Fallen
7 Marido e mulher.
Notas iniciais
Capitulo VII — Marido e mulher.
Shaka chegou em casa por volta das oito da manhã de domingo. Sua cabeça estava a ponto explodir. Há quanto tempo não tinha uma noite como aquela? Há quanto tempo não ficava ressacado daquela maneira? Não sabia dizer, mas tinha gostado.
Tinha quebrado todas as formas de conduta e princípio que seus pais o tinham obrigado a exibir, e, sem receios ou medos, tinha gostado.
Entrou no banheiro e tomou um banho de água gelada. Precisava esfriar seu corpo e sua cabeça. Vestiu um short que mal cobria suas coxas. Enxugou o cabelo e deitou-se de braços aberto em cima da cama. Ainda sentia os pequenos tremores das descobertas da noite anterior...
Descobriu que Ikki, o rapaz que tinha visto ao lado da “esposa” de seu amigo e sócio, era uma pessoa bem interessante. Alguém que sabia dar prazer. Mesmo estando bêbado poder sentir o quão quente o jovem era. Tinha matado sua curiosidade, agora, poderia ficar quieto. Ao menos era o que pensava...
Shaka Anihan era uma pessoa totalmente deslocada ao ângulo social em que vivia. Tinha se formado em artes plásticas, mas executava a profissão somente como hobby. Na Giudecca Corporations, que era onde trabalhava, executava a tarefa de contador, sua segunda formação. Nada entrava ou saía sem que o mesmo não obtivesse registros e isso, de certo modo, “facilitava” as coisas para Milo.
Ser amigo dos rebentos da família Onpreyde o acarretava grandes problemas. Kardia, o filho mais velho, detinha o peso da empresa nas costas. Claro, não mais que o pai, Hades. O homem não facilitava a vida deles, na verdade, não facilitava a vida de ninguém.
Sorriu amargo. Fazia tempo que não via o homem e em seu íntimo, duvidava muito se o queria fazê-lo.
O dono da Giudecca era uma pessoa fria. De olhar penetrante e intimidador. Rígido e muito temido. Ninguém: fossem outros empresários, meio de comunicação entre outros... Ousavam entrar em seu caminho. Muitas emissoras já tinham sido desativadas por conta de algumas acusações, segundo o homem, infundadas. E por falta provas, foram totalmente descartadas. Mas, diferente do mundo, aqueles que trabalhavam de perto ou tiveram algum contato, sendo ele direto ou não, sabiam o quanto o homem podia ser letal. E Shaka se preocupava com Milo.
Embora tivesse vinte e três anos, o filho do meio da família ainda conseguia exibir sorrisos sinceros. Ter sonhos bobos e porque não dizer infantis? Milo era mimado e por vezes impulsivo. E Shaka temia que esse lado do amigo fosse massacrado.
Já tinha visto Kardia ser castigado pelo pai. O grego mais velho tinha aprendido as duras penas que com o senhor do “submundo” – Apelido dado por Kardia. – não se brincava.
Kardia por ser o filho mais velho, foi ensinado com afinco e dedicação. Hades o tinha ensinado que não se devia confiar, mas dominar. Que eles – os pertencentes da família – tinham que demonstrar poder acima de tudo. Que sentimentos nutridos pelas raízes do coração era algo dispensável e por muitas vezes destrutivo. Um ponto que eles deveriam usar a seu favor. Entretanto, não podiam usufruir deles, dos sentimentos.
Ele e Kardia tinham aprendido isso!
Lembrava que o amigo mais velho era alguém gentil e bastante extrovertido. E que depois de certo tempo, um ocorrido... não sabia dizer ao certo, Kardia tinha mudado completamente.
Suas ações eram mais precisas. Suas atitudes eram mais ferinas e eficazes. O grego tinha se tornado meticulosamente dominador. Uma nova versão de seu pai.
Sorriu com angustia. Queria que o tempo voltasse e que novamente pudesse dividir com os colegas os prazeres do mundo. Acabar com o peso atual que o outro sentia. Queria ter seu amigo de volta e para aliviar as preocupações do mesmo, sempre que podia, acobertava as loucuras e encrencas de Milo.
Talvez, esse fosse o maior motivo dos freios do grego estar fora de controle. Bem, fosse o que fosse, agora precisava dormir. Não teria chances contra Kardia se não dormisse, nem que fosse somente um pouco.
...Fallen...
Na segunda pela manhã, Saori andava quase desfilando pelos corredores da Giudecca Corporations. O corpo de curvas moldadas estava coberto por uma saia que ia até a metade das coxas na cor bordô, uma feminina blusa branca social de mangas longas, sobrepondo um espartilho em couro negro. Os finos saltos do scarpin preto cintilante quicavam pelo amplo corredor. Os lábios bem desenhados exibiam um sorriso matreiro... Vitorioso.
Logo atrás, vinha Ikki. O moreno detinha as mãos nos bolsos da calça brim e estava com o semblante pensativo.
As recepcionistas a olhavam cobiçadas, admiradas e, por vezes, invejadas. Todos queriam ter a beleza, o poder e o dinheiro que Saori possuía, mais que isso! Ser casada com um Onpreyde rendia a Saori o status de Deusa.
— Senhora, deixe que eu a anuncie. — Eire, prontamente, levantou ao ver a mulher passar direto pela recepção.
— Não precisa. Eu já sou aguardada. — Respondeu com um sorriso gentil no rosto.
A grega continuou sua caminhada à sala do “marido”, deu duas batidas na porta e esperou ser autorizada.
— Espere aqui fora. — Ordenou a Ikki antes de entrar.
Quando adentrou a sala, avistou Kardia olhando fixamente através do vidro curvo blindado do edifício.
— Dez dólares por seus pensamentos. — Falou, seus braços foram cruzados na altura dos seios.
Kardia olhou para a esposa e logo soltou um sorriso perverso. Aquele jogo era conhecido.
— Minha querida... — Seu tom era sarcástico. — Por que tão pouco? — afastou-se do vidro e, com as mãos nos bolsos da calça risca giz, olhou para figura feminina da esposa. Não negava, ela era bonita. Mas não como ele. Ainda não aceitava o fato de não conseguir tirar o jovem estudante da cabeça.
— Porque é o que você vale. — Volveu. Aproximou-se de Kardia até ficar de frente com o mesmo. — Mas diga-me... o que estava pensando?
