Fall

4 #4 Esperança


Durante este período muitas foram a mudança na sociedade, pouco se via além da passagem monótona dos veículos nas ruas ou o som de passos rápidos dos pedestres ocasionais. Nas esquinas de comércio, mesmo no começo do mês o movimento era fraco, nas lojas os atendentes em devaneio não apareciam quando clientes raros espreitavam, pois estavam nos fundos olhando fixamente por notícias na televisão de tubo, chuviscando.

Nos estacionamentos dos supermercados iam e vinham as pessoas que saiam para gastar seu escasso dinheiro nas compras do mês, se prevenindo de um futuro em guerra muito pior. Entre as prateleiras os clientes se olhavam de soslaio a cada movimento, de cabeças baixas emitiam apenas grunhidos ocasionais ou tossidas forçadas, mas um som se sobressaia, o dos carrinhos que passavam e saiam, carregando compras de homens famintos.

Nas empresas os homens engravatados pouco diziam, apenas o silêncio era notado quando acontecia o leve murmúrio entre cubículos ou o ocasional ruído da xerox que se sobressaia ao constante som das tecladas de homens em frente a computadores mostrando tabelas e arquivos; pouco se sentia o vento do tempo chuvoso do lado de fora até a hora de irem para casa, para mais uma vez voltarem no dia seguinte e no próximo.

Nas escolas os pátios vazios eram percebidos pelos professores que notavam a falta de alegria, vendo agora o céu escuro com nuvens negras de uma chuva que viria. Nas salas de aula passavam a matéria aos alunos de forma automática, robótica, poucos tinham entusiasmo para continuar em tempos tão difíceis enquanto as crianças, aleias, brincavam.

Nas casas, por fim, as mulheres esperavam, esperavam por notícias que nunca viriam de seus namorados e maridos convocados ou esperavam de seus trabalhos frívolos tentando conseguir o dinheiro em uma economia em crise, ferida pela guerra. E esperavam também por seus filhos para se lembrarem que talvez houvesse esperança.