Falling in Love
25 Capítulo 25
Notas iniciais
O jardim estava bem pior do que quando chegamos, dessa vez tinham adolescentes já caídos pela grama, alguns vomitavam e outros dormiam agarrados ou a alguma outra pessoa ou com sua própria garrafa. Já estava na rua quando escutei alguém me chamando.
– Amy, espera. — virei e encontrei Chris vindo em minha direção. Revirei os olhos e continuei andando. Não tinha paciência pra ele nesse momento. — Pode andar um pouco mais devagar, por favor?
– O que você quer? — perguntei parando abruptamente e me virando pra ele, que quase se esbarra em mim. Ele estava ofegante pela corrida, mas continuava lindo e seus olhos estavam tão convidativos quanto da primeira vez que olhei pra eles, que quase me fez esquecer a raiva que sentia.
– O que aconteceu pra você sair da festa assim? — ele perguntou alheio ao que seu olhar fazia comigo.
– Acho que isso não é da sua conta.
– Opa! Ponto pra você. Desculpe, não devia me intrometer na sua vida. — ele disse e ficou em silêncio apenas me olhando.
O silêncio não era incômodo, mas aquele olhar dele me intrigava. Senti minha raiva se dissipar depois de um tempo em silêncio, só então senti o frio dá madrugada. Devia tá fazendo uns 16° e eu estava só com aquele vestido minúsculo, culpa de Ashley. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Cansei de ficar ali, eu tinha que ir pra casa. Virei-me e continuei caminhando. Escutei-o vindo atrás.
– Porque está me seguindo? — perguntei sem parar de andar.
– Você não pode ficar sozinha a essa hora da noite. É perigoso. — ele disse ficando do meu lado.
– E se eu não quiser que você vá andando comigo? — perguntei parando de novo, ainda podia escutar o som da festa.
– Se você preferir eu vou pegar meu carro e posso te levar pra casa. Hoje está muito frio pra caminhar mesmo. — ele respondeu dando de ombros. A tranquilidade com que ele agia me passava, de certa forma, confiança.
– Vou mudar minha pergunta. E se eu não quiser que você me leve pra casa?
– Então eu te levo pra minha ou te deixo perto da sua. — ele sorriu.
– Okay. — Não sei se foi o sorriso dele ou o frio que eu senti naquele momento que me fez aceitar, só sei que o seu sorriso aumentou mais ainda e ele saiu correndo me pedindo pra esperar, dizendo que ia pegar o carro e voltava pra me buscar aqui.
Assim que ele saiu de vista percebi o que tinha feito e tratei de continuar logo meu caminho, quanto ao frio logo não estaria mais sentindo por estar me movimentando.
– Olha se não é a gatinha que eu vi no bar. — escutei aquela voz novamente, vinda de trás de mim. Não me atrevi a virar, muito menos a parar de andar. — Terminou com o namorado? Eu o vi com outra lá dentro, eles estavam aproveitando bem a noite. — ele disse de forma sarcástica e maliciosa. Adiantei meu passo, não queria que ele me alcançasse. — A bonequinha tá tentando fugir? — podia sentir a malícia na voz dele. Eu estava quase correndo, mas o salto não me permitia andar mais rápido. — Sabia que eu não gosto quando mentem pra mim? — a voz dele estava mais próxima. — Porque você tinha que mentir pra mim?
Virei na primeira rua que eu vi, tentando despistá-lo, só então percebi que ele estava acompanhado por mais dois amigos e que eles estavam próximos. Próximos demais. Fui puxada abruptamente para trás e me bati contra o peito de alguém, difícil era saber se seria o rapaz do bar ou de algum dos seus amigos. Ofeguei ao ser jogada contra a parede. Por um minuto o ar foi tirado dos meus pulmões, quando eu voltei a abrir meus olhos pude perceber que era o mesmo rapaz e seus amigos estavam dos lados esperando.