Kardia analisou a grega. Ela não estava com o semblante de guerra. Usava uma maquiagem leve, e, tirando a saia que estava um pouco saliente, roupas bastante comportadas.
— Achei que estaria mais interessada em saber por que a chamei aqui. — Falou calmo. Rodeou a cintura fina de Saori e puxou-a contra si.
— Não estou interessada em saber o que já sei. — Volveu, rodeando os braços no pescoço do escorpiano. Kardia sorriu cúmplice. Sabia exatamente o que a esposa queria para que pudesse começar a falar.
— Ok. Então me diga você... Por que não me disse que era ele? — Perguntou. Apertando com firmeza a bunda da jovem.
A virginiana exibiu um sorriso vitorioso. Desceu os braços pelos ombros largos de Kardia, apalpando cada músculo ali existente.
— Ele quem? — Perguntou inocente. Deixou que suas mãos se atrevessem a escorregar o paletó até que o mesmo deixasse o corpo de Kardia.
— Não se faça de tonta. Isso eu sei que você não é. — Ralhou o escorpiano. Subiu um das mãos pelas costas da mulher. Puxando, ao chegar à base da coluna da mesma, a corda que prendia o espartilho. Fazendo o mesmo se desprender do corpo da grega.
— Por que assim não teria graça. — Falou, suas mãos atrevidas corriam livres pelo peito coberto pela blusa azulada. Desfez o nó da gravata prateada, retirando-a. Passou o pequeno tecido em volta do próprio pescoço. Abriu, apressada, os botões.
— Você é uma garota muito valente, me desafiando desse jeito. — Sussurrou. Imitando o gesto de Saori, mais não tão paciente quanto à mulher. E tão logo a blusa branca foi aberta, também, foi jogada ao chão, Saori foi erguida e colocada em cima da mesa do escritório. — Não tem medo de ser castigada? — Indagou ainda em sussurro.
A virginiana sentiu o sangue arder. Kardia era diferente de todos os homens com quem já dormira. O escorpiano era quente, viril. E nem um pouco paciente. A fazia tremer e sentir sensações de puro prazer.
— Já te disse uma vez, vou repetir... — Também usou um tom sussurrante. Puxou-o pela gola da camisa aberta e sussurrou com lábios rentes aos do marido. — Não sou igual a você que viver sob ordens e regras alheias... — Retrucou, os olhos de Saori dançavam nos orbes, conectado aos azuis esverdeados de Kardia. — Faço minhas próprias regras.
Em um ímpeto violento, Saori sentiu a mão do grego fechar-se em sua nuca e tão logo, seus lábios foram exigidos em um beijo cheio de ardor e luxuria. Sua língua e lábios eram prazerosamente persuadidos pelo grego. Saori gemia como louca. Era como se estivesse degustando algo raro e de sabor exótico.
Ela e Kardia não compeliam como casal perfeito no quesito convivência conjugal, mas na cama a história era outra. Tudo era permitido! O escorpiano subiu a mão aos cabelos de Saori e puxou-os, obrigando-a a olhá-lo.
— Eu vou foder você! — Ditou. Seus olhos transbordavam luxuria.
— Isso, nesse momento, é o que mais desejo! — Ela retrucou no mesmo tom.
Kardia colocou Saori de volta no chão, virou-a de costa para si e a fez apoiar-se na mesa. Afastou os longos cabelos, agora castanhos, para frente e seguiu, pelas costas esbranquiçadas, em linha reta ate chegar ao cós da saia. Puxou o zíper que se encontrava na lateral e deixou que o tecido caísse. A virginiana desceu do salto assim que sentiu sua bunda arder.
Kardia tinha lhe dando uma palmada.
— Não vai me amarrar? — Ela perguntou, mostrando a gravata que outrora prendia a camisa azulada, que ainda se encontrava no corpo do grego, porém, agora, estava aberta.
— Hoje não! — Respondeu, jogando o pedaço de tecido longe. — Esse será seu castigo por me afrontar.
A grega foi puxada com força e recostada, de forma nada gentil, na vidraçaria blindada. Suas pernas imediatamente rodearam a cintura de Kardia. Seu sorriso de vitória se alargou ainda mais ao sentir a ereção do marido pressionar contra sua pele.
— Ah... — Gemeu ao sentir Kardia lhe morder a maçã dos seios. A mão do grego apertava-lhe as coxas. Novamente foi colocada na mesa. Pôde ver toda a cidade iluminada de Stamford enquanto o marido se afundava em seu pescoço. Desejava-o com loucura.
A fivela do seu sutiã foi vencida e a peça retirada de seu corpo. Logo em seguida a calcinha. Agora estava completamente nua e exposta. Agarrou o grego pelos braços, sentindo os bíceps. Kardia era forte, musculoso. E ela desejava ser penetrada por ele.
O escorpiano a empurrou para que deitasse na mesa quase livre de papéis. Abriu o botão da própria calça e desceu o zíper. Ainda mantendo-se em pé, puxou Saori pelos quadris e elevou as duas pernas dela até um de seus ombros. A grega gritou pesado ao ser penetrada sem preparo algum. Podia ser doloroso, mas era daquele jeito que ela gostava. Kardia estocou-a naquela posição até que a mesma se acostumasse com seu volume.
De forma nada gentil e ainda dentro dela, ele abriu-lhe as pernas e a puxou contra seu corpo. Encaixando-se completamente ao corpo da esposa. Saori era sacudida em cima da mesa. Seus seios subiam e desciam. Kardia abocanhou um mamilo, chupando-o gentilmente. Deslizou a mão ao outro seio e com o polegar rodeou-o, alongando-o.
Saori gemia e se empurrava cada vez mais contra o corpo de Kardia.
— Kardia... — A virginiana gemeu pesado.
— Deixe vir, querida... — O escorpiano falou. Se empurrando mais contra o corpo da esposa e massageando os mamilos da mesma.
— Isso mesmo vadia! — alguém falou da porta. Saori não a tinha trancado. Pois, havia deixado o leonino como guarda. — Deixe vir, vai se sentir melhor.
Kardia e Saori olharam em direção a porta. Acharam Milo, encostado e de braços cruzados. Um misto de malícia e traquinagem surgiu em forma de sorriso no rosto escorpiano mais velho.
Saori foi retirada de cima da mesa e posta no chão, virada de frente para Milo e de costa para o marido.
— Tranque a porta Milo. — A grega sentiu um frio na barriga ao ouvir a frase. Era acostumada aquele tipo de brincadeira imposta pelo grego, no entanto, sempre era dividida com outro homem e não com o cunhado.
