Fallacy - Pride
10 Uma Maldita Chance
Sorte tem o ser humano que sabe como eu me senti naquele exato momento. Um toque tão simples e tão sutil de seus lábios, capaz de desencadear o mais forte e poderoso sentimento de um homem. Algo que eu poderia facilmente dizer que eu mesmo nunca havia sentido antes. Pelo menos, não com tanta intensidade. E o mais irônico era pensar que aquela coisa forte, dominando completamente minha alma, não era orgulho de mim mesmo, e nem a sensação de ter conseguido um beijo da mulher que eu estava disposto a conseguir. Também estava longe de ser a euforia por pensar que ela dormiria comigo logo em seguida. Na verdade, era algo tão puro e forte que estava em conflito com minha preocupação. Não parecia ser superficial, e nem temporário. Não era satisfação. Era a sensação de poder tocar o céu.
Hillary recuou muito pouco, por um milésimo de segundo. Ainda com o conflito interior explodindo e meu coração doendo, eu mordi meu lábio inferior com força e apertei ainda mais os olhos. Mais uma vez, senti sua respiração fraca perto do meu rosto. Ela havia se aproximado novamente. Então, eu toquei seus lábios levemente com os meus, sem pressa. Mas a urgência dentro de mim era praticamente incontrolável. O medo de assustá-la era enorme, mas a vontade de mergulhar naquele sentimento conseguia ser maior. Conseguir esquecer tudo que me perturbava, e que me fazia mal, apenas a tendo envolvida em meus braços. Tentador demais para ignorar.
Mas Hillary não me deixou prosseguir. Ela colocou o dedo indicador suavemente em meus lábios, e fechou os olhos. Estava claro que era o sinal para que eu parasse. A mão dela desceu por meu rosto delicadamente até chegar ao meu peito ainda sujo de sangue. A mão esquerda dela puxou o cabelo negro para trás, e depois, ela esfregou os olhos azuis. Hillary ainda olhou para baixo, destruída, antes de começar a chorar mais uma vez. As lágrimas desceram de uma vez só, em um choro tão doloroso e compulsivo que a cada soluço dela, eu tremia. Era realmente como se o meu coração estivesse se partindo em vários pedaços. Me assombrava o misto de sensações opostas que tomavam conta de mim. O meu monstro interior parecia abatido. Por um momento, eu não era o Matlock. Eu não consegui me ver; não pude me reconhecer. Como se toda a inocência de um pequeno menino tivesse voltado ao homem insensível que ele sabia que havia se tornado. E ele gostava disso. Ele só não contava que ia conseguir recuperar tudo diante a uma mulher chorando. Por sinal, a mais linda mulher que ele já havia visto. E que parecia ainda mais bonita aos olhos dele, por estar se apaixonando de verdade por ela.
– Isso não pode acontecer agora... — Ela sussurrou. A voz estava embargada, e trepidante.
– Se não for agora, não vai ser nunca. — Eu respondi, tentando beijá-la mais uma vez. Ela tirou o rosto.
– Por favor Dave, não force, e nem aja assim agora... Não é... — ela parou. — Certo.
– E o que é certo para você? Continuar com aquele cara que te trata como uma qualquer e não te dá um terço do valor que você merece?
– Não é só isso...
– Então o que é, Hillary? — Perguntei, interrompendo-a. Meu tom subiu. — Me diga o que é! — Berrei.
– É você, David! Você é o problema! — Ela berrou. — Como quer que eu corra para os seus braços se você quer se matar?! Não consegue ver a dor que isso me causa? Não consegue entender que eu não posso, não quero, e não pretendo ceder a você?
Meus olhos fitaram o chão, derrotados.
– Você está certa... — Sussurrei. — Me desculpe... E-eu não queria que isso terminasse assim...
