Falcão
20 CAPÍTULO 2O: Estrelas & Infinitos
Notas iniciais
FALCÃO
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 2O: Estrelas & Infinitos
Alguns amores duram uma vida toda.
Outros, uma simples fração de segundo quando olhares se cruzam na rua.
Outros não têm nem ao menos a chance de acontecer e alguns duram apenas um suspiro, um olhar, uma palavra.
Alguns amores não duram. Talvez pela diferença, talvez pela distância.
Ele nunca se arrependeu do seu amor.
De ter amado. De ter sido amado.
Sakura deu muito mais a ele do que um dia ele sequer sonhou em poder dar a ela. Ela lhe deu seu corpo, sua mente, sua alma. Profunda, verdadeira.
Ela preencheu sua existência e matou sua fome de amor.
O amor deles não durou uma vida inteira. Não fisicamente. Ele perdeu a chance de tocá-la, de sentir o cheiro dos cabelos róseos e de ver aquele sorriso. Aquele meio envergonhado meio malicioso (dependia do ângulo que você observava), mas acima de tudo aquele sorriso dele.
Ele sabia que agora não poderia mais ficar emaranhado com ela em meio de lençóis amarrotados, travesseiros virados e suor depois de terem feito sexo, um sexo deles, onde não se importavam com moral ou em como os outros enxergariam aquilo. Eram apenas eles, se satisfazendo, se amando.
Não poderia mais vê-la lutar com tanta maestria como se dançasse, vê-la curar os outros como se tivesse nascido para fazer aquilo, vê-la sorrir e consequentemente iluminar o mundo inteiro.
Primeiramente essas constatações o abateram.
Veio o inconformismo. O pânico, o desespero. A dúvida nunca sanada se aquilo havia sido um acidente, algo armado ou apenas uma má sorte da vida.
Os primeiros dias sem ela foram os piores. Eles passavam como vagões de trem diante dos seus olhos. Os dias não tinham cor, tudo parecia cinza, sem cheiro, sem som, sem sabor.
Dias dolorosos cercados de pesadelos nas poucas vezes em que conseguia dormir. A confusão, a escuridão, a dor tão profunda que parecia parti-lo ao meio. O desespero o consumindo. Aquela confusão na mente, parte dele não querendo acreditar, parte dele tentando se convencer que tudo não passara de um sonho ruim.
Depois com o tempo ele foi entendo (aos poucos) o sentido de tudo aquilo. O porquê de tudo aquilo. A aceitação foi a parte mais difícil, e não menos dolorosa.
Sakura havia o construído, mudado, transformado. Ela o completara de um modo que ninguém jamais seria capaz de fazer. Ela havia ajudado mais pessoas do que outras com muito mais idade jamais ajudaram. Havia curado e auxiliado mercenários e kages. Lutado em brigas e guerras.
A sua vida toda foi intensa. Repleta de sentimentos e acontecimentos.
Cada momento vivido como o último. Único.
No fim, não havia arrependimentos.
Havia a defendido em uma mesa rodeada de homens, indo contra seus próprios princípios, expondo sua vida pessoal, havia descoberto um lado seu que nunca imaginara, ajudando Tsunade e Naruto a curá-la, havia ido contra a política de Konoha para ficar ao lado dela.
Eles lutaram para ficarem juntos. Aproveitaram cada minuto um ao lado do outro, desde as brigas, até momentos de tédios no sofá da sala de estar. Cada treinamento, cada momento íntimo. Tudo.
Ele tinha se doado para ela, e ela se doado para ele.
Foi com esse pensamento que ele passou para a próxima fase: aceitação.
Com o passar do tempo e a ajuda de Naruto e Kakashi ele entendeu que aquele era o momento dela. Mesmo que ele ou os outros não concordassem, ela já havia feito o que tinha de fazer, ajudado quem deveria ajudar, ensinado o que tinha de ensinar.
E ele percebeu que por mais que aquela dor o dilacerasse, que a falta dela o fizesse beirar a loucura, a única que coisa que o mantinha na sanidade era pensar nos bons momentos que tiveram juntos, toda a alegria, todas as brigas perdoadas, cada momento.
As manias dela que o deixavam intrigados.
Escovar os dentes exatamente duas vezes. Sempre deixar a toalha molhada enrolada sobre a cama. Colocar a mesma quantidade de água em todas as plantas (segundo ela para não ficarem enciumadas).
Suas atitudes que o deixavam surpreso.
Nunca sair do hospital sem ter certeza que todos os seus pacientes estavam bem e confortáveis. Ajudar os outros com o que quer que pedissem. Sempre buscar dar a ele tanto prazer quanto ele a dava.
Sua beleza que o deixavam encantado.
As sardas disfarçadas nos ombros, as pintas e as cicatrizes espalhadas pelas costas brancas, os cabelos sempre macios, o cheiro de hidratante depois do banho...
Eram tantas lembranças que o arrebatavam. Elas o invadiam sem permissão, deixando-o imerso em memórias e consequentemente lágrimas e sorrisos fugazes.
