Fallacy - Pride
12 Carne Fraca Não Se Provoca
Um suspiro longo e entediado me fez perceber que a noite já havia acabado. E imediatamente, uma corrente de ar frio me fez ter uma ideia de como o tempo lá fora devia estar. Sem abrir os olhos, eu sabia que ia chover em menos de uma hora; eu podia sentir o cheiro. O barulho estrondante dos trovões lá fora foi que me acordou definitivamente. Por um segundo breve, antes de recuperar a consciência total, eu achei que ainda estava na Inglaterra.
Abri os olhos devagar. O dia estava estranhamente escuro naquela manhã. Antes de levantar, minha mão desceu delicadamente pelo colchão. Eu me concentrei em casa toque suave quase como se aquilo fosse realmente relevante. O som de minha pele deslizando pelo algodão me chamou a atenção de alguma maneira. Até que eu finalmente tentei virar de barriga para cima, mas minhas costas se chocaram em alguma coisa. Me virei, assustado e ao mesmo tempo curioso. E mais uma vez a imagem da tentação encarnada me encheu os olhos, logo pela manhã.
Hillary estava parcialmente sentada na cama, com as costas afundadas nos travesseiros, lendo um livro de Stephen King. Os cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo no alto de sua cabeça. Eu acompanhei os olhos em um tom fortemente acinzentado seguindo as linhas de palavras. Estava curiosa, e alguma coisa no exemplar prendia a sua atenção. Hillary usava uma camisa social branca que eu conhecia muito bem. Estava visivelmente larga nela, as mangas estavam dobradas na altura de seus cotovelos e os três primeiros botões, desabotoados. A peça Calvin Klein foi uma prenda que Harry teve que pagar por ter apostado uma garota comigo. Me deu quatro dias para fazê-la dormir comigo. Eu fiz em duas horas e quarenta e oito minutos.
As pernas de Hillary estavam cobertas pelo mesmo lençol que eu estava usando. Foi quando eu decidi puxá-lo para chamar sua atenção. Ela nem se mexeu. Continuou focada no livro que lia. Eu, por outro lado, realmente acreditei que tinha morrido e ido para o céu.
Aquela mesma morena estonteante estava apenas de calcinha. As pernas cruzadas debaixo do cobertor, ligeiramente dobradas. A peça era preta, e tinha a borda branca. Não era grande demais, mas eu realmente desejei que fosse menor. E realmente podia ser. Agoniada com o livro, ela nem se quer olhou para mim; apenas virou a página furiosamente.
– Você é uma ironia ambulante, sabia srta. Williams?
– Agora não, Matlock. Ainda não me preparei para minha dose diária de você. — Ela não desviou o olhar.
– Posso saber por que você colocou minha camisa e está lendo um livro de calcinha ao meu lado, na cama?
– Não é uma calcinha, é um micro short. E eu estava coberta até você puxar o cobertor. — Ela virou a página mais uma vez.
Eu sorri.
– Pode por gentileza largar o Stephen King por dois minutos e me dar atenção?
– Você não é nenhuma criança para precisar de atenção o tempo todo, David.
Bufei.
– Te dou três segundos para olhar para mim. Um, dois...
Hillary não parecia se intimidar com aquele tipo de ameaça. Ainda me ignorava completamente, exatamente como se estivesse sozinha no quarto. Ela provavelmente ainda não conhecia o lado implicante da minha pessoa.
Em um movimento extraordinariamente rápido, eu peguei o livro das mãos de Hillary e o coloquei no chão, do meu lado na cama. Quando ela me encarou com ódio, eu apenas sorri como se o mundo fosse acabar e aquela fosse minha última oportunidade. Depois, eu a segurei pela pulso e a joguei na cama, deitada. A expressão séria rapidamente se transformou em uma gargalhada leve e descontraída. Eu segurei seus braços contra o colchão e prendi seu corpo com minhas pernas, a obrigando a me encarar, ainda com o sorriso no rosto.
– Eu só queria te dar bom dia. — Eu disse. Ela riu alto.
– Vá à merda! — Ela chiou. Eu ri.
– Ô paradoxo com pernas, me diga o que você está vendo no meu pescoço.