– Tão linda e tão teimosa. — ele disse com a boca próxima a minha, pude sentir o hálito de bebida. Comecei a me contorcer nos braços dele que me prendiam na parede lisa de alguma casa. — Sou mais forte que você, então não adianta tentar fugir.- ele disse com os lábios em minha orelha, mordendo meu lóbulo. Senti meus olhos se encherem de lágrimas. — Deveria ter me dado o que eu queria quando conversamos no bar ao invés de ter mentido. — ele desceu os lábios pro meu pescoço, senti uma de suas mãos apertar minha coxa esquerda.
Engoli em seco. Sabia bem o que ele queria. Teria que esperar o momento em que seus amigos se distraíssem para poder sair dali. Já estava sentindo as lágrimas de raiva e nojo saindo dos meus olhos enquanto ele começava a subir seus beijos ao mesmo tempo em que subia a mão em minha perna e a apertava. Pude ver com o canto do olho que um dos amigos tinha saído do seu posto, indo para o lado do outro, que estava do lado contrário ao da entrada da rua em que estávamos. Era agora ou nunca.
– Tão gostosa. — senti-o lamber minha mandíbula e subir a boca até a minha, sua mão já tinha chegado a barra do meu vestido e continuava subindo, levando ele junto. Aproveitei o momento e levantei minha perna direita com tudo entre as pernas dele.
O momento de dor dele e de confusão dos amigos foi o suficiente para que eu conseguisse me desvencilhar de seus braços e sair correndo. Tirei o salto o mais rápido que pude e continuei. Não sabia em que direção eu ia, só corria com medo de que algum deles pudesse vir atrás de mim. A adrenalina pulsava em minhas veias e as lágrimas embaçavam minha visão. Não estava mais aguentando correr, minhas pernas queimavam, mas um som de passos atrás de mim não me deixavam parar. Sabia que chegaria uma hora que não aguentaria mais, mas tinha que tentar. Devo ter corrido por mais uns cinco minutos até que minhas pernas cederam e eu caí. Os passos se aproximavam, tentei me levantar, mas minhas pernas doíam demais. Usei toda a força que eu ainda tinha para me por de pé, mas assim que consegui, senti dois braços me puxar. Gritei com o susto, mas uma mão logo cobriu minha boca. Lágrimas já molhavam todo o meu rosto, estava muito cansada para tentar lutar novamente.
– Amy. Amy, fica calma. — aquela voz. Era Chris quem me segurava, minhas lágrimas aumentaram, mas dessa vez eram de alívio. Antes que eu conseguisse me segurar minhas pernas cederam, mas braços fortes me envolveram e me trouxeram para mais perto. Senti o calor do corpo dele envolver o meu. — Ei, o que aconteceu? Você está gelada. — eu não conseguia responder, não encontrava minha voz. Ele me virou de frente para ele, mas eu não queria olhar em seus olhos. Eu me sentia imunda e não queria ver a cara que ele faria quando visse meu estado. A presença dele era muito reconfortante, tinha medo que ele pudesse sentir o que tinha acontecido e sentisse o mesmo nojo que eu sentia de mim mesma nesse momento. — Ei, olha pra mim. — a voz dele era tão doce naquele momento, muito diferente do que qualquer outra vez que ele falara comigo. Mas isso não diminuiu o que eu sentia, apenas neguei com a cabeça.
Ele suspirou, mas não disse mais nada. Senti ele me levantar do chão e eu escondi meu rosto da melhor forma que pude em seu peito. As lágrimas ainda vinham com facilidade e, provavelmente, sua camisa já estava com a frente toda molhada. Ele caminhou comigo em seu colo por alguns minutos até eu escutar um barulho de chave e de um carro sendo destravado.
– Vou te levar pra casa, pode ficar calma que nada vai acontecer com você enquanto eu estiver aqui. — ele disse me colocando dentro do carro, no banco do passageiro.
Suas palavras despertaram algo dentro de mim, que eu tentava esconder desde o início. Só agora eu me dei conta de que não conseguiria esquecer o que eu sentia por ele tão facilmente, principalmente se ele continuasse agindo assim.
Ele deu a volta no carro e se sentou no banco do motorista e ligou o carro, eu conseguia vê-lo apenas com o canto dos olhos, já que ainda estava de cabeça baixa e agora poucas lágrimas desciam.
