Fall days
1 Capítulo 1
Estávamos sentados na areia úmida e fresca da praia. Estava anoitecendo, o Sol se punha ao horizonte. Não havia mais nada na praia além de nós dois. O céu estava limpo e os raios alaranjados do Sol infestavam-no, era de uma beleza enorme. Quase tão belo quanto Jenna, que estava sentada ao meu lado. Ela não usava uma roupa muito requintada, como seria de costume às mulheres de sua idade, só uma blusa púrpura que ressaltava seus olhos verdes, com uma calça preta igual ao seu cabelo. Ela era de uma beleza inexplicável para vocês, me foi uma das melhores que coisa que já aconteceram.
Nós dois olhávamos para o mar, o singelo movimento das ondas. Subindo e descendo. Vindo e indo. Vez por outra tocava nossos pés. Não sei por quanto tempo permanecemos calados. Talvez um minuto, talvez meia hora, eu realmente havia perdido qualquer noção do tempo. Só sei que quando me dei conta, as estrelas já haviam preenchido o céu. Cintilavam como o fogo ardente, em meio à escuridão. O luar nos iluminava. A pele dela brilhava com a luz do luar.— Toque mais uma vez, alguma coisa. -pediu ela sem mudar o foco de onde olhava. Fiz o que ela pediu e peguei o cistre que havia levado, a pouco tinha recomeçado a toca-lo. Depois de algumas afinações e de familiarizar com a posição, comecei a tocar. Primeiro "Sir. Lore & e Lady Lackless" uma canção de amor, sobre um cavaleiro que saíra para lutar, com a promessa de voltar, Jenna fez os coros femininos. Depois fui para "The days that never come", logo após algumas de minha autoria. Também toquei clássicas de menestréis, como coros a reis e cavaleiros. Jenna cantava todas as partes que sabia junto de mim. Era a melhor plateia e ouvinte que alguém poderia esperar para sua música.— O que será que nos espera? — perguntou ela.— Sinceramente, não sei. Mas esqueça disso.— Como posso esquecer isso John? Não… não tem como. Não é como se eu estivesse gripada e fosse me curar amanhã. — ela quase vociferou essa última frase, sua voz estava preenchida de tristeza e angústia. Percebi que também começara a chorar.— Jenna, vai ficar tudo bem. — disse tentando não ficar com a voz trêmula. — acredite em mim, nós vamos sair dessa, você só não pode desistir.— John, não tente enganar a si mesmo — sua voz estava carregada por causa do choro. – nós dois sabemos que não tenho mais do que uma semana...— Não, fique quieta, isso é mentira — disse mais alto, mas não gritando. — lembra, lembra-se de nossa promessa? Nunca estaríamos sozinhos, onde estiver um…— Estará o outro… — completou, ela. — É por isso que eu te amo John, você me deu todo amor que não recebi em minha vida. — o choro já havia cessado, ela olhou em meus olhos. — Eu não me importo de morrer… se é pra ser assim, não podemos fazer nada. O que me deixa triste é te deixar para trás, sei que você sofrerá, e isso me entristece. Então quero que me prometa — segurou minha mão -, prometa que vai me superar e achar outra pessoa para dar seu amor. Primeiro olhei para nossas mãos, entrelaçadas daquela forma era reconfortante. Soltei minha mão da dela e coloquei a palma dela no seu rosto. Com o polegar enxuguei uma lágrima que ameaçara cair. Sua pele era lisa e macia, seus olhos vermelhos por chorar tornavam-na linda. Suspirei e cerrei meus próprios olhos, como se para afastar lágrimas impróprias. Meus lábios vacilaram em um singelo sorriso.— Você está, não, você é linda. — disse eu.— Me prometa logo. — disse suavemente, e pôs sua mão sobre a minha em seu rosto.Suspirou, e pude sentir a amargura que cercava-nos. Olhei para os céus, depois para mar, tão logo para ela novamente.— Não posso... – Respondi vacilante.— E por que não? — Jenna, você é e sempre vai ser única e especial para mim. Não posso, não dá para simplesmente te esquecer. – Mordi os lábios ao perceber que era verdade, senti gosto de sangue. – Eu te amo mais do que qualquer coisa. Queria viver com você para sempre, nunca envelheceríamos. Mesmo que eu vivesse mil anos, mesmo que conhece todo o mundo, mesmo que... Mesmo que... – Não consegui encontrar palavras, engoli em seco. – Não pode ser outra além de você. Lembra? “Nesse mundo não existe ninguém como você”. Por isso irei até o fim, e um pouco mais. Por Deus. Se fosse necessário eu desembainharia minha espada e chutaria os portões do inferno, se isso a salva-se. Ela fechou os olhos e apertou minha mão. Depois veio e se sentou na areia entre minhas pernas que estavam abertas. Acomodou-se e pôs a cabeça no meu ombro. Eu a abracei. Passaram um ou dois minutos. Minutos esses que se arrastaram como a eternidade. Então ela disse.— É por isso que eu também te amo John. Você me fez sentir-me única e especial. Mesmo não tendo condições e tempo de fazer tudo que a vida possa proporcionar, fico feliz de ter tido teu amor, e ter vivido com você até o fim. Minha camisa começou a ficar úmida com seu choro que havia começado de novo. Eu quis dizer algo, mas eu finalmente tinha me dado conta da verdade. Me dado conta de que tinha mais sete dias com ela, no máximo. Tentei segurar-me, mas acabei começando a chorar também. Abracei-a mais forte. E assim a nossa noite acabou. Levei-a de volta para o hospital para poder continuar a se tratar. Passaram-se três dias desde aquela noite, era o começo da tarde quando eu disse que sairia para ir comprar algumas coisas na feira em frente ao castelo. Na rua, a feira já estava acontecendo, aproveitei e comi um pedaço de carne no espeto. Comprei algumas cordas extras para o cistre, as outras já eram antigas. Comprei também algumas rosas púrpuras, Jenna adorava essas rosas. Conversei um pouco com os homens da taverna em que fui em seguida. Informaram-me como o mundo andava. O novo rei de Wine era benevolente, E o Rei Antigo ainda assumia a guerrilha contra os outros governos. Visitei a forja e a armaria, onde alguns amigos meus da guarda trabalhavam.
