Fale.

4 ela sabe que é a minha personagem favorita


Observo-a de longe, e desvio o olhar quando percebo que seus olhos pretos fugazes logo encontrarão os meus, e ah meu deus, não suportarei o vinco discreto na sua testa e o sorriso que certamente me atingirá como uma facada. Pelos cantos dos olhos vejo-a anotar o que o professor diz com fúria nas mãos, não deixando escapar uma palavra sequer.

A minha distração é maior, e vê-la tão concentrada, porém ao mesmo tempo mais dispersa do que qualquer outro aluno é tentação para as minhas mãos de artista. Os dedos coçam para desenhar com traços leves seus cachos irreverentes, seu rosto hexagonal, ou talvez seja mesmo um círculo com ângulos obtuso e, principalmente, seus lábios rosa-Velho, um tanto avermelhados.

Ela levanta para guardar o material e se atrapalha no caminho, seus passos tão determinados e sua postura erguida me dão a certeza que ela foi uma rainha na sua última vida. As pessoas não a amam aqui, mas respeitam-na e a admiração anda de mãos dadas com a inveja, afinal como ela pode ser tão perfeita? Talvez seja a minha opinião somente, mas acho-a linda, de dentro para fora, de fora para dentro, cada curva e tonalidade me fascinam.

Diriam que eu sou a maior tola apaixonada, afinal ela é definitivamente estranha, não é mesmo?

Com seus maneirismos, como fala alto quando se anima e sempre quer puxar conversa que sabe que são vazias, mas insiste em ter para buscar algum tipo de coleguismo, proximidade útil e agradável.

Meu amigo, o único ciente do meu secreto modelo, musa se estou querendo ser poeta hiperbólica, jura que em meio as suas conversas com os outros alunos, ela desvia os olhos para mim quando acha que ninguém está olhando, e existe algo naquele sorriso que ela me dá, que revela tudo, ele afirma.

Um dia recebo a notícia que ela vai sair da escola e nunca tentei me aproximar, e a frustração me domina. É seu último dia lá, escuto todos comentando, e vejo-a num canto, meio introspectiva, os olhos vermelhos, o queixo erguido, os olhos retraídos. Percebo que ela não se incomoda verdadeiramente com a distância daqueles que se diziam seus amigos, pois ela nunca os considerou tal coisa.

E então, num momento de minha flutuação interna, percebo seus olhos grudados em mim, e percebo porquê ela sempre me pareceu tão realeza. Ela tem um sorriso torto de canto, delicado e prepotente, e seus olhos viajam pelo meu rosto, e existe certo divertimento, malícia e distância nublando o seu brilho castanho. Como num quadro antigo, não é seu sorriso de dentes que tenho certeza que é falso que é sua marca, mas o modo como sua cabeça inclina em reflexão e curiosidade.

Ela sabe que embora não seja nada demais para os outros, ser muito para mim é a mesma coisa de incorporar uma personagem, e assim na sua bola de cristal continua sozinha, pois não sabe lidar com pessoas que a olham e interpretam, mas nada enxergam.

Porém, contudo, todavia e entretanto, eu a agrado de uma forma que faz seus olhos brilharem ao saber que é inspiração de fantasias que apenas me frustarão, e por isso, como num ato final de peça, afinal se essa é a sua história, esse momento é uma conclusão, ela se aproxima em passos rápidos e encosta seus lábios nos meus, concretizando e despedaçando todo e qualquer sonho ou fantasia.