Notas iniciais
Capítulo dois, pessoinhas

Numa noite de lua crescente e céu estrelado, eu estava no terraço do apartamento de Thomas, tentando decidir se voltaria para o paraíso o se ficaria ali. Minha mente, minha consciência, minha ética, tudo de racional dizia para eu ir para casa, mas meu coração pedia que não, pedia que eu ficasse. Meu corpo não se mexia, tentei bater as asas para voar, mas elas não me obedeceram. Fiquei parada ali por nem sei quanto tempo, numa batalha interna entre a emoção e a razão. E ali eu me dei conta da grande enrascada em que tinha me metido, eu percebi que estava apaixonada por Thomas. Essa confissão mental me deixou aterrorizada além de atordoada. Minhas asas bateram involuntariamente, e quanto me dei conta, notei que estava voando acima da Estátua da Liberdade, gritando e chorando de pura raiva de mim mesma.

– Como eu pude deixar isso acontecer?! — Eu me perguntava aos berros. — Como?! Eu sou tão fraca! Meu Deus, por que O Conselho me escolheu? Eu não sou o anjo certo para esta missão!

Me deixei pousar sobre a cabeça da estátua e chorei. De repente eu ouvi trovões e uma grossa chuva se despejou sobre mim. Eu esperava que ninguém pudesse me ouvir ali, mas Damaris me ouviu. Ela surgiu ao meu lado, cobrindo-me com suas asas, e me abraçando e me deixando derramar todas as lágrimas. Quando minhas lágrimas cessaram, a chuva também cessou.

Eu percebi que eu havia feito chover. Eu achava que era apenas lenda, mas naquele momento eu que é mais real do que tudo. Sempre que chove é porque um anjo está chorando.

Damaris sacudiu suas asas e me olhou.

– Você já pode falar o porquê dessas lágrimas?

Ela perguntou. Eu olhei pra ela e disse:

– Eu fiz uma coisa horrível. — Ela juntou a sobrancelhas e me olhou com mais seriedade. — Eu me apaixonei.

Os olhos dela se arregalaram.

– Você ficou maluca?! É terminantemente proibido anjos se apaixonarem por humanos!

– E você acha que eu não sei?

Me encolhi novamente e Damaris me abraçou.

– Você terá de concertar isso, amiga. — Ela disse afagando meus ombros. — Ou pelo menos terá de fingir que nada disso aconteceu ou as consequências serão severas. Por mim, esse assunto só fica entre nós.

O segredo seria mantido. Eu podia estar loucamente apaixonada, mas ainda tinha autocontrole. Poderia agir normalmente. Não poderia?

Sim. Descobri que podia agir normalmente. Principalmente diante da inspeção pela qual, como nova guardiã, fui submetida. Foi tranquilo passar pela vigilância do Daniel. Ele é o tipo de anjo que tenta tornar o trabalho relaxado e até divertido. Foi uma maneira que ele encontrou de fugir da natural chatice do trabalho burocrático. Sim. Existe burocracia até no paraíso. E Daniel é o principal encarregado desta área.

Mas eu estava o tempo inteiro com a possibilidade de me aproximar de Thomas, na cabeça. Falei para o Daniel, que só proteger Thomas á distância podia não ser suficiente, ele é jovem e jovens cometem erros, mesmo que sem querer. Eu poderia aconselhá-lo, podia me tornar amiga dele e ajudá-lo de uma maneira mais pessoal. Perguntei se isso interferia em alguma coisa no destino dele, e foi isso que Daniel me respondeu:

– Se você não interferir de uma maneira muito ampla. Como, por exemplo, forçá-lo de alguma maneira á tomar decisões que não estão prescritas. Você pode ser amiga dele, mas tem que mantê-lo no caminho do destino dele. Se ele se desviar por qualquer motivo tudo pode mudar, e nada do que foi previsto acontecerá. Inclusive a hora da morte dele pode mudar. E pode ser que seja muito cedo. — Balancei a cabeça em concordância e ele disse por final: — A escolha é sua Sabiny. Mas pense muito bem, ou as consequências podem ser severas, se algo der errado. O Conselho pode te rebaixar, ou pior te expulsar. E nenhum de nós quer isso, não é mesmo?

Eu apenas neguei com a cabeça. Tivemos essa conversa ao final da inspeção. Ele disse que eu passei com honras. Thomas estava ótimo.

