Fallen Angel
4 Capítulo 4
Já fazia uma semana desde que o anjo caído tinha recebido o que tanto queria: a poção da juventude. Um gole e ele revigoraria de novo para a idade que ele tinha em mente. Mas a única vez que ele tocou no líquido de fato foi quando o demônio estava lá, naquela sala. Tinha um gosto e uma cor interessante e realmente funcionava, pois ele viu a pequenina diferença em sua pele que deu quando ele apenas lambeu para provar. Ele sabia que era errado o que o demônio pediu e por isso ainda não tinha tomado a poção. 5 garotas que ele teria que matar. Já matou muita coisa, humana ou não, mas era diferente isso. Já era muito egoísmo da parte dele e matá-las seria mais. Mas ele queria muito ser jovem novamente sem matar ninguém humano e para isso acontecer, teria que matar o demônio, e para matá-lo, precisaria de uma arma celestial. Agora, como ele conseguiria uma arma celestial? Ele teria que invocar um anjo e provavelmente fazer alguma coisa. Só não sabia o que, dependeria do anjo. Se fosse Miguel com certeza não o ajudaria ou pediria algo que deixaria tudo isso um grande desperdício, como a poção. Ele teria que ir aquela biblioteca pela primeira vez nesse século e procurar o bendito livro que estava em algum lugar lá. Toda vez que ele precisava desse livro, ele estava em um esconderijo novo. Suspirando profundamente, levantou-se e foi colocar uma roupa quente para sair em meio ao clima frio de Londres.
Estava na metade do caminho quando começou a cair uma fina garoa. Apressou o passo e se perdeu em pensamentos sobre onde poderia estar o grosso livro com capa dura de couro escuro. Levantou o olhar quando uma criança esbarrou nele e ele viu o enorme edifício de 4 andares que formavam a biblioteca que ele ia no outro lado da rua. Entrou seguindo direto para o terceiro andar. Apesar de o livro mudar o esconderijo, era sempre no mesmo andar e na mesma seção, a seção das línguas mortas, não muito faladas, nesse tipo. Gabriel contou quantas estantes teria que procurar o gigantesco livro que se camuflava muito bem. 8 estantes. Eram muitos os livros em línguas que geralmente ninguém é fluente naquela biblioteca estranha. Suspirando mais uma vez, foi até a última prateleira e começou a examinar os livros. Estavam numa espécie de ordem, mas não aquela ordem alfabética ou algo assim. Era mais como uma ordem de cores. Passou os olhos pelas cores e encontrou as três prateleiras de cor marrom, que estavam entre as capas vermelhas e pretas. Agachou-se, pois eram quase as últimas prateleiras da estante e começou a olhar livro por livro. Não deveria ser tão difícil, pois era um grosso livro, com mais ou menos 700 páginas, capa de couro com detalhes na lombada em ouro. “ Deveria ter uns 25 centímetros de comprimento, não pode ser tão difícil de achar assim “, o ex anjo pensou enquanto examinava alguns livros. Depois do que para ele pareceu uma eternidade, achou o livro.
– Te achei. Sempre te acho, não sei por que se esconde, Ithuriel. — sussurrou para o livro. E por incrível que pareça, o livro respondeu.
– Tenho medo de você, Galahel. Mesmo antes de eu morrer e Miguel fazer esse livro com o meu sangue, mesmo antes de você cair, eu já tinha medo.
– Ah, cala a boca, anjinho, você sempre foi medroso. Meu nome não é mais Galahel, você sabe. Mesmo depois de tantas visitas ainda não decorou meu novo nome? — ele pergunta calmo, quase terno, se levantando e escondendo o livro em meio ao seu sobretudo.
Saiu de lá e chamou um táxi, foi para sua antiga morada. Era um pouco afastada da cidade, uma casa bem velha já. Toda de madeira escura e tijolos que inicialmente eram avermelhados, mas com o tempo e ação da natureza, ficaram meio laranjas, meio marrons. Umas florzinhas bem bonitinhas deixavam a casa com uma graça única. Dois andares e bem camuflada pelas enormes arvores envolta, ninguém imaginaria que ali tinha uma casa se passasse pela estrada. Procurou no bolso a chave e percebeu que havia esquecido. Procurou o vaso de planta certo, mas a chave não estava mais lá. Pelo jeito, ele tinha duas opções: chamar um chaveiro, o que demoraria muito, ou arrombar a porta de entrada da sua própria casa. Vendo que o jeito mais prático seria arrombar, tirou seu sobretudo colocando na mesinha que tinha junto a cadeira de balanço e deu alguns passos para trás. Correu, pegando impulso e chutou a porta. Nada. Tentou de novo, dessa vez jogando o corpo sobre ela, que soltou uma dobradiça. “ Ótimo, só mais uma! “, pensou ele. Foi para trás novamente e se jogou contra a porta, caindo junto com ela para dentro da sua casa. Se levantou e deu leve batidinhas na calça e na camisa social de botões para tirar “ poeira “ que havia se acumulado em sua roupa enquanto ele se chocava contra a porta. Pegou o sobretudo na entrada, colocou a porta no lugar e subiu para o porão. Estava na hora de invocar o anjo.
