Família Park
1 Família Park
Notas iniciais
*Coréia do Sul — Seoul, na parte rica da cidade*
Estava terminando de comer quando ouviu o telefone tocar — ainda tinha a colher de cereais com leite a meio caminho da boca. Abaixou o talher e digiriu-se à extensão mais próxima. A mão grande e masculina apanhou o aparelho.
- Alô?
- Otouto?? Sou eu...
- Ahh, oi! Tudo bem?
A pessoa do outro lado da linha suspirou profundamente. O homem colocou a tigela com os cereais na mesinha e encostou-se no sofá.
- Sim... Dentro do possível... E aí?
- Tudo certo. Está tudo pronto... Quando ela chega??
- Provavelmente pela manhã, um pouco antes do almoço.
- E como ela está??
- Ahh... ela... ainda está chateada... Ela não queria ir. Ficou me perguntando por que eu estou mandando ela embora, por que ela tem que ir para um país tão diferente morar com pessoas de quem ela não gosta.
- Ouch!
- Bom, você sabe como ela se sente em relação ao pai...
- É, sei... Espero que ela mude de idéia logo.
- É eu também...! Foi... foi duro — ele ouviu a mulher soluçar do outro lado da linha — Foi duro ver ela virar as costas pra mim sem nem me olhar. Ela não falou comigo o dia todo...!
O breve silêncio que se seguiu foi pesado. Ele não conseguia imaginar o que é ter um filho magoado consigo a este ponto.
- Vai passar logo, confie nela.
- Assim espero. É difícil, mas... mas é para o bem dela. O pai dela... ele pode dar coisas a ela que eu não poderia. A melhor educação do mundo, que a ajudará a ingressar na universidade que ela quiser. Viagens e tudo mais...
- Mas, principalmente, eles precisam criar laços de pai e filha.
- Sim, eu sei. Mas estou preocupada. Tenho medo dela fazer alguma loucura!
- Não se preocupe, eu estarei por perto. Mas confie um pouco nele, ele não é tão relapso.
- Eu não tenho outra alternativa agora, otouto... E ele, como ele está?
- Ele... Hmmm... Do mesmo jeito de sempre, você sabe. Meio deprimido... — respondeu vagamente. Não queria revelar a real gravidade da situação do amigo.
- Otouto... Você acha que ele tem estabilidade mental suficiente no momento para cuidar dela?? Eu sei que ela já é grandinha, mas ainda precisa de cuidados familiares, principalmente em outro país! E tem aquela mulher louca também...
- Relaxe. Ela está vindo para ajudá-lo também, não apenas para estudar. Só ela o fará perceber que a vida ainda tem sentido, que nem tudo está perdido.
- Espero... E espero que eles não precisem sofrer muito até este momento chegar... Você sabe... Eu me preocupo muito com ele também. Não quero mais vê-lo neste estado...
- Sim, sim, eu sei... Se eles precisarem sofrer, que assim seja, pelo tempo que for. Mas todos estaremos lá para apoiá-los.
- OK. Eu confio em você, otouto. Tome conta deles por mim. E, por favor, mantenha-me informada de tudo! Ligue todo dia se necessário, no horário que for!
Desta vez, ele não pôde conter o riso ante o desespero da amiga. Ele riu porque conseguia facilmente se imaginar na mesma situação dela, talvez mais desesperado ainda.
- OK, já disse que estará tudo sob controle.
- Tudo bem... Vou desligar agora. Desculpe o drama, otouto, mas estou totalmente deseperada.
- Sem problemas. Tente não ficar muito tempo sozinha, OK?
- Tentarei, JaeJoong-otouto. Obrigada.
- É um prazer.
- Bye.
- Tchau...
*Manhã seguinte, no aeroporto*
YooChun sentava-se em sua Ferrari imaculada na frente do aeroporto, de cabeça baixa, pensando. Em mãos, tinha um retrato da única filha — a foto mais recente que possuía dela, de quando a garota tinha doze anos de idade. A filha que sairia daquelas portas de vidro luxuosas já tinha quinze...
Examinava a foto cheio de remorso. Ela tinha seus lábios, a mesma linha de nariz e o mesmo olhar. Hoje em dia provavelmente estaria muito mais bonita. Park Serenity era seu nome. Ele mesmo a nomeara em homenagem à lua que ilumina o céu noturno – e era uma enorme lua cheia na noite em que ela nascera. A bela menina era fruto de um casamento mal-sucedido no Japão, com uma descentente de brasileiros por quem se apaixonara loucamente durante uma turnê.
Depois do divórcio, Clara havia pedido transferência para os Estados Unidos, para recomeçar e esquecer de tudo. Embora, muito ressentido, YooChun admitisse que sua nova família caíra em ruínas por sua causa. Porque ele fora fraco e não conseguira adaptar-se à nova vida e novas responsabilidades. Por culpa dele, seus quatro anos de casamento causaram muito sofrimento para os três membros da família.
Quando acabara, ele estava decidido a abandonar tudo. Só voltara a ver a filha uma única vez, há mais de dez anos, em seu quinto aniversário. Após isto, nem um telefonema foi trocado, nem um simples e-mail ou mensagem — um presente nas datas comemorativas, para sua existência não passar em branco -, não com a menina, apenas com a mãe dela. Na verdade, eles se falavam com mais frequência do que o cantor gostaria.