Hillary começou a rir repetidas vezes, tentando se soltar.
– Pele! — Nós rimos.
– Você é impossível... — Ela sorriu mais. — O que tem na pele?
– Um hematoma.
– Isso foi o seu chupão, sua metida.
– Mentira! — Ela riu. — É uma picada de abelha!
Sem aguentar com Hillary e suas manhas, eu me deitei, gargalhando. Ela se soltou, e como mais uma prova da enorme ironia que era, ela jogou seu braço para cima do meu peito e sua perna para o vão entre as minhas, enganchando minha pantorrilha com seu pé. Quando eu deitei a cabeça no colchão para encará-la, ela pressionou os lábios contra os meus com força. Depois, um sorriso incompreendido. Complexa demais para qualquer mente entender.
Meus dedos delicadamente passearam por seu rosto, enquanto nos encarávamos. Os cílios longos e negros deixavam seu olhar mais tentador ainda. Hillary devagar ia conseguindo fazer com que eu me importasse. Aos poucos, ia me fazendo entender que ela conseguia ser tão interessante internamente quanto externamente. E aquele sentimento me assustava, de certo modo. De repente, me vi disposto a fazer qualquer coisa por ela. Quis protegê-la, e tê-la apenas para mim. Inesperadamente, me apeguei. Senti meu coração batendo mais forte. E um breve segundo após isso, me envolvi em uma contradição. Comecei a acreditar que não tinha mais coração, pois o meu estava nas mãos dela.
– Como se sente? — Perguntei, baixo.
– Bem, por que?
– Não... Em relação a mim.
Hillary ergueu uma de suas sobrancelhas, curiosa.
– Completamente morta.
– Por que? — Perguntei.
– Porque meu instinto diz para ficar longe, mas meu coração é burro o suficiente para me manter perto de você.
Sorri levemente.
– Às vezes me sinto vulnerável... — Eu sussurrei.
– Vulnerável? Você? — Ela sorriu ironicamente.
– Eu não estou acostumado a sentir... E de repente você toma de mim algo que eu nem mesmo que sabia que tinha.
Hillary sorriu.
– Será que o sr. Todo-Poderoso está amolecendo? — Ela zombou, rindo baixo.
– Talvez a srta. Eu-Nunca-Vou-Gostar-De-Você tenha perdido o foco antes.
Hillary passou a mão delicadamente em meu cabelo, sem deixar de me encarar com aquele maravilhoso par de olhos em um incomum tom cinza claro naquela nublada manhã.
– Talvez ela tivesse gostado no primeiro momento. Só tinha medo de confiar. — Hillary sussurrou.
– E confia agora? — Perguntei.
– E você confia nela? — Ela sorriu levemente com o canto da boca.
– De olhos bem fechados. — Eu sorri. — O que eu tenho por ela vai além da atração. Eu acho que estou me apaixonando por ela.
– E ela por você.
De repente, mais uma vez nossos lábios se tocaram. Com o mesmo prazer e tentação da primeira vez que isso aconteceu. Movimentos leves, suaves, como se quiséssemos provocar um ao outro até que perdêssemos o controle. O que eu honestamente não julgava difícil de acontecer tendo em vista que era Hillary que estava comigo, e a maneira com que estava vestida. E novamente, minhas mãos passearem por suas pernas até que chegassem ao seu quadril. Ela sorriu levemente antes de me beijar outra vez. Como podia alguém ser tão ridiculamente perfeita?
Quando dei por mim, a borda de sua camisa estava sendo tocada levemente por minha mão. Devagar, eu passei os dedos por entre as duas partes da blusa, e com delicadeza, desabotoei o primeiro botão. Hillary no mesmo instante parou de me beijar e riu debochadamente.
– Você sempre vai querer ir rápido demais, não é? — Ela perguntou.
– Você disse primeira noite. Hoje é o segundo dia. O que eu tenho a perder por tentar? — Sorri.
– E me entregar tão fácil assim a você e deixar de ver o se desespero para tentar transar comigo? — Ela sorriu. — Não é o meu estilo, Dave.