***
Já havia arredado os móveis empoeirados para o canto. Havia anos que não subia ali. Colocou um lençol branco estendido no chão e arrumou as velas brancas benzidas em um círculo. No centro, um crucifixo de madeira simples. Consigo tinha outro crucifixo, mas esse era de metal reluzente. Acendeu as velas e sentou no lugar onde a 12ª vela fecharia o círculo. Cada vela significava um discípulo de Jesus Cristo e ele não se intitulava um, raramente ia à igreja, mas para tentar invocar um anjo teria que fazer isso. Começou a falar as palavras em latim que mandava no livro e esperava que funcionasse. As onze velas acesas apagaram-se de uma vez só e mesmo estando dia e tendo uma enorme janela no cômodo, tudo ficou muito escuro. Quase que no mesmo instante, as velas acenderam, mas era a única fonte de luz do lugar. Gabriel sentiu um arrepio frio na espinha e uma pontada de ansiedade e medo se misturando no estômago. Então, do círculo brilhou uma intensa luz dourada. Ele gaguejou um pouco, mas como não podia parar de recitar até o anjo se materializar na sua frente, ignorou toda a sensação estranha que estava tendo. Depois de repetir os 3 versos pela quarta vez desde que a luz apareceu, a imensa bola luminosa dourada explodiu em milhares de fagulhas claras e brilhantes, como uma chuva neon. Estava tão forte a claridade que doía os olhos dele. Esperou alguns minutos de olhos fechados, para ver se voltava ao normal. E depois de tudo ter abaixado e o anjo se materializado, realmente voltou ao “ normal “.
– Porque me invoca, anjo caído? — pergunta um anjo da guarda. Graças aos céus não era Miguel, senão já era tudo o que ele planejou. Um anjo da guarda não era o que ele queria, mas eles tinham algumas adagas celestiais e outras armas, talvez esse pudesse lhe servir.
– Preciso da ajuda dos seres de luz, anjo da guarda. — disse tão baixo que poderia ser facilmente confundido com um sussurro.
– E para quê, exatamente, precisa de mim? — pergunta retoricamente o anjo, já que ele sabe, sempre sabem.
– Já sabe, anjo. — diz ele numa quase raiva da inutilidade de gastar tempo com isso.
– Muito bem. Precisa que eu lhe arrume uma arma dos céus para matar aquele demônio, para que tu possas ficar com a poção da juventude e se revigorar. Isso não é egoísmo? — o anjo diz com uma voz que expressa mais que calmaria. Aliás, todo o anjo passava expressão de calmaria. Cabelos loiros/dourados, olhos de um tom azul intenso, corpo de 3 metros de altura. A pele levemente amarelada. Era um belo anjo.
– É, bem, sim. Mas quero saber se pode me ajudar ou não, se for pra passar sermão divino, rala. — impaciência era o que a voz de Gabriel expressava.
– Muito bem. Posso lhe ajudar somente porque quer fazer uma ação do bem, em parte. Poderia simplesmente negar a poção, essa possibilidade lhe passou pela cabeça?
– Sim, mas me parece um desperdício e eu a procuro a tanto tempo que só não bebi um pouco por causa da condição do demônio.
– Anjo caído, percebes porque caiu? — o anjo solta a pergunta.
– Mas é claro! E sinceramente, a vida aí no céu é legal e tudo mais, mas a vida na Terra é mais interessante. — disse se arrependendo logo depois, pois o anjo à sua frente que vestia uma túnica branca simples poderia se sentir ofendido e não lhe ajudar. Mas o anjo somente riu da honestidade dele.
– Tudo bem, irei lhe ajudar, mas só se me prometer jamais, eu repito, jamais, procurar algo do tipo novamente. Viva como um humano comum, ou me deixe matá-lo agora. — a voz que era feminina e masculina ao mesmo tempo disse num tom ameaçador, totalmente contrário ao que usava antes.
Suspirando, o ex anjo concordou com o anjo da guarda que estava presente. Este fez uma súbita luz clara aparecer no meio da distância entre ele e Gabriel.
– Tem exatas 48 horas para trazer esse chicote e essa adaga de volta para o centro desse círculo. Assim que sair daqui, não tire nada do lugar e quando terminar de fazer o que tem que fazer, coloque os objetos aqui. Assim que colocar, voltarão para mim. Agora, vá. — dizendo isso, fez novamente aquela chuva de gotas brilhantes e sumiu.
– Parece que somos só eu, você essas armas agora, Ithuriel. Vamos, te deixarei na biblioteca novamente. — o anjo caído disse para o livro de couro, se levantando e indo pegar suas armas.
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