Fora doloroso assistir aos outros constituindo suas famílias, vivendo casamentos felizes e criando seus filhos perfeitos. No fim, o que lhe sobrara? O amargor, a decepção e outra mulher que só se interessava em seu dinheiro, fama e status.
Clara havia pedido para ele acolher a filha, para ela completar o High School na Coréia, onde ele poderia pagar-lhe a melhor educação que o dinheiro pode comprar. Ele ficou relutante, muito relutante. Negou-se terminantemente. Para começar, não fora justamente porque não sabia criar uma filha a razão de sua fuga? E outra... A menina aparentemente o detestava e renegava a existência do pai. Sim, esta era a consequência com que tinha que arcar agora. Mas Serenity é sua única herdeira, ele não podia desprezá-la.
Por fim, depois de alguns meses, JaeJoong acabou convencendo-o a receber a filha pelos próximos anos, sob a promessa de que o ajudaria no que precisasse.
E ele precisaria muito. Enquanto seu hyung tinha dois filhos lindos, cantores talentosos e renomados, o quê YooChun sabia sobre isso??
Suspirou pesadamente e acariciou a foto da filha. O que perdera todos esses anos?
Um ruído de porta abrindo o despertara dos pensamentos tenebrosos. Soara perto demais... Olhou para o lado, ela provavelmente chegara... mas ao invés da doce garota da foto, seu olhar recaiu sobre uma moça totalmente desconhecida.
- QUÊ ISSO??? Quem é você? — YooChun literalmente pulara no banco e grudara na porta do conversível, colocando o máximo de distância entre si e a aberração que o carro permitia. Sua mão já achara a tranca, caso precisasse correr — Saia do meu carro! Fã louca!!!
A moça continuou imóvel, com o rosto virado para ele e uma expressão impassível. Ela usava óculos escuros gigantes e muito pretos, uma boina de couro também preta com vários acessórios metálicos, roupas escuras rasgadas artisticamente com detalhes de cores vibrantes, micro-saia jeans desfiada e botas de couro preto envernizado até metade das coxas com saltos imensos. Seu pescoço, pulsos, dedos e orelhas reluziam de acessórios baratos prateados e pretos. Mas o que lhe chamou mais atenção foram os cabelos dela... Eram pretos, lisos escorridos e brilhantes até a cintura, tomados quase totalmente por gordas mechas nos mais variados tons de... Roxo! Que iam do lavanda mais claro, passando por violeta brilhante e até algumas em tons de anil, quase azuis.
Lentamente, de forma irritada, ela removeu os óculos — YooChun registrou as "garras" pintadas de roxo também, intrinsicamente decoradas com detalhes pretos.
- O que você quer? Autógrafo??
- Abeoji...
O homem levou alguns segundos para processar e registrar o que ela acabara de falar. Quando finalmente pareceu entender, o susto foi o dobro do anterior. Seu olhos arregalaram-se instintivamente e a testa franziu enquanto tentava falar algo coerente.
- E-e-e-ehhhhhhhh????!! Queeeeeeê????
A garota revirou os olhos, impaciente e estressada. YooChun continuou encarando-a, boquiaberto e desconcertado. Não podia ser verdade, mas, agora que conseguia ver seu rosto, era inegável. Eram sua boca, sua linha de nariz e seu olhar (contornados por delineador preto pesadíssimo) naquele rosto pequeno e desgostoso. Só para garantir, ele ergueu a foto velha e colocou-a na altura do rosto da recém chegada — suas mãos tremiam de leve -, imaginando-a sem maquiagem e com os cabelos presos. É, de fato aquela yankee era sua filha... Seus olhos moviam-se do retrato para a garota sem parar, chocados, e não sabia como reagir.
Finalmente perdendo a paciência, ela arrancou a imagem da mão dele e examinou-a.
- Não acredito que você só tem esta foto velha... — ela resmungou em coreano claro, atirando-a de volta ao colo do homem congelado no lugar.
- Serenity! Q-q-como m-me achou?
- Bom, apesar da tentativa de disfarce — respondeu, indicando a touca grande e os óculos escuros também gigantes que o artista usava — não é difícil te reconhecer, principalmente pelo carro. Ela tinha uma voz clara e bem madura, diferente do tom agudo e irritante que as garotas orientais daquela idade apresentavam.
YooChun engoliu a resposta. Não queria ser grosserio com a filha logo de cara. Pegou a foto que ela atirara em seu colo e deu uma última olhada nela antes de guardá-la de volta na carteira.
- Você está bem... diferente... — mediu as palavras com cuidado.
- Humph... Acontece, né. Principalmente quando se está longe... — ela retrucou, cruzando os braços e afundando no banco, esticando as pernas o máximo que conseguiu. A pele exposta das pernas finas dela era tão branca que o homem conseguia ver com perfeição as veias.
- Gosta do carro?? — perguntou, mudando de assunto novamente. Não pode evitar um sorriso ao falar de sua Ferrari vermelha preciosa.
- O banco é muito duro — reclamou, disfarçando o encantamento.
Lógico, qual adolescente não gostaria de ser vista em uma Ferrari conversível com um dos maiores ídolos do século dirigindo?? Por mais que este ídolo fosse o pai que a renegara.
- Nossa, onde estão suas malas?? — perguntou, lembrando-se da bagagem dela.