— Eu não vou encostar nela. — Disse o escorpiano mais novo, trancando a porta e retirando a própria gravata. Sabia bem o Kardia queria fazer.
— Não precisa. Apanhe a que está no chão também! — Referiu-se a gravata que tinha jogado ao chão. Milo obedeceu. Apanhou o tecido que outrora tinha sido jogado pelo escorpiano mais velho.
— Kardia... — Saori chamou, virando assustada para o marido. — Eu não quero isso.
O grego a pegou pelo rosto, olhou dentro de seus olhos. — Não precisa ter medo. Nada de ruim vai acontecer a você. Milo disse que não quer tocá-la. — Falou e beijou-a nos lábios. Em seguida fez sinal para o irmão.
A virginiana viu quando a gravata de Milo passou diante de seus olhos, tapando-os. Seu corpo, novamente, foi virado de costas para o marido e de frente para o cunhado. Sentiu-se suja. Usada. O marido estava expondo-a para o irmão. Seus braços foram postos para trás e a bondage foi colocada em si. Ao menos, fosse o que fosse, seria algo leve. Suas pernas foram abertas e seu corpo inclinado.
— Ajude-a a manter-se desse jeito! — Kardia ordenou ao irmão. Saori não exibia mais o tom suplicante. Não era uma mulher fraca. Claro, tremulou um pouco ao pensar que seria penetrada pelos dois. Mais se Milo iria somente assistir e “apoiá-la” então tudo bem. Embora a posição fosse meio desconfortável, esperou que o marido a penetrasse novamente. Algo que não tardou a acontecer.
Saori prendeu a respiração quando foi penetrada com tudo novamente. Um som esbaforido e pesado irrompeu de seus pulmões. Kardia retrocedia e avançava lento. Saori soltava muxoxos a cada alavancada que recebia. Abriu mais as pernas. Era bom se tivesse um local para se apoiar, foi o que pensou ao sentir uma prensada mais forte. Milo não ajudava muito, embora a mantivesse como um animal.
Milo via aquela dança lenta tornar-se algo mais insustentável. Selvagem. O corpo da cunhada passou a brilhar e algo dentro de si — e no meio de suas pernas — cresceu. Se continuassem naquele ritmo Saori e Kardia logo chegariam ao ápice. Ouviu a mulher murmura um “mais forte” e sua decisão de não tocá-la passou a ser vencida. Os sons eram bastante estimulantes.
Saori estava curvada igual a um animal. E ao ver os seios da cunhada balançando, somado a expressão de prazer que a mesma exibia a cada estocada, Milo consentiu que ficou praticamente impossível de controlar a ereção que crescia entre suas pernas.
Kardia viu o irmão comprimir os lábios. Estava obvio que ele estava sendo seduzido pelo prazer, pelos gemidos... Sem deixar o corpo da esposa o grego de cabelo azul desabotoou a camisa e a calça do irmão, libertando o membro entumecido do tecido. Puxou os cabelos da esposa até o corpo da mesma estivesse rente ao seu.
— Chupe-o. — ordenou. Guiando-a ao falo pulsante do irmão. Completamente dominada pelo prazer, Saori não se importou e abocanhou totalmente o cunhado.
Milo havia, definitivamente, se tornado o apoio do casal, mais especificadamente, de Saori. A jovem tinha seu corpo sacolejado e a cada estocada mais firme do marido ela envelopava o cunhado com mais precisão. Milo sentiu o prazer chegar para si quando, em um ato mais bruto, Kardia se arremeteu firme dentro da mulher. Chegando ao ápice com tal ato. Fazendo o irmão e a grega gozarem também.
Depois de ter sua respiração mais calma, Saori olhou desdenhosa para Milo
— Achei ter ouvido você dizer que não me tocaria! — Ralhou. O gosto salgado do cunhado ainda estava em sua boca.
Milo sorriu. Prendeu o rosto da cunhada entre as mãos e sorriu perverso.
— Eu não toquei em você, foi você que me tocou. — Rebateu. — Mais precisamente, me chupou. V-A-D-I-A.
— Parem de briguinha vocês dois. — Kardia tentava regularizar a própria frequência. — Foi algo diferente e foi bom.
Saori olhou-o com uma sobrancelha erguida. Soltou um sorriso sarcástico.
— Bom? Como se não bastasse me dividir com outros homens, agora também sou dividida com seu irmão. — A mulher falava enquanto tentava se enfiar na calcinha.
O escorpiano que também tentava vestir-se, sorriu belicoso.
— Saori, Saori... você se sairia muito bem como atriz de novela mexicana. — Disse entre risos. — É mais puta que os trabalhadores daquele prostíbulo que você rege. E não me venha com ladainhas por que eu sei, você adorou ser fodida desse jeito!
Os belos olhos esverdeados encheram-se de fúria. Kardia balançou negativamente a cabeça. Aproximou-se da esposa e prendeu o rosto dela entre suas mãos.
— Não me olhe desse jeito, meu bem. — Falou, passando o polegar nos lábios finos. Desenhando-os. — Eu sei bem que além de saber sobre minha reação diante do pequeno acontecimento de sábado, foi para isso que aceitou vir aqui. Para transar comigo. Então pare de atuar, porque comigo essa choradeira não funciona.
A grega terminou de se vestir mais rápido do que Kardia ou Milo puderam prever. Saiu pisando duro da sala do marido. Nada tinha ocorrido como planejou e não podia falar sobre seus planos na frente de Milo.
Passou pela porta furiosa. Claro, não conseguiu sustentar tanta fúria ao ver o leonino e o contador da empresa tão bem entretidos em uma conversa, sentiu ate que seus olhos brilharam um pouco.
Kardia e Milo continuaram dentro do escritório. O mais novo não entendia o que o compeliu a ir à sala do irmão. Precisava de respostas. Respostas que somente Camus ou Kardia poderiam lhe dar. No entanto, já tinha dito a si mesmo que se não fosse pela boca do aquariano, não queria saber. Então, o que estava fazendo ali? Na sala do irmão?
— E você, o que está fazendo aqui? — Escutou o mais velho indagar.
— Vim conversar com você! — Ainda tentava fechar a própria roupa.
Kardia sentiu seu peito doer ao olhar com mais atenção à fisionomia do mais novo. Milo demonstrava algumas olheiras e uma expressão cansada. Estava abatido. Por um momento o mais velho se perguntou se o irmão sabia sobre a situação de seu atual “amante”. Se aquela expressão de descaso consigo mesmo era de indignação. Uma reação “aos problemas” alheio.
