Fanboy
1 Fanboy
Notas iniciais
Abraxas Malfoy se recusava a ser chamado de “fanboy”. Ele não era histérico como o resto das pessoas que choravam e se descabelavam por qualquer coisa relacionada ao seu ídolo, ele não possuía quantidades absurdas de merchandising e acima de tudo, Abraxas Malfoy não discutia obsessivamente sobre o que gostava.
Abraxas Malfoy estava no armário da nerdice. E no armário da sexualidade também, mas sejamos gentis com ele.
Desde o momento que o jovem ouviu a primeira música de MC Riddle, ele tinha se encantado pelo ritmo e pelas letras fortes que falavam de superação e probleminhas com o pai, que ressonavam com o que ele sentia. Aos quinze anos de idade.
Ele tinha vinte e um agora.
E um tumblr dedicado ao rapper, todas as músicas na sua biblioteca do iTunes, a biografia não-autorizada e uma almofada com a Marca Negra, que era o símbolo de MC Riddle.
Outro fator muito importante para a fascinação com o rapper era que ele nunca mostrava o rosto, o que criava a oportunidade de cada um fantasiar com a aparência do famoso recluso. Abraxas gostava de imaginá-lo meio Kanye West, meio Drake. Ou melhor, se recusava a admitir que imaginava.
Naquele dia em especial, Abraxas estava sonhando acordado no metrô com MC Riddle e ouvindo o seu mais recente single, “Talking with Snakes”, quando ele ouviu alguém dando uma risadinha em algum lugar a sua esquerda. Tirando um dos fones de ouvido, que eram redundantes já que se podia ouvir a música alta a uns 5 metros de distância, ele procurou a fonte das risadas.
Ele se deparou com um moleque baixo e pálido, de cabelos pretos e lábios bem vermelhos e carnudos, que ele obviamente não ficou encarando porque ele não havia sido criado num celeiro. O garoto estava olhando de soslaio para ele e ainda soltando risadinhas. Sentindo-se corar, Abraxas disse:
– Algum problema, amigo?
– Não, só estou meio surpreso que alguém tão... chique como você ouça MC Riddle. Ele é meio da escória, não? – O rapaz disse, se voltando para o loiro, que agora estava realmente vermelho, mas não de vergonha e sim de raiva.
– Não acho ele nada “da escória”. – Ele retrucou. O moreno ergueu as mãos em sinal de paz e se aproximou.
– Não quis te ofender cara, só fiquei surpreso com seu gosto musical. O que mais você tem nessa porcaria barulhenta?
Abraxas, que havia voltado a ficar vermelho de vergonha graças ao estranho parado em sua frente, olhou para os lados e viu que o vagão todo estava observando os dois. Engolindo seco, ele pegou no pulso do desconhecido e o puxou para a porta.
– Se você quer ficar analisando o meu gosto musical, podemos fazer isso em outro lugar que não o metrô.
Uma velhinha no canto suspirou, desapontada.
O estranho sorriu e disse:
– Você pode me chamar de Tom.
_
Depois de sentir as vibes de ‘sexo casual gay’ de todo mundo no vagão, Abraxas achou que ter seu iPod assediado por um estranho não ia ser tão vergonhoso.
Ledo engano.
– Você ouve MC Riddle, Ke$ha e Shostakovitch? — Tom perguntou, com ar de riso. Eles tinham se enfiado em um Starbucks que estava miraculosamente vazio e agora Abraxas tentava não explodir de vergonha.
– Você é um cara muito estranho, Abraxas. – Tom comentou, tomando um gole de seu café americano sem açúcar.
– Me chame de Brax, só a minha mãe me chama de Abraxas. – Brax disse, fazendo uma careta. Tinha vezes que ele detestava o nome que tinha. Essa era uma das vezes.
– Percebesse, quem foi que te deu esse nome? Em homenagem a algum avô? – O outro perguntou, curioso.
