Fallout Equestria: Contos das Fogueiras
1 Thundering Trouble
Notas iniciais
Há momentos na vida de um garanhão em que ele se pergunta o que aconteceu de errado na sua trajetória. Esses momentos normalmente são seguidos por reflexões como o sentido da vida, do universo, e tudo mais. Mas geralmente essas baboseiras todas flutuam para longe, como as nuvens faziam em tempos antigos, assim que a sua xícara de café terminar de encher.
Mas hoje isso não aconteceu.
Levei o café de volta para a mesa, era uma terça-feira como todas as outras. Em um canto da sala estava o meu discreto secretário, Haste, um ótimo pônei, trabalhando com toda a vontade e agilidade que me faltava. Meu local de trabalho tinha tanta papelada que havia sido necessário uma operação especial apenas para arrumar um espaço para a xícara. Uma olhada para a parede ao meu lado e lá estavam vários dos meu retratos, um deles da minha ex-esposa e filho, esse ainda pequeno. E todos os outros vários quadros eram meus, alguns sozinhos, outros com colegas, mas todos cheios de energia e vontade.
Eu não podia deixar de me perguntar como eu havia conseguido perder essas duas coisas, minha família, meu brio. Sempre fui um membro exemplar do Enclave, enérgico e ativo, talvez até demais, já que vivia me enfiando em encrencas, mas também era leal e disciplinado, e meus comandantes viam isso. Mas toda essa dedicação me afastou da minha família, a mesma família que me levou a trabalhar mais, para poder oferecer uma vida ainda melhor.
Minhas promoções me levaram a uma vida aconchegante, principalmente quando fiquei sozinho, mas agora não tenho com quem a compartilhar. E pela doce ironia do destino, agora vejo que meu brilho, a única coisa que eu tinha, estava cada vez mais apagado. É essa a sina daqueles que querem ter o melhor em tudo?
“Comandante Brisk,” meu secretário, que nem havia notado deixar o seu lugar, arrancou-me da minha reflexão, chamando por mim enquanto despejava algumas folhas de papel sobre a minha mesa, já havia mencionado que ela estava cheinha? “Temos um caso especial que requer a sua atenção. Aqui está a ficha de uma soldada, com um pedido de urgência.” Ele apontou com o casco.
Um pedido de urgência? Isso era novidade. Por mais que pégasos gostem cada vez mais de pedir urgência por qualquer coisa, meus assuntos eram tão desinteressantes que nem mesmo com isso eu sofria.
“Deixe-me dar uma olhada...” Com isso eu coloquei meus fiéis e cruéis óculos e comecei a ler. “Thundering Trouble? Jovem, filha de civis, bons resultados em testes físicos e lógicos...” Ergui uma sobrancelha, procurando os olhos de Haste com os meus. “Qual é o problema aqui, Haste?”
“A soldado Trouble é... polêmica.” Ele apontou para o resto dos papéis que trouxe, a grande maioria deles eram formulários de infrações cometidas pela égua em questão. “Apesar dos seus resultados positivos nos testes, ela constantemente fica arrumando encrenca. Seus superiores reclamam que ela os desrespeita constantemente, mas sem configurar desacato ou deixar de cumprir ordens. Chega atrasada ou falta em compromissos quando não os acha realmente importantes, e comete todas as infrações menores possíveis.”
Eu não esperava algo diferente de alguém com encrenca no nome. A maioria das acusações contra ela eram coisas pequenas, algumas delas ignoráveis, outras um pouquinho mais sérias, talvez. Considerando como alguns amam protocolos, eu consigo até imaginar que ela faça tudo isso de propósito.
“Senhor Comandante.” Haste chamou pela minha atenção, sem me dar conta eu estava olhando para os retratos na parede, imaginando como eu e meus colegas fazíamos algumas dessas mesmas coisas. Não poder beber nem alguns golinhos de destilado enquanto se está de folga? Absurdo! “Alguns dos superiores de Thundering acham que com suas proezas ela estaria apta a seguir uma promoção para Sargento, enquanto outros acham que uma transferência para o norte poderia lhe ajudar com os problemas de disciplina.”
“Norte?” Meus olhos arregalaram. “Para fazer serviço de patrulha?”
“Isso mesmo.” Haste confirmou.
Fechei a cara, reclinei na cadeira, e cocei o queixo. “E jogaram esse problema logo para mim?”
