Notas iniciais
๑㋡๑ Viver é que nem andar de bicicleta, basta manter o equilibro. ʚ㋞ɞ Obrigadaa por chegar até aqui, comente o que achou no final do capítulo! Beijos *-*

Deixei minha casa e fui até o tio Juca, o sorveteiro. Andei até o outro lado da rua, na pracinha da cidade. Tirei sete reais da carteira, e em troca, o tio Juca me deu um lindo sorvete de flocos, meu preferido.

Estava sozinha, somente eu e meu precioso sorvete. Sentados no banco em frente à grama verde cheia de flores em um domingo ensolarado.

Pra resumir tudo: meu nome é Scarlett, eu tenho 16 anos, sou uma menina teimosa, destemida e simpática. Quando eu quero. Meus olhos são castanhos, como uma avelã. Sou loira, e meu corpo é bonito, uma das coisas que eu mais gosto em mim.

Eu tenho um irmão, o Dylan. Ele tem oito anos, e é minha única alegria. A coisa mais fofa desse mundo. Ele é bochechudo que só vendo, tem um cabelo loiro que puxa mais para o ruivo, e lindas pupilas esverdeadas. Ele vai ser um gato quando crescer, eu sei. Ele puxou mais minha pai. Eu puxei minha 'mãe'. Pamela, a mulher que me deu a luz, diz que o Dylan foi a única coisa que meu pai fez direito.

Olha, é uma história muito, muito complicada. O meu pai... Bom, ele e a Pamela se amavam, nós já fomos um dia uma família feliz. Só que ela bebia muito, e ele trabalhava muito. Basicamente, era eu que cuidava do meu irmão quando ele era um neném – basicamente, ainda sou eu que cuido dele. — Eles discutiam todas as noites, sem falta. Eles iam se separar, mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer o meu pai ficou doente, muito doente. Então ela bebia, e eu cuidava do Dylan e de meu pai. Dylan tinha só três anos quando aquilo aconteceu. Meu pai morreu e me deixou sozinha com essa mulher.

Eu já chorei muito, e ainda choro. A única diferença é que hoje eu sei sorrir. Sorrir para disfarçar. O que mais? Bom, eu não odeio a minha mãe, não creio que isso seja possível, mas eu não a compreendo. E por esse motivo ela diz que eu sou rebelde e joga na minha cara que me despreza e gostaria que o Dylan fosse filho único. Ela realmente gostaria que eu nunca tivesse nascido. Eu sei disso. E, hoje, eu moro com a minha vó e com o Dylan. Ainda sou eu que cuido dele, minha vó passa o tempo inteiro no quarto ou no quintal. Ela lembra muito a minha mãe, é rancorosa e mandona como a filha.

Meu pai era astrônomo. O mais talentoso que já vi. Ele dizia que as estrelas são como lembretes, lembretes que nada brilha sem a escuridão. Eu adorava ir visita-lo no trabalho. Foram várias as noites em que acampamos a céu aberto e brincávamos de observar e nomear estrelas. Hoje, eu sei que meu pai é uma estrela. Sei que ele é a maior e mais brilhante das estrelas do céu.

“As estrelas não brilham sem a escuridão, Lett”.

Aqui estamos nós, agora você já sabe da tragédia que eu chamo de vida. Peguei-me olhando para o horizonte com cara de bunda e lembrei que eu tinha um sorvete pra tomar. Oba! Finalmente, meu tão amado flocos.

– Olhem se não é a minha linda Let! – Encontrei o Brian, junto com uns cinco garotos que eu reconheci serem lá da escola, me encarando com um sorriso amarelo. Paz é uma palavra fora do meu dicionário.

– Ah. Oi. Nada pessoal, mas eu quero ficar sozinha. – Me levantei do banco e dei só um passo, antes que ele segurasse meus ombros com força.

– Eu não te entendo garota. Você é a única menina da escola que não cai de amores por mim! – Rangeu. Ego maior que a água nos oceanos.

– Deve ser por que eu sei que você é um otário. – Falei tranquila. Ele pareceu muito irritado, e por mais que eu gostasse de brincar com fogo, isso não era uma coisa boa...