– Sabe... O que mais me surpreende em você? — Ela perguntou devagar, secando as lágrimas. — As pessoas acham que você é só mais um idiota qualquer, bancando o gostosão e que só quer saber de você mesmo... Mas no fundo, isso é só uma camada externa. Você sabe ser um maldito homem de verdade... — Seu tom sumiu com o choro voltando.
– Eu sei ser um homem de verdade se eu tiver uma mulher que mereça o melhor de mim. E você me obrigou a dar muito mais do que o meu melhor. — Eu sorri com o canto da boca, meio sem jeito.
Hillary novamente começou a soluçar. E a maldita dor que aquilo me causava veio de brinde.
– Eu estou implorando a você, Dave. Não se mate.
Era difícil demais. Outras vidas estavam em jogo, e eu não podia garantir nada. Eu estava inseguro demais para arriscar tentar mais uma vez. E eu só tinha até o anoitecer para decidir. Depois da transformação, eu teria que esperar por mais um amanhecer. E talvez, um amanhecer banhado por sangue. Mas, por outro lado, Hillary estava certa. Eu não podia deixá-la sozinha e causar tanto sofrimento. Eu tinha que dar a mim mesmo mais uma chance. Uma maldita chance que decidiria sobre minha vida ou minha morte. Mais uma noite para tentar assumir o controle. E, caso fracassasse...
– Uma noite. — Eu respondi. — Mas apenas hoje. Se eu passar outra noite descontrolado, amanhã eu nem volto para a casa da árvore.
– Mas é impossível fazer isso em uma noite! — Ela berrou. — Ele é muito mais forte do que você!
– Então, eu acho melhor você torcer para eu conseguir.
Hillary respirou fundo.
– Eu não vou conseguir convencer você, não é? — Ela perguntou.
Acenei negativamente com a cabeça, abaixando-a ao mesmo tempo.
– Ainda temos algumas horas antes do anoitecer. Podemos tentar esquecer...
– Não te dói pensar que talvez sejam nossas últimas horas juntos, Dave?
– Bem... — Meu tom malandro renasceu das cinzas. Eu não aguentava me segurar. — Sabe o que eu faria com você nas minhas últimas horas de vida?
Hillary abriu um sorriso tímido.
– Você ainda é um idiota... — Ela riu baixo.
Ela apoiou a cabeça no meu peito, e sua mão direita delicadamente em meu ombro. Deitou o rosto de lado sobre meu tórax, e como se quisesse sentir minha pele, ela afundou a bochecha, fazendo movimentos para cima e para baixo. Aos poucos, minhas mãos migraram para suas costas, a envolvendo, e passeando por sua pele, elas subiram até sua nuca. Comecei a brincar com o cabelo dela pela raiz, enquanto aos poucos eu ia deixando o peso da minha cabeça se apoiar na dela. Foi quando eu enterrei meu rosto em seu cabelo negro, mergulhando no cheiro doce que vinha dela.
Hillary e eu mantivemos aquele abraço por alguns minutos. Nenhum de nós se mexia, e tanto ela quanto eu estávamos tão perdidos em nossos pensamentos que não nos importamos em ficar tanto tempo juntos. Os olhos dela se fecharam quando eu apertei mais ainda o seu corpo contra o meu. Ela conseguia mostrar a mim perfeitamente a segurança que eu passava a ela. Apenas o vento movia nós dois, e ainda assim, eu ainda me sentia preso a ela de alguma forma.
Ela se soltou de mim devagar. A mão que estava em meu ombro desceu até minha mão e segurou meu dedo indicador com extrema leveza. Hillary recuou alguns poucos passos devagar, e olhando em meus olhos, fez com que eu a seguisse, sem soltar minha mão. Então, ela me levou até a árvore e se sentou no chão, na mesma posição que ela estava quando eu cheguei. Seguindo o seu gesto, eu me sentei ao seu lado, apoiando as costas na madeira fria e úmida da enorme árvore velha. Eu deixei a parte de trás da minha cabeça seguir a linha de minhas costas. Foi quando ela saiu do lugar onde havia sentado, e se instalou no vão entre minhas duas pernas, apoiando suas costas no meu peito, e puxando meus braços por cima de sua barriga.