“O senhor Comandante foi confiado com a decisão por ser imparcial. Todos os dados da soldado estão aqui.” Ele deu mais dois tapinhas com o casco na papelada, eu já entendi que havia uma pilha de papel ali! Várias delas! E finalmente deixou a perna descansar, alisando o próprio peito com o casco.
“Sabe, Haste, isso pode parecer o discurso mais manjado de todo o sempre.” E com um suspiro me ajeitei na cadeira. “Mas essa soldado me lembra de alguém. E esse alguém sou eu mesmo quando jovem.”
Ele pareceu incomodado com a comparação, olhando para os quadros na parede, e então de volta para mim. “Mas senhor Comandante, o senhor nem leu os papéis.”
“Não importa!” Exclamei, e essa foi a minha deixa para mostrar que apesar de velho, também sei bater em papéis. “Você sabe porque mandam jovens para a Patrulha no Norte, Haste?”
“Para discipliná-los?” Ele semicerrou os olhos e arriscou.
“Pelo mesmo motivo que mandaram isso para mim, para não lidar com o problema! Sabe o que se faz no norte? Você voa de um lado para o outro embaixo de neve, e tem que lidar com as criaturas e perigos mais bizarros, estando constantemente em contato com a superfície. É correr riscos para nada, Haste, nada! Nós conseguimos monitorar os pontos importantes da região sem precisar enviar soldados para lá. É loucura mandar uma égua promissora para lá. Vanhoover é um verdadeiro Tártaro congelado!”
Então me levantei da cadeira, enquanto isso o jovem garanhão apenas me observava, e continuei. “Eu já estive nessa mesma situação, sabia? Também era um jovem que gostava de baderna, aliás, gostaria de dizer que ainda sou um jovem que gosta de baderna, mas meu corpo não me deixa mentir.” Minhas articulações doíam só de andar até a parede, não era uma dor louca, mas era inegavelmente dor, por mais que eu me acostumasse com ela. “Sabe do que eu precisava todo esse tempo? De responsabilidades, Haste. Passei a me dedicar como louco assim que fui promovido, ter responsabilidades muda as pessoas. Não posso deixar de pensar que tudo o que essa égua precisa é de uma chance, e então ela será como eu, com um posto digno para servir ao Enclave!”
Alguns segundos de silêncio se passaram enquanto Haste media se já era seguro voltar a falar, eu olhava para as fotos, perguntando se a jovem já tinha feito algo no nível do meu colega Mask, que teve as bolas para injetar urina na pasta de dente do nosso sargento. Ah, bons tempos...
O garanhão vermelho deu um pequeno sorriso e assentiu. “Então o senhor Comandante é mais apto do que ninguém para ler todos esses papéis e decidir sobre o caso da soldado.” Ah, espertinho. “Tenho certeza que tomará a decisão correta, através dos fatos aqui relatados.” E ele bateu mais uma vez na pilha, antes de dar meia volta e retornar para o seu lugar.
Soltei um longo suspiro, olhando para a pilha de papéis, agora reforçada, e então de volta para as memórias de um passado tão colorido e feliz. Depois para o relógio, e notei como o tempo havia voado entre o início da minha reflexão, e a entrega do caso da soldado Thundering.
Qual havia sido a última vez que eu teria ficado com a cabeça na lua como hoje? Talvez na minha ressaca pós-divórcio, anos atrás?
Estava mordendo o lábio inferior, pensativo, quando olhei para o meu secretário. “Haste, tome conta dos meus papéis.” Se bem que todo dia eu torcia para que alguém os roubasse e resolvesse para mim. “Amanhã eu tomo conta dessa urgência. E desligue a cafeteira quando sair.” E trotei até a porta, pegando o meu casaco no caminho.
“Mas eu sempre desligo a cafeteira, senhor Com-“ E fechei a porta atrás de mim, não precisava ouvir o choro dele. E deixei o complexo militar local do Enclave, rumando para a cidade baixa. Eu precisava de algum lazer civil, como um bom whiskey.
Talvez quem nunca passou por esse tipo de reflexão não entenda a minha angústia. Algumas vezes simplesmente pensamos tanto, por tão pouco, que chega a ser chato. Meus tempos de glória e aventura eram passado, assim como um relacionamento saudável com a minha família. E o problema da jovem pégaso não parecia tão preocupante, já que estava em meus cascos.
Mas então porque eu não conseguia me sentir confortável pensando nessas coisas?
Eu precisei dar algumas voltas pela cinzenta e malcuidada cidade baixa, o que eu mais precisava agora era de um bar, um daqueles bem escondidos, em um beco bem suspeito, um lugar aonde ninguém prestaria atenção em um velho do Enclave curtindo uma garrafa de whiskey no finzinho do seu horário de expediente.