– Se você quer, eu posso tentar, ora bolas. Uma hora vai funcionar. — Pisquei com um dos olhos.
– Talvez. Mas vai ser na hora que eu quiser. E eu sou muito boa em resistir à tentações.
– Você nunca teve David Matlock como uma tentação, então devo dizer que você apenas acha que é boa. Aliás, se quer um conselho, acho bom ir do meu jeito... Você sabe que eu costumo partir para outras.
– Não estou preocupada. Não há nada além de árvores e um número considerável de répteis nessa ilha. Nada daqui poderia tirar seu interesse em mim. Aliás, acho difícil até mesmo na Inglaterra.
Sorri com o canto da boca.
– Tenho que concordar. Nada vai tirar meus olhos de você. Nem mesmo na Inglaterra.
– Então vamos fazer do meu jeito.
– Ainda tenho esperança que mais cedo ou mais tarde você vai ceder a mim. Sabemos que a vontade não é só minha.
Ela me beijou levemente.
– Não quero acabar com minha brincadeira, colocando na sua cabeça que não vai acontecer. Então, apenas pense que vai. Não deixe de tentar. Uma hora, eu posso estar de bom humor e acabar cedendo...
– E ai eu acabo com você. — Mordi o lábio inferior. Ela abaixou as sobrancelhas de um modo provocante.
– Veremos quem vai acabar com quem.
Hillary puxou meu rosto de encontro ao dela fazendo nossos lábios se tocarem mais uma vez. Depois, sua cabeça se enterrou em meu peito, e eu passei meu braço sobre ela, a envolvendo. Devagar, fechei meus olhos, mais uma vez me entregando completamente a ela. O jeito com que ela me dominava me assustava demais. Sempre brincando, sempre provocando e seduzindo. Era o tipo de garota que eu vinha procurando desde meu primeiro beijo.
– Socorro!
No mesmo instante, levantei a cabeça, atento. Hillary, deitada em meu peito e quase pegando no sono deu um pulo quando eu me levantei de maneira tão brusca. Aquele grito não foi uma ilusão. Eu tinha certeza de que havia escutado, assim como tinha certeza de que não era a voz de Hillary. Aquilo penetrou em minha mente de maneira intensa, e rapidamente tomou conta de mim. Tinha alguém em perigo; eu podia sentir isso de alguma forma. E não pude me conter naquela cama nem por mais um momento.
– Ouviu isso? — Perguntei a Hillary.
– Ouvi o quê?
– Um grito. Uma mulher pedindo ajuda.
– Pelo amor de Deus, David. Não há mulheres aqui. — Hillary disse, meio sonolenta. — Pode por favor se deitar e deixar que eu durma?
– Hill, eu sei que tem alguma coisa lá fora. Eu ouvi.
– Devia estar sonhando, Matlock. Relaxe e descanse. — Ela tentou me puxar de volta.
– Não. É impossível. Eu vou checar. Você fica aqui e me espera voltar.
– Claro, porque se fosse o grito de um homem você deixava morrer. — Ela ironizou. — Não demore.
Eu peguei uma jaqueta preta em cima de um sofá na sala e vesti. Depois, rapidamente saí de casa e desci as escadas correndo. Aquilo foi realmente estranho. Tinha alguma coisa errada acontecendo e eu sabia disso.
Antes de passar pela cerca de arame farpado, eu fitei os dois cavalos que ainda estavam ali dentro. Os animais ainda ficavam agitados com minha presença. Eu usaria um deles se não estivesse com tanta pressa. De alguma forma, a cada segundo que se passava, mais eu sentia que uma coisa ruim estava para acontecer. Eu nem mesmo sabia se o grito era real mas de alguma forma, eu sentia. Quase como se tivesse uma forte ligação com a dona, por mais que nunca tenha a visto. Nunca senti algo tão esquisito e inexplicável antes.
Eu corri por alguns metros floresta à dentro, sem saber direito o que eu estava procurando. Eu fitei os cantos, atento a qualquer barulho. Até que, de repente, algo rápido se moveu talvez uns quinze metros a minha direita. Não tinha a intenção de me machucar, mas ainda assim chamou minha atenção. Curioso e cauteloso, eu segui para aquela direção com passos curtos, nas pontas dos pés. Até que finalmente descobrir do que se tratava.
