Family Train
1 Family Train
“ -Trixy Zia, pelo crime de usar magia de morte em um de seus semelhantes, nossos caminhos chegaram num impasse e devemos nos separar. Você não poderá ter contato com nenhum membro do nosso bando enquanto viver, seja ele amigo, conhecido ou parente, incluindo seus pais. A sentença foi aprovada por unanimidade entre os sábios e, por isso, não pode ser revogada, alguma dúvida?
—Apenas se poderei levar alguma coisa comigo.
—Nada além da roupa que usar.
—Então que assim seja. Que os cosmos guiem a todos nós.”
23 anos depois...
—Weiss, vamos para a praia! — Twinkle proclamou com um sorriso enquanto Guinga corria de um lado para o outro arrumando tudo com Khaella, todas cheias de energia em plenas 5 horas da manhã!
—Praia? — A God Slayer de gelo perguntou confusa – O mar?
—Isso! — Guinga gritou de algum lugar, a voz abafada pela pilha de coisas que carregava – Vai me dizer que nunca foi?!
—Er... Não.
Silêncio.
Twinkle, Guinga, Khaella e, quem diria, até Ellariel – Que antes estava num canto fazendo vários nadas – a encararam como se ela fosse uma espécie em extinção, fazendo-a se sentir incrivelmente desconfortável.
—...Okay... — Twinkle foi a primeira a quebrar o silêncio – Agora é que nós DEFINITIVAMENTE vamos! — Decretou e se apressou a ajudar as meninas.
Um pouco mais tarde, em alguma praia do reino de Fiore...
—Aqui é... Lindo! — Os olhos de Weiss brilharam com a visão do mar aberto. O sol irradiava no céu numa temperatura agradável e brisas ocasionais percorriam o lugar, por exigência de Ellariel, a praia escolhida era deserta e a antiga princesa de Seckalt agradeceu internamente à maga d'água. Não era acostumada a roupas de banho e definitivamente não se sentiria a vontade exibindo seu corpo daquela forma para um monte de estranhos!
Estava tão deslumbrada que não notou a aproximação silenciosa de Twinkle.
—É como você imaginava?
—É melhor – Confessou com um sorriso – Você já foi a muitas praias?
—Muitas – A maga de ácido sorriu com as lembranças – Quando eu vivia com a comunidade, nós nunca passávamos mais de um ou dois meses no mesmo lugar, vivíamos em transição, indo para onde a natureza nos guiasse, sem medo de nada, então tive contato com muitos lugares e povos. Nem tudo o que eu vi foi bonito, mas, com certeza, valeu a pena.
—É um estilo de vida bem diferente do meu – Confessou – Não consigo me imaginar vivendo assim... N-Não que eu queria lhe ofender ou algo do tipo! — Desculpou-se rapidamente.
Twinkle riu.
—Floquinho, acredite, se em trinta e sete anos de vida a coisa mais ofensiva que tivessem me dito fosse essa, seria surpreendente, pra não dizer o mínimo! — Brincou e esticou as pernas, e só então Weiss parou para visualizar o corpo da maga, geralmente oculto pelas blusas e longas saias que usava.
Além das tatuagens que a god slayer via no rosto da mais velha, descobriu que Twinkle possuía marcas nos braços e um grande desenho na cintura, além de cicatrizes ao longo das pernas e em outras partes do corpo. Ficou curiosa, em Seckalt não era comum pessoas tatuadas.
—São do meu povo. Ganhamos quando nascemos e, a cada ano, elas são refeitas para acompanharem o crescimento dos corpos, até que, quando o corpo se desenvolve por completo, elas são tatuadas em tinta permanente. Legal não é?
—Então o seu corpo se desenvolveu até os quatorze anos? — Ficou confusa – Porque foi com essa idade que você foi expulsa, certo?
—Certíssima, como sempre. Mas não, ele foi se desenvolvendo normalmente até a fase adulta – Riu – Fui refazendo elas sozinha quando precisava até a hora de tatuar permanentemente.
—Mas... Se você foi expulsa, qual o sentido de ficar fazendo algo que te liga aos que te expulsaram?
—Eles são minha origem. Lá estão as pessoas que me deram a vida e que, apesar de tudo, eu sei que me amam. Isso não pode ser apagado, e o meu banimento me levou para caminhos que muito provavelmente eu não conheceria se continuasse com eles, alguns nem sempre muito amigáveis – Apontou para uma cicatriz qualquer – Mas sou grata por tudo, tudo mesmo.
Twinkle sorriu radiante e Weiss reconheceu naquele olhar uma sabedoria que só quem viveu muito e aproveitou um pouco de tudo era capaz de ter. De repente, ficar na presença da maga de ácido se tornara bem mais fácil.
—Inclusive... Inclusive a gente? Guinga, Khaella, eu...
—Principalmente vocês – A mais velha sorriu e deu um peteleco na testa da God Slayer – Mas estamos perdendo tempo! Sabe a coisa mais legal de se fazer na praia, Weiss, além de obviamente tomar banho?
—O quê?