Fiquei feliz em saber que eu não sou uma completa inútil. Que por mais que eu tivesse feito (desculpe a palavra que eu nunca uso, mas nesse caso ela se encaixa perfeitamente) a maior “merda” me apaixonando pelo Thomas. Eu estava me saindo bem. Mas sinceramente, eu não estava me sentindo bem. Eu precisava que ele soubesse que eu existo, e que estive sempre ao lado dele, mas minha ética me impedia. Eu só conhecia um meio de me comunicar com protegidos. Meu amigo Josias, Anjo da Guarda há muito tempo, havia me contado uma vez que os Guardiões podem conversar com seus protegidos. Em sonhos.

Numa noite quente de sexta-feira eu estava ansiosa demais pela minha primeira tentativa de comunicação psíquica. Mas Thomas não dormia por nada no mundo. Ficou vendo besteirol na TV, debaixo do ar-condicionado e comendo sorvete por horas.

Ah... Sorvete. Nunca comi, mas sempre tive muita curiosidade. Os comerciais dizem que tem gosto de felicidade com muita calda de chocolate. Também nunca comi chocolate, mas a Damaris sim. Ela disse que tem sabor de felicidade dupla. Então eu sempre pensei que: sorvete + chocolate = J J J Uma tripla felicidade. Caramba! Deve ser muito bom.

Thomas finalmente tinha pegado no sono, na frente da TV, enquanto eu fazia o calculo da felicidade. Me concentrei em entrar em sua mente, isso não demorou á acontecer. E o que vi, logo que entrei, foi ele fazendo exatamente o que fazia á poucos minutos quando estava acordado. Me coloquei na frente dele e da TV, ele me encarou assustado e eu fui logo perguntando:

– É com isso que você sonha?

Ele não respondeu, olhou ao redor e perguntou:

– Isso é um sonho? Eu peguei no sono? Que bizarro!

– Isso não importa, Thomas. Eu tenho que falar com você.

Falei sentando-me ao lado dele no sofá.

– Mas quem é você?

– Meu nome é Sabiny, eu sou seu Anjo da Guarda. E eu estou em sua mente nesse exato momento.

Falei de uma vez. Anjos não podem mentir.

– Nossa! Realmente eu sonho coisas muito bizarras.

Ele olhou ao redor novamente.

– Thomas eu preciso te dizer uma coisa importante. Por favor, presta atenção. — Pedi e olhei pra ele. Eu estava com o coração na boca, eu finalmente diria que o amava, mas decidi começar do início. — Sou seu Anjo há mais ou menos cinco meses.

– Por que não desde que eu nasci?

– Seu antigo anjo se descuidou. Por isso você sofreu aquele acidente. Ele foi rebaixado e eu sou seu novo Anjo. — Respirei fundo e ele me olhou atentamente. Toquei se rosto, acariciei seus cabelos e olhei profundamente em seus olhos. — Thomas eu fiz uma coisa terrível, quebrei uma lei do paraíso e eu posso ser castigada por isso.

Lágrimas começaram á surgir.

– O que uma garota, digo, Anjo tão bonita quanto você fez de tão terrível?

Ele perguntou de um jeito doce. Havia um nó em minha garganta, e com a voz falha eu ainda consegui dizer:

– Eu me apaixonei.

Saí da cabeça dele assim que proferi a frase. Eu não aguentei ficar, não tive coragem. Ele acordou logo em seguida, olhou ao redor e sussurrou:

– Que sonho bizarro.

Não entendia por que ele gostava tanto dessa palavra “bizarro”. Pelo que entendi, é um meio termo entre “sinistro” e “irado”. Palavras que nunca usei na minha vida angelical, sem ser com seus significados originais, e sempre esperei nunca usá-las. Humanos têm um talento especial pra inventar gírias. A Damaris adora essas gírias humanas, só conversa usando-as. Tão irrelevante e impertinente falar de gírias nesse momento.

Thomas olhou mais uma vez ao redor, suspirou e desligou a TV. Caminhou até a cozinha e largou o pote de sorvete sobre a pia, fechou os olhos, suspirou de novo e sussurrou a palavra que eu menos esperava ouvir:

– Sabiny.

Ouvir meu nome saindo de sua boca despertou em mim uma das melhores sensações que eu poderia sentir. Eu sorri a semana inteira, pois todas as noites o sonho “bizarro” vinha á mente dele e ele sussurrava meu nome e dizia o quanto eu era bonita ou se perguntava se aquilo teria sido tão real quanto pareceu.