- Joguei no banco de trás, enquanto você estava de cabeça baixa.
Curioso, ele virou-se e, de fato, viu duas malas grandes novas em folha, uma preta e outra prateada, e uma frasqueira roxa jogadas sobre o banco de trás. Por Deus, sua filha poderia se tornar uma stalker profissional. E como ela levantara aquelas duas malas enormes? Sem fazer barulho ainda??
Estupefato, mas sem falar nada, ele deu a partida no carro e acelerou, tomando seu tempo em apreciar o ronco do motor. Pelo canto do olho, viu a garota se remexer desconfortavelmente, mas o modo como ela acariciava o couro onde sentava denunciou sua verdadeira impressão.
- O que quer comer? — indagou, antes de soltar o freio para sair do aeroporto. Não havia comida pronta em casa e certamente nenhum dos dois estava com humor para cozinhar, então almoçariam no caminho.
- Hamburguer... — Serenity resmungou depois de alguns momentos, ainda de braços cruzados, recusando contato visual com o pai.
- OK...
Em poucos minutos, saíram de Kimpo e chegavam a Seoul. Serenity, que nunca estivera lá, impressionava-se com a arquitetura moderna e futurística da capital. Tinha que admitir que era uma cidade linda.
Quando deu-se conta, o pai preparava-se para estacionar em um McDonald's.
- Abeoji, aqui não. Não gosto de McDonald's; prefiro Burger King — ela avisou, como se fosse algo óbvio.
- Quê? Por que não avisou logo?
- Você não perguntou – respondeu seca, dando de ombros.
Emburrado, YooChun fez o retorno na avenida e seguiu em direção a um Burger King.
*no Burger King mais próximo*
O lugar estava cheio.
Porém, a fome de YooChun falou mais alto. O artista tirou os óculos e entrou na fila. A garota, meio assustada com o local e povo desconhecido, fez o mesmo, apoiando o rayban na aba da boina. Ela chamava muita atenção com as roupas pesadas e curtas e o cabelo colorido, mas o olhar das pessoas ficava pouco tempo nela, uma vez que, logo que se voltavam ao homem alto que a acompanhava, todos esqueciam de sua singela presença.
O barulho intenso das conversas nas filas e mesas próximas diminuiu consideravelmente enquanto, em poucos minutos, todos em volta deles começaram a cochichar e olhar o ex-ídolo intensamente. Algumas pessoas do lado de fora até levantaram-se e foram às janelas ver se ele estava mesmo lá dentro. O cantor colocou as mão no bolso da jeans casual e sorriu de modo simpático para quem falava com ele, mas sua leitura corporal desencorajava aproximações.
Quanto mais se aproximavam do começo da fila, mais agitadas as moças do caixa ficavam. Porém, quem acabou atendendo-o foi um rapaz, para a profunda decepção delas. O rapaz (bem jovem também), por outro lado, estava mais interessado em espiar Serenity — que inconscientemente se encolhera atrás do pai — do que em registrar o pedido da super-estrela. Ele também lhe lançava sorrisinhos e uma piscadela.
- O que você vai querer?? — YooChun perguntou, olhando por cima do ombro para a filha.
- Um número 5 médio, sem molho — ela resmungou baixinho. Normalmente Serenity não era assim, era muito confiante, mas tanta atenção era estranho para ela. Bom, ela teria que acostumar-se eventualmente...
- Número 5 médio, sem molho — repetiu, engrossando a voz — Pronto, agora vá sentar-se que eu termino aqui.
- Hnn... — ela acenou com a cabeça e saiu devagar, meio perdida, procurando uma mesa.
YooChun observou-a sumir no meio das pessoas com um olhar de reprovação. A saia dela era ainda mais curta quando estava em pé. Cobria pouco de suas pernas longas e finas, uma visão para adolescentes assanhados. E falando neles...
Virou-se irritado para o balconista, que observava a garota rebolar sem disfarçar.
- Então, garoto, você anotou o pedido? — perguntou em tom autoritário e alto.
- Número 5... médio... sem molho — ele repetiu enquanto digitava.
- Isso, e eu quero um número 11 grande, com adicional de bacon.
- Mais alguma coisa, senhor?
- Não... — resmungou, puxando a carteira do bolso e entregando um cartão — No débito.
Observou de olhos semicerrados o rapaz terminar a transação. Antes de lhe devolver o cartão, porém, ele deu-lhe um sorriso sonso e pediu:
- Será que o senhor podia dar um autógrafo?? Para a minha mãe... — ele esticou um pedaço de papel e uma caneta.
As sobrancelhas de YooChun sumiram sob seu gorro ante ao pedido. Relutantemente, ele pegou o que lhe foi oferecido.
- Nome?
- Choe JiYeon.
Ele rabiscou uma mensagem para a mulher, assinou e devolveu. Quando foi pegar o cartão de volta, o cantor puxou o balconista junto até estarem nariz a nariz. As mulheres em volta sobressaltaram-se e olharam o tumulto preocupadas.
- Se você continuar sorrindo assim para a filha dos outros, quebro seus dentes...! — murmurou ameaçadoramente.
O garoto soltou o cartão e alisou a camisa, fingindo que não entendera. As garotas de antes entreolharam-se e cochicharam "Filha?" "Filha??" "Então esta é a filha americana dele?" "Nem lembrava que ele tinha filha..."