—Brincar! — Twinkle pegou uma bola enorme, porém leve, e ficou girando no dedo indicador – Guinga! — Esperou a garota se virar em sua direção antes de jogar a bola para ela – Pensa rápido!
A garota pegou a bola por pouco e Weiss riu da cena. Guinga deu um sorriso travesso.
—Pensa rápido, Weiss! — Jogou a bola, porém a god slayer não foi tão rápida e caiu na areia segurando a bola, fez um muxoxo ao ver a filha de Twinkle rindo da sua cara e, quando percebeu, seus pés já corriam com a bola em direção a ela tentando acertá-la, apesar de a cena parecer vingança, no fundo do seu coração estava realmente feliz.
Twinkle contemplou a cena por alguns minutos antes de pular no mar e ficar boiando enquanto olhava para o céu, pensando em como a sua vida estava agora.
Mesmo depois de banida de seu bando, passado o impacto inicial, era raro para ela sentir que estava sozinha no mundo. A consciência de estar espiritualmente ligada a todos sempre lhe deu o discernimento necessário para lidar bem com o fato de não viver mais em comunidade com os seus, embora, por muito tempo, houvesse hesitado em fixar residência em um lugar, os motivos eram diversos: Desde o sentimento de vazio que muitas vezes a assolava quando tentava ficar em uma cidade qualquer até a péssima recepção que teve em muitos lugares que chegou.
Riu sem alegria lembrando-se de alguns episódios.
“Teve aquela vez que soltaram os cachorros em cima de mim, literalmente. Também teve a outra que acharam que eu era ladra por causa das tatuagens... Ah, e aquela vez em que me culparam pelo sumiço de duas crianças do vilarejo, também teve o quase linchamento em praça pública porque esconderam coisas roubadas no meu mostruário...”.
Sabia que a maioria das pessoas desistiria de acreditar na boa fé da humanidade se passasse por metade das coisas ruins que ela passou, porém a maga se recusava a deixar de acreditar, porque nem só de mágoas sua vida era feita e suas cicatrizes não traziam lembranças de momentos dolorosos apenas.
“Tem a que eu consegui quando tirei aquela menina de um bar em chamas, a outra que eu ganhei quando salvei um garoto de ser atropelado e, por mais que a que eu tenho nas costas seja um ponto fraco a ser explorado, gosto do fato de ter me machucado ajudando gente a se esconder dos mercenários recalcados que dominavam a cidade deles na época... Ah, e tem a que eu ganhei por lutar contra eles.”
Riu travessa. Aquela havia sido uma batalha divertida e, mesmo hoje, os habitantes da cidade tão pequena que nem constava no mapa do reino ainda lembravam dela e a tratavam muito bem quando aparecia por lá. Guinga também gostava da cidade e talvez fosse uma boa ideia levar Weiss e Khaella para conhecerem-na também, já conseguia pensar em senhoras que adorariam o jeito refinado da maga de gelo e lugares onde a altura e habilidades da filha de Ellariel seriam muito elogiadas.
Desenvolver a autoestima das três menores era um cuidado constante seu. Não queria que elas se achassem deusas acima de tudo e de todos, mas se esforçava para garantir que elas tivessem uma boa imagem de si mesmas: Mostrava-lhes seus defeitos, mas também lhes ensinava a desenvolver suas qualidades, sempre orando e orientando para que elas crescessem de forma equilibrada.
Admitia que a preocupação começou depois que encontrou Guinga. O estado em que a garota estava surpreendeu até mesmo a ela e, embora não admitisse, fez alguns paralelos entre ela e Ellariel, já que ambas passaram por problemas na família e fugiram ainda crianças.
Sua melhor amiga, pelo menos neste caso, havia tido um pouco mais de sorte: A determinação de Ellariel deu um sentido a sua vida, a maga d'água tinha um propósito do qual não desistiria. Lembrava-se bem do primeiro contato que teve com Ellariel: Tinha salvo a melhor amiga de sequestradores, porém ela ainda estava desconfiada e disposta a lutar pela própria vida, já Guinga nem mesmo isso tinha: Para a garota, não importava se estava viva, morta, bem ou mal, afinal não via sentido na vida e, nas palavras da própria filha “era covarde demais para se matar, então esperaria pacientemente a morte que a aguardava”.
Naquele dia Twinkle viu de perto o que uma vida de abusos podia fazer com uma pessoa.
Sentiu o fundo do mar tocar seus pés quando parou de boiar para observar a filha, que brincava animadamente com as amigas sob a cuidadosa supervisão de Ellariel, ainda que a mais velha nunca fosse admitir, e sorriu observando a cena. Apesar de ainda ter um longo caminho a percorrer, Guinga definitivamente estava mais feliz agora e isso fazia todo o esforço feito pela “Lady Cosmos” parecer tão leve quanto um grão de arroz.
Guinga, Ellariel, George, Tierra, Tessa, Johnny, Austy, Khaella, Weiss, Vallet, Celeste...
Sorriu lembrando-se de todos os que passaram pela sua vida.
“Vocês são minha família agora”.
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