Fama.
9 A Resposta Mais Simples é a Correta
Regina e Jonas estavam na delegacia. O corpo de Clarissa já havia sido liberado e estava sobre os cuidados da família para o velório, mas o tempo não poderia parar, Regina gostava de trabalhar enquanto a cena do crime ainda estava quente, quando ainda não tivesse sido revirada ou liberada para o uso novamente, ainda mais tratando-se de uma garagem que assim que fosse aberta, seria contaminada.
— as imagens das câmeras já foram analisadas? — perguntou Regina para Jonas.
— sim, o pessoal está terminando de editar os melhores momentos e para trazer pra gente – respondeu Jonas.
— bom, então vamos falar com a secretaria – disse Regina, levantando-se para ir até a sala de interrogatório da delegacia.
— boa tarde Patrícia, tudo bem? — disse Regina ao entrar, Jonas que entrou logo atrás dela apenas acenou com a cabeça para a secretária que estava sentada na mesa.
Ela havia aceitado ir até a delegacia depôr para colaborar com a investigação, pois ela queria muito que o assassino de Clarissa fosse descoberto logo. Ela e Clarissa além de trabalharem juntas eram muito amigas.
— podemos começar? — pediu Jonas, colocando um gravador na frente de Patrícia.
— claro, podemos sim – respondeu Clarissa.
— vamos gravar a sua fala, mas pode ficar tranquila que tudo o que você disser será sigiloso e somente policiais terão acessoa a essas informações, está bem? — disse Regina, acenando com a cabeça – pode começar a hora que se sentir confortável, está bem?
— bom, a agitação daquele dia todo começou quando a Marcela chegou. Ela estava na portaria fazendo um escândalo quando porque queria falar com a Clarissa. Provavelmente ela havia descoberto que a Clarissa ia se aposentar e estava mantendo isso em segredo sabe, então a Clarissa não queria conversar com ela, então ela me pediu que remarcasse toda a sua agenda daquela tarde, e saiu pela porta dos fundos do escritório em direção à escadaria do prédio, logo em seguida entrou Beatriz, que era a pessoa com quem ela tinha encontro marcado naquele horário, até não sei como elas não se encontraram no corredor, pois foi bem em seguida. Eu comecei a explicar pra dona Beatriz a situação, e nisso chegou a Manuela, a sobrinha da Clarissa, mas ela estava muito alterada sabe, dava pra ver nos olhos dela que ela estava muito aflita, ela cumprimentou Beatriz e cortou o assunto entre nós duas pedindo para ir falar com a tia, era um caso de vida ou morte, Beatriz ficou irritada com a situação e eu falei pra Manuela o que já tinha falado pra Beatriz e nisso a Beatriz ficou muito furiosa e acendeu um cigarro, a Manuela também estava bem alterada, e nesse momento, entrou a Marília, mas no momento em que ela viu a Manuela e a Beatriz, ela ficou na porta, em choque, as três ficaram mudas, dava pra ver o clima entre elas sabe, achei que elas iam sair no tapa ali mesmo sabe, mas então antes que Marília falasse alguma coisa, uma terceira pessoa ia entrar, mas como ela estava na porta, eu vi que uma silhueta ficou parada atrás dela e decidiu não entrar, essa pessoa virou-se e saiu, eu imagino que a Marília viu quem era, e nesse momento as três saíram dali, eu notei que a Manuela continuava muito agitada, então foi assim, logo após isso começou a movimentação do segurança e as garotas das outras salas começaram a correr pro saguão e foi aí a primeira vez que eu ouvi que a Clarissa tinha sido baleada.
Regina e Jonas dispensaram Patrícia e continuaram na delegacia.
— então vamos conversar com elas três pra ver se elas tem álibis bons – disse Jonas.
— não, vamos ligar apenas pra Marília, vamos ver se ela conseguiu ver quem era a pessoa que desistiu de entrar — respondeu Regina.
— mas simples assim? — disse Jonas com espanto.
— na minha terra tem um ditado que diz que a resposta mais simples na maioria das vezes é a correta. Claro que vamos atrás de todas as possibilidades Jonas, mas eu creio que pela questão do tempo, faz mais sentido que a pessoa que desistiu de entrar na sala e foi para a garagem onde esperou de tocaia, a gente agora precisa descobrir quem é essa pessoa e se foi premeditado ou não.
Jonas pegou o telefone e ligou para Marília pedindo que ela fosse até a delegacia o mais cedo possível.
Marília chegou na delegacia em questão de quarenta minutos.
— muito obrigado por ter vindo tão cedo Marília, é realmente importante pra que a gente consigo entender o que aconteceu naquela tarde – disse Reagina.
— chegou até nós uma informação de que aquele momento em que você, a Beatriz e a Manuela estavam na sala da Clarissa, teve alguém que tentou entrar na sala, mas acabou não entrando, você conseguiu ver quem era? — completou Jonas.
— olha, eu não tenho certeza mas eu creio que era aquela garota que trabalha com a Beatriz a assessora dela, Diana.
*
Do outro lado da cidade, Beatriz estava em sua casa, ela estava sozinha na sala, em seu canto da sala fumando quando ouviu uma batida em sua porta. Ela esperou alguns minutos pra sua governanta fosse abrir a porta, mas então ela lembrou-se que havia dispensado ela, então Beatriz foi abrir a porta.
