido ao sangue que manchava seu rosto), antes de voltar-se para a saída e abrir a porta.
— Volte aqui, seu... — Sirius tentou ir atrás dele, mas Lily prostrou-se em sua frente, impedindo-o de prosseguir. O xingamento que ele disse a seguir faria com que a mãe de Lily tivesse pesadelos por meses.
— Sirius, chega! — Lily encarou-o, séria. — Você não precisa fazer isso! Se acalme! Se quiser eu posso fazer um...
— Não quero nada de você. Você e o seu amigo já fizeram bastante. — Ele a interrompeu, fazendo-a se calar. — Agora me solta. — E, desvencilhando-se das mãos dela que o seguravam, afastou-se em direção à porta, deixando-a totalmente sozinha encarando o lugar por onde ele havia saído.
Ou, bem, ela pensou que estivesse sozinha, mas o barulho de passos atrás de si a despertou de seu transe, fazendo-a assustar-se. Ao se voltar para ver do que se tratava, deparou-se com as duas meninas que haviam entrado na loja em seguida de Snape... e das quais havia esquecido completamente.
— Vocês... precisam de alguma coisa? — Lily tentou parecer profissional, mas sua voz saiu tremida demais.
As garotas nem se deram ao trabalho de responder, simplesmente encararam-na como se fosse culpada por toda a cena que havia acabado de acontecer ali e então saíram, uma delas esbarrando em Lily antes de sair pela porta.
— Pela força, que diabos aconteceu aqui? — Lily murmurou consigo mesma, sentindo-se trêmula. Baixou os olhos para as mãos e percebeu que elas estavam tremendo. Ela toda estava tremendo.
Sentindo como se estivesse prestes a cair no choro ou explodir, Lily afastou os pensamentos e foi até a despensa da loja, pegando uma vassoura, desinfetante e mais algumas coisas para limpar a bagunça que tudo aquilo havia se tornado.
X—X
@prongsssssssss: ESSA LILY É UMA VADIA
@jeaninw: essa garota só quer aparecer e tá usando os Marauders para isso. eles deveriam se afastar
@prongspads: ela fez o pads brigar por causa dela e ainda defendeu o cara! VACA
@jwmspotter: SE EU FOSSE O SIRIUS TERIA DADO UM SOCO É NA CARA DELA POR TER SIDO TÃO VACA
@jpblack: PRONGS DESERVES BETTER THAN LILY
@Jamesislove: meus meninos merecem coisa melhor do que essas bitches e vou protege-los
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O estômago de Lily revirava a cada tweet novo que ela via pela timeline.
Fazia quase uma semana desde que havia entrado no Twitter pela última vez – desde que falara com Sirius e fora até Godric’s Hollow para ser mais específica – e, quando acessou, se deparou com mais de cem notificações envolvendo mensagens e mentions.
À princípio, não conseguira entender. E então tudo começou a fazer sentido.
Aparentemente, alguém que havia visto a briga entre Sirius e Snape decidira publicar na internet as coisas de um modo um pouco diferente: como se Lily houvesse causado a briga e, no final, tivesse defendido o Snape. E, é claro, como era de se esperar do maior juiz do mundo, a internet, não demorou muito tempo até que ela fosse considerada a pessoa mais desprezível do planeta.
Irritada, fechou o notebook, sentindo-se nauseada. Se afastou da escrivaninha e começou a caminhar pelo quarto sem saber exatamente o que fazer. Já eram quase sete horas da noite e não havia muito tempo desde que ela havia chegado do trabalho. Seus pais haviam saído junto de Petunia e, por conta daquilo, ela tinha a casa só para si por algum tempo. Tinha passado o resto da tarde tentando limpar as manchas de sangue de Snape do piso da loja e acalmar os tremores que percorriam seu corpo. Sentia-se exausta. E tudo o que queria era um pouco de tranquilidade.
Sirius não havia atendido nenhuma de suas ligações, apesar de ela ter insistido.
E então, quando finalmente chegou e decidiu acessar seu Twitter para desabafar – o lugar que sempre lhe parecera perfeito para tirar um pouco do peso das costas – deparara-se com todo aquele show de horrores e julgamento.
Não sabia quando havia começado, mas estava chorando torrencialmente. As lágrimas de raiva ou de tristeza, não saberia dizer, deslizavam por seu rosto incessantemente, nublando sua visão.
Estava cansada daquilo. Cansada de todas aquelas pessoas se metendo em sua vida. Cansada de tantos julgamentos pré-determinados. Cansada de ter de se esconder e fingir estar bem com tudo aquilo quando não estava.
Estava esgotada.
E tudo o que sabia era que não podia ficar nem mais um segundo dentro daquele quarto. A sensação de claustrofobia era intensa quando ela pegou a mochila de cima da cama e abriu a porta em um rompante, pronta para sair correndo de casa e ir o mais longe que podia. Mas, como milhares de vezes antes, James Potter estava ali, a mão no ar indicando que estivera prestes a bater na porta.
— Lily? — Ele a chamou, preocupado ao deparar-se com seu rosto inchado e molhado de lágrimas.
— Hey, James... Como você entrou?
— Sua mãe acabou de chegar e eu entrei junto, mas... o que aconteceu? Você está...?
— Estou bem. — Ela o interrompeu. — Que bom que você está aqui, aliás. Eu precisava mesmo falar com você. — A sensação de certeza recaiu sobre ela ao observá-lo e então Lily soube o que deveria fazer, apesar de não
Parecendo surpreso com o tom de voz dela e com a mudança abrupta de comportamento – Lily dera meia volta e atirara a mochila novamente sobre a cama – James adentrou o quarto, fechando a porta atrás de si.
— O que...?
— Isso precisa terminar. — Ela disse, interrompendo-o mais uma vez.
James piscou algumas vezes, confuso.
— Do que você...?
— Nós dois. Isso precisa terminar. Agora.
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