Fama.
5 As Gravações
— fico feliz em você ter aceitado conversar comigo sobre o projeto – disse Marília – então, você aceita?
— qual é o meu papel? — perguntou Beatriz.
— então eu pensei na Penélope, acho que você dará uma impressão ótima para ela.
Diana, que estava em sua frente na mesa do barzinho onde estavam, deu uma olhada de cumplicidade para Beatriz, era exatamente o que elas haviam comentado que Marília faria isso.
— eu quero a Nancy – disse Beatriz, tragando seu cigarro.
— mas Beatriz, eu havia preparado uma… — tentou falar Marília, mas Beatriz interrompeu.
— ou eu faço a Nancy ou eu não faço, simples.
Marília sabia que precisava de Beatriz para que aquele filme fosse um sucesso.
— e claro, liberdade artística total sobre a concepção da minha personagem.
— está bem Beatriz, eu aceito que você fique com a Penélope – disse Marília, dando um gole em seu uísque para conseguir engolir toda aquela situação.
— então está bem, ainda hoje eu te dou a resposta – disse Beatriz apagando seu cigarro, então Beatriz e Diana levantaram-se, deixando Marília ali sozinha.
Quando Beatriz e Diana chegaram no escritório, Beatriz sentou-se em sua poltrona, colocou seu óculos no topo do nariz como de costume e começou a lera a nova proposta de Marília, o salário estava ótimo, havia porcentagem de recebimento dos lucros do filme, a liberdade criativa havia sido autorizada mas o que realmente fez os olhos de Beatriz brilhar, o nome dos atores que trabalhariam com elas e o diretor: Antônio Duarte e Gilberto Meira, os dois maiores atores do pais atualmente que tinham os melhores papeis e os melhores salários na televisão e o diretor era Glauber Barreto, o diretor de fama internacional, assim como Beatriz, que já havia feito filmes maravilhosos com atrizes como Meryl Streep, Julianne Moore e Glenn Close.
— meu Deus, a filha da mãe falou sério quando disse que iria investir tudo o que tem pra fazer desse filme um sucesso – disse Beatriz entendendo a filha até Diana – dê uma olhada no elenco e no diretor.
— caramba, Glauber Barreto cobra uma minifortuna para dirigir filmes desde que fez aquele filme com a Meryl. É um tiro no escuro, se for um fracasso, Marília estará falida! — Diana estava abismada.
— mas não será – Beatriz acendeu um cigarro e deu uma longa tragada – não é só a carreira dela que está em perigo aqui.
— tá, mas e você vai aceitar ou não? — perguntou Diana…
*
— vocês não vão acreditar quem está aqui comigo hoje! — introduziu Clarissa, sentada na poltrona branca enorme que havia no cenário de seu programa que ficava em frente ao enorme sofá branco onde ela recebia seus convidados – além da minha amiga de longa data a maravilhosa atriz e diretora Marília Vieira, tenho as demais estrelas que faram com o ela o filme Deus da Carnificina, a mundialmente conhecida atriz Beatriz Herman, os atros Antônio Duarte, Gilberto Meira e o diretor das estrelas Glauber Barreto!
Quando ela terminou de falar todos aqueles nomes, a plateia foi ao delírio enquanto os cinco entravam no cenário. Foram ovacionados pelo público, todos gritando seus nomes, aplaudindo em pé, estavam todos sorridentes, Clarissa cumprimentou a todos e eles sentaram-se.
— eu me sinto obrigada a começar dizendo que eu já recebi pessoas maravilhosas aqui no meu sofá, mas um elenco tão estrelar assim, com tantas pessoas de fama internacional e que agora são colegas em uma nova empreitada, vão montar a versão nacional de um clássico do teatro mundial e também virou um filme de sucesso mundial, Deus da Carnificina. Bom, de quem foi a ideia? — perguntou Clarissa.
— foi minha Clarissa – disse Marília – como nós quatro temos origens no teatro, nada mais justo do que fazermos uma adaptação de uma peça teatral.
— mas e como você conseguiu unir um time estelar desse?
— é uma longa história Clarissa… — seguiu Marília.