Juntos, vimos o sol se pôr lentamente. Poucas palavras eram sussurradas, de modo sutil e discreto. Hillary não largou minha mão, nem por um momento. O vento gelado do final da tarde batia em nossas peles, e a cada segundo, eu estava mais perto de uma transformação. O drama ia tomando conta de nossas mentes, aos poucos. O cabelo negro dela chicoteava no ar, mas ela não se importava. Hillary não queria saber de mais nada além da minha última noite. Abalada e pensativa, nem parecia a mesma mulher que me obrigava a dar uma volta ao mundo para poder dar respostas da mesma altura que as dela em discussões. Quando ela fechou os olhos, as lágrimas escorreram devagar pela pele branca e suave de seu rosto. A maquiagem escura borrada deixava vestígios do choro. Hillary contraiu seus dedos da mão com força, quase como se estivesse com dor. Ver o sofrimento dela me fez apertar meus dentes, uns contra os outros.
De repente, o ar de meus pulmões parecia ter sumido. Em desespero, abri minha boca e comecei a respirar fundo. Tentei relaxar. Hillary logo percebeu que algo estava errado, e saiu do vão entre minhas pernas. Ela se levantou, e com as mãos unidas tampando sua boca, as lágrimas novamente começaram a cair com força. Suas pernas ficaram bambas, e mal puderam sustentar o peso de seu corpo. Antes de se ajoelhar, ela recuou uns cinco passos, talvez. Era tarde demais.
Novamente, estava acontecendo. Meus músculos se contraíram involuntariamente, e mais uma vez eu pude sentir que a criatura estava vindo; de dentro para fora, rasgando tudo. Eu fechei os olhos com força, apenas esperando que a dor intensa se apoderasse de mim. Eu dei minha alma para conseguir manter o controle. Separei os braços, encostei os cotovelos na madeira da árvore e enterrei meus dedos na terra gelada, deixando todas as contrações musculares passarem como um choque, e ignorando a dor aguda do meu corpo se rasgando mais uma vez. Quando minhas costelas pularam para fora do lugar, eu gritei. Minha voz já estava visivelmente alterada. Hillary abaixou o corpo, cobrindo o rosto completamente. Foi a última coisa que eu pude ver.
Perdi o controle, mais uma vez. Meus olhos se fecharam involuntariamente. Eu lutei para abri-los com todas as forças que eu tive, mas honestamente, não pareceu adiantar. Recuperei minha visão quando o lobisomem quis. E só para me desmoralizar mais ainda, meus braços rígidos e firmemente enterrados no chão, ele rapidamente relaxou. O som de sua respiração pesada e calma martelava na minha cabeça de modo tão intenso que mais parecia que não havia mais nada nela. Eu passei a contar as vezes que ele enchia o peito de ar. E logo depois, ele começou a emitir um ruído, do fundo da garganta. Um pequeno rugido baixo, mas não menos amedrontador por isso. Foi quando Hillary levantou a cabeça.
O enorme animal rapidamente se colocou agachado, empurrando a árvore para conseguir equilíbrio. Eu senti a língua passando por baixo de todos os dentes superiores. Quando eu o senti abaixando as sobrancelhas para dar um tom maligno ao olhar, eu soube o que ele ia fazer. Hillary recuava devagar, sem tirar os olhos de mim. Todo seu corpo tremia, e ela mal piscava. Os passos cautelosos não eram muito largos e não chamaram a atenção do lobisomem logo no primeiro momento. O que despertou o interesse da fera não estava no que ele via, e sim no que ele sentia. O mesmo odor frio, que descia de modo áspero da noite anterior. Dessa vez, vindo daquele lindo pedaço de carne tentador que estava a nossa frente. Ela ia acabar morrendo.