Uma das coisas que se lembrava com mais nitidez era que Sakura tinha o costume de deitar-se em volta da fogueira quando eles estavam em missão, e aproveitar a escuridão da floresta para observar as estrelas. Ela conhecia cada estrela e sabia uma infinidade de constelações como a boa estudiosa que sempre fora.
Ela sempre insistia em apontar algumas estrelas para ele, dizendo:
— Olha Sasuke-kun aquela constelação é Pegasus. Aquela ali é Órion.
Ele apenas acenava positivamente, embora tudo que visse fossem diferentes pontos brilhantes, de diferentes tamanhos e espaçamentos, e que, por mais que tentasse observar, nunca conseguia formar um único desenho.
Talvez ele fosse leigo ou taciturno demais para aquilo.
Talvez aquilo exigisse uma mente aberta e imaginação.
Duas coisas que Sakura sempre tivera de sobra.
Ou talvez fosse apenas o conhecimento que beirava ao absurdo dela.
— Não é maravilhoso?
Ela sempre perguntava encantada. Ele olhava para o rosto dela, o sorriso aberto, os olhos brilhantes e acenava positivamente.
Sim, você é maravilhosa.
Aquela admiração de Sakura pelo céu, pelas estrelas o intrigava, e sempre pensou em um modo de perguntar sem parecer intrusivo ou cético demais. Por fim em uma noite de verão quente e abafada em que estavam voltando de uma missão ele tomou coragem e perguntou:
— Por que gosta tanto das estrelas?
Ela desviou o olhar do céu por alguns minutos. Olhou para ele e voltou a olhar para o céu.
Tirou o braço esquerdo de trás da cabeça, colocou o direito e depois de um suspiro finalmente respondeu:
— Tudo está sob o céu. É como se estivéssemos conectados com qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, onde quer que estejam.
A médica fez uma pausa, respirou fundo e voltou a explicar:
— Quando você se foi, durante todos aqueles anos que passamos longe, eu costumava olhar para o céu e pensar que, em algum momento você também estaria olhando para ele e isso nos manteria conectados de alguma forma.
Não respondeu. Como sempre, ela não parava de surpreendê-lo.
— Sei que pode parecer bobagem...
Não, não parece. De modo algum...
— Mas... Isso me dava forças para continuar. Sonhando que um dia poderíamos olhar para o céu um ao lado do outro, de verdade.
Acenou positivamente, ela desviou novamente o olhar do céu para o seu rosto e depois para o céu novamente.
— E agora que podemos, eu uso o céu para me sentir mais perto de pessoas queridas que se foram, como meu pais, amigos shinobis... Penso que de alguma forma, o céu nos une. Que eles podem ver as mesmas estrelas que eu posso... Admirar as mesmas constelações, o mesmo brilho das estrelas de onde quer que estejam.
Não podia esperar menos de alguém como ela. Sakura sempre fora única afinal. Vendo a vida e a morte de um modo que poucas pessoas seriam capazes de fazer. Nem ele próprio, após sofrer tanto com a morte abrupta de familiares e amigos havia conseguido achar conforto em alguma coisa, ter a inteligência de pensar em algo para acalentar seu coração.
— As estrelas Sasuke-kun...
Ela sussurrou prendendo sua atenção.
— As estrelas são o infinito.
Ele não respondeu, apenas prendeu os lábios pequenos entre os seus, colocou seu corpo sobre o dela, e eles fizeram amor ali mesmo, no relento. Iluminados pela luz da lua e sendo observados pelas estrelas.
Nesse dia ele não podia imaginar que aquela conversa o ajudaria em um futuro próximo. Não sabia que seria justamente nas estrelas que ele encontraria acalento para sua dor, assim como ela fizera um dia.
Na próxima fase, a contemplação, ele se deitava sob as estrelas, fosse ao quintal de casa, fosse a alguma missão que ele pegava esporadicamente para se distrair, e observava as estrelas.
Podia jurar que ele sentia a presença dela ali. Seu calor, seu sorriso. Sua felicidade por ele não ter feito nenhuma besteira, mas sim, seguido em frente. Ajudando Naruto com o novo cargo de Hokage, se encontrando com Kakashi no Ichiraku duas vezes por semana.
Ali, de baixo delas, podia sentir plenitude.
Paz.
Consolo.
Após as fases de desespero e aceitação, o sentimento voltou a lhe preencher, e ele duvidava que um dia sumisse. O amor. Tão forte e arrebatador como sempre. Ele não podia vê-la, nem tê-la fisicamente, porém, o sentimento continuava o preenchendo.
E ele não podia se sentir mais grato.
Pela ajuda que Naruto o dava, assim como Kakashi, que deixavam de lado à própria dor e angústia para ajudá-lo. Porque todos eles sabiam que era aquilo que ela gostaria que fizessem.
Grato por ela ter compartilhado com ele seus pensamentos sobre estrelas para que agora ele pudesse encontrar seu próprio conforto, mesmo sem saber o nome de cada uma ou o desenho que formavam.
Grato por ela ter o dado amor, feito dele um homem melhor, bom, sem mentiras, sem vinganças, sem ódio.
O falcão agora voava solitário, mas completo. Muito mais homem. Muito mais humano.
Sakura estava errada afinal, as estrelas não eram o infinito.
Ela era o infinito.

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