– Foi ideia do meu pai, na verdade. Ele estava lendo Carl Jung na época em que eu nasci, e eu acabei com esse nome. Jung falava de uma entidade superpoderosa chamada Abraxas. – Ele disse, encolhendo os ombros. Ele ficava com vergonha quando era novo de explicar as esquisitices de seus pais, mas com amigos chamados Atlas e Canopus, ele logo perdeu a vergonha. Colégios internos tinham isso de nomes esquisitos e gente que não comia a casca do pão. Tom parecia ser do tipo que comia a casca do pão. Por que ele estava pensando em casca de pão com um cara lindo dissecando tudo que ele gostava e rindo da cara dele?
– E você é um loiro azedo e tímido, com um gosto musical duvidoso.
– Ei! – Brax exclamou, ofendido. Tom havia caído na sua escala de gente que ele perderia a virgindade com, da posição número dois para a 10. (A um estava sempre preenchida pelo elusivo MC Riddle).
Tom riu.
– Calma, foi só uma piada. Mas me conta, o que você vê nesse Riddle?
Abraxas respirou fundo. Ele tinha que pensar bem antes de falar ou ia começar a declamar poesia ruim e chorar sobre o quanto ele amava o rapper.
– Bem, um colega meu de internato gostava muito de rap e um natal ele ganhou o primeiro CD do MC Riddle. Foi a primeira vez que eu ouvi alguém falando sobre toda aquela angustia adolescente que eu sentia na época. E isso meio que continuou comigo, eu fui crescendo e a música dele também. – Brax terminou o discurso dando uma mordida em seu sanduíche e desviando o olhar. Não queria ver a cara de deboche de Tom. Mas o outro ficou em silêncio e os dois ficaram fugindo um do olhar do outro, até que Abraxas olhou a hora no celular. Ele estava atrasado.
– Ai merda, Tom, eu tenho que ir, meus amigos estão me esperando, nós íamos no cinema hoje e-
– Não precisa se explicar, Brax – Tom disse, escrevendo algo em um papel que ele dobrou em quatro e entregou para o outro – Vamos repetir esse café algum dia, não?
Brax corou como o virgem que ele era.
– Sim! Claro, eu te ligo. Foi bom te conhecer, Tom.
– Também foi bom te conhecer Brax. Se, futuramente, você quiser ir em um dos shows desse MC Riddle, eu conheço um cara. – O outro disse, sorrindo abertamente. O coração de Abraxas deu um salto mortal no peito.
– Sério? Nossa Tom, se eu não estivesse atrasado eu te interrogaria sobre esse ‘cara’. Eu adoraria. – Sorrindo ainda, Abraxas pegou sua mochila e circulou a mesa para sair do assento, quando alguém pegou em sua mão.
– Abraxas? – Tom perguntou.
– Ah, sim? Tom eu realmente tenho qu – Abraxas não chegou a terminar a frase porque Tom havia lhe dado um beijo e agora todos os seus neurônios queriam morrer e deixar ele lá, paralisado. Tom se afastou dele, sorrindo.
– Pronto, agora você pode ir.
Abraxas não discutiu com ele.
_
Somente quando ele chegou em casa, muitas horas mais tarde, é que Brax parou para ver o papel que Tom havia lhe dado. Dentro, tinha um número de celular, uma carinha feliz e uma assinatura.
Um autógrafo que Abraxas conhecia melhor que qualquer coisa, porque era o autógrafo de MC Riddle. Com as mãos tremendo, ele mandou uma mensagem de texto para o número no papel.
Isso é algum tipo de brincadeira sem graça? –Brax
Menos de cinco minutos depois ele recebeu uma resposta.
Por que eu iria brincar com o groupie mais lindo que eu já tive ou terei? ;* – TMR
Abraxas se jogou na cama, abafando gritinhos no travesseiro. Melhor. Dia. Ever.
Fale com o autor