Ele apoiou levemente a mão direita na terra, e devagar, começou a esticar as pernas, pronto para se jogar com o impulso. Rosnou mais alto ainda. Hillary se apavorou, e perdeu o controle. Ela se virou, e como se tivesse alguma chance contra aquele monstro, disparou com passos largos, o mais rápido que pode. Se não fosse puro sadismo, eu diria que eu senti aquela coisa moldar um sorriso.
Então, a criatura foi atrás. A força dele era tão inacreditável que, quando usava as patas dianteiras para puxar o chão e as traseiras para se empurrar, por um breve milésimo de segundo, ele não tocava o solo; completamente no ar. Quase sem fazer força, logo a alcançou. Parecia tão inútil e desprotegida diante àquela máquina perversa que provocava em mim uma forte sensação de culpa. Um sentimento que só piorou quando ele pulou nas costas dela e a derrubou, a envolvendo em um abraço mortal e fazendo com que seu corpo caísse no chão, rolando junto ao dele.
Ele a prendeu. Segurou suas duas mãos contra a terra, colocando uma pequena parcela de seu peso sobre ela. Ele envolveu seu quadril com as pernas dele, deixando-a completamente imobilizada. Ela não conseguia mexer absolutamente nada do pescoço para baixo. Ela tentava se debater, em desespero total, enquanto berrava e chorava ao mesmo tempo. Meu coração se apertou. Eu não podia acreditar que ia matar Hillary.
Ele afastou a cabeça devagar, e focalizou o pescoço de Hillary. Uma imagem extremamente intensa; ele podia imaginar perfeitamente o sangue correndo por aquela veia. Por um segundo, nossa mente diminuiu a velocidade, apenas para aumentar a sede dele. Os batimentos dela ele estava contando, de tão sedento. Por um breve momento, eu não consegui distinguir de quem era o desespero maior. Foi quando ele finalmente abriu a boca, e rapidamente avançou.
– David, não! — Ela berrou.
Era tarde demais.
Eu senti os dentes se aprofundando devagar na pele macia. O corpo todo do lobisomem começou a tremer, naquele segundo. Ele lutava para apertar a mordida e matar Hillary, mas eu não permitia, de jeito ou maneira, que isso acontecesse. A pressão leve dos dentes apenas encostados em seu pescoço era resultado do esforço extremo que ele fazia para me vencer, mas o corpo apenas começou a tremer quando eu consegui chegar ao controle. E isso só foi possível por causa da explosão de sentimentos que aconteceu na fração de segundo em que ele avançou. Eu não ia deixar aquilo terminar daquela maneira. Não podia deixar ele matar Hillary. Eu tinha que lutar. Mais do que lutar, eu tinha que conseguir.
Instável, a cabeça dele ia e voltava, centímetro por centímetro. A briga era forte, e nenhum de nós queria perder. Eu literalmente me sentia como se eu estivesse segurando aquela boca enorme. A garota logo percebeu o que estava acontecendo, e parou de respirar, apenas nos encarando. Então, com esforço, eu desviei o olhar dele para os olhos azuis suplicantes dela. Aquele foi o meu pior erro.
Por um milésimo de segundo, me distraí diante aos olhos mais maravilhosos do mundo. E aquilo foi o suficiente para que, em um movimento rápido que tinha como objetivo pegar sua jugular, com o canino superior esquerdo, ele conseguisse arranhar levemente o colo de Hillary. Um simples arranhão de não mais que dois ou três centímetros, não muito profundo. A julgar pelo grito e o palavrão bem entonado que ela soltou, foi o suficiente. Se não a matei, fiz coisa muito pior. Não demoraria muito para que se tornasse um monstro como eu.
Recuperei meu foco. Com toda a força que tive, fiz o lobisomem a soltar devagar, e sair de cima do corpo dela. Aos poucos, e relutante, ele foi me obedecendo. Mas, ele não se entregaria tão fácil. A largou, mas correu para dentro da floresta, e não consegui freá-lo, mas isso não me impediu de continuar lutando.