- Obrigado. Aguarde ao lado para retirar seu pedido.
YooChun guardou o cartão irritado e retirou os copos para encher. Dirigindo-se à máquina de refrigerantes, ele perguntou-se o quão piores as coisas ficariam. Não fazia nem meia hora que estava com a filha e já morria de ciúmes dela. Tanto que acabara de ameçar uma pessoa...
Encheu os dois copos de gelo e encostou um em cada bochecha. Sentia-se abafado e tinha certeza que o rosto estava avermelhado por causa do acesso de raiva. As pessoas em volta o olharam estranhamente. E ultimamente estava tão estressado e desanimado que pouco se importava se estava atraindo atenção negativa para sua imagem (já bastante negativa). Seu estado emocional estava completamente instável e cansara-se de moderar suas atitudes em público apenas para agradar aos críticos.
Respirou fundo algumas vezes, abasteceu-se de refrigerante e voltou ao balcão. Uma garota terminava de montar suas bandejas. Ele colocou os copos sobre a superfície plástica.
- YooChun-ssi!! — ela exclamou emocionada — Ahh, eu sou fã do Dong Bang Shin Ki desde bebê. Minha mãe é uma Cassiopeia e eu cresci ouvindo suas músicas.
- Ahh~ Obrigado — ele sorriu um pouco mais a vontade.
- Ahhh...! Ahhh, estou tão emocionada em te ver aqui!! Será que pode me dar um autógrafo??
- Sim, claro.
Ele autografou uma caderneta dela e pegou a bandeja com os lanches.
- Muito obrigada, YooChun-ssi! Aproveite seu lanche.
Ele acenou com a cabeça e saiu, esgueirando-se entre a multidão e procurando a filha. Não foi difícil achá-la com aqueles cabelos berrantes. Ela estava com os cotovelos apoiados na mesa e o queixo nas mãos com uma expressão de tédio e amargor profundos.
- Aqui, Serenity — pousou a bandeja sobre a mesa e ocupou o lugar em frente a ela.
A garota pegou seu lanche em silêncio e lentamente começou a mordê-lo. O pai observou-a por uns momentos antes de fazer o mesmo com o seu. Rapidamente terminou-o, porém, enquanto ela ainda estava na metade.
Serenity aproveitava os minutos para absorver melhor a imagem do pai, agora que estavam frente-a-frente e sem óculos escuros. Ondas rebeldes e desgrenhadas saiam por baixo do gorro dele. Seu bigode estava por fazer, a pele pálida e maltratada e profundas olheiras. Uma imagem bem diferente do ídolo elegante e perfeccionista que ele costumava ser. E o que mais pesava era o olhar fundo e opaco dele... um olhar deprimido, agoniado e desesperançoso, como uma vela prestes a apagar. Era definitivamente perturbador...
Apesar de tudo, as roupas pareciam ter sido escolhidas com (nem que fosse um mínimo de) cuidado. Toda aquela melancolia parecia lhe cair bem de alguma forma. Ele ainda mantinha a aura de um deus do leste — a aparência desgrenhada lhe emprestava um charme rebelde impetuoso.
A vagarosidade com que a filha comia o irritava... Era como se cada mordida fosse uma tortura e cada mastigada custasse-lhe um esforço tremendo. Fora isso, o clima entre eles estava tenso, então decidiu iniciar uma conversa.
- Hmmm... Espero que não coma essas porcarias o tempo todo. Vão tudo pras suas coxas depois — comentou, em tom brincalhão, tentando demonstrar que se importava.
- Graças a você, não tenho tendência a engordar — foi a resposta seca dela.
- Hmm, que bom... eu acho... Você é muito bonita para ficar gorda, OK? Mais bonita do que eu imaginei. Tirando essas roupas e o cabelo...
Desta vez, a resposta da adolescente foi uma mordida no lanche. Apesar de ter sido totalmente ignorado, fez outra pergunta.
- A viagem foi boa? Não está cansada??
- Uhum... — mordida no lanche.
- Hmm... E a comida está boa?
- Uhum... — outra mordida no lanche.
- Como está a Clara? — perguntou, mostrando que ainda pensava na ex-esposa.
- Bem... — mordeu novamente.
- E o colégio?
- Hmm... — resmungou, terminando de engolir o que mastigava e comendo outro pedaço.
- Está namorando?? — indagou, genuinamente curioso.
A resposta que obteve foi, pela primeira vez, um contato visual com ela. E aqueles belos olhos castanhos lançaram-lhe adagas de ódio profundo.
- Posso terminar de comer em paz??
- Tudo bem, desculpe — ele encolheu os ombros — Não estou acostumado a ter uma filha, mas estou tentando...
Ele resolveu desistir da tentativa de conversa e deixou a última frase suspensa no ar. Ficou observando-a terminar o lanche com muito esforço, enquanto comia as batatas-fritas e bebericava o refrigerante.
*Mais tarde, no centro de Seoul — apartamento de YooChun*
O pai fazia a gentileza de carregar a maior mala para Serenity. Enquanto ele abria a porta, ela deu uma boa olhada no hall ao redor, intrinsicamente decorado em tons frios e pastéis, pedras, metais, madeiras e plantas. Não estava acostumada com luxo, algo que este lugar com apenas dois apartamentos por andar claramente esbanjava. Mas ficaria logo, já que moraria neste condomínio de milionários, no centro de Seoul.