– Amy, vai me contar o que aconteceu? — ele perguntou sério. Percebi que ainda não tinha dado a partida no carro.
Não sabia se estava preparada pra olha-lo, mas tive que fazê-lo quando sua mão segurou meu queixo e levantou meu rosto. Vi compaixão em seus olhos, suas emoções mudaram de confusão para entendimento e por fim raiva. O que ele soube conter muito bem. Isso fez com que meus olhos se enchessem de água novamente, caindo mais algumas lágrimas.
– Por favor, não chore mais. — ele disse tentando, inutilmente, secar minhas lágrimas. — Quero que você me diga o que exatamente aconteceu.
– Eu... — minha voz estava rouca por causa do tempo que passei chorando, eu não imaginava como eu poderia dizer a ele o que tinha acontecido. Tentei desviar meus olhos dele, consegui por pouco tempo antes que ele os direcionasse novamente para os dele, mas esse pouco tempo foi o suficiente pra ver quem estava a duas quadras de distância, e isso serviu para me deixar inquieta. Infelizmente Chris percebeu.
– O que foi? O que você viu? — ele começou a olhar em volta. Havia certa raiva em sua voz.
– Por favor, me tire daqui. Me leve pra qualquer lugar que seja bem longe daqui. — implorei pra ele, com a voz ainda rouca e embargada devido à quantidade de lágrimas que ameaçavam voltar a cair.
Ele alternava seu olhar entre mim e na direção em que os meninos estavam. Não sei se ele apenas decidiu que seria inútil tentar conseguir algo de mim ali ou se viu o desespero em meus olhos, mas ele finalmente deu partida no carro. Eu me escondi involuntariamente quando passamos pelos meninos. Pude perceber que Chris me olhava intrigado com o canto dos olhos, mas apenas ignorei.
Já estava cansada de chorar, mas estava muito aliviada por ter conseguido escapar antes que algo pior acontecesse. Fiquei olhando pela janela até que minhas lágrimas parassem de cair. Chris dirigia em silêncio, mas eu sabia que ele me olhava às vezes, ainda esperando uma explicação. Só demorou até nós sairmos do condomínio pra ele parar o carro e se virar pra mim, pude ver seu reflexo pela janela do carro. No momento em que sua mão tocou a minha eu me encolhi, não de propósito, mais por causa do susto.
– Desculpe. Amy, o que aconteceu? — ele perguntou, senti um nó se formando em minha garganta. Não podia chorar de novo. Sabia que se olhasse pra ele provavelmente não aguentaria, então continuei olhando pela janela.
– Aqueles meninos tentaram me... — não consegui terminar, o nó que se formara em minha garganta aumentara e minha voz não queria mais sair. Felizmente não precisei continuar, Chris já tinha entendido.
– Droga. — escutei-o praguejando baixo. — Você está bem? Ele te machucou? — podia sentir a preocupação em sua voz. Neguei com a cabeça, ainda tentando me controlar. — Porra, Amy! Olhe pra mim, por favor! — ele disse irritado, por um instante me assustei com seu tom de voz, mas logo percebi que ele queria ver se algo tinha acontecido.
Usei toda coragem que estava juntando para olha-lo. Vi a raiva aumentando em seus olhos, enquanto os meus ameaçavam encher-se de lágrimas. Sua raiva não era direcionada a mim, e sim a quem tinha feito aquilo comigo.
– Estou bem, só me leve pra casa, por favor. — pedi controlando minha voz. Passando a impressão de que eu estava bem. O que eu mais queria agora era um banho bem quente pra limpar meu corpo. Nem queria imaginar como minha maquiagem estava depois de chorar tanto.
– Como você conseguiu escapar? Eles eram três e você só uma. — ele indagou. Suspirei, teria que explicar a história do que tinha acontecido no Brasil.