A entrevista se estendeu por todos os 50 minutos do programa. Beatriz falou o menos possível, pois Clarissa e Beatriz nunca foram amigas, Clarissa sempre deixou claro que preferia Marília e Beatriz, com a personalidade forte que tem, ela não fazia questão de esconder que também não gostava de Clarissa desde a época em que eram cunhadas, já Marília tomou conta da entrevista, e pelo fato de ter sido vinculado no horário nobre da maior rede de televisão do país no programa de Clarissa, a apresentadora amada pelo país todo colocou fogo no público, todos ficaram loucos para ver o filme que começaria a ser gravado no outro dia.
*
No quarto dia de gravações, tudo havia ido bem, Beatriz e Marília interagiam o mínimo possível fora de cena e durante as cenas o talento das duas era tão chocante que todos ficavam embasbacados, então chegou o quarto dia.
— se é tão insuportável, porque tiveram filhos? — disse Marília.
— talvez Zachary tenha notado essa falta de interesse – completou Antônio.
— que falta de interesse? — rebateu Beatriz com um tom bravo.
— você mesma disse! — respondeu Antônio.
— e corta! — gritou Glauber.
Marília estava sentada do lado de Beatriz, que estava em pé, a frente de Antônio e Gilberto, este estava ao lado de Marília no sofá. Um dos funcionários da produção trouxe para Beatriz um copo com o líquido que seria o vômito da cena, Beatriz colocou aquilo na boca.
— em suas marcar – gritou Glauber, todos retomaram seus postos – ação!
— você mesma disse! -Antônio repetiu sua fala.
Então, o script dizia para Beatriz cuspir tudo aquilo na mesa que havia em sua frente, porém quando ela cuspiu na mesa e moveu a cabeça, fazendo parte daquilo cair em Marília.
— você fez isso de propósito sua infeliz! — gritou Marília, limpando o rosto de levantando-se do sofá – pra que isso Beatriz?
— corta! — gritou Glauber.
— de propósito? Você não vê que foi um acidente, sua demente! — gritou Beatriz.
— acalmem-se por favor, vamos continuar – disse Gilberto, tentando acalmar os ânimos alterados.
— eu estava indo tão bem assim que você precisou arruinar a cena? — disse Marília, que agora havia se colocado em pé, encarando Beatriz.
— você estava na cena? — disse Beatriz, colocando a mãos sobre o peito, indicando espanto – mil perdões querida, nem te notei.
— mas você é uma ridícula mesmo! — rebateu Marília.
— por favor Marília, já se limpar e vamos continuar – ordenou Glauber.
Marília saiu, ela foi em direção ao banheiro, teria que refazer sua maquiagem, Glauber ordenou meia hora de descanso para os atores enquanto os funcionários limpavam o set para que pudessem gravar novamente. Depois desse incidente, a gravação correu normalmente, mesmo com ódio, Marília e Beatriz eram extremamente profissionais.
No dia seguinte, todos estavam no set menos Beatriz, então todos comentavam sobre elam então ela chegou. Ela caminhava tão rápido que se houvesse alguém na frente dela, seria atropelado, atrás dela vinha Diana, que tentava acalmá-la.
— Beatriz, pensa bem no que você vai fazer, não bata nale pelo amor de Deus! — dizia Diana.
— eu não vou bater nela, eu vou matar ela. Trouxe o martelo? Pois eu vou quebrar as duas pernas dela – disse Beatriz.
Beatriz chegou em frente a Marília e jogou nela uma folha que havia sido imprimida da internet.
— mas o que é isso, você está louca? — perguntou Marília.
— você esqueceu que se esse filme for um fracasso quem ficará na merda é você? Quem vai perder todo o seu dinheiro é você? — gritou Beatriz.
Marília pegou a folha e leu. Era uma nota que havia sido publicada no blog de Marcela que descrevia em detalhes o ocorrido de ontem e terminava a matéria dizendo que “os ânimos das inimigas de longa data andam tão exaltados que se esse filme conseguir ser filmado até o final sem que ninguém morra, ele já é merecedor de um óscar”.
— você não está achando que fui eu quem divulgou isso? — perguntou Marília.
