Fama.

6 Questões Familiares, Parte 1.


— se esse filme fracassar, eu perco minha carreira de vez – disse Beatriz, antes de dar uma tragada em seu cigarro.

— mas vai ser um sucesso, por mais que a suja da Marcela tentou te sabotar, vai ser um sucesso – disse Diana, dando um gole em seu uísque – você e Marília são dois monstros sagrados da dramaturgia desse país, você vai ver, ele vai ser o representante brasileiro no óscar!

— meu santo Stanislavski te ouça! — completou Beatriz – mas o pior de tudo é que eu tenho que ir a uma porre de uma janta com o pessoal da produção hoje, quer dizer, jantar com Glauber, com o Gilberto e com o Antônio vai ser ótimo, mas ela estará lá, isso que estraga tudo.

— Beatriz, não é da minha conta, mas somos amigas a tanto tempo que eu queria saber uma coisa. Qual é o motivo do ódio de vocês duas?

— você nunca leu nada sobre o assunto?

— já li sim, mas li tantas versões diferentes de tantas coisas que nem sei mais em que acreditar, queria saber de você.

— então Diana, eu e Marília nunca fomos amigas, desde o começo eu nunca confiei nela, mas eu comecei a me relacionar com o Renato, o dono da Focus na época, sabe né, o irmão da Clarissa, porém quando foi anunciado que seria feita uma turnê nacional com uma montagem de Pigmalião, Marília começou a jogar da maneira mais suja possível pra conseguir o papel, ela engravidou de Renato, então eu descobri que os dois eram amantes a mais tempo – ela deu mais uma tragada – eu poderia usar minha influência na mídia e destruir ela sabe, mas não preciso, eu perdi o amor da minha vida mas eu deveria agradecer, pois foi por isso que eu fui parar no Rio pela primeira vez e comecei a fazer TV, além do mais ela tem o castigo que merece na vida com aquela filha dela, chega a ser digna de pena…

— sei, aquela filha dela que está internada na clinica pra tratar a depressão – completou Diana.

— depressão? — Beatriz deu uma gargalhada – isso tudo é invenção da Marília, a garota está internada pra ver se para de usar cocaína.

— cocaína, ela é viciada? — perguntou Diana, espantada.

— a garota é um aspirador de pó! Marília internou ela após uma overdose.

— estou chocada!

— sim, a Manuela era uma garota linda mas ela foi se estragando com o tempo, mas eu entendo a garota usar drogas, o inferno que ela deveria viver nas mãos da Marília, Deus me livre – Beatriz deu mais uma tragada – ela era modelo e começou a namorar com um garoto que era traficante, eles iam viajar para fora do país, mas ele foi detido no aeroporto, o que ninguém sabe é que a Marília armou pra que a garota de atrasasse pro embarque e denunciou ele pra que fosse preso por tráfico internacional. A Manuela condena a mãe e não a perdoa por isso até hoje, mas querendo ou não, ela salvou a filha, qualquer mãe teria feito o mesmo no lugar dela, acho que foi a única coisa que preste que ela fez na vida.

*

Marília e Clarissa estavam sentadas no saguão onde os internos se alimentavam esperando que Manuela chegasse.

— você está tão calada amiga, está tudo bem? — perguntou Clarissa colocando a mão sobre o ombro da amiga.

— eu fico apreensiva toda vez que viemos para cá – Marília estava muito aflita – eu queria muito um cigarro!

Antes que Clarissa pudesse falar mais alguma coisa, o enfermeiro abriu a porta e Manuela entrou por ela, indo em direção a mês onde a mãe e a tia estavam sentadas. As dua ficaram em pé para recebê-la, então Manuela foi em direção a Clarissa, dando-lhe um abraço apertado.

— oi tia Clarissa, como você está linda! — ela disse sorrindo, então virou-se para Marília e estendeu a mão para ela – olá Marília, tudo bem com você? — ela perguntou, com um tom sério, completamente diferente do que ela demonstrou para a tia.