A pesadíssima porta de madeira foi aberta e a primeira coisa que notou é que tinham quatro estranhos na sala e todos olhavam diretamente para a recém-chegada, três deles com sorrisos enormes e calorosos.
- YooChun! — a quarta pessoa, uma mulher em seus trinta e poucos anos, exclamou em tom indignado. Ela não parecia feliz.
- Agora não, HyuGa! — ele largou a mala preta onde estava, pegou o telefone sem fio e praticamente correu até uma porta à esquerda, onde a bateu e trancou.
Os outros, incluindo Serenity, olharam-no estupefatos. A mulher, HyuGa, bufou e foi pisando duro bater à porta, xingando alto, mas foi ignorada.
- Melhor deixar ele, HyuGa.
O homem mais velho, de aparência delicada, afirmou com certa autoridade. Serenity sabia quem era: Kim JaeJoong, outro dos integrantes do TVXQ. Além de ser famoso, ouvia sua mãe conversar muito com ele no telefone. A garota sentada ao seu lado, com cabelos ondulados, parecia ter sua idade. Apostaria seus dedos em como ela é sua filha — tinham aparência quase idêntica. A terceira pessoa, outro homem, perto dos quarenta, ela tinha certeza que não conhecia, embora lhe fosse vagamente familiar.
Ele ainda não sabia o que o fizera segurar o sorriso no lugar. Quer dizer... sua esposa Lilly, que já revira a menina já mais velha em diversas ocasiões, dissera-lhe que era curiosa e animada – não que fosse tagarela como Maia, mas estava sempre com um sorriso simpático e gostava de conhecer as pessoas e o mundo. Era difícil relacionar a adolescente de roupas desagradáveis com a mesma que pintara em sua mente. Estava acostumado com penteados modernos e coloridos dos ídolos da própria empresa, mas aquelas mechas eram demais! E achou que fosse ter um faniquito ao ver as roupas rasgadas e indecentes. Perguntou-se mentalmente se era essa a imagem sobre si que ela realmente queria mostrar ao mundo – porque ela certamente tinha problemas de personalidade... Problemas em que teriam que trabalhar logo.
- Olá Serenity! — JaeJoong sorriu-lhe paternalmente (ou o melhor que seus anos como ator lhe permitiram) e meneou a cabeça — Sou Kim JaeJoong, amigo do seu pai.
- Eu sei quem você é... — comentou, com uma expressão mórbida.
- OK, OK... Dispenso apresentações então. Esta é minha filha Kim Maia.
A menina baixinha, de cintura fina e quadris generosos, vestida em roupas leves, casuais, coloridas e cheias de rendinhas, curvou-se educadamente e deu-lhe um sorriso enorme.
- Sou Park YooHwan — o terceiro homem apresentou-se, curvando-se também — Acho que YooChun nunca falou sobre mim para você, mas sou o irmão mais novo dele, seu tio.
Ele sorriu-lhe afetuosamente. Serenity não sabia o que dizer, sentiu-se intimidada sozinha com tantos desconhecidos. As palavras simplesmente não saíam.
- Ahh... Amhhh...
E, antes que qualquer frase coerente pudesse tomar forma, foram interrompidos pelos berros de YooChun.
- COMO DEIXOU SERENITY VIRAR "AQUILO"????
*Na sala de composição*
Bufando, o cantor discou rapidamente os números que ainda sabia de cabeça. Não se importava que era meio da madrugada em New York, ele precisava descontar o choque... diretamente em sua fonte.
Ouviu alguém socar a porta e a voz de sua companheira bradar palavras ofensivas. Ignorou-a. Era a última pessoa que queria ver no momento. O telefone tocou, tocou e tocou... Nada. O barulho de HyuGa cessara, provavelmente desistira. A linha ficou muda e YooChun apertou o botão de rediscagem. Desta vez ela atendeu em poucos toques.
- Hello?? — veio a voz sonolenta.
- COMO DEIXOU SERENITY VIRAR "AQUILO"????
- Ahh... YooChun? — perguntou, confusa e chocada.
- SIM, CLARO QUE SOU EU! O QUE DEIXOU SUA FILHA FAZER????
- Ahhh... Você se refere ao cabelo? Bom, achei que ia rep...
- ME REFIRO AO CABELO, À MAQUIAGEM, ÀS ROUPAS, ÀQUELA SAIA, PELOS CÉUS CLARA!!!!
- Quer parar de gritar? YooChun, isso é normal para os adolescentes, você deveria saber — disse com voz mansa, tentando acalmá-lo e manter a calma ao mesmo tempo.
- Aquilo não é normal, é uma ABERRAÇÃO!!! Eu já fui um adolescente americano e as coisas NÃO SÃO ASSIM!
- As coisas MUDARAM, YooChun! E que direitos você tem de vir criticar o modo como eu a criei, quando você, o pai dela, a abandonou quando ainda era bebê?
O silêncio foi longo enquanto o homem processava a dor do golpe certeiro em um de seus nervos mais fracos.
- Eu... Eu estou tentando mudar... Mas isso não significa que você pode me culpar pela imagem de delinquente dela. Ela não será facilmente aceita aqui — recomeçou, mais calmo.
