Notas iniciais
Escutando algumas músicas sads de madrugada resultou nesse texto (meio) complicado. Espero que gostem ~

A falta de sintonia se deu desde que ele encontrou aquele álbum. Leandro não devia ter organizado suas coisas aquela tarde, ou, então, não devia ter se apossado de coisas que não eram suas, em primeiro lugar. No entanto, tinha feito ambas as coisas e se encontrava no momento de mãos dadas com uma pessoa que ele esperava apenas ver em fotos, como pura lembrança. César tinha aquele sorriso de segurança que esculpia quando estavam juntos em um silêncio acolhedor.

Leandro se encontrava desorientado pelo desenho de realidade diante de si, desse modo, suas mãos deviam estar suando de nervoso. César não lhe perguntaria o que havia de errado, por isso, os minutos se arrastaram até que a empresa telefônica contratada pelos Barreto ligasse para o telefone fixo da casa para promover seus novos descontos. César prontamente foi atender, todavia, se demorou mais do que costumava a dispensar alguém que não conhecia tanto.

Tratou de respirar fundo, e passou as mãos sobre a calça para tirar o excesso de suor. De nada adiantaria surtar e ver que não se tratava de nenhum sonho, que, na verdade, de alguma forma ele tinha voltado no tempo de uma hora para a outra. Quer dizer, ele de fato havia feito algo e isso era mexer em um passado que devia ser superado.

César já tinha toda uma história montada quando veio falar com ele depois da ligação. Leandro não viu alternativa a não ser sorrir para aquela mentira óbvia, apesar de que César realmente fosse alguém que adoecia com facilidade. Havia sido tão acostumado que a reação tinha surgido de imediato, e Leandro se sentiu tão ou mais culpado que antes de chegar ali.

Algo devia ser mudado? Contudo, por ele já ser feliz no futuro com uma pessoa diversa daquela o que a mudança poderia causar? Com esses medos, Leandro deixou a casa de César em busca do álbum que havia causado aquele dilema, com alguma esperança de que também se tratasse da saída. Estava decidido a manter aquele tempo inalterado, mesmo que tivesse de sofrer de um coração partido mais uma vez.

Ou dessa forma nunca viria a conhecer Arthur para descobrir o que entendia desde muito tempo: ele nunca tinha sentido nenhuma espécie de afeto por nenhum ser vivo além de si mesmo, pelo menos até que seu noivo lhe tirasse de seu estado de autocontemplação. Não se resumia a um egoísmo, mas também a uma espécie de obsessão pela própria imagem, tal qual o mito¹. Leandro tinha usado várias pessoas como espelhos, e aquela em especial era um eco² legítimo.

César era a pessoa introvertida que Leandro um dia foi, só que com mais ansiedade e uma fobia por borboletas que motivava piadas de colegas que não o conheciam bem. Por isso, Leandro não negou tirarem fotografias, contudo, não se importou muito na escolha do álbum que iria armazená-las, utilizando um antigo que tinha achado quando se mudou para sua casa.

Ironicamente, tinha umas borboletas desenhadas a mão na capa, que tratou de apagar com algum cuidado para que César não percebesse.

Esse álbum não estava em sua casa. Era a única conclusão que Leandro poderia ter, pois tinha procurado em todos os lugares possíveis e impossíveis. Só podia estar com aquela pessoa. Foi quando lhe veio aquele tapa de realidade, dado que seu antigo eu não manteria aquele álbum consigo, em primeiro lugar.

No dia seguinte, depois da escola, já que não queria levantar suspeitas a seus pais daquele tempo de que algo estava errado, um desconcerto maior lhe veio quando voltou a casa de César e o encontrou desenhando borboletas no álbum que procurava. Eram contornos malfeitos dos antigos desenhos que antes se encontravam ali.

Era a exata cena do dia em que eles romperam o relacionamento. Pela primeira vez, César lhe diria tudo o que tinha guardado consigo até ali. Isso deveria ser bom, uma vez que era o que Leandro buscava que acontecesse, só que isso podia lhe sinalizar algo totalmente diverso. Podia lhe sinalizar de que estava preso aquela pessoa, aquele álbum, como um disco arranhado.

Aquela vista era a confirmação de que tinha condenado seu futuro com Arthur desde que colocou aquelas fotos com César naquele álbum amaldiçoado.

“A única coisa que não gostaria é ser esquecido.” César teria dito pela quadragésima vez com um sorriso no rosto, algumas lágrimas saindo de seus olhos.

Notas finais
¹ ² Mito de Narciso. Algumas explicações: César teria sido o antigo morador da casa em que Leandro residiu, e teria deixado o álbum lá justamente para que alguém viesse ter seu destino selado ao dele (tenso hein). Por isso, ele saberia dos contornos das borboletas também. A “fobia” de borboletas devia ser a culpa pelo que ele causaria/causou ao destino de alguém, lhe lembrariam do enfeite do álbum. Leandro sentia culpa pela forma como tinha agido com César na época. Então, por causa desse sentimento, terminou preso ao ex pela eternidade, vendo a situação como sua penitência. Fim. ~corre~ Again and Again (DAINA) - música que escutei em maior parte para escrever isso aqui. Tem haver até q
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!