Eu não estava mais aguentando aquilo, eu precisava tocá-lo e precisava que ele soubesse que eu estava presente, que ele me visse e me tocasse também. Por muitas vezes imaginei nossos lábios unidos, e leves arrepios eriçaram as penas alvas e cintilantes das minhas asas. Eu desejava que ele as tocasse.

Asas são as partes mais sensíveis de um anjo, principalmente as de tamanhos menores e mais novas. As asas grandes como as de Damaris são o tipo de asas que já passaram por várias fases e cresceram junto com seu espírito. Minhas asas são de porte médio, mas ainda são sensíveis como as asas dos querubins. Deixei de ser querubim há mais ou menos vinte anos humanos. Pouquíssimo tempo em idade angelical. Por isso ainda sou tão fraca e sensível emocionalmente.

Tudo o que eu queria era conversar com ele de novo. Numa noite eu estava no terraço novamente olhando as estrelas e me perguntando por que eu estava passando por tudo aquilo, por que eu tinha sido escolhida e por que eu não podia ser mais profissional. Foi aí que eu ouvi um chamado. Thomas me chamava de uma forma até meio desesperada. Voei até o interior do seu apartamento e até o seu quarto. E o encontrei se remexendo na cama num sonho agitado, e mais ainda eu o ouvia me chamando.

Entrei em seu sonho e estava tudo uma bagunça, era o apartamento dele, mas ao mesmo tempo não era, era um labirinto de objetos imensos e pequenos. Entendi porque ele estava tão agoniado. Procurei-o por meio daquela bagunça confusa e o encontrei agachado num canto, abraçando as pernas e me chamando.

– Você está bem?

Perguntei me ajoelhando á sua frente. Thomas levantou a cabeça e me olhou surpreso e feliz.

– Sabiny, eu queria tanto te ver de novo!

Aquelas palavras me pegaram de surpresa, porém me fizeram a criatura mais feliz. Tudo ao meu redor se transformou, de repente estávamos em um parque, numa tranquilidade sem igual. Ele se levantou sorrindo, me levantando junto.

– Thomas...

– Sabiny, escuta. Eu não sabia se o que aconteceu foi real ou não, mas a questão é que aquilo nunca saiu da minha mente. Você não saiu mais da minha mente.

Ele dizer aquilo me fez perder a fala.

Eu não podia estar ali, eu tinha que sair da mente dele, mas os olhos dele me prendiam de uma maneira intensa. Eu o queria mais do que tudo. Eu sei que isso é errado, que vai contra tudo o que eu aprendi e contra tudo o que nosso pai ensinou. Mas esse sentimento é mais forte do que eu. Eu preciso estar com ele, eu preciso tê-lo.

– Thomas, eu sou real. Sou seu anjo.

– Você é minha, anjo?

Ele perguntou segurando meu rosto delicadamente entre as mãos.

– Sou sua e somente sua.

Senti meus olhos se fechando automaticamente, senti o hálito quente dele próximo demais, nossos lábios quase se encontrando. Eu nunca havia beijado ninguém em toda a minha existência, e mesmo assim parecia tão natural com ele. Meus lábios tocaram seus lábios quentes e macios, num beijo suave.

– Eu queria tanto te beijar no mundo real.

Aquelas palavras me fizeram perceber o imenso erro que eu estava cometendo. Eu não podia estar ali, no meio daquela cena romântica. Não é permitido. Então eu fiz a coisa mais sensata: saí de lá.

Logo que me vi novamente no quarto de Thomas, senti uma presença celestial. Olhei ao redor e vi Damaris me encarando de modo acusatório, com os braços cruzados e os olhos estreitos.

– Você acha que eu não sei o que você estava fazendo?

Ela perguntou retoricamente, se aproximando e balançando a cabeça negativamente.

– Eu o ouvi me chamando.

Falei sem pensar e acabei me entregando.

– Se ele te chamou é porque ele sabe da sua existência. E se ele sabe é porque você se mostrou. — Ela deu uma longa pausa me encarando. — Você pirou? O que aconteceu com nosso plano de concertar essa história? Se O Conselho fica sabendo você está frita!

– Eu não consigo, Damaris! Não consigo ficar longe dele! Eu o amo!

Ela correu e tapou minha boca, olhando nervosa ao redor.

– Fale baixo, não estamos mais sozinhas.

Notas finais
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