Ele jogou minha casquinha no chão com força e eu pulei pra trás, assustada. Realmente não foi uma ideia boa. Lentamente dei dois passos para trás. Eu ia correr que nem uma doida.

Acredite em mim, o Brian é um psicopata obcecado por atenção.

– O que disse? – Falou pausadamente se aproximando de mim com a sobrancelha erguida. E os amigos dele só assistindo aquela cena de terror como se estivessem no cinema. Canalhas!

– Nada... – Dei de ombros tentando parecer normal – Olha Brian, é realmente um enoorme prazer te ver aqui, mas eu preciso mesmo ir... Sabe? Tchau... – Acenei e me virei pra ir embora, talvez funcionasse. Não funcionou. Ele segurou no meu ombro com mais força ainda e me virou.

– Ah Scarlett, é bom que você nunca mais fale assim comigo... Senão... – ele apertou meu ombro com mais força e sorriu cínico – eu não tenho dó de você só porque é órfã!

Meti um soco muito bem dado no nariz daquele idiota. Ninguém, ninguém fala assim de mim!

– Cala essa droga que você chama de boca! – Cuspi as palavras sentindo meus olhos marejaram e as lágrimas rolarem. Sentei no banco novamente e coloquei as mãos na bochecha. Eu não acreditava que era capaz de... Bater em alguém por falar sobre meus pais. Retirei-as dali ao perceber que ele ia revidar. Estava completamente paralisada e chorando. E ele ia acabar comigo.

– Deixa a garota em paz! – escutei uma voz vinda atrás de mim quando o Brian já estava com o braço na posição vou-acabar-com-você. A voz vinha de um garoto. Meus olhos estavam um pouco embaçados pelas lágrimas, mas pude ver que ele era lindo. E desconhecido. Nunca o vi por aqui antes.

– E quem é você? – Brian rangeu para o menino. Encolhi-me não entendendo o que estava acontecendo, o menino percebeu e me lançou um olhar de segurança.

– Alguém que, ao contrário de você, não é covarde. Por que não procura alguém do seu tamanho, hein?

– Por que não para de se meter na vida dos outros? – Um dos amigos do Brian gritou. Isso ia acabar mal, e por minha causa, o que só me fez derramar mais lágrimas. – Vai ser muito divertido acabar com a sua raça, garoto!

– Não vou te dar esse gostinho. – O menino provocou. Caramba, eu tenho que interferir nisso...

– Hm, Brian, acho melhor você deixar isso pra lá... – Ele riu debochado da minha tentativa. E fez uma cara de psicopata que me fez dar um passo atrás.

– Nunca te deram educação? É feio bater em uma dama. – O menino de cabelos castanhos claros falou olhando pra mim. Senti-me envergonhada, mas logo isso passou e eu fiquei aterrorizada. Brian tinha levado sua mão ao rosto do menino e seus amigos fizeram uma roda envolta dele.

Estavam seis a um isso era injusto! De qualquer jeito seria! Pensei. Mas o que eu posso fazer? Ficar assistindo o menino apanhar por sua causa que não!

Um dos amigos de Brian me segurou antes que eu fosse me meter na briga, e por mais que eu tentasse me desvencilhar das suas mãos, o garoto era um armário e com certeza, era mais forte do que eu.

Quatro minutos se passaram e eu fechei os olhos pra não mais ver essa cena horrenda.

Se eu não fosse tão longe, nada disso teria acontecido.

Brian finalmente foi embora, junto com seus capangas e deixou pra trás o menino, já terrivelmente machucado e sem forças.

Corri até ele e o ajudei a se sentar no banco da praça, ele foi mancando apoiado no meu ombro.

– Está muito feio? – Ele me perguntou sorrindo ao perceber a minha cara de desgosto enquanto contava mais de doze locais roxos, vermelhos e ensanguentados.

– Me desculpe, eu sinto muito mesmo, eu não devia ter feito nada, você está machucado por minha causa e... – Ele me interrompeu.

– Tá tudo bem – Ele sorriu me acalmando – Ele te machucou?

O garoto desconhecido passou os dedos pelos roxos no meu braço.

– Não foi nada de mais – ele voltou a me encarar – Por que fez isso?