– Isso já aconteceu comigo antes. Estava saindo de uma festa lá no Brasil com Belle. Bem, eram dois caras me agarrando ao menos tempo, mas felizmente Belle conseguiu chegar com os seguranças antes que algo pior acontecesse. Só fiquei com alguns hematomas e perdi um de meus vestidos favoritos, já que eles rasgaram boa parte. Resultado, meu pai ficou furioso e me colocou em diferentes aulas de defesa pessoal e luta. — contei tudo de vez, vi em seus olhos a raiva diminuindo aos poucos, pelo menos por enquanto.
– Esses caras foram presos?
– Sentença de dois anos, não ficaram nem metade. Mas não vieram mais atrás de mim depois que saíram. Eles também estavam bêbados. — respondi dando de ombros. A presença dele me acalmava, por mais estranha que a situação fosse.
– Onde é a sua casa? — ele perguntou depois de um tempo em silêncio, dando partida no carro. De início não entendi a pergunta, só então lembrei que ele nunca tinha ido lá.
– No final da sua rua.
– Você mora perto da minha casa? — ele perguntou erguendo a sobrancelha esquerda.
– Fazer o que, né? Ao que parece seu pai gosta daquela rua, já que foi ele quem escolheu a casa pro meu pai. — dei de ombros, agradecendo mentalmente por ele ter mudado de assunto.
– Provavelmente Phillipe foi escolher com ele. Ele adora fazer esse tipo de coisa, embora meu pai dedique maior parte do seu tempo dizendo que eu devo seguir seus passos por ser o mais velho. — ele disse um pouco chateado.
– Entrar pra política?
– Também. — ele respondeu num suspiro. — Meu pai não é só o governador, digamos que ele tenha uma empresa um pouco famosa. E ele quer que eu a administre quando termine a faculdade.
– E você quer? — perguntei. Estávamos perto de casa, Chris dirigia a uma velocidade relativamente alta comparada a permitida, mas como devia ser por volta das 3 da manhã, ninguém se importava.
– Não sei. Eu queria ter a opção de fazer algo que eu queira. Mesmo que eu queira ser o administrador da empresa dele. Dá pra entender?
– Dá sim. Você quer que ele te deixe escolher o que você quer fazer, e não apenas mandar você fazer algo. — falei com o olhar fixo a minha frente.
Eu sabia que meu pai também queria que eu administrasse sua empresa, mas eu iria fazer medicina. Já tinha dito a ele que seria como a mamãe, teria minha área de trabalho e ajudaria na empresa. Eu, meu pai e minha mãe, juntos, somamos 51% das ações da empresa, eles queriam que eu tivesse mais ações assim que completasse meus 18 anos. A cada três anos meu pai passava uma certa quantidade de ações dele ou da minha mãe pro meu nome, para que quando eu terminasse a escola, ou seja, fosse maior de idade, fosse também oficialmente dona da empresa e eles pudessem se aposentar. No meu próximo aniversário eu teria 20% das ações, enquanto eles teriam 16% e 15%. Os maiores valores de ações dentre todos os acionistas da empresa. Eu praticamente já era a dona.
Lembrei-me que eu não podia chegar muito desarrumada em casa, se meu pai ou algum empregado visse poderiam tirar opiniões precipitadas e ele poderia me proibir de sair ou me perguntar o que realmente tinha acontecido, o que eu achava mais provável, e eu não queria ter que dizer a verdade. Olhei-me no espelho pra ter uma ideia da minha situação. Não estava tão ruim.
Lábios vermelhos por causa do batom, cabelo totalmente bagunçado e olhos vermelhos e inchados por causa do choro. Felizmente nada de maquiagem preta espalhada pelo meu rosto. Viva a maquiagem a prova d'água.
Tratei de tirar logo o batom dos meus lábios e apagar qualquer rastro de lágrimas que ainda tivesse em meu rosto. Estava até mais aceitável quando ele parou o carro nos portões de entrada da minha casa, que estavam trancados. Seria uma bela caminhada até chegar dentro de casa.
– Tá melhor? — perguntei olhando pra ele e indicando meu rosto. Ele não pareceu entender direito a pergunta. — Se meu pai desconfia do que aconteceu provavelmente ele não vai me deixar mais sair sem um segurança ou algo do tipo. Estou querendo saber se meu rosto ou alguma coisa em mim me entrega.