— Ele contou a você? — Se ariscou a pergunta.
— Não! — Respondeu com pesar. — E se não for ele a me contar, eu não quero saber. — Emendou rápido.
Kardia suspirou.
— Milo, você está se iludindo. Camus não é para você!
— E para quem ele seria? Para você? — Perguntou contrariado. Mesmo dizendo que se não fosse pela boca de Camus o assunto era algo inexistente, seus pensamentos o atormentavam.
Saber que seu amado anjo ruivo tinha uma história com seu irmão era perturbador demais.
— Pra mim? Não! — Negou. — Camus está fora do meu alcance, Milo. E para o seu bem e o dele, sugiro que você o faça inalcançável também.
Algo naquelas singelas e indecifráveis palavras fez seu âmago tremer. Amava Camus. Desde a primeira vez que havia o visto tinha se apaixonado por ele. E as palavras, por mais poucas que tenham sido, o fizeram tremer e temer.
...Fallen...
A semana passou corrida. Os estudantes de Miller-Motte corriam contra o tempo. Estudando, entregando trabalhos e fazendo peças para conseguir pontos. Eram os últimos dias de prova e logo estariam livres daquela vida. Regulus surpreendeu os professores entregando todos os trabalhos corretamente redigidos e peças espetacularmente apresentas.
Dégel ficou isento de duas provas por interpretar Ophélia, a noiva suicida de Hamlet ao lado amigo. Mesmo dizendo que não, que já tinha ajudado o amigo o suficiente, não pôde negar quando este ficou sem alternativa para tal papel.
Quando a tarde de sexta-feira chegou, muitos alunos estavam em frente ao mural de notas, tentando encontrar o nome.
— Vocês já foram ver o nome de vocês? — Hyoga perguntou.
— Já, sim. — Regulus respondeu. — Finalmente estamos livres de Miller-Motte. — Vibrou.
— Bem, eu já sei que os dois irão para Yonkers. Morarem juntinhos… — O loiro formulou, um sorriso malicioso sibilava em seu rosto. — Mas isso é só depois da festa de amanhã, certo?
— Sim, Hyoga. Pode confirmar nossa presença. — O leonino não levou em conta a frase maliciosa do amigo. O momento coexistia em festa e em muita bebida. E ele, como todo bom festeiro, aproveitaria. — Nós vamos para a confraternização dos formandos. Não é, Dégel?
O aquariano não respondeu. Estava perdido em pensamentos. Agora podia, deixar-se afogar. Já não tinha mais as provas para encher e ocupar seu cérebro.
— Dégel?! — Regulus chamou mais uma vez, e do mesmo jeito não obteve resposta. Contrariado, o leonino deu um grito, atraindo assim, a atenção do amigo distraído.
— O que houve? Por que está gritando? — Indagou paciente, porém, ríspido.
— Porque você estava no “Incrível Mundo de Dégel” e não estava me escutando. — Regulus falava eufórico. Detestava ser ignorado, ainda mais pelo amigo.
O aquariano olhou de um amigo para o outro, tentando entender porque tamanha euforia por parte do leonino.
— Estávamos falando sobre a festa de amanhã. — Hyoga o inteirou da conversa.
— Ah... A festa! — Falou dando um sorriso amarelo.
“Por pensar em quem não devia, acabou perdendo o fio da meada com os amigos. Idiota!”. — Seu cérebro alfinetou.
— É, a festa! — Regulus falou embirrado. — Nós vamos não é?
— Claro que vamos. — Afirmou, sorrindo sem graça. — E leãozinho, não esqueça que amanhã também temos que terminar de encaixotar nossas coisas.
O leonino afirmou com a cabeça.
— Então já começaram? — Albafica, que tinha acabado de chegar, perguntou.
— É. Podemos dizer que sim. — O aquariano falou modesto.
— Podemos dizer que sim? — Regulus reverberou contrariado. — Dégel nós já desmontamos nossos guarda-roupas. Encaixotamos quase tudo que nos é essencial e estamos dormindo na mesma cama há três dias.
— Precisa falar isso em alto e bom som? — O aquariano estava todo vermelho. — Eles já acham que temos um caso. Desse jeito os falatórios só tendem a aumentar.
— Pois você quer saber? Não me importo com que os outros pensem. Você é meu amigo e o amo como tal. E só para eles terem mais o que falar vamos dar algo para eles. — Dégel sorria bobo da declaração do amigo. Também não se importava com que os outros pensavam, no entanto preferia evitar falatórios descabidos.
— E o que vai fazer, hein, Denis o pimentinha? — Perguntou entre sorriso. Claro, o mesmo morreu quando, com um sorriso traquino, Regulus o puxou pela cinturar e tascou lhe um beijo nos lábios.
Muitos aplaudiram. Outros acharam aquilo uma falta de respeito e outros, como Albafica Kodds, ficaram imensamente incomodados.
Passada a euforia do ato “despropositado” do leonino, Dégel retornou com o amigo para casa. Sua expressão não estava das melhores. Vieram discutindo o caminho todo, parando somente ao chegar à portaria do prédio onde moravam.
— Dégel, foi só um beijo. — Regulus falou baixo. Não queria que o amigo ficasse mais zangado do que já estava.
— Foi só um beijo...? Foi só um beijo??? — O aquariano perguntava eufórico. Tinha ficado escarlate de vergonha. — Regulus você me beijou no meio do campus.
— E...? — O leonino fez parecer algo bobo.
— Como, e? — O aquariano estreitou os olhos.
A discursão dos amigos foi interrompida pelo porteiro. O homem entregou um pacote ao aquariano. Dégel fixou os olhos no embrulho. Não se lembrava de ter feito compra alguma.
— O que é? — O grego perguntou. O pacote era bonito.
— Não sei! — Respondeu dando de ombros. — Vamos. Vou abri lá encima
Dégel desfez o laço feito de cordinha dourada assim que entrou no apartamento, achando dentro do pacote uma caixa dourada com três livros bem parecidos, recobertos com um pano antigo. Cheirando a alguma coisa que ele não soube identificar e um cartão com letras prateadas; um pedido de desculpas feito por uma mão trêmula.
“Talvez não haja ironia, talvez seja deliberado.” ― Seu cérebro acusou.
Engoliu em seco. Eram as primeiras edições de Shakespeare! Devia ter custado uma fortuna! Ao constatar o fato, quase que imediatamente, soube quem os mandou.