Era um bando com seis Velociraptores. Estavam hostis, e rodeando alguma coisa que no primeiro instante eu não consegui ver. Faziam barulhos bizarros e se preparavam para atacar. Mas, alguma força me deu a curiosidade de dar mais um passo a frente, ao invés de desconsiderar o comportamento natural das criaturas, como eu faria. E aquela curiosidade que no início pareceu ingênua de repente teve uma importância sem igual.
Tinha uma garota no meio da roda. Estava estirada no chão, sangrando e coberta de ferimentos e hematomas. Continuava respirando, mas não ia durar muito tempo. Eu não tive como pensar no que fazer. Em um segundo, eu estava observando as lagartixas, e no outro, lá estava eu no meio da roda, tentando protegê-la. Os braços abertos e a postura firme fizeram o bando recuar. Mas, eles apenas se retiraram quando meus olhos mudaram de cor, denunciando que eu estava prestes a fazer minha transformação. Em meio segundo, todos fugiram e apenas deixaram a poeira no ar.
A garota cobria seu rosto com seu braço direito, deitada de lado no chão. Estava fraca, desacordada e praticamente à beira da morte. Aquilo me fez perceber que salvá-la do ataque não seria o suficiente. Se eu realmente quisesse que ela sobrevivesse, eu teria que levá-la comigo e ajudá-la a se recuperar. Bufei com ironia, observando a menina. Eu mal tinha começado com Hillary e já ia arrumar um problema daquela porte.
Quando eu tirei seu braço de seu rosto e coloquei seu corpo virado para cima, em um instante, fiquei abismado. Problema de porte muito, muito grande. A tal menina tinha talvez um metro e setenta, e vestia roupas de couro medievais com costura em X, misturada com pele de animais. A parte de cima mais parecia um espartilho de guerra, ou algo do tipo. E eu não pude negar que a tomara-que-caia ousada chamou minha atenção para o belo par de seios. Aliás, que corpo ela tinha. A cintura era fina, e a barriga, chapada. As linhas eram leves e extremamente provocantes. O quadril era mais largo; as pernas enormes e definidas, do jeito que eu gostava. Pele branca como neve, macia e suave. E quando eu achei que não poderia ficar pior, eu percebi que estava ridiculamente enganado. Foi no momento em que eu olhei para seu rosto.
O cabelo longo e sedoso, em um tom forte de loiro; dourado, quase como se emitisse luz própria. Era liso na raiz, mas quando chegava mais ou menos na metade, formava cachos grossos, soltos e aveludados, descendo pelas suas costas. Eram perfeitamente sincronizados, e não havia um fio fora do lugar. O cabelo dela era inacreditável. Absolutamente hidratado e ridiculamente bem cuidado. Os lábios dela era rosas, grossos, e perfeitamente definidos. O formato dos olhos era completamente proporcional e sem defeitos, e ainda ganhava destaque com as sobrancelhas razoavelmente grossas e arqueadas. Nariz pequeno e delicado, dando perfeita harmonia a um dos rostos mais belos que eu já havia visto. Aquela menina era comparável a Hillary. Eu não sabia nem que tal coisa era possível. E sim, ela continuava suja e coberta de sangue.
Ao mesmo tempo assombrado com a beleza da loira e agoniado pelo tamanho do discurso que eu ia te que ouvir quando chegasse em casa, eu segurei sua cintura e suas pernas, tirando-a do chão. Enquanto caminhava com ela pela floresta, tentava me acalmar. Não haveria uma maneira de Hillary acreditar que eu mal havia notado a aparência dela. Aquela menina era sobre humana, era inacreditavelmente perfeita. Mais parecia uma boneca de porcelana viva. Cada traço de seu rosto era maravilhoso. Eu não queria nem imaginar o que aconteceria quando ela abrisse os olhos.
– Ela tem que ser casada, ou no mínimo ter um namorado. — Eu sussurrei para mim mesmo, tentando me confortar. — Pelo menos alguma vez na vida, alguém lá de cima tem que me ajudar.
