Família por acaso

1 Por acaso... Mãe.


Naorima

Nama-Chan, como suas amigas a chamavam, não aguentava mais a dor de cabeça. Além do fato de descobrir que teria atraso na entrega dos suprimentos de que precisava para terminar seu projeto, agora sua mãe exigia vê-la de repente.

— Apenas venha para casa, Naorima. — Dissera — É importante. Entenderá quando chegar.

E Naorima, sem querer magoar a mãe, atendera seu pedido. Ao estacionar em frente à antiga casa em estilo japonês sentiu um suspiro brotar no peito. Ela definitivamente não ia até lá com a frequência que devia.

Desceu lentamente do carro, sua mente presa em lembranças. Voltou-se automaticamente para olhar as cerejeiras sob as quais ela e a irmã costumavam brincar e seu coração parou no peito.

— Não pode ser!

Mas era. Lilia, tal e qual como na infância. Os mesmos cabelos ruivos, os olhos azuis, o sorriso travesso ... Porém, não podia ser. Lilia tinha vinte e seis anos, a mesma idade de Naorima. Aquilo era impossível, certamente uma ilusão de seu cérebro cansado.

A jovem afastou do rosto uma mecha rebelde dos cabelos escuros que partilhava com a mãe e fechou os olhos castanhos por um momento. Quando os abriu não viu mais a garotinha.

— Apenas cansaço — Disse para si mesma — Relaxe, Naorima.

Respirou fundo, reuniu coragem e entrou. Mais uma vez ficou sem fôlego. Além de sua mãe, seus avós e tia também estavam ali.

— Mamãe — Cumprimentou — Vovô, vovó, tia Misty ... Desculpem o atraso.

— Tudo bem, Nao. — Sua tia declarou — Nós todos entendemos.

Só então a jovem notou que todos ali pareciam nervosos, sem saber como agir.

— O que ... O que aconteceu?

Longo silêncio. Sua avó a pegou pela mão e fez com que sentasse. Só então sua mãe se manifestou.

— Naorima ... Lilia desapareceu.

— O que? Desapareceu? Para onde ela foi?

— Ninguém sabe, sua boba. — O avô declarou — Por isso dissemos que ela está desaparecida.

Naorima corou perante a própria estupidez. Era uma mulher inteligente, mas não conseguia agir sob pressão.

— Agora nos escute, Naorima. — O tom de sua tia foi rígido — Sabemos que está com raiva de Lilia. Todos estamos. Mas temos que nos concentrar nas meninas.

— Meninas?

— Sim. Lilia tem três filhas. A mais velha tem dezesseis, a do meio tem doze e a mais nova tem sete.

— É claro — A morena murmurou, envergonhada — Devemos fazer o que pudermos por elas. Nem imagino como deve ser difícil...

Você deve. — Sua mãe declarou — Lilia deixou uma carta confiando a guarda das meninas a você, e apenas você, até seu retorno.

— O que? — Naorima gritou de surpresa — Eu não sei nada sobre crianças. Nunca consegui nem cuidar de um cachorro, e Lilia sabe disso.

— Calma, meu amor. — Sua mãe a tranquilizou — Será um arranjo temporário. Se não der certo, sua tia e eu nos encarregaremos das meninas.

— Por que já não fazem isso agora?

A morena estava em pânico, tentando desesperadamente encontrar um modo de fugir da situação. Tinha que haver um jeito, qualquer um.

— Porque queremos pelo menos tentar respeitar os desejos de sua irmã. — Sua avó explicou — Afinal, ela deve ter um bom motivo para nomeá-la guardiã das meninas.

— Tem sim. — Foi a resposta — Lilia está acostumada. Sempre sou eu quem resolve os problemas dela.

— Agora escute aqui, Naorima — Seu avô interferiu — Você vai fazer isso, de um jeito ou de outro. A questão está encerrada.

Naorima respirou fundo, pensando vezes sem conta vou te matar, maninha. Enfim acalmou-se e conseguiu responder.

— Está bem. Mas não me culpem se for um desastre.