Até que em um momento, ele simplesmente parou. Levou suas mãos ao alto da cabeça e como se estivesse tentando desesperadamente me tirar de lá, encravou suas garras e puxou. No mesmo momento, o sangue começou a descer, escorrendo por suas costas. Ele se debateu de um lado para o outro, quebrou árvores enquanto ambos enlouqueciam, tentando pegar o controle absoluto do corpo. Ele era forte demais para mim. Eu não sabia se ia conseguir. Só sabia que não podia parar de tentar.
Ele se agachou então, perto de uma poça. Quando abriu os olhos, a cor vermelha da íris estava em confronto com o meu tom azul acinzentado. Estava funcionando. Faltava muito pouco. Eu tinha ido longe demais para desistir ali. Então, mesmo fraco e esgotado, eu deixei com que meus sentimentos aflorassem, e tomassem conta de mim. Aos poucos, isso foi abrindo um espaço entre nós dois. Depois, eu comecei a contar mentalmente até três, seguindo um padrão de autocontrole.
Respira. Respira. Ruge.
Respira. Respira. Ruge com mais força.
Respira. Respira. E de repente, não tinha mais nada.
A força dele havia sumido. Não havia outra pessoa ali dentro além de mim. Virei a cabeça, assustado. Olhei para minhas mãos, que ainda não haviam voltado à forma normal. A íris dos meus olhos estava completamente azul. Eu estava no controle. O lobisomem, finalmente, era eu.
E se um grito de euforia não é o suficiente para libertar a alma, o rugido ensurdecedor daquela noite, sem dúvida alguma, foi.
Aos poucos, eu comecei a sentir como se eu e ele fôssemos um só. Minha pele se uniu a dele. Nossas almas de repente estavam conectadas. Ele fazia parte de mim, e eu fazia parte dele. Éramos apenas um ser. Não havia mais uma separação entre aquela criatura e eu. E quando eu comecei a sentir aquilo, eu entendi como a licantropia funcionava. O lobisomem era meu daquele momento em diante. A pior parte já tinha passado. E honestamente, quando olhei para o grandalhão mais uma vez, eu não consegui pensar em nada que tornasse ruim a ideia de ter um aliado daquele porte. Se ele e eu finalmente éramos um, ele não mataria. Muito pelo contrário até. O lobisomem era a minha proteção. A minha fonte de poder. A única coisa que poderia ser capaz de salvar a minha vida naquela ilha. Belo brinquedo.
Aos poucos, o meu corpo foi absorvendo o dele. No início, a dor era desconfortável, mas conforme eu ia voltando a minha forma humana, ficava menos pior. Meu corpo se recuperou devagar. O animal foi se prendendo dentro de mim, pronto para ser usado como uma arma. Fomos diminuindo de tamanho, até que a única coisa que sobrou foi o Dave. Agachado no chão, daquela vez completamente nu, com a mão sobre a costela ferida. O sangue no cabelo loiro e nas costas. Mas, com uma vitalidade e uma sede de poder que eu nunca havia sentido igual. Era completamente inexplicável.
Foi quando com a audição super apurada, eu escutei um barulho discreto e contínuo bem familiar. Os intervalos eram mínimos, e o som ecoava em minha mente; era impossível se concentrar em algo mais além daquilo. Passei a mão direita por meu cabelo, o puxando para trás. Logo em seguida, eu levantei e de forma dramática, fui caminhando silenciosamente, colocando as pontas do pé no chão, com os dedos bem abertos e abafando cada passo. Até que, finalmente, consegui enxergar o responsável pelo ruído que me chamou atenção. E quando isso finalmente aconteceu, eu não pude evitar sorrir.