Flutuei por aí até encontrar o que estava procurando, um lugar com uma placa oval anunciando o nome do estabelecimento, Mugger, com um belo pisco-de-peito-ruivo empoleirado em uma generosa caneca.
O interior do lugar cheirava à cevada e suor, o que era um bom sinal. Haviam poucos pôneis, dois garanhões jogavam bilhar em uma das mesas, enquanto as duas éguas conversavam no balcão e bebiam algo de uma garrafa dourada, e eram bonitinhas, até aqui mais do que okay. Quem eu presumia ser o dono da bodega, ou o atendente do balcão, pelo menos, encarou-me com um olhar de poucos amigos. Okay isso podia ter sido melhor.
Tomei para mim uma mesa mais distante dos outros, sentei-me, tomando cuidado para que o casaco cobrisse qualquer pedaço do uniforme que eu usava por baixo, e pedi uma dose dupla de whiskey com gelo.
Em poucos segundos a bebida seca desceu pela minha garganta, levando com ela boa parte das minhas preocupações. Eu me importaria com essas coisas mais tarde, agora era hora de relaxar. Para minha surpresa a música do ambiente era... estranhamente agradável. Era uma mistura de um swing gostoso, típico do que ouvíamos em nossas festas em outrora, mas havia... havia... uma espécie de... batida? O ritmo era acolhedor e animador, fazia o passado parecer tão mais próximo, e o futuro tão menos cinzento.
Quando me toquei o meu casco estava batendo de leve contra a madeira, minha cabeça balançando também no ritmo, um sorriso bobo no meu rosto, e um copo vazio! Uma dessas coisas não estava certa, e logo ordenei outro. Os garanhões agora sentavam e conversavam no balcão, dois rapazes jovens, calorosos um com o outro. Enquanto das duas éguas só havia sobrado uma, que estava escorada na agora vazia mesa de bilhar, talvez esperando a sua amiga voltar? Levando em conta o quão vermelha as suas bochechas, antes azul aço, estavam, talvez tivessem consumido bebida demais, nessas horas a natureza faz o seu chamado.
Então fui atingido pela incômoda sensação de que algo estava errado, já que dois garanhões desconhecidos e mal encarados se sentaram comigo na mesa, cada um de um lado.
“O senhor Comandante não acha que é cedo demais para deixar o complexo militar, e vir para um lugar isolado desses na cidade baixa?” Perguntou o que se sentou à minha direita, com um sorriso debochado que o seu colega de cara fechada à minha esquerda não compartilhava.
Eu me perguntava como tártaros alguém que me reconhecesse fosse me achar nesse buraco. Não, eles claramente tinham me seguido. Precisar pensar quando você está na sua segunda dose dupla é algo que não recomendo para ninguém.
Esfreguei uma das têmporas com um casco e comecei a resmungar algo, mas fui cortado ainda pelo mesmo pônei. “O senhor não precisa falar nada agora.” E o colega mal encarado estendeu uma asa, cobrindo as minhas costas com ela, repousando a ponta no meu ombro. Ele tinha algumas tiras de couro formando uma espécie de coldre escondido debaixo de sua asa, e preso nele estava uma portátil pistola de energia, escura e lisa, exclusiva do Enclave. “Veja bem, senhor Comandante, o senhor pode não me conhecer, e isso é bom para nós dois. Mas o senhor lembra do Sargento Sunny?”
Sargento Sunny. Esse nome tocava um sino, e um sino recente. Porém agora haviam vários sinos tocando na minha cabeça, e isso não ajudava nem um pouco. Ainda assim, não era Sunny o bastardo que havia sumido com o batalhão em uma patrulha, e havia enlouquecido?
“Talvez.” Talvez eu tenha assinado os papéis que o expulsavam do Enclave, talvez.
O sorriso do garanhão falante sumiu, e ele se apoiou sobre a mesa, encarando-me nos olhos. “E como o senhor, representando o Enclave, se sente com a sua decisão? Vocês abandonaram ele, enquanto ele só estava seguindo as suas malditas ordens.” Ele sibilou, falava baixo, mas com raiva na voz, tentando evitar chamar atenção. Eu adoraria dar uma olhada em quem mais estava dentro do bar, mas o seu colega armado estava tapando a minha visão. “Você tem ideia do que isso fez com ele?!”