- Bom, para quem não queria nem recebê-la em casa até alguns dias atrás, você parece bastante preocupado se sua cultura vai rejeitá-la... — Clara retorquiu ironicamente.
- OLHA AQUI...! — mas interrompeu-se antes de dizer coisas das quais se arrependeria. Socou a mesa em frente e suspirou — Eu disse que estou tentando, OK? Não garanto que conseguirei, mas darei meu melhor para conquistá-la — resolveu ignorar o tópico anterior.
- Serenity não será comprada com coisas caras, só para saber. Se continuar explosivo e impaciente desse jeito, vai perdê-la novamente.
- EU NÃO SOU EXPLOSIVO! Pare de me atacar!
- Você começou a me atacar antes! — retrucou indignada.
- Com razão! Nada justifica Serenity ter ficado assim!
- Pare de tratar sua filha como um objeto defeituoso!
- Estou sendo realista! — uma breve pausa para ambos recuperarem o fôlego e a compostura — Como convenço ela a, pelo menos, pintar o cabelo de preto para a escola?
- Humph, descubra sozinho, seu estúpido! — a mulher bufou enraivecuda e desligou o telefone.
YooChun rosnou e rediscou o número. A conversa não acabara ainda. Porém a chamada caía instantaneamente em linha ocupada. Provavelmente desligara o telefone.
- MERDA!!!! — socou de novo a mesa onde se apoiava.
*de volta à sala de estar*
Serenity arregalou os olhos quando ouviu o pai gritando. A cada palavra exaltada, sentia-se encolher e o olhar caía mais. Ele estava brigando com sua mãe, por sua causa... Por causa de sua aparência...
Brincou distraída com a alça de sua mala. O clima estava pesado e estranho; JaeJoong e YooHwan mexiam-se e entreolhavam-se desconfortavelmente. Quando achou que não conseguiria mais conter as lágrimas de raiva e humilhação, Maia atirou-se sobre si e deu-lhe um forte abraço, tentando consolá-la.
- Não importa o que os outros acham da sua aparência, nós vamos ser amigas, OK?
Os olhos de Serenity arregalaram e as lágrimas secaram. Ela não sabia como reagir. Várias respostas passaram-se pela sua mente, como "Não quero amigos, só quero ir pra casa!", mas seria muita grosseria com a garota que tentava confortá-la. Por isso, resolveu engolir as ironias e resmungou em um tom trêmulo:
- Tá bem...
Maia soltou-a e deu-lhe um sorriso rasgado, parecidíssimo com o do pai.
- Você vai para a mesma escola que eu, estamos na mesma classe!
JaeJoong sentiu uma vontade imensa de abraçar a garota também, mas refreou-se. Não sabia se ela estava acostumada com este tipo de intimidade e ficou receoso de assustá-a mais ainda. Teria de ter uma séria conversa com YooChun. O fato de nunca ter criado uma filha não justificava a falta de tato.
Neste momento, a porta foi aberta e ele saiu de lá ainda carrancudo. Seu irmão e o outro cantor lançaram-lhe olhares feios e Serenity virou o rosto para o lado oposto, fingindo estar muito interessada na decoração peculiar do aposento.
- Que foi?? — JaeJoong indicou-lhe a garota de cabelos roxos com a cabeça. Mal conseguia conter sua revolta — Eh... Qu- Ahh, vocês ouviram?? — seus olhos arregalaram-se e sua voz adquiriu um certo tom de pânico e arrependimento.
- Bom, eu já vou... — JaeJoong anunciou, cortando o amigo.
- Já?? — Maia protestou, fazendo bico pra o pai.
- Sim. Tenho umas coisas da East para terminar e acho bom você continuar ensaiando aquela música. O refrão ainda não está bom...
- É, eu sei, papa... — ela encolheu os ombros — Mas eu queria conversar mais com a Serenity...
- Amanhã vocês conversam na escola. Agora ela está cansada da viagem.
A outra garota prestava atenção discretamente na conversa. A cantora-mirim era tão fofa que chegava a ser enjoativo...
- Tá, tudo bem — ela sorriu ressentida — YooHwan-ajeossi, até mais! Você tem que passar na East para ouvir o meu álbum novo — ela abraçou-o com força e o homem afagou seu cabelo.
- Pode deixar, Maia. Amanhã eu vou lá, prometo.
- OK!
- YooHwan, amanhã às duas, então? — JaeJoong perguntou.
- Sim, isso. Estarei lá.
- JayJay sempre pensando nos negócios — YooChun comentou. JaeJoong o olhou feio.
- YooChun, quero você às oito lá na East. Temos que ter uma conversa muito séria.
- Sobre...? — sua resposta foi outro olhar feio — OK, OK, vou pra lá depois que deixar a Serenity na escola.
- Chun-ajeossi, você vai ajudar no rehearsal, né?? — Maia perguntou com os olhos brilhando; aquele tipo de expressão que ninguém conseguia resistir, só sua mãe.
- Claro, florzinha. Todos vamos!
Ela abraçou-o também e depois abraçou Serenity novamente. Esses momentos de interação foram o suficiente para a americana perceber que a outra menina é a princesinha de todos. E tinha profunda aversão a princesinhas — ou pelo menos às de sua escola nos Estados Unidos.
Os dois se dirigiram à porta e YooChun abriu-a para eles.