— oi Manuela, eu fiquei muito feliz quando o médico me disse que você queria me ver – respondeu Marília.

— pois é, o médico disse que vocês está tão bem – disse Clarissa sorridente.

— que bom que ouviram dele que estou bem, pois é bem sobre isso que eu quero falar. Eu quero ir embora daqui – Manuela era uma pessoa muito objetiva – preciso retomar a minha faculdade antes que eu perca tempo demais.

Marília ficou muito apreensiva, pois Manuela havia começado a usar drogas por oferta de um colega seu de faculdade, que havia inclusive morrido de overdose, na mesma época em que Manuela conseguiu sobreviver a sua.

— mas isso é ótimo, se você está bem, não tem mesmo porque ficar aqui né? — disse Clarissa.

— você tem certeza que quer sair agora? — Marília falou, deixando clara sua angustia.

— e você sugere o que, que eu fique presa aqui pro resto da vida Marília? Porque sim, isso aqui é uma prisão – rebateu Manuela.

—claro que não, vai ser a maior alegria do mundo ter você na minha casa de novo, ainda mais agora que… — dizia Marília até que Manuela a interrompeu.

— eu não vou voltar pra sua casa. Você vai me dar uma ocupação na produtora, afinal de contas eu estou estudando produção audiovisual justamente para isso, e eu vou morar em um dos meus apartamentos. Temos tantos imóveis que não vai sentido eu morar com você.

— mas nem por cima do meu cadáver – disse Marília, mudando sua aflição para autoritarismo – você não vai sair daqui pra ir morar sozinha, não agora!

— está com medo que eu volte a me drogar? Eu fiquei três anos debaixo do teu nariz usando pó e você não notou, se eu quiser voltar a usar, coisa que no momento não me interessa nenhum pouco, eu volto.

— gente, se acalmem, por favor, vamos conversar numa boa, somos uma família – disse Clarissa, tentando acalmar os ânimos.

— você tem duas opções Marília: me tirar daqui numa boa agora e provar, ao menos uma vez na vida que me ama ou esperar até o final da minha sentença que é daqui a quatro meses e me deixar aqui esses quatro meses criando cada vez mais ódio e nojo de você, mas se você escolher a segunda opção, pode esquecer que tem uma filha.

— mas Manuela, você ainda não está apta para morar sozinha minha filha!

— eu não quero conselhos e nem lição de moral, eu te chamei aqui pra te fazer uma pergunta e só quero um sim ou não, simples assim.

— você pode ficar com ódio de mim pro resto da sua vida Manuela, mas eu não vou te dar uma resposta agora, eu vou falar com o teu médico e se ele achar que isso é viável agora, eu te tiro.

— você vai me abandonar mais uma vez Marília, é isso? — perguntou Manuela, deixando claro em sua voz o ódio.

— muito pele contrário Manuela, eu estou fazendo isso pelo seu bem.

— então vai pro inferno, eu não sei porque perdi meu tempo achando que poderia contar com você! — gritou Manuela levantando-se para ir embora

— Manu por favor, eu entendo sua mãe, ela só quer o seu bem, eu sei que você quer ir embora, mas não adianta a gente te tirar daqui antes do você ter terminado o tratamento – disse Clarissa tentando fazer com que Manuela ponderasse a escolha da mãe – eu prometo que vamos falar com o médico, se ele der qualquer sinal de que é bom pra você sair agora, nós vamos te tirar daqui, tá bem?

Manuela virou-se e saiu sem dizer nada.

— o que vamos fazer agora? — perguntou Clarissa.

— vamos falar com o médico – respondeu Marília.

Manuela chegou em seu quarto e surtou, ela queria quebrar o quarto inteiro e gritar muito, mas ela não podia, se ela fizesse isso, os médicos encarariam como instabilidade de não a deixariam sair dali, então foi até a gaveta de sua penteadeira e pegou um celular que havia ali dentro, então ela ligou para o único número que havia salvo ali, com o nome de “conato”.