Sua mãe abriu um sorriso radiante e a pegou pela mão.

— Ótimo! — Exclamou — Venha conhecer suas meninas.

Aysha: doze anos

Naorima avaliou a menina cautelosamente. Os cachos negros, que pendiam pouco abaixo dos ombros, eram idênticos aos seus, assim como os olhos cor de chocolate e a pele clara. A criança se parecia muito com ela própria aos doze anos, incluindo a atitude: estava comportadamente sentada sob as cerejeiras, lendo, e esboçou um sorriso agradável ao vê-las se aproximar.

Obaa-san. — A menina cumprimentou pausada e calmamente. — Quem é ela?

— É Naorima. Irmã de sua mãe.

A menina imediatamente deixou o livro ao seu lado no banco, levantou-se e fez uma mesura quase perfeita.

Oba-san, é um prazer conhecê-la.

Naorima não conseguiu conter o sorriso. Era óbvio que a menina levava a sério a criação japonesa de sua família, mesmo morando em Nova York.

Não precisa ser tão formal. — Declarou Qual é o seu nome?

Aysha.

Mais uma vez a jovem sentiu um calor no peito. Aysha, o nome que Lilia mais gostava quando eram crianças. A boneca preferida de sua irmã durante a infância ganhara esse nome.

Bem, meninas, vou deixar que conversem A mais velha declarou Mas não demorem, que logo servirei o chá.

Okaa-san ...

A jovem foi calada com um simples olhar da mãe, que afastou-se com mais um aceno. Naorima forçou-se a se concentrar na sobrinha.

Então ... O que está lendo? Inquiriu.

São lendas do Japão. Foi a resposta Obaa-san me deu o livro.

Posso até imaginar onde ela conseguiu. Declarou, sorrindo Sua mãe e eu ganhamos uma cópia desse livro quando éramos crianças. O dela nunca foi aberto.

Os olhos escuros da menina a fitaram com curiosidade. Olhos que borbulhavam com uma inteligência óbvia e efervescente.

E o seu, oba-san?

Ainda está comigo. Eu o releio às vezes. Gosto das lendas.

Isso fez os lábios finos da menina se curvarem em um sorriso de deleite.

É mesmo? E qual é a sua favorita?

Quando Suzanoo enfrenta o dragão de oito cabeças.

É a minha favorita também!

As duas trocaram um sorriso e sentaram no banco, conversando animadamente sobre lendas e deuses até serem chamadas para o chá.

Kyara: dezesseis anos

Aysha e Naorima entraram juntas, ainda falando com animação. Os outros membros da família pareceram satisfeitos ao vê-las se dando bem.

Uma outra garota apareceu na sala, praticamente arrastada pela avó. Era alta e tinha as mesmas feições graciosas de Lilia, porém com cabelos negros e olhos castanhos. Parecia uma cópia da tia.

Kyara. Naorima reconheceu Faz muito tempo, menina. Você cresceu bastante.

É claro. Porque você nunca se importou em ir nos visitar, não é?

O tom da adolescente foi frio. Pronto, Naorima pensou. Ela tem a personalidade da mãe.

Onee-chan, por favor! Aysha protestou Você prometeu.

Tá bom, Aysha. Kyara praticamente rosnou Mas não sou obrigada a aturar isso.

Depois disso a jovem girou nos calcanhares e saiu em disparada antes que qualquer um pudesse reagir.

Não deixe que ela te assuste. Sua avó disse A menina está magoada, e tem motivos para isso. Dê-lhe um pouco de tempo.

Falando nisso ... Vocês disseram que Lilia tinha três filhas, não é? Onde está a mais nova?

Kathleen não quer sair do quarto Sua mãe informou Desistimos de tentar forçá-la.

Mas talvez você consiga, querida. A tia declarou Não custa tentar, não é?

Creio que não, oba-san.

Ela está no antigo quarto de Lilia. Apenas ... Não assuste a menina, Naorima.

Não vou. Prometo.