Rangi os dentes. “Sunny deixou o seu batalhão, foi um covarde e manchou o Enclave, ter enlouquecido depois disso não é problema nosso.” Ficou claro que isso não era o que eles queriam ouvir quando o garanhão encostou a caixa preto ao lado da minha cabeça.
“Escuta aqui, Comandante.” Mesmo depois do whiskey era visível como ele estava se controlando para não chamar atenção das outras pessoas do bar. Mas eu me perguntava se eles sequer se importavam. “Nós vamos dar uma voltinha com você, bater um papo, muitos papos, e você vai pensar bem sobre abrir um processo para readm-”
O garanhão não conseguiu terminar a sua ameaça, já que uma jovem égua azul aço se debruçou na mesa, bochechas coradas, curta crina perolada, e um olhar sensual que me fez ser alguns anos mais jovem de novo, e não estar com uma arma apontada para a minha cabeça.
“Seeeeeeeeenhores!” Ela interrompeu com um sorrisinho, encarando nós três, e pelo jeito sem se importar muito com a arma apontada para os meus miolos. “Minha amiga me deixou, e o mundo não para de girar. Um de vocês poderia ser um…” Ela visivelmente mordiscou o lábio inferior antes de continuar. “... bom cavalheiro e me levar para casa?”
O primeiro garanhão havia ficado surpreso, encarando a égua com olhos escancarados, tentando processar o que estava acontecendo. O seu colega armado não parecia tão encantado, ou assustado, porém vacilou e virou um pouco a cabeça na direção da pégaso. Hah, uma brecha!
Era hora de mostrar esses jovens que um velho pégaso ainda sabe como lidar com um bando de arruaceiros. Enclinei-me para a frente e balancei um casco contra a arma com precisão e agilidade. Porém meu focinho acertou a mesa, e a minha perna passou comicamente longe do alvo. Talvez eu não estivesse tão afiado enquanto alcoolizado.
Porém a minha tentativa não-tão-excelente-quanto-planejada dividiu a atenção do garanhão, e a mesa virou.
Literalmente.
Ela foi jogada contra nós três, ou melhor, eu e a mesa, já que éramos um só agora, fomos jogados contra os dois garanhões. Quando o mundo parou de girar, que demorou alguns segundos, o garanhão armado estava com a boca sangrando, gemendo de dor. Já o seu colega urrava, a pele entre o seu pescoço e ombro estava queimada, uma ferida nada agradável borbulhava.
“Jolly Jolt!” Bradou a égua azul, enquanto distribuía golpes com a arma nos dois garanhões. “Chame as autoridades!” Ou pelo menos era isso o que eu queria ouvir. Era difícil de entender alguém falando com a boca ocupada desse modo. Agora era possível ver como o bar havia esvaziado, talvez o par de garanhões tivesse ido cuidar daquele calor todo, ou então haviam se assustado com a comoção. Jolly Jolt parecia ser o cara do balcão, já que começou a se mover, mas não sem antes soltar um suspiro cansado, assim que a égua o chamou.
“É pedir demais por dois dias sem encrenca?” Reclamou o atendente grandalhão, quando a égua finalmente deu uma trégua, deixando ambos garanhões apagados, cuspindo a arma para o lado.
“Ai, sem choro, fica feio.” Ela respondeu fazendo uma careta, olhando para mim e para os outros garanhões atirado no chão. “E aí velho, acha que consegue levantar?”
Talvez tenha ficado atirado no chão um pouquinho demais, que deselegância na frente de uma dama! Com a ajuda dela deixei a vergonha de lado e me levantei. “Muito obrigado, senhorita...”
Eu a encarei, esperando que apresentasse o seu nome, mas o seu olhar atravessado me dizia que ela não tinha entendido. “Eu não posso lhe agradecer se não souber o seu nome.”
“Aaaaah!” A égua mostrou um largo sorriso, rolando os olhos e bagunçando a própria crina com um dos cascos. “Trouble, Thundering Trouble.” Ela deveria gostar mesmo dessa apresentação, porque o sorriso ficou ainda maior. Junto com a vermelhidão em suas bochechas, cortesia do álcool eu imagino, era impossível não achar aquilo adorável. Claro, ver uma bela jovem fazer dois garanhões se submeterem à paulada é sempre de fazer o coração disparar.
“Muito obrigado, senhorita Thundering Trouble.” E ao repetir o nome finalmente me lembrei do trabalho. Trabalho no qual eu deveria estar saindo agora, por sinal. Era essa a soldado que deveria ser transferida, ou promovida. E ela havia acabado de me salvar de uma boa confusão, apesar de que ela não deveria estar bebendo em serviço.