E com aquele anjo caído nos braços, eu caminhei. Seu rosto estava completamente enterrado em meu peito. Receber uma surra de palavras de Hillary não era uma possibilidade, era uma certeza. E enquanto eu andava com a menina, eu nem tive o trabalho de tentar me enganar, dizendo que nada demais aconteceria. Apenas gastei meu tempo me preparando psicologicamente para a fúria dela.
Com as mãos ocupadas, eu chutei a porta da casa da árvore. O barulho no mesmo instante alertou Hillary, que deu um pequeno grito. Eu bufei, revirando os olhos e balançando a cabeça negativamente. Era claro que ela tinha que se assustar com a porta batendo. Para minha surpresa, a garota em meu colo mexeu a cabeça discretamente. Pelo menos eu tinha certeza de que ainda estava viva.
– Hillary, pode vir aqui por um instante? — Eu chamei, fazendo malabarismo para fechar a porta com os pés mais uma vez.
Eu notei quando ela colocou os pés no chão de madeira. Assim como contei cada passo que deu, com os olhos fechados. Respirei fundo, tentando me manter calmo. Eu estava consideravelmente pronto para receber uma das mais belas broncas da minha vida.
– O que você... — Hillary vinha perguntando, mas de repente ela parou de falar, se interrompendo. Seus passos também pararam. Eu escutei sua respiração mudar discretamente. Então, finalmente ela trocou a pergunta. — Mas que diabos você acha que está fazendo?
– Hey, vamos com calma! Eu avisei que tinha alguém em perigo lá fora.
– Mas você não disse que ia trazer esse alguém para dentro de casa! — Seu tom se exaltou. — Tem ideia do perigo que está nos expondo?
– Ela está morrendo, Hillary. Não me interessa o perigo que ela pode representar a nós; se nos ameaçar podemos matá-la, mas se for pura não podemos dar a vida a ela.
– Isso pode ser uma armadilha, Matlock! — Ela berrou, apertando seus dedos com força.
– Ela pode ser apenas uma garota normal, Williams! Eu já disse que se for perigosa, eu assumo o compromisso de matá-la. Mas eu não fui feito para ignorar quem precisa de ajuda.
– Quer saber? Faça o que quiser. Eu não quero me irritar por causa de uma estupidez sua. — Hillary deu as costas. — E se você quiser, limpe os ferimentos. Eu estou fora. — Ela encerrou, berrando para mim.
Com Hillary irritadiça e presa dentro do quarto, eu deitei a mulher em nosso sofá, de barriga para cima. Com a ponta dos dedos, tirei o cabelo loiro do rosto dela, e o puxei para trás da orelha. Mais uma vez, me vi sem ar diante àquela menina. Os traços angelicais e harmoniosos eram inacreditáveis. Ela era diferente de tudo que eu já havia visto. Ela respirava de modo lento e fundo.
Com um pano molhado, eu limpei seu rosto. Suavemente, eu contornava cada linha como se estivesse desenhando-a. Sentado ao seu lado, me perdi completamente nela. Eu ainda não conseguia crer na beleza daquela jovem. Era o exato tipo de mulher que David Matlock jamais deixaria passar, não interessa o tamanho que esforço que ele ia ter que fazer. Sorri sem perceber, pensando nesse tipo de coisa. Mas, meus olhos apenas conseguiam se manter nela.
Depois de alguns minutos, eu terminei. E exatamente como eu imaginei que seria, quando estava finalmente limpa, era difícil acreditar que fosse mortal. De novo, me peguei a comparando com Hillary. E logo em seguida, me perguntei quanto tempo eu poderia sobreviver com aquela duas dentro de casa.
– Dave?
A voz dela me tirou de um transe. Assustado, meus olhos rapidamente encontraram os de Hillary, suplicantes, de pé a alguns metros de mim e da tal garota.
– Menos irritada? — Perguntei.
– Eu acho que sim... Eu andei pensando sobre isso e você está certo. Não valeria a pena arriscar a vida de alguém em uma teoria.