― Olha, agora posso afirmar com certeza. Ele gosta muito de você. ― Regulus falou mirando os livros.
― Pois eu não acho. E vou devolver todos. ― Falou ríspido. Refez o embrulho e o deixou na sala, em cima da mesinha de centro.
...Fallen...
Camus estava sentado na sala de seu apartamento. Aguardava Milo retornar. O loiro tinha ido comprar algo rápido para comerem. O aquariano sugeriu que pedissem por telefone, queria evitar dar trabalho ao outro. O grego estava agitado, Inquieto, e disse que precisava pegar ar. Espairecer.
Havia notado o estado de confusão de Milo no momento em que havia falado com ele por telefone na quarta-feira. Parecia que algo o sufocava. Ficou preocupado. Milo parecia ser alguém... Diferente. Alguém que o dinheiro e o poder ainda não haviam conseguido corromper. Alguém que lutava por aquilo que queria. Que cuidava de algo precioso. Alguém que, tinha que admitir, tinha conseguido chegar em seu coração...
Suspirou resignado.
Constantemente se pegava pensando no sorriso infantil do loiro. Na forma birrenta como ele falava consigo. No jeito encantador e, por vezes, nos gestos mais simples e sedutor que possuía.
“Você não pode! Tem que se livrar desse sentimento!”. — Seu cérebro repetiu, incessantemente, dia após dia. Mas seu coração tinha se tornado um menino teimoso. E diante de seus olhos, as imagens gravadas de cada detalhe de Milo, passavam como um filme.
Um homem lindo. Que apesar da bipolaridade quase inexistente, não cansava de repetir que o amava. Uma pessoa que, por mais que quisesse não conseguia ficar sem pensar.
Decidiu que, por hora, abaixaria a guarda. Que deixaria acontecer o que tivesse de acontecer entre eles, fosse bom ou ruim, não impediria. Não vida não podia ficar pior do que já estava. Milo era diferente de Kardia... Era diferente de Hades. Não merecia ser julgado como tais. O grego merecia uma chance de mostrar-lhe que era diferente.
Então, como uma criança que espera a visita do papai Noel no natal, ele aguardou que quinta-feira chegasse e o grego viesse lhe buscar. Algo que não aconteceu. Apenas um telefonema foi dispensado a si, dizendo que só apareceria na sexta pela manhã.
Não conseguiu dormir aquela noite. Ficou pensando o que o loiro teria de tão importante a fazer que não pudesse buscá-lo. Uma angustia tomou conta de si. — Será que estará acompanhado por outra pessoa? Será que desistiu de mim? — se via perguntando. E o perguntaria no dia seguinte. No entanto, desistiu de qualquer indagação quando avistou o loiro em sua porta.
Profundas olheiras destruíam o rosto bonito do rapaz. Era visível que passou, não somente uma noite sem dormir. Estava apático. Detinha uma expressão seria.
“Não vamos para Stamford” — Milo respondeu ao ver a expressão indagativa do francês.
“Por quê?” — Camus deu espaço para o escorpiano entrar, fechou a porta e encostou-se a ela.
Milo não adentrou muito ao apartamento. Olhou-lhe nos olhos, notou algo diferente neles. Os olhos castanhos pareciam dois rubis. Exibia um brilho forte. Um brilho que lhe transmitia paz. Hipnotizado o loiro aproximou-se do ruivo, prendeu o rosto dele em suas mãos e encostando a testa de ambos.
“Porque quero ficar aqui... com você!”. — Murmurou. Seus polegares afagavam as maçãs do rosto francês.
“Por mim... tudo bem!”. — Camus retribuiu. Sentiaa angustia nas palavras do loiro. Não entendeu o porquê de tanto pesar. O escorpiano estava cansado. Pediu para dormir um pouco. O fez na cama de Camus. Acordando somente após as cinco da tarde. Imediatamente prontificou-se a ir comprar algo para comerem. Ele tentou argumentar, contudo não conseguiu muito.
E agora estava ali, sentando. Esperando pelo outro. Sabia que depois do encontro de sábado tinha muito que explicar. Não só para Milo, mas para Dégel também.
— No que está pensando? — O francês quase pulou longe. Estava tão compenetrado que nem notou quando o grego chegou.
Seu rosto ficou vermelho com a aproximação. Os olhos do escorpiano eram duas safiras bastante desconcertantes.
— Você demorou. — Falou desviando do olhar.
— As filas estavam enormes. — Milo respondeu. Um sorriso sapeca tomou seu rosto. — Trouxe arroz a grega e risoto. — O ruivo franziu o cenho. O grego ainda parecia um pouco deslocado. — Como eu me esqueci de perguntar o que você queria... bem, eu...
— Tudo bem! — Falou, cobrindo a mão do outro com a sua. — Gosto de coisas simples.
— Você está diferente! — Observou. Desde que tinha chegado Camus ainda não o tinha tratado com a mesma frieza de sempre.
— Eu me sinto um pouco diferente. — Afirmou.
— E isso é bom ou ruim? — Perguntou mirando o rosto sereno do francês.
— Ainda não sei. — Respondeu olhando dentro das safiras gregas. Agora, também, acariciando a mão do outro. — Vamos simplesmente deixar seguir.
— Por mim, tudo bem! — Concordou, elevando a mão do francês aos lábios. Depositando um beijo nela. Camus corou, sentiu seu coração acelerar de forma desenfreada.
— Bem, vamos comer. — Camus puxou a mão. Pegou as sacolas que Milo tinha trazido e começou a desfazê-las. Comeriam ali mesmo.
O escorpiano levantou e foi à cozinha pegar pratos, talheres e algo para beberem. Depois de comerem, conversaram sobre algumas amenidades. Milo perguntava coisas básicas e mais pessoais, sempre respeitando quando o francês não queria falar. Principalmente controlando sua curiosidade. Queria saber onde pisava antes de fazer suposições ou perguntas indevidas.
— Olha a hora. — Camus olhou para o relógio. Ainda estava cedo para dormir, mas a conversa com Milo era algo bem embaraçoso.
— Nove horas, ainda é cedo. — Falou, também mirando o relógio.
— Eu sei. É que... ― Embaraçou-se. O que diria? Que estava gostando além da conta da companhia do grego?
― Tudo bem. Sei que deve estar cansado.
― Um pouco! Você, não?
― Um pouco, também.