- Até amanhã. Tchau-tchau! — acenaram depois de calçar os sapatos.
No corredor, antes da porta ser fechada, Serenity viu Maia dar as mãos para o pai.
- Papa, sera que Vega-oppa tocaria para eu ensaiar?? — ouviram a garota perguntar. A voz estava abafada, mas soava muito clara no hall.
- Acho que sim, amor. Peça a ele quando chegarmos em casa.
- Eu vou! Papa, você pode ouvir mais tarde para dizer o que ainda há de errado? Mama podia ouvir também, ela sempre sabe se estou expressando os sentimentos da melhor forma...
- Claro, eu e sua mãe gostaremos muito.
E a conversa provavelmente continuou quando pegaram o elevador e desceram... O que mais machucou a recém-chegada foi a inveja que sentiu do relacionamento de pai-e-filha deles; pareciam realmente muito próximos. O que mais a machucava... era ver o relacionamento próximo e carinhoso dos dois, quando ela nunca soube o que é ter um pai. Não percebera que estava olhando para algum ponto além da porta até YooHwan, seu tio — teria que se acostumar com esta outra palavra estranha — colocar a mão em seu ombro, fazendo-a virar sobressaltada.
- Claro que eu trouxe um presente para a minha única sobrinha — ele disse, com um sorriso sincero — Venha aqui.
O pai observava tudo de seu lugar próximo à entrada, de braços cruzados.
Serenity corou ligeiramente por baixo da maquiagem pesada. Não estava acostumada a ganhar presentes assim, principalmente de seus parentes coreanos. Timidamente seguiu o tio até os sofás onde os vira quando chegou. Da mesa de centro, ele pegou um pequeno embrulho em papel acetinado e entregou-lhe.
Delicadamente ela desfez o embrulho e viu-se segurando uma caixa de veludo rosa-choque.
- É só um pequeno agrado — YooHwan apressou-se — Não sabia como você era, nem do que gostava, mas... — quando viu que ela não estava abrindo, pegou a caixa da mão dela ansiosamente, abriu-a e mostrou-lhe.
Os olhos de Serenity arregalaram-se. Era um pingente relativamente grande do perfil de uma baleia orca, um tanto cartunizada. Seu corpo preto era cravejado de diamantes negros e as manchas brancas, de diamantes brancos. Ele estava pendurado em uma corrente prateada torcida de espessura mediana.
- Oh... My... Gosh... — ela murmurou em inglês.
Certo que ele era fofo demais, mas ela totalmente via-se o usando o tempo todo.
- Escolhi as orcas, pois os cetáceos são animais muito ligados à família. Achei que seria um presente perfeito para simbolizar sua chegada à nossa família — ela continuava apenas olhando a jóia boquiaberta, sem reação — É tudo em ouro branco, caso você tenha alergia... — adicionou sem graça ante à imobilidade da sobrinha.
- Hmm, YooHwan realmente abriu a carteira desta vez, hein — YooChun comentou, olhando o presente por cima do ombro da filha.
- Hyung! — exclamou sem graça — Eu nunca fui mão-de-vaca com coisas para a família.
O mais velho deu uma leve sacudida na filha.
- Gostou, Serenity??
- Eu... eu adorei! É lindo! Obrigada, ajeossi! — ela exclamou, os olhos marejados pela segunda vez no dia e um sorriso cativante; o primeiro em dois dias — Pode colocar para mim??
YooHwan sorriu aliviado; ela pareceu genuinamente gostar. Tirou o acessório da caixa e, com cuidado, passou-o pelo pescoço da menina. Ela ignorou o fato que já estava usando várias correntes e afastou as mechas pretas e roxas para o tio fechar.
Ele deu a volta e parou ao lado do irmão, os dois observando-a agora.
- Contrasta lindamente com sua pele.
- Sim, sim... YooHwan como sempre com um excelente bom-gosto para acessórios.
- Obrigado, hyung.
- Às vezes você e JaeJoong-hyung me dão medo.
- Só porque o hyung nasceu sem senso de moda, não significa que somos todos assim — retorquiu ironicamente.
- Ya! — YooChun exclamou ofendido.
- Bom, vou indo também, hyung. Serenity tem que descansar para a escola amanhã...
- Não... hmmm... — ela ia dizer que queria que ele ficasse, mas desistiu de última hora. Ele com certeza tinha uma vida pessoal para cuidar.
- Não vai ficar para jantar??
- Melhor não. Vejo vocês amanhã, na East.
- Tá.
O anfitrião acompanhou-o até a porta enquanto Serenity permaneceu grudada onde estava, pensando no que fazer sozinha com o pai e a madrasta. Seu breve bom-humor foi substituído instantaneamente por uma nova aura negra.
- Tchau Serenity, até amanhã! — ele exclamou da porta, meneando a cabeça.
Ela curvou-se profundamente de onde estava.
- Até amanhã, tio. Obrigada pelo presente.
- Disponha!
- Podem deixar a porta aberta — uma quarta voz exclamou imperiosamente. HyuGa emergiu das sombras do corredor que levava aos quartos, elegantemente vestida, bem penteada e bem maquiada.
Vendo-a mais de perto agora, Serenity percebeu como ela era baixa, apesar do salto enorme. Tinha um corpo muito bonito também, e a expressão muito arrogante.
- Vai a algum lugar?? — YooChun indagou, carrancudo.