“Que isso, velho, não precisa agradecer.” Ela virou a cabeça para os dois garanhões, que estavam sendo arrastados por Jolly Jolt. “Às vezes acontece de aparecer uns encrenqueiros por aqui.” O atendente teve um ataque de tosse com a declaração. “Mas vamos lá, deixe eu te ajudar a ir para casa.” Disse com alguma pressa.
Ela me apoiou contra o corpo, e me ajudou a trotar para fora. Quem diria que o destino me daria a oportunidade de conversar cara a cara com a soldada Trouble? Hah! Na sua cara por duvidar dos meu métodos, Haste! “A senhorita não precisa me levar para casa, é longe, e eu estou bem. Só preciso descansar alguns minutinhos.”
“Velho, você pode cortar o senhorita. Que coisa mais chata.” Ela rolou os olhos violentamente enquanto trotávamos pela cidade baixa, afastando-nos do bar. “Mas e aí, qual o seu nome?” E perguntou quando paramos e nos sentamos em um banco de nuvens. “E o que aqueles caras queriam com você?”
“Copperwing.” Esse era o meu apelido de jovem, as minhas asas cor de cobre eram, desculpe a modéstia, inspiradoras! “E eles queriam fazer um acerto de contas, só porque eu fiz o meu trabalho.”
“Você não matou ninguém, matou?” Trouble rebateu de primeira, semicerrando os olhos.
“Não, não!” Balancei a cabeça, como jovens são diretos hoje em dia. “Você acha mesmo que alguém daria um “trabalho” desses para um velho como eu?” Isso fez com que ela parecesse menos tensa, então prossegui. “Mas e você, por que me ajudar? Melhor, como você notou que eu precisava de ajuda?”
“Eu frequento o Muggers regularmente, e nunca tinha te visto lá.” Disse Thundering enquanto alisava a curta crina pérola. “E você tem uma cara de poucos amigos, velho. Por isso achei estranho quando os dois sentaram e não pediram nada.”
Observadora, afiada, forte, destemida. Eu sabia que minha intuição continuava no ponto! E Haste chegou a duvidar de que essa égua só precisava de uma promoção. “O que você fez foi admirável. Eu mal consegui acompanhar o que acontecia.” Culpa do álcool, claro. Mas eu sabia como parecer esperto, pelo menos! Coloquei a minha melhor cara de desconfiado e segui em frente. “A senhorita seria Enclave?”
Os olhos dela se arregalaram na hora, conferindo se não havia alguém próximo que pudesse ter ouvido. “Bosta!” Ela praguejou, erguendo uma das patas dianteiras enquanto me encarava. “Como você sabia disso, velhote? Escuta, se alguém do Enclave souber que eu estava no bar naquela hora, eu vou me dar mal, okay? Então ao invés de ficar agradecido, é só fechar o bico!”
Ri, uma risada sincera, algo que há muito tempo não acontecia. “Tudo bem, mas então nenhum de nós dois está aqui, combinado?”
“Nenhum de nós dois...” Ela recuou um passo e continuou a me encarar de olhos semicerrados. “Você... também é Enclave?” Eu assenti, e novamente os olhos dela se arregalaram. “Porra!” Ela escoiceou o chão de nuvens e deu uma volta ao redor de si mesma antes de voltar a me olhar. “Um Oficial?” Assenti mais uma vez, e ela acertou o rosto com ambos os cascos. “Só com a minha sorte de merda mesmo.”
“Nós nunca nos encontramos, tudo bem, senhorita Trouble?” Ela voltou a me olhar. “E se alguém tiver nos visto, era um encontro para decidir sobre o futuro da sua carreira militar.” Thundering assentiu, mas continuou a trotar para um lado e para o outro, inquieta.
“Cop- Senhor Copperwing, posso perguntar algo?” Assenti. A essa altura o céu já estava escuro, a égua já não tinha mais as bochechas rosas e o gingado relaxado de antes, sua postura era rígida. A brisa da noite trouxe com ela uma Thundering Trouble mais séria, a Soldado Trouble. “Como é subir na hierarquia do Enclave?”
E ainda era ambiciosa! Claro que uma égua observadora como ela saberia que seus superiores estão tentando alça-la para cima, enquanto invejosos tentam mantê-la aonde está. “É um trabalho duro, mas recompensador. Você ganha acesso a instalações melhores, privilégios, passa a correr menos riscos, não precisa mais participar de treinos incessantes. Tem a responsabilidade de cuidar de várias patentes menores, seja através de instrução, ou da boa e velha papelada, se isso for o que você gosta.”
