Notas iniciais
Capítulo 5

Eles tinham partido pela manhã, o 17º batalhão, composto por cinco companhias, a 1ª do capitão Deodoro, 2ª do capitão Paulo, 3ª de Jeferson, 4ª do capitão Vicente e a 5ª do capitão Wesley. Todas com pelo menos 50 soldados. A 3ª companhia não era a única com um pelotão de conscritos, a 2ª e a terceira cada uma tinha um pelotão de 20 conscritos, já a 5ª companhia já acumulava dois pelotões de conscritos.

O batalhão rumou para o norte, por uma velha rodovia, atravessando uma ponte, sobre o rio Ribeira do Iguape, que cercava a cidade. A rodovia logo tomava direção para o leste, a próxima parada seria a cidade de Registro. Foi uma cansativa caminhada, a 1ª companhia era responsável pelos mantimentos do batalhão, traziam em um caminhão velho galões d’água e caixas com alimentos, maior parte desses alimentos era comida enlatada.

O caminho seguia em alguns trechos paralelo ao rio, em outros por meio da mata fechada, verde e densa e por antigos campos de cultivo, atualmente abandonados.

Marchavam equipados com os rifles, os outros dois sargentos lideravam seus pelotões e Karlus seguia a frente do seu. Formavam três linhas, o capitão Jeferson ia com o primeiro pelotão, que estava na frente dos demais.

Karlus olhava para cima, o céu escuro, depois olhava para traz, via Kustavo infeliz, Markos indiferente e o resto de seu pelotão, não pareciam motivados de nenhuma forma, deixavam agora seu lar.

Jeferson vinha até Karlus enquanto marchavam, vinha com certa melancolia, olhando para baixo.

— Karlus, tudo bem no seu pelotão? — Ele perguntou.

— Sim senhor.

— Então está bem... — Jeferson dizia e já se virava para retornar a frente do primeiro pelotão.

— E o senhor está bem capitão?

Jeferson estava de costas, ele se virava e ficava parado, enquanto marchavam Jeferson aguardou Karlus se aproximar.

— Não, sabe garoto, andei pensando sobre o que vai acontecer...

— O que? — O selvagem perguntou, curioso.

— A guerra está longe de terminar, para nós há pouco esperança.

— Como assim? Não estamos perto da capital?

— Isso é só o começo sargento, a verdadeira guerra será no norte.

— Vasconcelos não pretende conquistar somente o sul, ele quer o mundo para ele — Jeferson continuou.

— O que faremos então? — Perguntou Karlus.

— O que temos de fazer, seguir ordens...

Enquanto andavam, chegavam a um letreiro de uma cidade, que estava muito danificado, mas era possível ler 7 Barras, não estava nos mapas dos militares e logo descobriram por que. Chegaram no que restou da cidade, agora abandonada. Tudo o que restava eram alguns postes caídos, asfalto extremamente danificado e coberto por barro, agora seco. Paredes de antigas casas permaneciam, mas nenhum teto tinha resistido.

Eles atravessaram o centro da cidade em ruínas, tudo estava silencioso, seguiam em filas em ordem inversa, a 5ª companhia primeiro seguida pela 4ª e pela terceira, a de Jeferson, e depois um pouco mais distantes a 2ª e a 1ª companhias, com os suprimentos e o major.

Enquanto isso, dois soldados do pelotão de Karlus conversavam próximos dele. Um tinha cabelo escuro e barba, aparentava ter entre 30 e 40 anos, o outro, mais jovem, tinha cabelo castanho curto e sem barba. Karlus notava como os habitantes de El Dorado cortavam seu cabelo curto, coisa que os Naoris não faziam, o cabelo dele, Markos e Kustavo eram longos, bagunçados e sujos, assim como seus trajes tradicionais, agora com o uniforme se sentia estranho.

Outros soldados também conversavam enquanto “marchavam” mas a conversa desses dois chamou a atenção de Karlus.

— Já ouviu sobre a lenda de 7 barras? — Disse o de barba para o mais jovem.

— O que? — Perguntou Karlus a um deles.

— Nada sargento. — Disse o mais jovem.

— Me digam, o que tem essa tal de lenda?

— Ah ele ouviu... Tudo bem senhor, vou contá-la para você. — Respondeu o mais velho.

— Pois bem, conte.

— Essa cidade, agora em ruínas tem esse nome, pois segundo a lenda, sete barras de ouro foram enterradas nessa região.

— Ouro?

— Não sabe o que é ouro?

Karlus permaneceu o encarando, realmente não sabia o que era. O homem de barba o encarou de volta, olhou para o cabelo do selvagem e entendeu que não se tratava de uma piada.

— Ouro é um metal dourado, reluzente e que vale mais do qualquer coisa.

— Qualquer coisa? — Perguntou Karlus.

— Sim, sim, homens atravessaram oceanos, invadiram fortalezas e enfrentaram exércitos por causa do outro.

— O que faria se encontrasse essas barras Oswaldo? — Perguntou o mais jovem ao mais velho.

— Eu? Me tornaria rei desse lugar!

— Acha mesmo? — Karlus riu — Bandidos iam te matar e pegar o ouro.

— Mas eu terei guardas!

— Duvido que seus guardas vão realmente te proteger sabendo que carrega ouro com você.

— É verdade... — Concordou o mais jovem.

— De que lado está Eduardo? — Oswaldo perguntou para o mais jovem.

— Acho melhor deixar essas barras enterradas. — Sugeriu Eduardo.

— Concordo. — Riu novamente Karlus. — Agora se concentrem em sobreviver, vamos invadir uma cidade.