Eram dois híbridos grandes e bem armados, montados em cavalos puro sangue. O som obviamente vinha dos cascos dos animais, exatamente como eu desconfiava. Um deles apresentava a pelagem preta, e o outro, marrom chocolate. Os lagartos conversavam naquela língua estranha de modo discreto. Estavam protegidos com couraças e roupas de algodão. Pareciam preocupados; o tom de voz era baixo e eles evitavam fazer muito barulho. O híbrido com o cavalo negro seguia talvez dois metros à frente. Com certeza, estariam voltando ao palácio. Era tentador demais para que eu deixasse passar...
A roupa do híbrido ficou um tanto larga em mim. O cavalo em que eu estava montado ainda se mostrava inquieto com o recente ataque. Admito que eu não sabia muito bem como controlá-los. A rédea de couro, bem curta, também não me ajudava muito. Foi fácil derrubar os dois e largá-los no meio da floresta; roubando-lhes as roupas, claro. Os animais entretanto eu mantive comigo, um amarrado à sela do outro; sabia que eu ia precisar deles. Inquieto, eu coloquei meu cabelo para frente do rosto, e vesti uma capa escura que encontrei com um dos híbridos que tinha um capuz que seria útil para manter minha identidade em segredo. Não conseguia conter a euforia misturada com a sede de vingança; eu continuava sorrindo feito um bobo, sem motivo aparente. Podia até parecer maluco para qualquer um que olhasse, mas eu realmente não me importava.
Naquela madrugada, passei despercebido pelas poucas criaturas verdes que estavam fora de suas casas. O temperamento calmo dos cavalos me ajudou a manter a discrição. Por sorte, não despertei a curiosidade de nenhuma das criaturas, e por mais que eu tivesse um belo motivo para dizimá-las, eu não pretendia fazer isso. Afinal de contas, atitudes como aquela não me fariam diferente de um lobisomem sem autocontrole. Então, a missão daquela noite era relativamente fácil. Libertar Aidan.
Sem pressa, eu comecei a rodear o castelo com os cavalos. Mal podia acreditar que me aproximei tanto sem ter chamado atenção. Eu olhava para as paredes altas, procurando algo que pudesse apontar onde estava Aidan sem que eu precisasse entrar. Até que alguns belos minutos depois, quando não faltava muito para o amanhecer, eu finalmente encontrei o que estava procurando. A janela cercada com barras de ferro enferrujadas da nossa antiga cela.
Desci com um pulo do cavalo negro e amarrei sua rédea em uma árvore, consideravelmente longe de lá. Então, com os passos leves e ainda discretos, eu caminhei até a parede do castelo. Só então, tirei o capuz do rosto, dando três batidas secas no bloco de pedra.
– Aidan! — Chamei por ele em um tom que mais parecia um sussurro.
Nenhuma resposta.
Peguei uma pequena pedra no chão e arremessei nas barras. O barulho foi considerável.
– Aidan! — Chamei mais uma vez.
Escutei uma leve movimentação lá dentro.
– Quem está ai? — Ele perguntou, assustado.
– David Matlock! Eu vim te tirar daqui, mas você vai ter que confiar em mim!
– Você teve sorte ao sobreviver, Matlock, mas eu não vou me arriscar!
– Eu posso proteger nós dois! Temos que ir agora!
– Ninguém pode nos proteger das criaturas, jovem.
Eu sou muitas coisas. Mas paciente não é uma delas.
Então, pela primeira vez, eu deixei o lobisomem sair. E o poder que ele trazia quase fazia minhas veias pegarem fogo. A transformação não foi desconfortável, no entanto. Aconteceu em uma questão de segundos e eu mal percebi quando meu pequeno corpo deu lugar à aquele ser majestoso.
Com a força correndo em mim, eu pulei até alcançar as barras de ferro da janela. Como se não fosse nada demais, eu as arranquei e as joguei para longe, me segurando fora do chão com a garras presas em uma fenda nas rochas. Com socos abafados, devagar eu fui quebrando as bordas da janela até fazer com que o buraco ficasse grande o suficiente para que eu pudesse passar (porque com certeza Aidan não ia sair com um lobisomem por livre e espontânea vontade). Obviamente, ele ficou apavorado quando me viu. Só não tão apavorado quanto quando eu entrei na cela, segurei-o pelas roupas, e saí novamente pela janela, passando com cuidado para não machucar nenhum de nós dois.