Kathleen: sete anos

A morena empurrou a porta suavemente, tentando não fazer barulho.

Kathleen Chamou Kathleen, você está aí?

De trás da porta do closet, onde certamente se escondera ao ver a porta do quarto sendo aberta, a menina saiu. Naorima perdeu o fôlego. Kathleen tinha o rosto em forma de coração, os cachos cor de fogo e os enormes olhos azuis da mãe. Era como voltar no tempo.

Oi, Kathleen. A jovem se esforçou para sorrir. Está tudo bem. Não vou fazer nada. Só vim conhecer você.

Aqueles olhos da cor do mar a fitaram por um momento e então ela desviou o rosto. Naorima reparou nas lágrimas que escorriam por aquele rostinho.

Hey, eu sei que sente saudades da sua mãe. Disse delicadamente Mas aposto como ela vai voltar. Até lá, aposto que ela não gostaria de ter ver trancada em um quarto, chorando.

A menina ergueu o rosto novamente, fitando-a com curiosidade.

Não adianta Aysha informou da porta Ela não fala uma palavra desde que ... Bem ...

Desde que minha irmã foi embora.

Indignação e pena invadiram a jovem. Não era justo que Lilia tivesse deixado aquelas meninas, elas obviamente precisavam da mãe em suas vidas. Decidida a fazer alguma coisa, tentou parecer tranquila.

Aysha, vá lá para baixo. Diga a todos que não vou descer agora, por favor.

Sim, oba-san.

Arigato.

Assim que a sobrinha saiu Naorima se sentou de pernas cruzadas no chão e sorriu para Kathleen.

Você se parece muito com a sua mãe, sabia? Quando te vi, podia jurar que tinha voltado no tempo.

A menina soltou uma exclamação de tristeza abafada.

Sente falta dela, não é?

Uma afirmação foi feita por aquela cabecinha ruiva, e em seguida Kathleen pegou um pequeno caderno que estava em cima da cama e entregou-o à tia. Ao abri-lo, a primeira coisa que viu foi um desenho de Lilia.

Você mesma desenhou? Outra confirmação de cabeça Uau, parabéns! Acabo de conhecer uma artista.

A ruiva corou ligeiramente ao ouvir aquilo e, ao receber o caderno de volta, imediatamente pulou na cama e se pôs a desenhar. Quando Naorima fez menção de levantar-se, recebeu um sinal para que ficasse ali. Comovida, deixou-se ficar e observar os giz de cera da sobrinha dando formas e cores ao papel. Foram distraídas pelo barulho de um estômago que roncava.

Ora, ora Naorima riu Tem alguém com fome. Quer ver o que tem na cozinha?

Seus olhos se arregalaram e ela se encolheu um pouco, visivelmente assustada.

Certo, certo. E que tal se eu pegasse alguns doces e chá para nós?

Essa sugestão recebeu um aceno positivo como resposta.

Minutos depois

Naorima serviu o chá em duas xícaras e as dispôs na bandeja, cantarolando consigo mesma.

Oba-san?

A morena quase pulou de susto ao ouvir aquele chamado.

Ah, Aysha. Me assustou!

Desculpe. A menina corou violentamente O que está fazendo, oba-san?

Um lanche para a Kathleen. Ela disse que está com fome.

Posso ajudar?

Claro. Coloque os morangos em cima dos daifuku para mim, por favor.

A menina obedeceu prontamente, ao que Naorima sorriu e se concentrou na própria tarefa: pegar os wakashi. Logo, com a bandeja pronta, ambas subiram juntas.

Kathleen. Chamou, ainda na porta Sua irmã quer nos fazer companhia. Tudo bem pra você?

A ruivinha espiou por um momento e pareceu aliviada ao ver Aysha. Assentiu, dando seu consentimento. As três se sentaram em círculos ao redor da bandeja cheia de doces e comeram em silêncio.

Foi assim que Naorima começou a aprender a ser mãe.

Notas finais
Obaa-san: avó Oba-san: tia Okaa-san: mãe Onee-chan: irmã mais velha