– Ela não corre perigo de vida. A respiração está normal, o batimento está perfeito e não tem ossos quebrados. Parece que ela tem sorte. — Sorri, segurando a mão fina da garota deitada ao meu lado.
– E o que estava acontecendo quando a encontrou?
– Era um ataque de Raptors... Mas os ferimentos dela não são disso. — Eu comentei.
Hillary se aproximou devagar.
– Hm... E ela é o quê? Amazona? — Ela ironizou.
– Não venha com esse tipo de pergunta, Hillary. Eu sei tanto quanto você. — Nós rimos.
– Mas você a encontrou, não eu. — Ela sorriu. — Ela é bem bonita, não acha?
Engoli em seco.
– Sério? Nem notei. — As palavras pularam em um falsete fino e esquisito. Hillary riu alto.
– Não seja cínico, você notou sim. E só para constar, eu não me importo. Eu particularmente acho as morenas muito mais interessantes que as loiras.
Eu ri baixo, ainda fitando a garota.
– Bem... Duas horas atrás nós achávamos que não havia mulheres na ilha. Agora me aparece uma com uma roupa super sexy, e que tem risco de ser amazona. Se for, você sabe que de onde veio essa, tem mais. E eu adoraria ir lá checar.
– E você acha que não vamos se isso acontecer? Temos que devolvê-la para onde quer que ela tenha vindo. Ou você achou que ela ia ficar conosco? — Hillary perguntou.
– Eu tinha esperanças. — Nós rimos.
Hillary então se aproximou de mim e deu um leve beijo na minha bochecha. Eu segurei o rosto dela delicadamente e toquei os seus lábios com os meus, com extrema suavidade. Ela sorriu depois. Por mais que fosse comparável, ela não era mais bonita que Hillary. Aliás, nada era, e nem poderia ser. A minha quase-namorada era a criatura mais perfeita da Terra.
De repente, eu senti algo e mexer no sofá. Hillary e eu rapidamente voltamos nossas atenções à menina. Foi quando devagar, ela mexeu o pescoço mais uma vez. Apertou os olhos com força e gemeu baixo. Finalmente, estava acordando.
– Hey... — Eu disse em um tom baixo. Ela enterrou a cabeça mais ainda nos travesseiros.
– Onde eu estou? — Ela sussurrou. Que voz. Nunca ouvi nada tão provocante. Algo me dizia que aquilo não ia dar certo.
– Você está segura, agora. Não está mais na floresta. — Eu respondi.
– Quem é você? — Ela se moveu de modo brusco.
– Um amigo. Você está na minha casa. Eu te trouxe para cá porque estava prestes a ser morta por um bando de dinossauros.
Então, novamente me vi assombrado. Ela abriu os olhos. E não existia nada parecido com a cor da íris dela. Primeiro ela piscou, desorientada, mas logo que se encontrou, eu me perdi. Seus olhos não eram castanhos, nem verdes, nem amarelos, ou qualquer outra cor. Eram azuis violeta. E, tendo em vista o fato de que eu era um amante de olhos declarado, aquilo não foi nada bom. Uma cor única, que eu nem mesmo sabia que existia. Me vi completamente paralisado, esquecendo inteiramente de Hillary por um breve momento. Era impossível que aquela menina tivesse saído de algum lugar além dos meus mais doces sonhos.
Então, seu olhar encontrou o meu. Em um instante, sua expressão mudou. De desorientada, passou para chocada e completamente perdida em seus pensamentos, tendo como foco apenas a mim. De repente, eu senti alguma coisa me puxando para ela. O planeta parecia ter parado de girar. A loira mal piscava enquanto me encarava de tão perto. Tímida e brevemente, fitou meus lábios. Por um momento, achei que o mundo era apenas nosso. Eu não entendi o que aconteceu naquele primeiro olhar. Mas apenas uma segundo seria necessário para que eu estragasse tudo.
– Como se chama? — Eu perguntei.
– Claire. — Ela sorriu timidamente. — Claire Mackenzie.
– E de onde veio, srta. Mackenzie? — Meu tom era baixo, e isso só deu mais confiança ainda a ela.
– Aldeia das Amazonas.