Quando ela o fez, ela ficou apavorada com a cena que viu: Diana estava chorando em sua porta, com ódio nos olhos e um revólver nas mãos.
— não me convida pra entrar? — disse Diana.
Beatriz ficou petrificada, então ela deu um passo para trás para que Diana entrasse.
*
Regina e Jonas haviam dispensado Marília e então chegou a eles as imagens dos momentos em que Clarissa foi para a garagem.
— olha ali Jonas – disse Regina apontando para a TV enquanto os dois assistiam ao vídeo – olha só, o crime não foi premeditado.
— como você sacou isso? — disse ele olhando para a companheira.
— olha aqui – ela parou o vídeo e apontou para o canto da televisão – as câmeras são enormes, a pessoa chegou e notou que haviam pontos cegos das câmeras, por isso estrava atrás daquela pilastra ali.
— a, realmente, as câmeras elas são bem evidentes – ele deu o play no vídeo novamente.
— olha ali – ela apontou então para a figura encapuzada entrando na garagem e analisando as câmeras, então a figura colocou-se atrás do poste onde esperou Clarissa para dar o tiro – como eu disse, muitas vezes a resposta mais simples é a correta.
Embora estivesse usando uma touca, em determinado momento do vídeo era completamente visível o rosto do atirador.
*
— o que você quer aqui Diana? — disse Beatriz. O cigarro que estava em sua mão queimou até o final e apagou-se, mas ela não conseguia mover-se, tamanho era o medo de Diana naquele momento ali, apontando uma arma para ela.
— você destruiu minha vida sua infeliz, deu tudo errado, desde o começo! Deu tudo errado – gritou Diana, sacudindo aquela arma.
Diana estava completamente surtada. Ela sempre fora borderline, porém nunca havia tido nenhuma ataque na frente de Beatriz.
— você vai fazer o que, me matar? — Beatriz tinha um tom de voz baixo nesse momento.
— mas antes vamos fumar um cigarrinho que temos muita coisa pra conversar – ela disse apontando a arma em direção ao sofá, fazendo sinal para que Beatriz sentasse ali. Beatriz assim o fez e ela sentou-se na poltrona que ficava na sua frente – você me perguntou naquele dia se eu tinha um motivo para ter escolhido você, e sim eu tenho um motivo – ela apontou o revólver para a certeira de cigarros acima da mesinha que havia entre elas duas – acende.
Beatriz moveu-se devagar, pegou um cigarro e acendeu.
— minha vida sempre foi uma grande mentira, eu vivi essa mentira, mas eu sempre soube da verdade e eu cresci com a ilusão de que na hora em que você me olhasse você ia me reconhecer, mas você não me reconheceu, você me olhou nos olhos e não me reconheceu, mamãezinha querida – disse Diana, então, um flashback começou a passar na cabeça de Beatriz enquanto uma lágrima escorria por deu rosto.
— olha, você tem muito talento e é bem bonita, mas grávida é complicado né, eu vou te dispensar, porquê depois que esse bebê nascer você ainda vai ter que cuidar dele, isso sempre vai ser um atraso pro pessoal da companhia – disse a diretora de elenco.
Beatriz saiu daquela sala aos prantos. Seu sonho de ser atriz ia ser detido novamente pelo erro de ter feito sexo sem proteção. Então naquela noite ela voltou pra casa cabisbaixa, ela sabia que ia ter aquele filho e ter que levar uma vida infeliz, tendo que arrumar um emprego que a faria infeliz pro resto da vida e ela não conseguiria ser uma boa mãe, pois ela nunca havia sido preparada para a maternidade e não sonhava com aquilo, além do mais, ela havia sido negligenciada por sua mãe a vida toda, ela sempre imaginou que não saberia ser mãe, pois ela nunca teve uma.
Ela foi para casa depois de saber que havia sido dispensada da companhia que ela fazia parte e sabia que deveria ir atrás de um emprego, porém ela não teria aquele bebê. Beatriz sempre foi favorável ao aborto, porém somente até o terceiro mês de gestação, para ela, até o momento em que não havia um cérebro formado, não é uma vida, porém ela já havia passado do terceiro mês, ela estava de quatro meses, embora sua barriga fosse muito pequena. Ela teria o bebê e daria ele para adoção.
Depois de alguns meses de muita dificuldade financeira, Beatriz deu a luz a uma menina. No momento em que entrou na sala de parto, ela deixou claro que daria a criança para adoção e nem queria vê-la. Ela tinha a noção de que ela não conseguiria ser uma boa mãe, mas também tinha a noção de que aquela criança tinha o direito de ter uma vida, agora que já estava viva.
— Beatriz, desculpa te perturbar enquanto você está se recuperando do parto – disse a enfermeira entrando no quarto em que ela estava – é que a criança não conseguiu se adequar ao leite que temos aqui no hospital e até que o pessoal da casa de adoção chegue, eu pensei que você poderia amamentá-la só para que ela pare de chorar.
— não – respondeu Beatriz – pode tirar o leite dê para ela numa mamadeira, mas eu não vou amamentá-la.
O filme na cabeça de Beatriz acabou e ela voltou a aquele momento, aquele momento em que a “filha” rejeitada estava em frente a ela, com uma arma na mão e em um completo surto psicótico.
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