- É óbvio, não, querido?? — retorquiu ironicamente, dirigindo-se à saída.
- Para onde?
- Ainda não me decidi. Só quero distância deste antro — ele arqueou as sobrancelhas, bravo — Não me espere acordado...
E saiu sem qualquer outra satisfação.
YooHwan encolheu os ombros desconcertado e saiu em seguida.
YooChun suspirou, tentando manter a paciência. Ele pegou as duas malas que ainda estavam na entrada e carregou-as até o corredor, onde as encostou na parede.
- Venha, vou mostrar a casa. — Serenity concordou mal-humorada e segui-o.
Ele mostrou a cozinha e onde cada coisa ficava nos armários e na geladeira, depois a área de serviço, onde a ensinou brevemente a operar a máquina de lavar roupas. Ficou francamente surpresa ao ver como o homem era organizado e limpo — sua mãe era, na verdade, até relaxada perto da meticulosidade do apartamento do pai, que ela percebeu que ele mesmo arrumava. E provavelmente esperaria que ela fosse independente e organizada.
Em seguida, levou-a à sua sala de composição, lotada dos computadores e instrumentos mais modernos e um piano de cauda enorme. Serenity sentiu uma pontada no peito ao olhar uma das mesas, cheia de retratos.
Na sala também havia vários, inclusive alguns bem grandes e outros pendurados nas paredes, a maioria com seus pais e seu irmão, com o Dong Bang Shin Ki e suas famílias e alguns lugares turísticos que visitara. Uma ou outra com sua mulher, HyuGa, quando eram mais novos. As da sala de composição não eram diferentes; uma ou outra com artistas realmente importantes que ele conhecera. Mas duas particularmente lhe chamaram atenção. E eram as que estavam mais à frente. Uma era dele com Clara no começo do casamento, os dois estavam sentados abraçados e Serenity, com mais ou menos um ano, sentada no colo do pai, sorria um sorriso puro e inocente. A segunda, logo ao lado, era um meio-corpo de sua festa de dez anos, uma das noites mais divertidas que já tivera.
Prendeu a respiração ao vê-las. O que ele lhe dissera no restaurante ecoou em sua mente "Estou tentando... Darei meu melhor...". A visão das fotos quase a fez querer pegar mais leve com ele. Provavelmente ele fora sincero. Será que realmente sentia falta da família?? Mas se sentia, por que as abandonara? Se sentia... por que não voltou? Por que não demonstrava se importar...?
Quando saíram de lá e entraram no corredor, ele tornou a pegar as malas e abriu a primeira porta à esquerda.
- Este será seu quarto — entrou e colocou as bagagens perto da cama. Serenity largou a frasqueira roxa sobre o colchão e olhou em volta. Tudo era branco e bem simples. Só havia um guarda-roupas, a cama e uma cômoda — Eu e JaeJoong-hyung resolvemos deixar ele bem básico, assim você pode decorar do jeito que preferir. Podemos ir comprar papéis de parede, prateleiras e mesas no fim de semana, se quiser.
- Hmm, pode ser.
- Pode usar a mesa da minha sala para fazer os deveres da escola enquanto isso.
- OK...
Depois ele foi até uma porta adjacente e abriu-a.
- Este é seu banheiro — ela entrou e examinou-o também. Tinha uma banheira razoável e tudo era de mármore branco — O mesmo se aplica aqui. Já tem toalhas e um roupão, shampoos e sabonetes para tomar banho. Depois você compra os que quiser.
- Eu trouxe meus preferidos de casa... — comentou.
- Bom, bom, melhor.
Voltaram ao quarto e YooChun saiu e parou no meio do corredor.
- Ali... — apontou para a porta ao lado — É o meu quarto. Do outro lado é o ateliê da HyuGa. Ela é estilista — respondeu à pergunta muda da filha — Não entre lá, ela não gosta. Diz que as criações não podem vazar antes dos desfiles. Bom, de qualquer forma, geralmente está trancado. Só avisando por precaução. E aqui em frente — indicou a porta às suas costas — É outro banheiro.
Ela acenou com a cabeça.
- Bom, é isso... — finalizou — É um apartamento, não é para ser muito grande mesmo.
- Sim... — bom, ela achou o lugar enorme por ser só um apartamento.
- Vou te deixar descansando agora. Podemos sair para jantar mais tarde, quando quiser.
- Não... não quero jantar... Não se preocupe.
- Vai ficar sem comer??
- Se tiver fome, depois eu me viro com algo aqui.
- Tudo bem. Se precisar de algo é só pedir, estarei trabalhando. É só entrar...
- Tá, obrigada — respondeu seca e voltou para o quarto.
YooChun fechou a porta e encostou a testa nela, pensando amargurado. Pensamentos que foram interrompidos por um som que partiu seu coração — era o som mais triste que existia, que nenhuma melodia podia rivalizar. O som de sua filha chorando.
Não sabia quanto tempo ficou lá, ouvindo aquele barulho melancólico. Quis entrar e abraçá-la... Mas provavelmente sua presença só pioraria as coisas. Apertou a maçaneta com força, impotente. Quando ouviu o ruído de roupas em movimento e, em seguida, o chuveiro ligando, desencostou-se e dirigiu-se à sala de composição.
A melodia que faria esta noite certamente teria um tom trágico...
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