Hillary irradiou, chamando a atenção da loira pela primeira vez. Foi apenas naquele momento que Claire se deu conta de que havia alguém mais além de nós dois naquela sala.
– Eu te disse que ela era amazona.
– Stripper ela provavelmente não seria. — Nós rimos baixo. — E o que aconteceu com você, Claire?
– Eu fui expulsa como um cachorro doente. — Ela respondeu, se ajeitando no sofá.
– Mas uma amazona não deveria saber se defender? — Hillary perguntou.
– Nós sabemos. Mas experimente lutar depois de ser espancada até ficar inconsciente. É mais difícil do que parece.
– Mas por que elas fizeram isso com você? — Eu perguntei.
– Não acha que está fazendo muitas perguntas? Eu nem mesmo sei o nome de vocês dois.
Hillary riu ironicamente.
– Muito bem, você está certa. Me desculpe por meu descuido. Eu sou David Goldberg Campbell Matlock e essa é Hillary Hapsburg Williams. — Ela riu da minha formalidade. — Sofremos um acidente de avião e caímos nessa ilha.
– Para onde iam quando o avião caiu? — Ela perguntou.
– Hillary e eu estávamos viajando à trabalho.
– Então vocês são só colegas de trabalho?
– Ahn...
– Não. — Hillary me interrompeu, enfatizando. — Dave e eu estamos juntos.
Claire bufou.
– Sério? Eu chutaria que vocês eram irmãos antes de dizer que estavam juntos. Não percebi química entre vocês dois.
Hillary levantou uma de suas sobrancelhas e franziu o canto dos lábios com aquele comentário. Obviamente, não havia ficado nada feliz.
– Então, Claire... Eu acho que você devia descansar mais uma noite para se recuperar. — Eu estranhei o modo com que ela mudou de assunto. — Dave e eu vamos dormir e deixar você quieta. Se você preferir, tem uma cama no quarto ao lado do nosso.
– Obrigada pela preocupação Hayley, mas eu estou confortável aqui.
Hayley? Simplesmente congelei. Não tive coragem de olhar para a expressão de Hillary. Por um breve momento, eu cheguei a fitar o horizonte pela janela, procurando uma montanha bem alta para eu me abrigar.
– É Hillary. — Ela sorriu ironicamente. — Queria eu fazer sucesso como a Hayley Williams, mas eu sou a Hillary. Não a Hayley.
– Hey, posso falar com você por um segundo? — Eu pedi a Hillary.
– Pode não. Deve.
Hillary e eu fomos para o quarto com os passos apertados. O modo com que ela batia os pés com força na madeira já denunciava muita coisa sobre seu estado de espírito. Talvez no fundo eu soubesse que aquilo não ia dar certo. Percebi isso no segundo em que se olharam.
Quando entramos no quarto, Hillary fechou a porta com força.
– Ela está debochando de nós dois. — Ela disse.
– Não. De mim não. Só de você. — Sorri.
– Não interessa. Eu a quero fora daqui o mais rápido possível. Assim que melhorar, nós vamos até a Aldeia e fazer com que ela fique por lá.
– Hill, está exagerando...
– Não me chame de Hill. — Ela rosnou. — E não conte sobre os lobos.
– Eu não pretendia...
– Acho bom. — Ela me interrompeu. — Eu vou deitar. Espero que você venha logo.
– Não se preocupe, não vou demorar.
Hillary virou de costas e se deitou na cama. Eu rapidamente abri a porta e segui até a sala, onde Claire estava deitada, fitando o teto. A expressão vazia e perdida a dava um ar inocente. Continuava maravilhosa.
– Ahn... Eu vou dormir. Você precisa de alguma coisa? Um cobertor, água, comida...
– Na verdade, eu queria conversar um pouco com você antes de dormir. Está tudo bem ou a histérica veria um problema onde não tem?
Não pude evitar rir com o senso de humor de Claire. E, me vendo rir de sua piada, ela finalmente deixou seu sorriso aparecer. Um sorriso maravilhoso, devo dizer. Os dentes alinhados e suaves. E ela tinha covinhas nas bochechas. Que gracinha.
– E-eu tenho certeza de que Hillary irá compreender perfeitamente.
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