Ficaram mirando-se um tempo sem saber o que dizer. Quando se deram conta ficaram desconcertados.
― O quarto que eu dormi hoje, é seu? ― Milo perguntou, tentando afastar o desconforto.
― É. ― Respondeu calmo. ― Se quiser pode dormir nele novamente. Eu me arrumo no sofá. Como eu não sabia que íamos ficar aqui, não limpei o outro quarto. Ele está um pouco empoeirado.
― Então nós vamos dividir a cama. ― Falou natural.
― Milo... ― Chamou um pouco nervoso.
― Eu não vou tocar em você. ― Apressou-se a dizer.
― O problema não é esse...
Milo suspirou. Deveria dar uma basta naquilo.
― Não importa o problema. A solução é: Ou dividimos a cama ou dividimos sofá.
Camus olhou contrariado para o grego. Tinha esquecido uma parte da personalidade do loiro. Assim como ele, Milo era ridiculamente teimoso. Sabia que não teria outra escolha a não ser dormir com o escorpiano. E entre o sofá e a cama estava claro que a cama era a melhor opção. Tinha mais espaço para os dois.
― Tudo bem! ― Concordou. ― Mas primeiro vamos tomar banho e escovar os dentes.
Milo corou ao imaginar-se tomando banho com ruivo. Estranhou-se. Não deveria ruborizar, afinal, ele e Camus já tinham ido bem além de um simples banho.
― Separadamente. ― Escutou o ruivo falar de forma fria, antes de sumir.
...Fallen...
No sábado pela manhã os amigos tentavam terminar de fechar as caixas que tinham ficado por fazer. O aquariano ainda estava com cara de zumbi e Regulus, se sentido culpado por ter piorado a situação, quando o beijou no meio do campus, ficou mais preocupado do que já estava.
— Já chega! — Dégel, que encaixotava algumas peças de pouco uso, ouviu Regulus gritar. — Você quer fazer o favor de me dizer o que aconteceu naquele maldito café? Porque não pode estar assim por conta de um simples beijo.
O aquariano olhou assustado para o leonino, logo em seguida comprimiu o lábio inferior com força. Ainda não tinha contado ao amigo o episódio vivido há uma semana. Motivo: Lembrar do café era lembrar-se de Kardia e, consequentemente, lembrar que o empresário, além de ter ofendido seu irmão e o acusado de algo que ele ainda não sabia sobre o que se tratava, compartilhava algo com o aquariano mais velho. Um segredo que ele não teve coragem de perguntar, mas que o incomodava profundamente. Principalmente porque Kardia tinha chamado seu irmão de nomes do qual ele preferia não pensar, pois se assim o fosse e o mesmo tivesse razão, então os dois se conheciam bem mais do que Dégel conseguia imaginar e aceitar.
— Eu estou falando com você. — Regulus desviou das caixas e aproximou-se do amigo. — Diga-me, Dégel, o que aconteceu? Sou seu amigo, não sou?
Dégel sentiu os olhos lacrimejarem. Entre ele e Kardia não tinha acontecido “nada” e “tudo” ao mesmo tempo. Ninguém, nunca, tinha mexido tanto consigo. Nunca tinha lhe atiçado a curiosidade como Kardia tinha feito. Seu peito doía de um jeito descomunal. Contou, por partes, o que ocorrido ao amigo, e sabia que o outro era uma pessoa inteligente. Sabia que mais cedo ou mais tarde o leonino descobriria. Ele era tenaz.
Regulus ficou boquiaberto. Emudecido. Agarrou o amigo pelo braço e o arrastou para sala. Ele próprio sentia que precisava de ar para engolir tamanha situação.
— E Camus, o que ele fez? O que ele disse? — Perguntou eufórico.
— Nada! — Murmurou. — E eu também não tive coragem de perguntar.
O jovem grego passou as mãos no rosto procurando uma solução. Palavras que pudessem confortar o amigo.
— Eu sabia! Sabia que tinha alguma coisa errada com ele. — Falou com uma raiva contida.
Dégel olhou confuso para o amigo.
— Com Camus?
— Não, com Kardia. Escute, há algo sobre ele... — Regulus começou cheio de receio. — Ele é magnífico, eu concordo, mas eu acho que ele é perigoso. Especialmente para alguém como você.
— O que você quer dizer com alguém como eu? — Perguntou, sua expressão demonstrava afronta.
— Um inocente como você, Dégel. Você sabe o que eu quero dizer. — Falou um pouco irritado. — Você pode não querer admitir, mas… é um bobo incorrigível. Sua mente voa muito longe.
O aquariano sorriu. No fim, o amigo só estava preocupado. Não queria despertar aquele sentimento no outro. Sabia o quanto era ruim ficar preocupado com alguém.
— Tem razão Regulus, Kardia Onpreyde está fora do meu nível. — Falou convicto. O leonino, porém, balançou negativamente a cabeça.
— Está errado. Você é bom demais para Kardia Onpreyde possuir. — Falou com o rosto do amigo preso entre as mãos. Dégel ruborizou. — Agora vamos terminar isso. Já está ficando tarde e precisamos chegar a tempo para a “pequena” comemoração.
...Fallen...
De pequena aquela comemoração não tinha nada.
A boate estava barulhenta e agitada. Estava cheio de futuros formandos prontos para ficarem imprestáveis. Albafica se juntou ao grupo que estava reunido próximo a bancada. Como o loiro teve que trancar o curso por um ano, só se formaria no ano seguinte, mas isso não o impedia de comemorar com os amigos.
— Então quer dizer que o Hyoga catou o executivo de marketing do Kardia? — Regulus perguntou alto. Já tinha passado da terceira dose uísque.
— E vou te contar… o anjinho era gostoso. — Hyoga, que também não estava tão sóbrio, respondeu. — Catei e acolhi.
Dégel ficou sem entender.
— Acolheu? Quer dizer que estão namorando? — Perguntou inocente. Todos riram.
— Dégel, você ainda não entende a linguagem a qual o Hyoga está falando. Ainda é um “inocente”. — O grego falou, fazendo muito soltarem um “uoou” junto com a frase: “ele é virgem”.
— Eu não acredito! Dégel você é virgem? — O loiro perguntou espantado.
— Ora, qual o problema com isso? — Exasperou o aquariano ruborizado.
— Ninguém mais na sua idade é virgem. — Rebateu o russo.
— A não ser que tenha nascido sob a constelação. — Regulus comentou.
— Acho que nem os virginianos na idade dele são mais virgem. — Novamente o loiro retrucou.