Ele me analisou bem. Bem até demais. Acho que ele se aproveitou da minha pergunta pra demorar mais seu olhar em minhas pernas. Homens.
– Tirando seus joelhos eu nem desconfiaria que aconteceu alguma coisa com você. — ele disse indicando meus joelhos. Só então entendi o porquê que ele estava olhando tanto as minhas pernas.
Desviei meus olhos dos dele e olhei para elas. Meus joelhos estavam ralados e um pouco de sangue tinha escorrido pelas pernas, mas agora já estava seco e só ficaram as marcas.
– Acho que vou ter que entrar pela porta dos fundos. Tenho que limpar esse sangue antes de entrar em casa. — disse num suspiro. Virei-me pra ele que ainda me encarava. — Er... Obrigada pela carona. Boa noite. — disse ainda um pouco envergonhada. Nunca tinha pegado uma carona de um homem a essa hora da madrugada, não sabia bem como agir.
– Eu prometi te deixar em casa. — ele disse sem expressar nada na voz, não entendi o que ele quis dizer com isso. — Ainda não estamos na sua casa. Até onde eu sei, lá é sua casa e não aqui. Você tem a chave do portão?
– Não precisa, sério. — disse um pouco nervosa, tentando não demonstrar muito. Não sei o que meu pai faria se me pagasse voltando pra casa a essa hora e com um homem. Peguei minha bolsa e meus sapatos. Abri a porta e estava saindo quando ele me segurou.
– Pelo menos vista um casaco então. Lá fora deve está fazendo uns 16° e digamos que você não está com muita roupa. — ele comentou sorrindo de lado. Vi um brilho estranho passar em seus olhos, mas foi tão rápido quanto veio. Senti-me corar. Bendita Ashley! Ele pegou um casaco no banco de trás e me entregou. Hesitei um pouco, mas acabei aceitando. Estava realmente muito frio.
– Obrigada. Amanhã eu levo em sua casa. — disse enquanto vestia.
– Não se preocupe com isso. Se quiser pode me devolver na escola. — ele disse dando de ombros. Apenas assenti.
– Obrigada de novo.
– Boa noite, Amy. — ele disse sorrindo, aquele sorriso dele quase me arranca um suspiro.
– Boa noite, Christopher. — eu disse sem conseguir evitar um pequeno sorriso brotar em meus lábios.
Tratei de sair logo do carro e imediatamente agradeci por estar com o casaco. Assim que saí o vento frio envolveu meu corpo e me fez arrepiar. Fechei o casaco, que era quase da altura do meu vestido, e entrei no jardim de casa, sentindo a grama gelada e úmida sob meus pés. Escutei o momento em que Chris voltou pra estrada.
Caminhei cautelosamente pelo jardim, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Fui até a área da piscina, onde eu sabia que encontraria uma torneira pra limpar meus joelhos e que seria longe da janela do quarto dos meus pais. No início a água gelada fez com que minhas pernas se arrepiassem, mas com o tempo acostumei. Assim que terminei entrei em casa e comecei a subir para o meu quarto da forma mais silenciosa que pude, estava passando pelo andar dos meus pais quando percebi que eles ainda estavam acordados e estavam conversando.
Aproximei-me cautelosamente da porta para saber sobre o que era. Desde o dia em que escutei sem querer a conversa dos dois eu vinha percebendo que eles me escondiam alguma coisa.
– Você já devia saber que uma hora ou outra teria que contar a ela. — escutei minha mãe dizendo, parecia um pouco irritada. — Quanto mais você demorar de contar é pior.
– Eu sei, mas eu temo pela reação dela. — meu pai parecia até preocupado. Engoli em seco. Sabia que era errado estar escutando-os, mas eu tinha que saber se eles estavam escondendo algo.
– Nossa filha é bem racional. — quando escutei minha mãe dizer isso tive vontade de entrar no quarto e perguntar o que eles escondiam de mim, mas sabia que não seria certo. Decidi ficar e esperar mais um pouco. — Não devia se preocupar tanto com isso. Você sabe que as decisões dela são sempre as melhores. Ela vai entender e independente disso, daqui a alguns meses ela vai ser a presidente da empresa.
