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5 uma confissão disfarçada (mas finjam que engoliram a mentira mal-elaborada)


uma confissão disfarçada

(mas finjam que engoliram a mentira mal-elaborada)

Duas? — um chiado perpassou a sua boca, talvez um pouco surpreendida, definitivamente impressionada. — Duas faculdades ao mesmo tempo?

A de cachos castanhos revirou os olhos — seu trejeito mais característico, a outra moça diria — com um sorriso de pura excitação e divertimento enfeitando o rosto.

— É só uma ideia, amor. Ainda falta um ano. — Olívia, era seu nome, sorriu enrolando o cabelo, um tanto pensativa enquanto falava.

Para quem não as conhece, apresento com animação as duas pessoas mais confusas e interessantes do ano, recostadas num banco de madeira, relaxamento e estresse exalando pelos seus poros ao mesmo tempo. Uma olha para vitrine da loja de sandálias a sua frente, o cenário mais vazio que poderia escolher, mas onde sempre termina sentada com Lara, que se aproveita da distração da outra para se fascinar pela criatura que a escuta sempre e parece que nunca irá deixá-la.

As duas se conheceram naquela época da pré-adolescência na escola, e eram certamente colegas, mesmo com a diferença de idade, um ano (ou seriam dois?). O distanciamento de uma foi o suficiente para que uma espécie de amizade surgisse, ao contrário do que se imaginaria, afinal quem se aproxima com a distância?

Confesso que não conheço muito Lara, e aí de mim se uma delas descobre que se tornaram personagens de minhas pobres fantasias, mas deixe-me romantizar a minha análise pessoal sobre uma relação que nada me diz respeito.

Olívia com suas ambições e sonhos concretos, esperando o momento em que poderá militar nas ruas com os movimentos dos quais quer fazer parte. É uma conhecida antiga, com sua insegurança inconstante, sua estranha e impressionante capacidade de ser sincera consigo mesma quanto aos seus sentimentos. Questiona-se tanto que não sei como ela consegue sair de crise existencial apenas para se afundar em outra, pura queda livre dentro de suas reflexões e filosofias que apenas me deixam pensando o quão improvável seria se ela na verdade tivesse uma idade que tendesse ao infinito.

Apenas ouvi seus murmúrios sobre Lara, se devo ser uma narradora sincera. Pelo canto dos olhos observei, como, imersa em assuntos bem distantes das aulas que compartilhávamos, ela escrevia aquele nome no canto do caderno. Logo ela, quem na hora de cantar o famoso "Com quem será" deixa todos sem nomes. Não que ela se importe (acho) com não ser idealizada com ninguém, na verdade esse tipo de situação já havia sido um grande "pé no saco" e ela não poderia estar mais aliviada por não ser alvo de especulações. Agora todos perguntam-se se, então, isso que estou fazendo não é uma certa invasão de privacidade mesclada com indesejada elaboração de fatos.

Lembro-me mais um pouco dela, aquela que não se envolve e revira os olhos para todas as "problemáticas comédias românticas que nada fazem além de perpetuar esteriótipos femininos, caracterizando a opressiva representação das mulheres na mídia como objetos sujeitos a ação e vontades de homens". Ela é extremamente crítica, e percebo a significância de Lara quando ela parece abraçar os problemas da outra, mesmo quando eles a incomodam profundamente. Por mais ordinárias que sejam, ela se importa com as pequenas coisas e detalhes.

Volto para a interação das duas em meio daquele shopping cheio de cores que fazem os olhos da minha amiga doerem. O jeito como ela se inclina em direção a Lara ou as frases e comentários soltos com certeza levariam fãs a loucura caso aquilo fosse um filme ou livro, entretanto, meus olhos não captam reação ou verdadeira captação de mensagem por parte de Lara. A subjetividade das relações humanas causa-me agonia.

Escuto-as rindo, aquela harmonia reverberando pelas frias e consumistas paredes. Um sorriso invade o meu rosto e por um momento, breve e contínuo, ignoro, simplesmente deixo de lado, todos os raciocínios milimetricamente calculados de Olívia.

— Minha família aposta em três meses até eu não aguentar mais. — ela comenta enquanto mexe na mão da outra distraída. Olha Lara nos olhos, e sussurra como em segredo — Eu me dou quatro meses, duas semanas e cinco dias, nada mais, nada menos.

As horas passam como água numa torrente de cachoeira com grave declinação se elas estão juntas. A noite cai no horizonte, e a única diferença para elas é a movimentação de pessoas as seu redor. Os seus focos estão majoritariamente sobre elas mesmas, o celular com o relógio gritante às vezes estragando o encanto: bem-vindos ao mundo tecnológico real.

Logo, elas estão caminhando de mãos unidas pelo desequilíbrio dos passos de Olívia que conta sobre a ciclo lunar, as estrelas que não brilham mais, embora sua luz ainda chegue até nós e como tudo que somos é resultado de explosões de bilhões de anos atrás. Comenta com olhos de curiosidade e fascínio sobre a garota que ela cruzou olhares na padaria:

— Os cabelos eram vermelhos, meio ruivos, e eu queria tanto perguntar o significado da tatuagem no ombro esquerdo, o tipo de pessoa que eu escreveria um conto, provavelmente.

Lara é boa ouvinte, recolhe cada pedaço de seus cansativos, mas cheios de vida, diálogos, para confortar-lhe a memória quando se sentir sozinha.

Elas se despedem com um abraço e alguns sorrisos. Já é noite.

Olívia, e sei sem ela nem abrir a boca (eu vivo com ela, afinal das contas!), adoraria se enrolar em cobertores e fazer clichês como dormir de conchinha assistindo uma série suave e adorável na Netflix. Ela é tão jovem, mas simplesmente amaria aquele tipo de conforto e contato com Lara, que tão distante e atarefada, parece a considerar apenas mais uma melhor amiga. Isso quebra Olívia, mas me mantenho o mais distante quanto possível da situação.

"Oh!", é o que você emite ao descobrir que sou apenas faceta da de cabelos enrolados, de quem tanto falei. Porém, tenho consciência que por não estar com Lara, me falta qualquer propriedade para falar sobre seus sentimentos, pensamentos. Ora, talvez ela se encontre em mesma situação que a outra (que eu mesma), perdida em seus olhos castanhos, mas pelo meu próprio bem contenho-me em especulações.

Já dizia algum sábio (e se não disse, deveria ter feito o trabalho de deixar registrado para os futuros tolos) que não se deve brincar com o próprio * vulnerável psiquê.

*(coração)