— E quantos anos acha que seu anjinho tem? — Dégel perguntou, lembrando levemente das feições infantil do jovem executivo de marketing.
— Dezenove! — Respondeu orgulhoso. Estava satisfeito com a expressão desacreditada de Dégel, Regulus, Albafica e o resto da turma.
— E já é executivo de marketing? — O pisciano perguntou.
— Digamos que ele é uma espécie de “protegido” da esposa do Onpreyde. — Falou, surpreendendo mais ainda os colegas. Dégel sentiu seu corpo contrair. A notícia deixou-lhe com uma enorme ânsia.
Regulus imediatamente direcionou o olhar para o colega de quarto. Se ele próprio estava surpreso com a novidade, Dégel deveria estar no mínimo confuso. Magoado.
— Como assim, esposa? Ele não é solteiro? — O aquariano perguntou inseguro. Estava sendo difícil controlar o mar de sensações ruins que assolava seu corpo, entretanto, ele precisava saber. Precisava ter noção do que estava acontecendo.
— Como ficou sabendo disso, Hyoga? — Regulus perguntou também confuso.
— Vocês entrevistaram o cara e não sabem disso?! — O russo franziu o cenho. Olhou de um amigo para o outro e suspirou. — Bom, então acho que o que o Shun disse é verdade.
— O quê é verdade? — A curiosidade de Regulus atiçou.
— Escutem, eu não deveria contar isso a você, mas sei que se não contar Regulus não vai me deixar em paz, então aqui vai... — O loiro ficou entre os amigos, Regulus, Dégel e Albafica, e chamou-os para perto de si. — O casamento de Kardia Onpreyde é um dos maiores segredos da família. — Hyoga falou sussurrando.
— Segredos?
— Um deles?
— Eu não sei quais são os outros, mas Shun disse que esse é o único que ele sabe.
— Sabe Hyoga, acho que eu estou precisando ter uma conversa com o seu namorado. — Regulus disse. Seus pensamentos funcionavam a mil.
— Ele ainda não é meu namorado. Então, por favor, não estrague essa minha oportunidade.
— Então você vai vê-lo novamente?
Hyoga sorriu matreiro para os amigos e ditou:
— Agora mesmo. — Apontou para a porta de entrada da boate. Pela mesma vinha passando um jovem de cabelos castanhos e uma moça de cabelos rosado.
— É impressão minha ou ele está com uma garota? — Dégel perguntou. Achava inadequado o amigo olhar com cara de bobo para um homem comprometido.
— Sim, é uma garota — Respondeu acenando levemente para o jovem.
— Se ele vinha encontrar com você. Por que trouxe a namorada? — Foi à vez de Regulus perguntar. Tinha achado a garota extremamente linda.
— Não é namorada dele!
— Não?! — Regulus, Dégel e Albafica perguntaram juntos e sorrindo amarelo. O casal de jovens tinha acabado de se aproximar.
Hyoga chegou próximo à moça, pegando-a pela mão.
— Senhores, está é Sonnya Onpreyde. Irmã mais nova de Kardia — Apresentou-a. Largando Sonnya indo para o lado do japonês. — Este, vocês já conhecem. Chama-se Shun Amamiya. — Apresentou-o. — Shun, Sonnya, esses são: Albafica Kodds, Degel Oushevard e Regulus Linyu, meus companheiros de campus.
Sonnya sorriu para os três, no entanto, seus olhos brilharam ao encontrarem com os de Regulus. O leonino adiantou-se, pegou a mão da rosada e beijou.
— É um prazer conhecê-la Sonnya. — falou cortês, porém, bastante sedutor.
Dégel, mesmo estando com o coração apertado, não pode deixar de sorrir. Conhecia bem o amigo quando ele gostava de algo ou alguém.
— Vem, Alba. Nós estamos sobrando aqui. — Falou puxando o loiro pelo braço. O pisciano não se negou a sair do meio do grupo com o amigo. Queria mesmo ficar um pouco a sós com Dégel. Precisava deixar claro que mesmo estando longe, não abriria mão dos sentimentos que tinha por ele.
Dégel passou no bar e pegou uma garrafa de uísque. Ele e Albafica sentaram-se em uma dos puffs que tinha em uma área mais reservada do local.
— Quer? — O aquariano perguntou mostrando a garrafa de uísque para o amigo.
— Achei que não gostasse de destilados. — O pisciano retrucou, pegou a garrafa das mãos do amigo e abriu-a.
— Hoje, eu estou aceitando tudo. — Murmurou abatido. Pegou a garrafa das mãos do amigo e bebeu no gargalo uma grande dose. Logo sentiu o efeito de sua “conduta”. A bebida desceu queimando.
— Isso por um acaso tem a ver com o Onpreyde. Com o que escutou sobre ele? — Albafica imitou o amigo.
— Não seja tolo, Albafica. Eu quero comemorar... não tenho nada a ver com Kardia.
Tomou mais um gole.
— Prove! — Inqueriu o pisciano. Dégel olhou-lhe intrigado. Com uma sobrancelha levantada. Esperando que o amigo o dissesse como. — Beije-me!
O aquariano parou um pouco. Tentando entender o que o outro dizia. Quando finalmente o fez, caiu na gargalhada. Bebeu mais uma dose, olhou dentro dos orbes azuis do amigo.
— Em que, o fato de beijá-lo, vai provar algo? — Perguntou contido.
— Você não tem nada a perder tem? — O pisciano se aproximou do aquariano. Deixando seus rostos muito próximos.
Dégel umedeceu os lábios. Estava confuso e extremamente magoado. Seus olhos relancearam para o salão. Viu Regulus e Sonnya dançando sensualmente, ao lado deles Shun e Hyoga. Queria isso também. Alguém para compartilhar algo. No entanto, quem estava ao seu lado estava longe de ser quem ele queria. Albafica era quase um irmão para ele.
— Tenho. Nossa amizade. — Falou firme. Colocando a mão nos lábios do amigo.
— Não quero ser seu amigo. Dégel, eu te amo. — Albafica esbravejou ao retirar a mão do aquariano de sua boca.
— Também amo você. Mas é do mesmo jeito que amo Regulus ou Camus.
— Não quero esse tipo de amor vindo de você.
— Sinto muito, Albafica, mas esse é o único que posso te dar.