Quando eu coloquei Aidan no chão, do lado de fora do castelo, no mesmo momento ele começou a correr. Demais. Mas, antes que ele se afastasse, eu passei sua frente, fechando o caminho. Assustado, ele caiu sentado nas folhas amarronzadas. Seus olhos se arregalaram de tal modo que eu cheguei a ficar com pena. Ele tentou recuar, sentado no chão, se empurrando com os pés e com as mãos. O pobre coitado estava apavorado. Então, eu voltei a minha forma humana. A primeira surpresa que tive foi ver minhas roupas intactas. Como se meu corpo as tivesse absorvido quando fiz a transformação. Menos mal. Assim eu não perderia tantas mudas. Aidan ficou completamente sem reação.
– E-eu... N-não... Acredito... — Ele tentou dizer.
– Pois é, eu também não achei que fosse possível. — Sorri. — Mas, aconteceu. E não foi nada fácil.
– D-David, eu...
– Não precisa agradecer, Aidan. Mas temos que sair daqui logo, antes que as lagartixas voltem. Os cavalos já estão prontos.
– Por que fez isso, David?
Eu pensei por um segundo.
– A minha vida não é mais importante que a sua. E eu não ia deixar que passasse a eternidade no calabouço de um bando de lagartos abusados.
Aidan sorriu timidamente.
– Obrigado Dave.
Eu sorri então.
Aidan e eu fomos cavalgando com elegância pela floresta que aos poucos, ia sendo tocada pela luz fraca do sol das primeiras horas do dia. A todo o momento, eu colocava o cabelo para cima. A hiperatividade era apenas mais uma prova da preocupação que ia tomando conta de mim, cada vez com mais intensidade. Eu não sabia onde estava Hillary, e nem o que havia acontecido com ela. Não podia evitar pensar no pior. Daria qualquer coisa para saber o que estava acontecendo com ela naquele exato momento. E desejava de todo o coração que ela não tivesse o mesmo pensamento suicida que eu tive.
– Hey Dave, eu vou por aqui. Obrigado por ter me ajudado. — Disse Aidan, apontando o desvio na trilha.
– Não se preocupe. Até a próxima.
– Se cuide, meu jovem. Eu devolvo seu cavalo depois.
Então, ele seguiu com o animal marrom. Quando fiquei sozinho, eu aumentei o ritmo. Sem poder mais esperar, eu dava fortes pancadas com o calcanhar na barriga do cavalo. O animal estava dando o máximo de si quando eu notei. Eu não conseguia pensar em mais nada. Eu tinha que saber de Hillary.
Quando cheguei à casa da árvore, eu larguei o enorme animal negro dentro do cercado, e subi as escadas praticamente voando. Agarrei no corrimão, e me puxando com os braços, eu dava pulos de mais de três degraus. Corri os poucos metros da plataforma, e chutei a porta com força. O estrondo foi inevitável. Porém, em vão. Eu caminhei por toda a casa; fria e silenciosa. O ar lá dentro parecia pesado. Estava escuro. E, para piorar, não havia nada ali dentro. Hillary não estava lá. E eu não tinha como saber em que buraco havia se enfiado.
Mas eu não descansaria até encontrar.
Passaram-se quatro dias. Eu só voltava à casa da árvore para dormir, e ainda assim, isso não durava três horas. Eu não conseguia encontrar nenhum rastro dela. Não tinha cheiro no ar, não havia pegadas e nenhum outro tipo de pistas. A cada hora que se passava, mais eu me conformava que ela poderia estar morta. Mas, eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Não podia entender que eu a tinha perdido antes de finalmente tê-la. Ela não voltaria, e eu não a acharia. Era difícil acreditar, mas essa parecia ser a verdade. Havia uma grande possibilidade dela não ter resistido.