— eu sei que foi você, você sempre usou a mídia pra difamar quem trabalha com você! — Beatriz estava enfurecida – eu não vou gravar hoje porque se eu ficar olhando pra tua cara hoje isso aqui vai virar um filme de terror.
Beatriz virou-se e saiu, deixando todos ali pasmos. Glauber pegou a folha e leu.
— que comecem os jogos. Vamos filmar tudo o mais rápido possível para que termine logo essa guerra midiática!
Naquela mesma noite, Marcela postou uma nova nota. Ela afirmava que tinha uma fonte dentro da produção que lhe contava tudo, porém realmente ela relatava os fatos com detalhes que realmente só saberia quem estava lá dentro, então criou-se um clima de suspeita, pois todos desconfiavam de todos. No dia seguinte, Beatriz não apareceu no set, apenas mandou uma mensagem para Glauber dizendo a ele que não teria clima e pedindo desculpas, porém algo no final da manchete deixou todos intrigados: terminava dizendo que “Beatriz tinha ataques de estrelismo” e dizendo que “não é de hoje que se sabe que Marília é insuportável de se trabalhar.” Beatriz achou que Marília poderia ter dito aquilo para despistar que era ela quem estava implantando essa notas, porém Beatriz conhecia o ego de Marília e ela não conseguiria chamar a si mesma de insuportável ou qualquer outro adjetivo depreciativo.
No dia seguinte, Beatriz voltou ao set sem conversar com quase ninguém, apenas com Glauber e Diana. Eles começaram a gravar as cenas decisivas do filme, as cenas em que os personagens começam a beber e os conflitos ficam maiores.
Depois de uma manhã pacífica de gravações, as cenas foram se afunilando e caminhando para o final, então o diretor deu uma pausa para o meio-dia. No período do almoço, Beatriz foi atrás de Marília em seu camarim.
— estou entrando Marilaine – anunciou Beatriz que estava na porta acendendo um cigarro.
— você é sempre bem vinda Beatriz – foi o que Marília disse, porém seu rosto demostrava o extremo oposto.
— sua atuação de bêbada sempre foi um lixo e nós estamos no terceiro ato – Beatriz deu uma tragada.
— e você além de melhor atriz do universo é professora de atuação também? — disse Marília, pegando também um cigarro.
— não, eu não sou professora, eu sou uma atriz que de renome internacional cuja carreira depende desse filme. Você sabe muito bem que se o terceiro ato arruinar, o filme está arruinado. Eu quero saber se você consegue colocar todo o ódio que sente por mim nessa cena e me dar uma atuação que preste – Beatriz deu mais uma longa tragada.
— assista-me atuando, eu vou te mostrar a atriz que eu sou – foi a resposta de Marília.
— vamos fazer o terceiro ato em um plano sequência – disse Beatriz.
— o que, você está louca?
— você sabe que uma cena como essa em que os ânimos vão se exaltando e nada melhor do que a pressão de gravar uma cena sem interrupções para deixar isso claro.
— Beatriz, isso não pode acontecer.
— ou você aceita, ou eu estou indo embora.
Marília ficou boquiaberta, como foi dada a liberdade criativa para Beatriz, ela poderia exigir aquilo, então Marília aceitou.
Eles voltaram para o set.
— todos em suas marcas – disse Glauber – e ação.
A cena começou a correr, haviam dado mais de dez minutos e nesse momento Penélope, a personagem de Marília já estava completamente histérica, enquanto Nancy, a personagem de Beatriz estava bêbada, falando com a língua enrolada.
— meu filho Ethan que tomou duas codeínas de madrugada pra conseguir dormir e ele que é o culpado? — Marília estava com os solhos arregalados, demonstrando a indignação de sua personagem.
— ele não é necessariamente uma vítima – rebateu Beatriz.
— caíam fora, sumam da droga da minha casa! — Marília pega a bolsa de Beatriz e joga contra a parede em direção a porta.
— minha bolsa, minha bolsa, essa cadela louca jogou minha bolsa na parede, quebrou tudo! — dizia Beatriz, ajoelhada no chão, ajuntando suas coisas.
— mas o que está acontecendo aqui? — falou Antônio.
— Alan, faz alguma coisa! — gritou Beatriz.
