Falsa Liberdade
1 Serenidade do amanhã
28 de maio de 2002.
— Yukki, se não levantar seu leite vai esfriar.
Olha só... ainda são 06:15 da manhã... que ser vivo poderia ser capaz de estar disposto à essa hora? Essa mulher com certeza tem uma habilidade.
— Depois da escola, que tal uma viagem internacional? — ironicamente dizia bom dia.
— Muito engraçado, agora volte pra realidade.
Caramba... o que adianta ter dinheiro e ser impedido de sair do país? Droga, segunda-feira hein... acho que não posso escapar desse esforço. Como Kazuma havia sido levado semana passada, passei a desejar estar em casa ao estar na escola. Bem... era um cara legal, sinto nunca mais vê-lo. Idiota. Espero que saiba que tem total culpa em não se segurar. Afinal, que tipo de pessoa com bom senso tentaria voar além das fronteiras. Na verdade qualquer mente fraca cogitaria isso. Muitos não entendem a realidade como realmente é. Se tenho uma habilidade? Gostaria de negar isso. Ao menos tenho a chance de ocultá-la até novembro.
Enquanto caminhava, as faces das pessoas escancarando felicidade ao agir com tranquilidade me intrigavam. Seriam eles, hipócritas? Desde pequeno não entendo o que é a tal 'dor física', como poderia julgar as ações dos peões da União Soviética à minha volta sem ao menos conhecer o sofrimento real pelo qual passam? Meus pais decidiram ocultar meu "talento" da maneira que podiam, e atualmente sigo os seus passos. A mulher com quem moro, é uma tia distante (literalmente), afinal morava nos Estados Unidos. Não é que eu não goste dela, mas não tenho sentimentos fortes. Sem conhecer a dor física, ou mesmo a dor emocional, qual o sentido de viver? O desespero aqui presente não pode ser descrito claramente por um ser como eu.
Os sorrisos constantes eram preenchidos ao fundo por um clima sereno. Descrever Tokyo, seria facilmente caracterizado com um sentimento aqui exaltado: tristeza. Profunda tristeza emanada entre as sombras, sentida por todos. Em um lugar onde se mantém as aparências contra a vontade, há a falta de vida. Confesso que esta última parte pode ter diversos significados. Acredito nenhum deles estar errado. Deviam aceitar os fatos, jamais se livrariam deste domínio. Mais corpos serão queimados se houver resistência.
Em frente àquela escola, mais um dia. Mais um daqueles homens desprezados pelos jovens. Os "preservadores da paz", militares que serviam em nome dos Yankers. Não havia muito o que temer, ele estava sozinho. Mesmo assim, a expressão no rosto dos alunos não era nada perto de confiança. Ele estava sob posse de uma arma de fogo. Acho que isso realmente pode tirar a vida das pessoas, é o que parece. Não se cansava de repetir o mesmo discurso.
— Avisem imediatamente caso sofram mutações. O governo não vai perdoar quem..-
— Ei guardinha, achei interessante sua arma, posso ver? — disse o interrompendo ao me aproximar.
— Ponha-se no seu lugar, pivete. — dizia com um olhar ameaçador enquanto apontava sua arma para minha testa. Ninguém vai saber se você morrer aqui.
— Uou, sério? Por que não tenta?
— Odeio crianças que não compreendem quem controla a situação! — ao atirar, a bala cai no chão amassada.
— Coincidência interessante. Odeio homens que não conseguem pensar por si mesmos.
Essa cena era realmente engraçada. Se eu fosse um humano comum, estaria com diversos furos em meu corpo. Ele não parava de tentar, até mesmo tentou me espancar.
— Haha caramba, que homem interessante. Parece que não sabe "quem controla a situação" não é mesmo?
Com isso ele se afastou apavorado. Bom, uma hora todos desistem. Acredito ter conseguido certo destaque com aquele pequeno 'show'. Não, aquilo não traria problemas. Yui certamente concertaria isso pra mim. Pensando bem nisso, a habilidade de apagar as memórias é realmente interessante. Imagino se já não à usou comigo. Sim, aqui mesmo. Nossa escola era a base da resistência. Um motivo pra me aliar à eles? Yumi estudava aqui. Seu objetivo se tornava muito claro quando analisamos o que ela pode fazer. Simplesmente uma garota assustadora. Ela não possui uma habilidade, mas é propícia a ter uma de acordo com o governo. Treinou sua vida toda para não depender apenas disso. A única que não expressava felicidade com a realidade atual, não importa se esteja na presença de um Yanker. É... como um Batman da vida real, devo dizer. Só que mais bonita. Seus cabelos negros, e os olhos da mesma cor chamavam minha atenção. Sua pele branca realçava as cores, com lábios extremamente lindos. O mais próximo de me sentir vivo é ao seu lado. Sinto como se o seu beijo me deixasse totalmente vulnerável à tudo. Claro que nunca aconteceu (ainda).
— Yui, nada de novo?
— Apenas habilidades irrelevantes. O máximo que tivemos essa semana foi o salto temporal de 3 segundos no passado. — dizia Yui.
— Yui, ei ei, dê um sorrisinho vai. — aperto suas bochechas. Logo em seguida recebo um tapa.
— Mas... sabe que isso não func..-
— Quieto.
— Quando vamos ter a oportunidade de nos reunir com ele?
— Como assim? Não é uma habilidade nada útil.
— Como não? Se errar uma cantada, dá pra tentar de no..-
— Desprezível.
— Jackson morreu... deveríamos vingá-lo logo. — Yui parecia sofrer.
— Tudo à seu tempo, quem sabe alguém desperta uma habilidade de reviver não é?
— Droga, pare de ser tão otimista. Só por que é um homem teoricamente invencível, não fique agindo com tanta naturalidade o tempo todo.
— Bom, desculpa. — um pequeno abraço entre adolescentes (apenas isso).
Todos concordaram que os estudos jamais seriam de importância superior à liberdade. O desanimador, era que cada militar tinha uma habilidade, mesmo que seja quebrada ao extremo. Como a capacidade de enxergar 1,7% mais nítido no escuro que os olhos humanos, que era no caso, a do querido colega que discursou hoje.
Yui era a principal Yonder (membro da resistência). Sua habilidade salvou, por diversas vezes, todos os fracassos de revolução. Porém, uma vez que deixou ser avaliada, descobrimos que sua habilidade não é ilimitada. Funciona através de fases, que denominamos distritos. Ao alcançar o décimo segundo distrito, Yui não voltaria a conseguir utilizar esse poder, e atualmente nos encontramos no sétimo distrito. Percebe-se que a eficácia vem diminuindo. Só é alterado o distrito, quando a mudança que seu poder gera, altera todo o futuro da nação onde vive, o Japão.
A serenidade de nossos dias não tem mudado desde o início desta era de massacres. Desta vez vai funcionar, preciso realmente resgatar o Kazuma, então só espere, idiota... Não passará do sétimo distrito, procure aguentar somente mais essa vez, Yui.
A aproximação de uma noite sombria causava medo nas pessoas que sequer foram escolhidas. Não muito distante daqui, uma madrugada sangrenta se iniciaria.
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