Ele soltou uma risada fraca, mas eu continuei com um semblante preocupado.

– Isso o que?

– Você sabe – O encarei. – Por que me defendeu? Você nem me conhece...

– Era o certo a fazer. Era o que eu tinha que fazer. Ele ia te machucar. Machucou, alias. Por que ele estava tão bravo?

– Longa história – Respondi cabisbaixa. – Acha que consegue caminhar quatro quarteirões?

– Acho que sim... Por quê?

– Vou cuidar desses machucados – Falei me levantando e estendendo a mão para ele. Ele a segurou e se levantou, apoiado em mim. – Qual seu nome, forasteiro? – Perguntei em um tom debochado na ultima palavra.

– Luke. Luke Alexander Dallas. E o da senhorita?

– Scarlett Braden Mendes. É um prazer te conhecer, Luke – sorri. – Quero dizer, seria se você não tivesse sido espancado por minha causa.

Ele riu sem graça.

– O prazer é todo meu em te defender do canalha sem nome.

– Ele é um canalha, não discordo. Mas tem nome.

– É qual seria?

– Brian – dei de ombros – o canalha.

Nesse meio tempo já tínhamos andado duas quadras. Luke andava com dificuldade, mas rápido. Depois de mais alguns minutos nós chegamos a minha casa.

Apressei-me em abrir a porta e trancá-la após o menino entrar.

O ajudei a deitar no sofá espaçoso da sala enquanto ele gemia um pouco de dor por causa dos machucados em contato com o estofado.

– Lett? – Escutei a voz do meu irmãozinho atrás de mim – Quem é esse?

– Dylan, corre lá pra pegar a caixa de primeiros socorros, por favor – Pedi e ele foi. – Onde doí mais?

Luke apontou para um corte na testa. Estava feio, provavelmente foi feito quando Brian o empurrou e ele caiu de cabeça no chão, onde tinham algumas pedras.

Eu estava tentando manter a calma, por mais que os machucados dele estivessem feios eu ia conseguir dar um jeito.

– Onde a nossa vó foi? – Perguntei ao meu irmão assim que ele voltou, trazendo consigo a maleta branca cheia de esparadrapos, remédios e pomadas.

– Ela foi visitar uma amiga, pelo o que eu entendi. – Meu irmão deu de ombros.

– Anda Dylan, me ajuda a levar ele pro meu quarto. Se a vovó o ver aqui eu estou ferrada.

Meu irmão fez um esforço pra apoiar o lado esquerdo do garoto, enquanto eu o ajudava com o direito. Degrau por degrau da escada de madeira nós subimos.

– Quantos anos ele tem? – Luke me perguntou assim que meu irmão deixou o quarto. Ele se sentou na beirada da minha cama. Coloquei a caixa ao seu lado e procurei por um remédio especifico.

– Oito – Falei. Ele pareceu refletir.

– É seu irmão? – assenti ainda olhando pra caixa – Ele se parece com você.

– Obrigada.

Achei o que queria na maleta e busquei um banco pelo meu quarto. Posicionei o banco de madeira tingida na frente de onde o garoto estava sentado e me sentei.

– Vai doer um pouco, ok? – Falei com um paninho e um pote nas mãos, Luke assentiu. – É pra não infecionar.

O garoto encarava meus olhos enquanto eu encarava o machucado, provavelmente superficial, mas ensanguentado.

Levei o pano molhado ao local exato do corte e Luke fechou os olhos com força, olhei pra ele preocupada, mas sem tirar o pano do local.

– Isso arde – Ele falou sorrindo.

– Eu sei. – Tirei o pano para molha-lo de novo. – Se concentra em mim, ok?

Luke assentiu ainda trocando olhares comigo.

Posicionei o pano no machucado, escutando o garoto na minha frente gemer de dor novamente.

Ele segurou minha mão – que antes estava sobre minha coxa –, apertando com força. O ato fez meu corpo se arrepiar, mas eu não me soltei.

– Pronto – Falei tirando o pano da testa de Luke – Onde mais?

– Em todo lugar – Ele disse após dar uma risada fraca.