Ela torceu o focinho e sentou-se na minha frente, encarando por longos segundos antes de se pronunciar. “E como eu faço para não subir?”
O quê? Eu pisquei em surpresa. “Mas por que você não gostaria de subir? Você tem brilho, garota, um bom futuro pela frente, por que você não gostaria de subir?”
“Porque eu não me alistei para o Enclave para ter mais mimos, senhor, ou ficar trancada em uma sala fazendo... papelada.” Ela disse a última palavra com o mesmo desgosto que falávamos Dashite. “Minha família trabalha nas plantações, é uma vida tranquila e despreocupada. Alguns dos meus superiores parecem levar dessa mesma vida, senhor. Sentados em seus gabinetes confortáveis assinando papéis, estufando o peito para mandar nos outros enquanto fazem absolutamente nada, ou apenas fingem!” Thundering riscou um do cascos contra a nuvem, gerando uma pequena faísca elétrica. “Eu quero voar, proteger o enclave, desbravar, ter uma vida além de quatro paredes miseráveis! Amo o meu povo, amo o Enclave, mas eu não suporto essa atitude!”
Ambos encaramos um ao outro, em silêncio, até que ela se levantou. “Na verdade eu tenho medo, senhor Copperwing, não quero deixar minha vida em um escritório, ou ficar mandando nos outros enquanto massageio as minhas bolas.” Pelo jeito eu deveria abrir uma investigação para alguns sargentos. E abriu as suas asas, oh-tão-belas asas! “Essas asas foram feitas para voar, e esses cascos para chutar, e é isso o que eu quero fazer, não fingir que faço algo!”
“Tá bom, tá bom!” Eu sorri, sem jeito, abanando os meus cascos. “Se você quiser jogar um futuro brilhante e nobre fora, tudo o que você precisa dizer é se dirigir ao seu superior e relatar isso, ele vai tomar conta de tudo.” Ela fechou a cara, e balançou a cabeça em desaprovação e descrença.
“São todos iguais...” Thundering murmurou baixinho, mas alto o suficiente para eu ouvir. “Obrigada pela ajuda, senhor, mas já está ficando tarde. Permissão para me retirar?” E pelo jeito algo que eu falei havia ofendido a moça.
“Permissão concedida.” Assenti, ela pareceu me examinar mais uma vez com os olho, e então partiu.
Jovens.
Acham que a vida é feita apenas de bons momentos, aventuras, diversão. Talvez Haste estivesse certo, e eu a julguei de modo errado. Mas em uma coisa ela tinha razão, era hora de voltar para casa, já estava tarde, e amanhã eu tinha uma pilha extra grande de papéis para resolver.
Coloquei-me a voar.
Jovens.
Ainda assim, devo concordar que há algo mágico neles. Esse modo de ver o mundo sem medo de ser feliz, sem medo de correr atrás do que querem. Por que perdemos isso quando crescemos? A garota poderia ser como eu, não, ela poderia ter uma patente muito melhor, só deveria se dedicar mais, afinal, ela poderia evitar os problemas que eu tive com a minha família.
O complexo militar estava já escuro, com pouco pessoal, mas eu entrei mesmo assim.
Jovens.
Queria eu que eles fossem como eu? A sala escura, as pilhas de papéis, burocracia, acordos. Acendi a luz para olhar para os retratos mais uma vez. Ah, como eu tinha um sorriso feliz quando jovem. Seria assinar a promoção de Thundering Trouble o que a tornaria como eu?
Eu acariciei com carinho o quadro em que estava eu, minha ex-esposa, e meu pequeno filho. Uma lágrima solitária rolou pelo meu rosto.
Jovens.
Como eu não queria que eles fossem como eu.
Talvez seja por isso que somos brilhantes quando jovens. Ainda não fomos moldados, somos curingas, seres de infinitas possibilidades. Eu tenho uma carreira invejável, um salário bom, uma cadeira confortável, mas havia deixado para trás meus sonhos, meus colegas, minha família, meu brilho.
Desliguei as luzes e saí da sala. Talvez fosse hora de tomar um banho, colocar um perfume, e começar a arrumar algumas coisas. Talvez o pequeno Dandelion ainda estivesse acordado, e a sua mãe disposta a conversar.
Para frente, recuperar os meus sonhos, para trás, um documento assinado.
Soldado Thundering Trouble
Transferida para a Patrulha do Norte, unidade de Vanhoover.
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