– Eu sei, mas mesmo assim fico preocupado. — ele fez uma pausa, por um tempo achei que eles tinham decidido ir dormir, mas logo meu pai continuou. — Ela ainda não deu nenhum tipo de notícia. — Tinha esquecido que eu ficara de mandar uma mensagem dando algum sinal de vida. Praguejei mentalmente.
– Fique calmo Alex, ela está com os amigos. Com certeza deve estar bem. -escutei minha mãe dizer, podia até imaginá-la tentando tranquilizá-lo. — Ela sabe se cuidar.
– Eu sei disso. Mas você sabe que da última vez que ela foi a uma festa as coisas não acabaram bem. — estremeci quando ele mencionou a minha primeira e última festa, antes dessa. — E se alguma coisa acontecer com ela? E se algum menino tentar alguma coisa que ela não queira?
Nem esperei minha mãe responder. Bati de leve na porta do quarto e abri uma brecha, fingindo ver se eles ainda estavam acordados. Acho que só fiz isso porque sabia que a luz estava desligada. Mesmo chateada por eles estarem me escondendo alguma coisa, eu não queria que meu pai se preocupasse comigo àquele ponto de me ver usando o casaco de um menino e estar com os joelhos ralados.
– Pai? Mãe? Estão acordados? — perguntei num sussurro, com apenas minha cabeça dentro do quarto deles.
– Emily? Pode entrar. — minha mãe respondeu com a voz um pouco rouca. Se eu já não soubesse que eles estavam acordados, poderia jurar que eu tinha acabado de acordá-los pela voz que ela fez. Muito esperta.
Entrei no quarto e caminhei devagar e em silêncio até eles, enquanto meus olhos se acostumavam com a escuridão. Sentei-me ao lado da minha mãe na cama.
– Cheguei em casa agora. Quis passar aqui pra dar um beijo de boa noite. — disse num sussurro. Eu não podia dar a entender que sabia que eles estavam acordados. — Desculpa, não queria acordar vocês a essa hora. — disse com um tom de culpa. Minha mãe se sentou e beijou minha testa.
– Não se preocupe meu anjo. Fico feliz que tenha vindo avisar. Amanhã quando seu pai acordar eu digo a ele que você já chegou. Ele foi dormir preocupado. — ela disse e riu. Forcei um sorriso. Sério que ela disse que meu pai estava dormindo?– Amanhã você conta como foi na festa. Agora vá dormir, você deve estar cansada.
– Tudo bem. Boa noite, mãe. — dei-lhe um beijo na bochecha. Levantei-me e dei a volta na cama, para o lado do meu pai. Beijei-lhe a testa e sussurrei, sem querer "acordá-lo". — Boa noite, pai.
Antes de sair do quarto murmurei um "amo vocês" e subi direto para o meu quarto, dessa vez sem parar em lugar nenhum.
Assim que cheguei tirei o casaco e joguei-o na cama com minha bolsa, deixei os sapatos na porta do closet e fui direto para o banho. Parando apenas para tirar o restante da minha roupa.
Certa vez eu descobri que uma das melhores formas de limpar o corpo é com um banho de água quente. Foi o que eu fiz, liguei o chuveiro com a água fervendo e entrei. Fiquei por um tempo até não aguentar mais, então a deixei um pouco morna. Lavei todo o meu corpo, principalmente as áreas em que o rapaz havia beijado e tocado. Terminei meu banho quase uma hora depois de ter entrado. Vesti um roupão e prendi meu cabelo com a toalha para ele secar mais rápido. Eu estava muito cansada e com muito sono, então apenas vesti um moletom confortável que ia até metade das minhas coxas. A única coisa que fiz antes de me entregar ao sono foi fechar as cortinas e entrar embaixo dos lençóis. Depois eu pensaria sobre o que meus pais poderiam estar conversando. Assim que fechei os olhos fui envolvida pela escuridão e um forte cheiro de baunilha e terra molhada embalaram meu sono.
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