Peguei uma pomada pra hematomas e comecei a espalhar pelos roxos do corpo dele. – Com “corpo dele” eu quero dizer braço, pescoço, calcanhar... Nada mais!

– Eu nunca te vi por aqui antes, é novo na cidade? – Perguntei esfregando a pomada no braço de Luke.

– Eu me mudei hoje – Ele deu de ombros – Estava dando uma volta pra conhecer a cidade quando te vi.

– Hm. Acho que eu te devo uma depois dessa.

Ele sorriu.

– Com certeza.

– Qual a sua história?

– Pais separados, irmã mais nova, avós mortos, expulso da escola, vim morar com minha mãe. Não sou de muito longe, e antes meus pais moravam juntos, mas ela conseguiu um emprego aqui e me trousse. Por causa da expulsão. Meu pai mora na cidade vizinha. Minha irmã veio comigo.

– Interessante – Falei sorrindo. – Qual a história da expulsão?

– Meu amigo estava apanhando de um babaca da minha escola, e eu o defendi. O diretor me viu dando uma surra nele e nos chamou. Eu e ele fomos expulsos. E, infelizmente, ele mora aqui.

– Mora aqui? – Perguntei interessada.

– A vó dele mora aqui. Volta e meia ele vinha a visitar. Os pais ficaram bravos com a expulsão, ele sempre arranjava encrenca, aí foi “despachado” pra cá. E isso é tudo que me contaram.

– Uau. E a sua irmã? – Perguntei pra distraí-lo, só enquanto ele contava, eu já tinha cuidado de mais dois hematomas, e ele nem percebeu.

– O nome dela é Skyller. Por isso que eu perguntei a idade do seu irmão, acho que eles podem ser amigos. Ela tem sete.

– Podem mesmo — sorri – Espero conhece-la um dia.

– Você vai – sorriu de novo – Então, aquele tal de Bruno...

– Brian – Corrigi.

– Aquele tal de Brian... De onde vocês se conhecem?

– Da escola.

Peguei um algodão com água pra passar em um ponto ralado no joelho dele.

– E por que você estava chorando quando eu cheguei? – Ele perguntou. Eu achei ter notado preocupação no tom de voz dele, mas descartei a opção sendo que ele nem me conhece.

– Não era nada.

– Mesmo?

Encarei os olhos azuis do menino na minha frente.

– Não. – Falei baixinho, mas ele pareceu ter escutado – Já passou.

– Isso tem a ver com a sua história? – Perguntou se referindo a minha pergunta sobre a vida dele.

– Sim, mas já passou. Não foi nada de mais.

Ele suspirou pesadamente. Não sei se por causa da dor que ele fingia ignorar ou pela minha teimosia.

– Acho que terminei. – Falei sorrindo enquanto fechava a maleta.

– E o seu braço, mocinha?

– Meu... braço?

– O roxo.

– Ah. Eu passo uma pomada depois, nem está doendo.

– Você é uma ótima enfermeira! – Ele disse ainda sentado.

– Obrigada, Luke. Mas não acho que isso vai mudar muita coisa na minha vida.

– Por que não? – Ele sorriu – Da próxima vez que eu me machucar vou recorrer a você!

Ri da expressão dele.

– Não nesse sentido – Falei sorrindo de lado. Ele ergueu uma sobrancelha, parecendo confuso.

– Em qual sentido?

– No sentido que ser enfermeira ou médica não me agrada, mas eu aprendi porque eu precisava.

Por que eu precisava? Quando meu pai ficou doente, minha mãe não deu muita bola. E nós nunca fomos uma família muito rica, então desde cedo eu trabalhava pra juntar meu próprio dinheiro. Minha mãe nunca me deu dinheiro para o lanche, nem pra materiais escolares, então quando meu pai adoeceu, eu juntei todo o dinheiro que eu já tinha guardado e usei pra pagar um médico. Não era de muita qualidade, mas era o que o meu pai precisava para sobreviver. Eu prestava bastante atenção em cada detalhe que os médicos e enfermeiros faziam, como aplicar a medicação, como ajuda-lo a respirar, como agir em situações de emergência... Até que nós (eu e minha vó paterna) não pudemos mais pagar pelo tratamento, e eu tive que cuidar dele sozinha. O levei pro meu quarto, pois minha mãe insistiu que não queria um “defunto” na mesma cama que ela. E eu cuidei dele até o último momento.

