Falling
1 Capítulo único
Ela é a primeira a pular.
Seu corpo cai e com o forte impacto pula novamente na rede, fazendo com que o pânico e o medo em seus olhos transformem-se puramente em alívio e alegria quando ela vê que não era um abismo sem algo protetor logo abaixo. A tensão de seu pequeno corpo transforma-se em relaxamento, bem lentamente, ela rola até perto de mim e eu me assusto quando vejo-a com cuidado, o nó abnegado de seu cabelo desata-se soltando várias mechas loiras em seu rosto infantil e simplório demais para ser memorável, é normal, apenas mais um no meio de milhares de outros mais memoráveis do que o seu.
A garotinha começa a rir descontrolada, parecendo meio histérica com suas risadas sem fim, mas eu reconheço o alívio por estar em segurança — ao menos por agora — por não ter caído e morrido, ela se sente feliz, envolvida por uma névoa inexistente de segurança e compaixão.
Os seus olhos castanhos encaram os meus, prendendo o meu olhar involuntariamente, ela me encara e eu vejo suas vestes cinzentas, que trazem milhares de lembranças a minha cabeça.
Um homem segurando firmemente um cinto, o instrumento principal da minha dor ao decorrer de tantos anos. Uma mulher sorridente de olhar brilhante contando-me histórias na hora de dormir. Mãos macias afagando meus cabelos e lábios depositando um beijo de boa noite em mim, minha mãe desafiando os costumes abnegados. Dezenas de pessoas envoltas por mantos cinzentos se amontoando ao meu redor, tentando prestar-me seus sentimentos. O caixão de minha mãe encontrando seu fim na terra úmida. Lágrimas quentes queimando meu rosto de criança e, por fim, meus gritos de dor e de sofrimento por ter que passar por tantas coisas horríveis nas garras da pessoa que deveria ser meu protetor, um amigo, um companheiro mas em vez disso transformou-se no combustível do meu ódio, da minha pequena rebelião e de minha infelicidade incurável.
Eu ofereço automaticamente a minha mão para ajudá-la a sair dali, a garota parece ser baixinha demais para descer sem pular, seus pés parecem bem distantes do chão agora, ela atraiu a minha curiosidade. O que teria lhe feito mudar de facção? Geralmente os abnegados se sentem felizes e realizados lá, dificilmente alguém opta por ir até outra facção, mais raro ainda é um antigo abnegado escolher a Audácia. E quando há uma troca sempre há motivos, como no meu caso, motivos extremos, pergunto-me silenciosamente o que a levou até ali mas me repreendo mentalmente, eu não deveria me importar, não é da minha conta, sobretudo.
Minhas mãos agarram firmemente os seus bracinhos magros, ela me lembra uma criança pequena e não uma adolescente de dezesseis anos de idade, a solto assim que ela põe-se de pé, seu rosto corado pelo simples toque — não é comum para os abnegados e ela ainda tem muito deles em si, por enquanto, eu penso.
Quando cheguei aqui eu demorei um pouquinho para me acostumar com esses pequenos detalhes e, sendo sincero, até hoje não me acostumei por completo, como deveria ter me acostumado, assim como os outros são habituados, eu sou diferente, não há como simplesmente mudar meus instintos por completo.
"Obrigada.", ela diz tentando parecer firme como uma rocha de desfiladeiro, mas ainda há uma timidez ali, ouço murmúrios ao nosso redor. Nós estamos parados numa plataforma três metros acima do chão, em volta de nós dois uma caverna se abre.
"Não posso acreditar!", diz uma voz bem por de trás de mim, eu a reconheço facilmente, é Lauren, com sua voz profunda e ressonante "Uma careta, a primeira a pular? Inédito."
Por algum motivo, não me sinto muito a vontade com o comentário de Lauren, mesmo que não seja de todo maldoso, ela apenas está surpresa com o que acabou de ver, provavelmente as pessoas achariam que a garota se acuaria e seria a última a pular, ainda com uma certa resistência final, mas ela é diferente, não é o seu caso.
"Há uma razão para ela tê-los deixado, Lauren.", eu digo e novamente a pergunta martela a minha mente, o que a fez vir até aqui e se juntar aos 'endiabrados' da cidade?, "Qual o seu nome?"
Encaro-a curioso para descobrir como se chama, ela parece meio vacilante, hesita para responder a minha simples pergunta, eu a compreendo. Geralmente os nomes da Abnegação simplesmente não combinam com este novo mundo, uma vida inteiramente nova, eu mesmo me desfiz, por vários motivos, do meu antigo nome, Tobias Eaton, agora sou apenas conhecido como Quatro.
"Hm...", ela faz em dúvida.
"Pense nisso.", eu digo e um involuntário sorriso torce os cantos de meus lábios, mudando totalmente a minha expressão facial, "Você não pode escolher novamente.", eu acrescento cuidadosamente, a garota pensa por outros segundos, ainda nervosa e tímida, na dúvida mais uma vez.
"Tris.", ela diz convicta pela primeira vez, me convence, quase sorrio novamente, quase. Seu nome soa como música, uma doce melodia que lembra as melodias que eu escutava vindas das crianças da Amizade na escola, uma lembrança distante e já turva. Tris, o nome tem uma textura diferente, único.
Pego-me imaginando qual era seu antigo nome, como era a sua antiga vida, como ela era, e novamente o que a fez mudar tão drasticamente de facção e, consequentemente, de vida.
"Tris.", Lauren repete sorridente, "Faça o anúncio, Quatro!", ela pede animadamente, as pessoas aqui na Audácia são assim, sempre sorrindo e sempre entusiasmadas com todo o tipo de coisa imaginável.
"Primeira a pular — TRIS!", eu grito por cima de meu ombro.
Uma multidão começa a se materializar ao redor de Tris, o que ela fez é algo memorável por aqui, ela será conhecida, e cobrada, por ter sido a primeira dentre tantos a ter a coragem de pular no desfiladeiro tão alto e inexplorado, eu penso nisso por um instante, ela não parece ser do tipo que se acovarda, gosto disso na garota, ela sente-se meio envergonhada quando as pessoas começam a aglomerar-se freneticamente ao seu redor, ela é tão pequena....
Outra pessoa cai na rede, uma garota alta e de pele escura, bronzeada. Gritos e risadas seguem-se até que eu me aproximo da pequena Tris, coloco a minha mão nas suas costas — sinto ela retesar-se, uma reação característica da Abnegação, mas agora Tris não pertence mais a Abnegação, ela é da Audácia.
"Bem vinda a Audácia."
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