Quando resolvi voltar, já deveria ter se passado três horas. Voltei animado, as rosas deveriam deixa-la feliz. Também era hoje que o médico diria o estado em que ela estava. Quando cheguei, procurei pelo Dr. Gill, quem cuidava do caso dela. Seu rosto estava cansado e, quando me viu arqueou as sobrancelhas, vindo em minha direção.— Como ela está douto…— John — ele me cortou. — uma das piores partes de ser médico… é ter que fazer isso. Mas é meu dever. John, ela… ela não aguentou e acabou tendo uma parada cardiorrespiratória. Acreditamos que foi consequência da doença que avançou repentinamente. — I-i-i-isso é b-b-brincadeira, não é? E-e-ela pediu pro senhor fazer uma brincadeira comigo? — meus joelhos ficaram bambos, tive que me apoiar na parede para não cair.— Sinto muito, John, mas é verdade. Eu gostava muito de vocês dois, dei meu melhor no tratamento dela. Mas… ela não resistiu. Eu… sinto muito. Por um momento só cai de joelhos. Não era possível, não tinha como, não podia ser real. Acertei socos na parede até que minhas mãos sangrarem, gritei até minha garganta doesse, chorei até que toda a tristeza fosse embora. Infelizmente, ela não foi. E infelizmente não foi exatamente assim que aconteceu, acreditem quando digo que poetizei o momento. Deixaram-me entrar no quarto dela. Quando a vi a tristeza aumentou, deve ter ficado perceptível em todo meu eu. Quando a vi ali, percebi que realmente não tinha mais volta, aquele era o fim, não tinha nenhum milagre para revivê-la como eu esperava. Não havia alguma magia, não havia nada, nada além de tristeza. Cheguei mais perto e acariciei seu rosto com os nós dos dedos, passei a mão por seus cabelos. Minhas lágrimas cobriram meu rosto, e caíram em seu peito. Beijei sua testa a abracei o mais forte que consegui. Afastei-me um pouco.— Eu comprei rosas púrpuras, sei que você as adora. — coloquei as rosas ao lado da cama, falando tão baixo quanto um sussurro. — Desculpe, desculpe — comecei a chorar mais. — Eu não pude estar aqui. Você sentiu algo? Espero que esteja bem no lugar que está agora.— John, você precisa sair agora. — disse uma enfermeira. Concordei e me afastei aos poucos. Sai do hospital e fui pra casa de Aleph. Afundei-me na cama. Só sai de lá no dia seguinte para o funeral. Permaneci lá depois de todos irem embora. Um cenário fúnebre, com certeza. Mas quem liga se nada me restara? Eu tinha um punhado de amigos, tinha a guarda real, um cargo de renome, com certeza. Mas de que importava? Isso não era nada mais do que um titulo para o homem que mata os inimigos do rei, quando eles o incomodam. Deixei mais um buquê de rosas no túmulo.— Trouxe flores. — observei a esmo o céu. — Sabe, me lembro de quando olhávamos o céu e planejávamos nosso futuro, juntos. Mas agora isso está tão distante. Nem sequer pude dizer palavras finais. Espero que me ouça da onde está, eu te amo. Virei-me e fui embora. Peguei meu cistre, algumas peças de roupa e um pouco de dinheiro e sai por aí. Andei por dias, sempre que parava tocava o cistre. Conheci muitas pessoas, passei por três cidades. E terminei em uma praia da terceira cidade. Toquei por horas a fio. Tudo que eu fizesse me lembrava dela, as estrelas não brilhavam tanto sem ela ao meu lado. As músicas não eram grande coisa sem ela para cantar junto a mim. Nada era igual. Meu coração pertencia a ela. Eu a amei até o fim, e agora tinha que prosseguir com a vida. Tinha que pegar um novo rumo. E assim prossegui com minha vida, como lembrança, eu carrego um anel de prata que ela me deu até hoje de recordação. Algum tempo depois acabei em mais uma cidade portuária. Há muito eu já havia perdido noção de tempo, e já andara mais milhas do que sabia contar. Meu corpo era marcado de cicatrizes, não era fácil andar de um lado para o outro naqueles tempos, ainda mais sozinho. Foi em Porto Vermelho que conheci um homem, seu nome era Aleph, ou algo do tipo. Ele tinha alguns amigos, e eu certamente o ignoraria, mas seus amigos me ensinaram uma lição de vida, de não desistir. Contaram-me suas histórias, e uma centelha de ambição voltou a queimar em meu âmago. Assentei-me naquela cidade, e ficaria ali pelo tempo que desse.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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