– Eu quero me tornar uma fotógrafa – Falei rompendo o silêncio criado pelos meus pensamentos. Sorri lembrando do meu sonho. – Viajar pelo mundo inteiro, fotografar coisas incríveis, gravar momentos especiais pras pessoas...

– Parece irado. – Luke disse sorrindo.

– É maravilhoso – Suspirei. – Mas está fora do meu alcance... E você, Luke, não tem nenhum sonho?

Ele pareceu refletir.

– Acho que não... – Guardei o banco e sentei ao seu lado na cama.

– Vamos lá! – Incentivei sorrindo — Todo mundo tem um sonho.

Ele riu e sorriu de lado.

– Ser livre. Fazer as coisas mais malucas do mundo... Ter um trabalho bom, achar alguém... – Me encarou.

Isso foi uma indireta? Não.

– Achar alguém? – Repeti pausadamente.

– É... Alguém que me entenda, alguém que seja minha.

– Uau, isso foi fofo.

Luke encarou minha boca. Por que eu me senti ficar vermelha?

– Eu...

– SCARLETT? – Me desesperei ao escutar a voz da minha vó.

– Se esconde! – Mandei ao garoto que ficou confuso. Corri até a porta do armário e a abri, fiz um gesto mandando Luke se esconder ali e assim ele fez. Deixei a porta entreaberta e me joguei na cama.

– Scarlett! – Minha vó exclamou ao abrir violentamente a porta do quarto e me ver. Olhei para ela, que estava com uma expressão raivosa. – Você é mesmo inútil, garota! Ficou de bobeira o tempo todo não é?

– Vó, eu...

– Cheguei em casa e o que encontro? – Me interrompeu – As camas ainda bagunçadas, as que você deveria arrumar! O jantar? Que jantar? A desleixada não fez nem o jantar! Você não organizou o meu quarto como devia, não arrumou a bagunça que o seu irmão fez ontem, não fez NADA! Eu deveria te largar em qualquer lugar, garota! Seu pai morreu de desgosto e sua mãe te largou comigo por causa dessas coisas! – Comecei a chorar involuntariamente – Tenho dó do seu irmão por ter o mesmo sangue que você! Tomara que Dylan tenha mais classe e responsabilidade quando crescer!

Vi meu irmão atrás da vovó chorando, o que fez meus olhos marejarem. Agora ele estava crescido, ele entendia tudo. Não era como minha mãe me batia e ele não sabia o que rolava.

– Você deveria me agradecer. Mas ao invés disso o que você faz? Desobedece-me, se rebela e da vergonha a sua família! Eu te pago a escola, te deixo morar aqui, te alimento, e nada de retribuição. Tenha vergonha de si mesma, garota!

Ela saiu batendo a porta. Lembrei que tinha uma criatura no meu armário e tentei limpar as lágrimas, que só caiam mais.

Abri a porta e sorri pra ele.

– Pode sair agora.

– Você... Nossa. Você tá bem? – Me perguntou apreensivo.

– Sim. Não é nada comparado ao que minha mãe falava pra mim – Dei de ombros. Luke passou o polegar sobre as lágrimas que insistiam em cair e me abraçou.

Desvencilhei-me do seu abraço reconfortante assustada por uma batida na porta. Ele se escondeu atrás da porta e eu suspirei aliviada quando vi a figura do meu irmão.

– Dylan! – Exclamei me ajoelhando – O que faz aqui?

– Eu escutei o que a...

– Shhh – O acalmei apertando-o mais ainda – Está tudo bem, meu amor.

– Aquele menino ainda esta com você? – Perguntou olhando para o quarto.

– Luke? – Me levantei ao ver a sombra do garoto aparecendo na minha frente.

– A vovó tá na sala, ele não pode sair por lá – Dylan falou revezando o olhar entre mim e Luke.

– Droga – Exclamei. Andei até a varanda do meu quarto, que da para o jardim, na frente dela tem uma árvore, a poucos centímetros – Luke... Você acha que consegue escalar uma árvore?