Levantou-se rápido. Não queria continuar com aquela conversa com o amigo. Sentiu a cabeça rodar. Mesmo assim seguiu adiante. Meio cambaleante conseguiu andar até o bar. Seu estômago avisou que era melhor ir ao banheiro enquanto ainda estava de pé. Com muito esforço conseguiu chegar ao banheiro. Não estava vazio, mas estava mais ventilado que no salão da boate. Tentou respirar um pouco. Pegou o celular. Queria ligar para Camus. Informar ao irmão que tinha passado e que estava comemorando.
— Humm... pra quem foi mesmo que eu liguei por último? — Os número estavam meio embaçado no visor do celular. Apertou o botão para chamar. Não se lembrava de quem era, ou melhor, seu cérebro fazia uma confusão só.
— Dégel? — Seu coração falhou uma batida ao escutar a voz rouca do outro lado da linha. Agora, lembrava! A última pessoa para quem tinha ligado foi pra ele. Kardia.
— Como sabia que era eu? — Perguntou. Estava surpreso. Kardia tinha salvo seu número? — Antes disso, por que você me mandou aqueles livros? — indagou soluçante.
— Dégel, você está bem? Sua voz está estranha. — Kardia falou sem responder a pergunta do mais novo.
— Não sou o estranho, você é. — Acusou. Por que ainda não tinha encerrado aquela ligação.
— Você andou bebendo? — O escorpiano perguntou.
— Por que isso te interessa? — Volveu ferino.
— Estou curioso. Onde você está? — Perguntou novamente.
— Em uma boate! — Respondeu replicante. Kardia não poderia alcançá-lo. Estavam longe um do outro.
— Que boate? — O escorpiano perguntou calmo.
— Uma em Portland.
— Como você vai para casa?
— Eu dou um jeito. — Respondeu impaciente. — Esta conversa não está sendo como eu pensei. — Murmurou e assustou-se. Então era isso? Sabia para quem estava ligando e mesmo assim o fez.
— Em que boate você está? — Kardia perguntou mais uma vez.
— Por que você mandou os livros, Kardia?
— Dégel, onde você está? Diga-me agora! — O grego gritou no outro lado do telefone.
— Como sempre um maníaco por controle. Você é tão dominante. — Falou rindo.
— Dégel, me ajude. Cacete! Onde você está? — O aquariano parou de rir. Sentiu algo estranho remexer-se dentro de si. A voz de Kardia demonstrava angustia. Receio. Medo de alguma coisa.
— Eu estou em Portland... Bem longe de Harrison. Bem longe de Stamford. Bem longe de você! — Murmurou a última parte.
— Onde em Portland? — Escutou Kardia indaga ríspido.
— Boa noite senhor, Onpreyde. — Dégel pode ouvir o soar de seu nome antes de desligar o celular. — Estou realmente bêbado. — Murmurou, achando o número do irmão. No entanto, antes que pudesse ligar para Camus, seu telefone começou a gritar. — Oi. — murmurou timidamente. Não reconheceu o número.
— Fique aí. Estou indo te buscar. — Escutou. Não precisou que se identificasse, Dégel saiba exatamente quem era. Apenas Kardia poderia soar calmo e ameaçador ao mesmo tempo.
Não se importou. Não tinha dito a Kardia onde estava e, mesmo se algum milagre acontecesse e ele viesse a descobrir, provavelmente já teria ido embora quando o escorpiano chegasse.
Saiu do banheiro, seu estômago já tinha se acalmado. Passou pelo bar e pediu uma vodca. Procurou pelos amigos, encontrando-os reunidos em uma mesa, numa parte mais privativa da boate. As coisas tinham evoluindo bastante desde que tinha ido ao banheiro. Sonnya estava sentada no colo de Regulus beijando-o com volúpia. Shun e Hyoga além de beijarem-se não tinham suas mãos quietas.
Dégel bebeu um pouco da vodca que trouxe.
— Você demorou. — Regulus o repreendeu assim que o avistou. — Onde estava? — Indagou acariciando os cabelos rosados de Sonnya.
— No banheiro. — Respondeu e olhou de relance para Albafica. O loiro estava sério.
— Acho que ele está assim desde a hora em que você sumiu. — Falou. Não poderia dizer ao certo. Quando procurou por Dégel, o único que encontrou foi Albafica, bebendo sozinho.
Dégel sorriu sem graça. Não queria magoar o amigo. Jamais corresponderia aos sentimentos do pisciano. Porém, sabia que fazia isso mesmo sem querer.
— Acho melhor eu parar um pouco e ir lá fora tomar um pouco de ar.
— Dégel, você é muito fraco pra bebida.
— Eu volto em cinco minutos. — Falou e saiu abrindo caminho pela multidão. Estava começando a sentir náuseas, sentia a cabeça girar desconfortavelmente, estava mais instável do que de costume.
Fechou os olhos e respirou o ar frio da noite. Percebeu que estava mais bêbado do que de costume.
— Dégel! — Escutou a voz de Albafica. — Você está bem? — O loiro indagou preocupado
— Estou. Acho que eu bebi um pouco além da conta. — Sorriu. Ficou feliz ao saber que o amigo não estava com raiva dele.
— Eu também. — O pisciano confessou. Seus olhos miravam intensamente o aquariano. — Você precisa de uma mão? — Perguntou ao vê-lo elevar uma mão aos lábios.
— Não, estou bem. — Puxou o ar com força.
— Que bom! — Falou. Colocou as mãos nos bolsos. Não queria fazer besteira e estragar tudo com o aquariano. — Bem, eu vou voltar lá pra dentro. Qualquer coisa chama tá?
— Albafica espera... — Pediu assim que o outro virou as costas.
— Sim?
— Albafica, eu não quero estragar nossa amizade.
— Eu sei! — Murmurou desconfortável. — Eu entendo perfeitamente. Só que eu simplesmente não consigo me livrar desse sentimento que sinto por você.
— Alba… — chamou cansado.
— Eu já disse que está tudo bem! Por favor, não piores nossa situação. — O loiro pediu.
Dégel sentiu o peito doer, o amigo estava magoado. Respirou fundo. Ele e Albafica, de certo modo, estavam no mesmo barco. Ambos amando quem não poderiam ter. Não soube dizer ao certo como, mas as situações se misturaram em sua cabeça e ele, sem pensar muito nas consequências, puxou o amigo para um beijo. Albafica não pensou muito, simplesmente correspondeu.
— O que você pensa que está fazendo? — Uma voz sombria e cheia de aversão falou, fazendo os dois pularem longe um do outro.
Continua...
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