— Alan faz alguma coisa – rebateu Marília, imitando-a de uma maneira caricata.
— a cala essa boca! — Beatriz rebateu – ela quebrou todas as minhas coisas, meu perfume, meu estojo de maquiagem, Alan, porque você não me apoia?
— vamos embora – disse Gilberto, levantando-se.
— calma, também, não é como se eu fosse matar ela.
— o que foi que eu te fiz? — perguntou Beatriz, ainda de quatro no chão, ajuntando suas coisas.
— a culpa não é dos dois, a vítima e o criminoso não são os mesmos! — gritou Marília, apontando o dedo para Beatriz, que a essa altura já havia levantado com a bolsa nos braços e foi sentar-se ao lado de Gilberto.
A cena continuou decorrendo, todos ali começaram a discutir, então Gilberto advertiu Beatriz, para que ela parasse de beber, então ela reagiu.
— eu quero beber mais, eu quero beber até meu cu fazer um bico! Essa cadela jogou minha bolsa no teto e ninguém levantou um dedo, eu quero beber até capotar! […] eu estou feliz que o meu filho quebrou a cara do filho de vocês e eu limpo o meu rabo com os seus malditos direitos humanos!
— tá aí, eu te falei, essa mulher é completamente falsa! — gritava Marília, xingando Beatriz.
Mais insultos, mais brigas, longas falas, e então Beatriz reage mais uma vez.
— nós não damos a mínima pro tipo de mulher que você gosta! — Marília gritava, sua atuação era tão esplêndida que as veias de seu pescoço e de sua testa estavam saltadas, indicando sua raiva – por que você foi vomitar a sua opinião? Você é o tipo de homem cuja opinião não nos interessa! — ela gritava e gesticulava, dando mais intensidade a sua atuação.
— uau, que fera, ela tá gritando – disse Gilberto, que estava sentado no sofá ao lado de Beatriz – a grande comandante de um navio negreiro.
— o que? Ela não grita? — berrou Marília, referindo-se a Beatriz – ela não gritou que o cretino do seu filho estava certo em bater no nosso filho?
— e ele estava! Pelo menos nosso filho não é um veadinho covarde como o seu – rebateu Beatriz, sua interpretação de uma mulher bêbada enrolando a língua era magnífica.
— e o seu é uma droga de um dedo-duro! — rebateu Marília.
— vamos embora Alan, o que ainda estamos fazendo nessa casa? — disse Beatriz, levantando-se e pegando sua bolsa.
— exatamente! — gritou Marília, deixando clara a sua exaustão, então ela sentou-se na poltrona que havia em frente a mesa onde havia o jarro com as tulipas amarelas das quais a personagem se gabava tanto.
— olha só, é isso que eu penso de suas tulipas estúpidas – Beatriz pegou as tulipas do jarro, começou a amassá-las e jogou algumas na cara de Marília com muita força – flores horrorosas!
Nesse momento, Glauber achou que tudo ia dar errado, pois o roteiro dizia que Beatriz tinha que jogar as tulipas no chão, e não na cara de Marília, porém havia uma câmera filmando as expressões das duas nesse momento, quando o diretor-assistente ia intervir mandando cortar, Glauber notou que a expressão de ódio de Marília era tão genuína que ele resolveu apostar na atriz e nada vez, deixou que continuassem a cena.
— é o pior dia da minha vida – disse Beatriz chorando – então ela dá mais um arroto, deixando todos apreensivos, achando que ela vomitará novamente.
Todos estão ali parados olhando-se, dentro de seus personagens, envergonhados de si, do que se tornaram, então o telefone toca e a câmera filma o identificador de chamadas, que mostra que quem está ligando é o filho de Penélope. Todos continuam ali parados, envergonhados de si, Beatriz está bêbada, cambaleando com dificuldades para ficar em pé e Marília indica que começará a chorar.
— corta! — gritou Glauber.
Marília havia conseguido permanecer na personagem e não estragou a cena. Ele sabia que tinha ali em suas mãos ouro puro, as atuações haviam sido tão monstruosas que, no que dependesse das atuações, aquele filme seria um sucesso retumbante!
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