— eu falei com ela e ela não quis me tirar daqui – disse ela quando foi atendida – eu vou pagar, eu só preciso de um tempo.

Ela desligou o telefone aflita. Ela não poderia falar nada para a mãe, mas o real motivo por ela ter parado de usar drogas era que ela está com dívidas enormes com um traficante de quem ela comprava drogas no passado e havia começado a temer por sua vida.

*

Marcela estava intrigada com uma coisa a dias. Ela havia recebido várias notícias contando todos os problemas que aconteceram durante a produção do filme, porém a fonte não havia se revelado, ela deu um tiro no escuro publicando tudo aquilo, mas pelo ódio que Beatriz ficou emitindo notas contra ela e o fato de que ninguém a processou, ela sabia que era tudo verdade, então ficou um questionamento: quem era o informante?

Ela estava a muito tempo nesse ramo, havia algo que a dizia que o informante era Diana, a assessora de Beatriz, mas por qual motivo se era ela quem pagava o salário dela, o que ela tinha a ganhar sabotando Beatriz? E por pensar em sabotagem, como é que uma atriz indicada ao óscar desde que começou a ser assessorada por essa garota não havia mais conseguido nenhum papel de destaque em novelas? Havia algo de muito errado ali, Marcela desconfiava desde o começo, ela nunca teve bons sentimentos em relação a Diana, então ela decidiu que ia investigar a fundo se, de fato, Diana estava sabotando Beatriz. Ela havia marcado um reunião com um dos contatos dela dentro da rede de televisão a qual Beatriz trabalhava e o contato disse que tinha informações interessantes para ela.

— então, Marcela – começou falando a garota franzina de cabelos pretos – nos últimos anos foram ofertados papéis ótimos e grandes para a Beatriz, mas ela sempre respondia com notas dizendo não haver interesse no momento, mesmo sem ela estar trabalhando sabe. A um tempo atrás foi engavetado um projeto que seria pro horário nobre em que a protagonista seria uma mulher de mai idade retratando temas como o preconceito contra a idade, o sexismo e a sexualidade de pessoas com mais idade sabe, o texto era riquíssimo de um dos autores mais renomados do canal, tinha tudo pra ser perfeito, foi enviada a proposta pra ela, e no mesmo dia foi enviada uma resposta em nome dela negando, o projeto foi engavetado e está lá até hoje esperando ela.

— você disse que a rssposta veio em nome dela? — perguntou Marcela.

— sim, foi a assessora dela, a tal de Daiane sabe, é sempre ela quem responde tudo, só aceita papel micho, coisa pequena, ela alega que a Beatriz não quer pegar coisas muito grandes pra não ficar tempo demais em função do trabalho e não ter tempo para viver – respondeu a garota.

— não é Daiane, é Diana – disse Marcela dando um gole em seu café.

Então, a garota entregou a Macela uma pasta branca, dentro da pasta haviam todos os projetos que foram ofertados para Beatriz e as notas de recusa vindas em nome dela.

*

— alô? — disse Beatriz ao atender seu celular.

— Beatriz? Escute com atenção, você vem sendo sabotada, sua carreira corre perigo e tudo o que estou falando, eu tenho provas! — disse Macela.

— como é que você conseguiu meu número? — perguntou Beatriz em tom de ofensa.

— estou te dando uma última chance de salvar sua carreira enquanto há tempo, e tudo o que estou falando eu tenho como provar e você sabe que as minhas fontes são boas – disse Marcela – mas você tem que vir agora e não conte pra ninguém.

— onde eu te encontro? — disse Beatriz, alguns segundos após um silêncio em que ela ponderou se deveria ir ou não.

*

— tenho um ótima notícia pra você Manuela – disse a enfermeira entrando no quarto de Manuela.

— o que?

— sua mãe falou com o doutor Oliveira e eles acham que você está apta a sair, amanhã pela manhã você vai receber alta – respondeu a enfermeira, sorridente.