As palavras de Karlus fizeram os outros dois soldados pararem de conversar, ficaram pensativos enquanto o selvagem seguiu para a frente da coluna novamente.

As outras companhias estavam na ponte que seguia para registro, em algumas horas chegariam ao destino. Não sabia como tomariam a cidade tão bem protegida nem como controlariam a população.

Eles atravessaram a ponte, tudo parecia tranquilo, podiam ver uma das torres de vigia da cidade, aparentemente vazia.

Quando a ultima companhia atravessava a ponte, a 1ª companhia com seu barulhento caminhão de suprimentos, algo inesperado aconteceu.

Os soldados foram jogados para cima ou para o rio quando a ponte desabou depois de uma explosão. A ponte que já estava danificada desapareceu sendo levada pelo rio barrento, assim como os soldados e os suprimentos, além do major que estava no caminhão.

— Merda! — Disse Jeferson furioso.

— Agora estamos presos aqui — Disse o capitão Vicente da 4ª companhia.

— Como sabiam que estávamos aqui? — Perguntou Karlus.

— Ali! — Um dos soldados apontou para o fim da estrada.

Uma tropa de soldados de uniforme verde claro surgia no horizonte, vinham correndo sobre a estrada e sobre os campos queimados e com mato alto. Todos armados.

— Emboscada! — Gritou Jeferson ao ver os inimigos.

Todos pegaram suas armas e os pelotões se dispersaram, procurando por abrigo. Alguns com rifles de precisão começaram a atirar nos inimigos que conseguiam ver, derrubando alguns.

Karlus e seu pelotão ficaram na estrada, atirando contra os inimigos a diante, sem sucesso em atingi-los a aquela distância.

— Recuar — O sargento gritava para seu pelotão.

Um ou dois minutos de intenso fogo cruzado e o silêncio retornou, os pelotões avançaram para assegurar-se de que o caminho estava seguro. Contaram 64 soldados inimigos mortos, nenhum sobrevivente inimigo e do lado militarista as baixas eram maiores. Contando com a primeira companhia, cerca de 80 mortos e 23 feridos, dentre eles o oficial comandante do batalhão, o major que estava no carro cujo o corpo não foi encontrado.

— O que faremos agora? — Karlus perguntou a Jeferson.

O capitão estava extremamente nervoso e preocupado, pensando se deveriam avançar em direção à cidade ou voltar pela mata. Atravessar o rio seria impossível com a corrente e a profundidade do mesmo.

— Teremos que avançar... — Respondeu ele com pesar.

— Não podemos avançar! — Criticou o capitão da 2ª companhia, Paulo Ferreira.

— Não temos outra opção. — Respondeu Jeferson.

— Podemos voltar pela mata.

— Não, não podemos, não é seguro entrar na mata fechada, seremos mortos por plantas venenosas ou outras criaturas.

— Não tenho medo disso, e não vou morrer por sua causa, eu e o meu pelotão seguiremos de volta para El Dorado. — Disse Paulo.

— Faça como quiser, eu e meu pelotão seguiremos para Registro.

— Vamos voltar com reforços, se ainda estiverem vivos.

— Estaremos. — Confirmou Jeferson.

— Os outros pelotões, o que farão?

— Já falei com os outros capitães, vão comigo para Registro também, os feridos não conseguirão passar pela mata então vão seguir conosco.

— Certo.

Paulo e seu pelotão adentraram a mata, primeiro passando por um campo de plantas queimadas e depois uma mata fechada de arvores altas e de tronco negro, queimado pelas explosões.

— Agora vamos — Disse Jeferson.

Eles marcharam novamente, embora sem a mesma confiança que antes, tinham perdido os suprimentos, o oficial comandante e pelo menos duas dúzias de pessoas estavam agora feridas, sendo carregadas pelos seus colegas. Karlus estava aliviado pro todos de seu pelotão estarem bem.

Finalmente chegaram na entrada da cidade, que não era o que eles esperavam. Aparentemente vazia, desprotegida e silenciosa. Algumas construções recentemente destruídas.

No chão haviam também alguns corpos, mortos recentemente, com tiros ou pancadas na cabeça. Ao que tudo indicava, a cidade já tinha sido atacada.

— O que aconteceu aqui? — Perguntou Karlus a seu capitão.

— Desgraçados, era tudo uma armadilha.

— Como assim?

— A república destruiu essa cidade pra nos atrasar... mesmo sabendo que vamos ganhar a guerra.

— Mas por que?

— Eles destruíram tudo, levaram a comida e as pessoas, vamos ter que recuar agora.

Enquanto discutiam um homem sujo, armado com um revolver apareceu correndo de um beco da cidade, ele virava e atirava na direção do beco. Os soldados pegavam suas armas, incluindo o capitão.

O homem era fuzilado, logo depois dois mercenários seguidos de um homem de terno saíram do beco.

— Guardas, abaixem as armas. ­— Disse o homem de terno.

Os soldados apontavam para os três que se rendiam, os mercenários armados com metralhadoras e o homem com uma pistola.

— São do sul? — O homem perguntou.

— Exatamente! E quem são vocês? — Perguntou Jeferson apontando sua arma para os estranhos.

— Nesse caso... — O homem guardava sua pistola no terno, e os guardas soltavam as metralhadoras que pendiam pela bandoleiras.

— Sou Nelson Yamaguchi, prefeito dessa bela cidade. — Dizia ele irônico.

Jeferson dava o sinal, os soldados abaixavam os rifles e ele caminhava na direção de Nelson.

— Tá falando sério? Jeferson perguntou.

— Não sou um bom piadista, sim falo sério.

— E o que aconteceu aqui?

— A república aconteceu...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.