– É claro. Você já deu um jeito nos machucados.

– Então acho que você tem que descer por aqui – Sorri pra ele e me virei pra Dylan – Maninho, cuida da vovó, você tem que garantir que ela não saia do sofá! Feche as cortinas.

Meu irmão saiu fechando a porta e me virei pra Luke sorrindo.

– Eu não tenho como agradecer pelo que fez por mim hoje – Falei o encarando – Mas, obrigada.

Ele sorriu e me abraçou.

– Você fica me devendo uma, Scarlett. – Sorriu de lado.

– Ah, claro – ri.

– A gente se vê por aí...?

– Acho que você não vai ter muita escolha – Sorri – Que dia você começa na escola? – Perguntei arrancando um sorriso curioso dele.

– Escola?

– Por você vir morar aqui e só tem uma escola na cidade... Deduzi que vá estudar na mesma que eu.

– Você é rápida! Eu ia fazer uma surpresa... – Riu – Começo amanhã, segunda-feira.

– Então a gente se vê na escola – Dei um soco fraco no seu braço – Só não vá se encrencar com o Brian de novo, ele é o rei do colégio. E não acho que queira ser expulso de novo.

– Depende, se ele mexer com você, eu arrebento ele! – Falou sorrindo.

– Estou falando sério... O diretor é meio ficha dura. E o Brian, bom, eu já estou acostumada com ele e seu ego. Ele me provoca, mas eu não ligo.

– Se eu não arrumar encrenca com ele, vou arrumar com o Chad.

– Chad? – Perguntei confusa.

Eu conheço esse nome! É tão familiar...

– Da outra escola, que foi expulso comigo e vai estudar aqui...

– Ok. Só tente não ser expulso – Sorriu.

Andei até a varanda e abri a porta. Senti o vento frio se chocando com meu corpo e me arrepiei. O pôr-do-sol se concretizava, deixando rastros rosa e alaranjados pelo céu.

Luke andou até a beirada e olhou pra baixo, apoiado a árvore.

– Você vai ficar bem? – Perguntou me deixando confusa.

– Oque?

– Perguntei se você vai ficar bem.

– Por que não ficaria, Luke? – Sorri largo – Você precisa ir.

– Vou fingir acreditar nisso... Aliás, você quer que eu vá embora tanto assim? – Disse fazendo biquinho.

Gargalhei da sua careta e sorri, voltando a me concentrar.

– Se minha vó te ver aqui, eu fico de castigo por um ano.

– Gostei da sua história! – Exclamou sorrindo – Você é tipo a Cinderella! Linda, loira, faxineira, madrasta má e... – Fez uma pausa me deixando curiosa. Mordeu o lábio inferior e sorriu malicioso – E príncipe encantado...

– Uau, meu príncipe chegou e eu não sei? Cadê ele? – Debochei sorrindo.

Luke se aproximou, entrelaçou o braço pela minha cintura e colou nossos corpos, me deixando sem reação.

– Vai ficar me provocando, Mendes?

Sorriu.

– Você... Você precisa ir, Luke!

– Até amanhã – exclamou sorrindo.

Já falei o quanto esse sorriso é lindo? É apaixonante. Realça ainda mais o belo par de olhos azuis e o rosto perfeitamente esculpido de Luke.

– Tenho um pressentimento que vamos ser amigos. – Falei. Vi Luke fazer uma expressão indescritível, talvez alegre e magoado, ou decepcionado e provocante. Ele piscou pra mim e disse:

– Acho que já somos.

Durante dez segundos o silêncio se fez presente.

– Tchau – Dei um beijo na bochecha dele, que ficou levemente corada.

Sorriu e pulou a varanda, fiquei o admirando até ele chegar ao chão e Luke me deu um último sorriso, antes de se virar e desaparecer rua a baixo.

Tranquei a porta da varanda e desci as escadas. Pisquei discretamente para Dylan que suspirou aliviado. Agora, acho que eu tenho umas coisas pra fazer...

Notas finais
Ole, ole ole ola! Obrigada por ler! Comente o que achou ;) Beijos estelares.