Em pleno fim de tarde, eu voltei para casa, depois de mais um dia cheio de tentativas frustradas. A temperatura estava baixa. A lua ia ao céu aos poucos, enquanto a cada minuto que se passava, eu ficava pior.
Eu decidi não subir. Apenas me instalei como ela havia feito comigo: me sentei no chão, com as costas encostadas na velha árvore que segurava nossa casa. Derrotado, eu abracei os joelhos, e abaixei a cabeça. Algumas lágrimas desceram, levando com elas toda a dor de perdê-la. Eu passei a mão por meu rosto, tentando me confortar, mas eu não conseguia. Eu estava completamente sozinho naquela ilha. E mesmo que tivesse mais alguém, eu não me importaria. Hillary não estava, e ela era a única que valia a pena.
A noite caiu e eu mantive minha posição, sem conseguir me livrar dos pensamentos que me deixaram preso ali. O sorriso dela, a voz dela, os olhos dela... Principalmente os olhos. Não existia nada mais intenso do que o olhar dela. E até mesmo lembrar do tal namorado dela me fazia sentir falta. Eu não podia ter me distraído naquela noite. Hillary não merecia a maldição que eu dei a ela. Aliás, ela não merecia ter acabado como acabou. E o pior de tudo era saber, bem lá no fundo, que aquilo não passava de culpa minha. Se ela realmente estivesse morta, a culpa seria só minha e de mais ninguém.
De repente, uma coisa interrompeu minha linha de raciocínio. Havia um cheiro estranho no ar. Algo que eu nunca havia sentido antes, mas ao mesmo tempo soava familiar. Curioso, fui respirando cada vez mais fundo, tentando me recordar de onde aquilo poderia estar vindo. Até que um breve momento depois, eu escutei um leve rosnado. No mesmo instante, meus olhos se abriram.
Do outro lado da cerca, havia uma criatura. Estava agachado, perfeitamente parado, me encarando. Postura impecável. Mal parecia se mover, de tão quieto que estava. O batimento cardíaco era sutil, e ele não demostrava muito suas emoções. Era coberto por uma pelagem em tom de avelã e os pelos mais longos estavam concentrados na região do pescoço. Um lobisomem perfeitamente desenhado. Porte grande, forte e jovem. Talvez um dos mais poderosos que eu encontraria. E ele tinha um diferencial. Justamente, o que me chamou mais atenção, e a única coisa que me fez sorrir diante àquela situação.
Os olhos dele eram azuis. Uma íris perfeitamente azulada, em um tom que lembrava o oceano. Algo intenso, sólido, e capaz de gerar as mais diversas sensações em qualquer pessoa. Tão azuis que chegava a ser incômodo. Tão azuis que pareciam poder olhar para minha alma. No mesmo momento, eu me levantei, apoiando meu peso na madeira. Ele, no entanto, permaneceu imóvel. Quer dizer, ele não. Ela.
Então, devagar, o lobisomem foi ficando menor. Rapidamente, o corpo do lobo de dois metros e vinte deu lugar a um frágil corpo de um e setenta. A pelagem avelã se transformou em pele branca, macia e sedosa. Os cabelos negros chicoteando pelo ar, que ela fez questão de puxar para o lado. A boca grossa, definida, e em um rosado que me tentava cada vez mais deixou logo um sorriso largo e feliz surgir. Algo tão quente que poderia derreter o coração mais frio. Os olhos azuis, acompanhados com a sobrancelha angulosa e arqueada, dando o mesmo tom enlouquecedor ao olhar dela que eu sempre gostei tanto. Simplesmente perfeita. Não tinha outro modo de descrever. E Hillary parecia ainda mais bonita, mesmo que talvez isso não fosse possível.
– Qual é, crepúsculo? — caçoou, sorridente.
Eu sorri, estupefato. Ela estava de volta.
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