Fala sério, mãe
1 Capítulo Único (1) - Mães não dançam!
Notas iniciais
ÂNGELA CRISTINA...
Levei Maris de Lourdes ao aniversário de uma amiguinha da natação. A comemoração, temática, barulhenta e colorida como todas as festas infantis atualmente, aconteceu no playground, decorado com motivos de Barbie. No salão de festas ficava a pista. Sim, meninas de nove anos dançam. Como ainda ignoram as meninas, meninos dessa idade preferem jogar futebol, correr e estar com os amigos. É bom, assim elas aprendem desde cedo que eles detestam dançar, trocam tudo por futebol ou qualquer esporte e acham a companhia dos amigos sempre melhor que a nossa. Enquanto a pista enchia de gurias rebolativas e muito assanhadinhas para o meu gosto, aquele papo-mãe da mesa de mães só me irritava. Entre cachorros-quentes e pipocas, uma tonelada de assuntos sem graça, debatidos com uma seriedade irritante. Mensalidade do colégio para cá, mensalidade de natação para lá, o troca de cores de uniforme, oh!, o peso da mochila, jogos de computador, o novo e péssimo professor de matemática, a próxima reunião de pais, o engarrafamento na porta do colégio na hora da saída...
De repente, olhei para a pista e vi minha pequerrucha, de longe a mais linda da festa, dançando. Tão cheia de ritmo, tão cheia de atitude... fiquei orgulhosa. Nem parecia a menina dura e desengonçada que um dia eu quis que fosse bailarina. Dançava com vontade, com o corpo toda. Às vezes se entregava à música de maneira tal que até fechava os olhinhos e balançava mais os braços. Mas logo reparava que era mico e parava o show. Achei a cena um charme e não hesitei em levantar e deixar aquelas mães chatas e modorrentas de lado. Precisava aproveitar a ocasião e aquela era única. Decidi ir dançar com a minha filha, interagir com ela e as amiguinhas, mostrar para ela como sou bacana e quantos momentos lindos e dançantes podemos passar juntas daqui para a frente. Em questão de segundos, mostrra minha filha que sua desenvoltura na pista era hereditária, ela puxara a mim. A passos largos e, claro, cadenciados, aproximei-me dela e das cinco amigas que dançavam em círculo. Deslizando no salão do play, sorri para ela. Embora olhasse na minha direção, Maria de Lourdes permaneceu séria e emburrada, não deve ter visto meu sorriso, a luminosidade era pouca. Requebrei os quadris. Ela bateu o pé direito no chão com força, repetidas vezes. Eu pisquei para ela, ela olhou para o teto. Eu espremi os olhos, tal qual uma top model fotografando. Ela franziu o rosto inteiro e me encarou como quem encararia um estraterrestre míope. Queria me dizer alguma coisa. Levantei os braços bem para cima e comecei a acompanhar a batida da música com palmas, poses e gritinhos. Maria de Lourdes levou as palmas de suas mãos ao rosto, aos cabelos, à cintura. E, em vez de gritos, ouvi soluços. Vai ver ela queria chorar de emoção. Afinal, era um momento único, não tinha nenhum adulto na pista, só eu. Ela devia estar radiante com o gingado e o suingue da mãe. Mas eu tinha a impressão de que quanto mais me aproximava, mais ela olhava para os lados e tantava fingir que eu era invisível. Com uma leve bundada na amiguinha da direita e uma bundada mais forte na Alice, amiguinha da esquerda que nunca fui muito com a cara, marquei minha entrada na roda e comecei a mexer, a cantar, a fechar os olhos, a dançar com abandono, a reproduzir os passos de Jonh Travolta em Os embalos de sábado à noite. Senti por dentro que estava arrasando. Só dava eu na pista.
-Que delícia estar aqui com você, filha! Há séculos eu não danço! — disse, balançando os cabelos de um lado para outro. Eu era a animação em forma de mãe gente boa.
-Dá para perceber. Todo mundo em volta percebeu — disse ela, emburrada, com cara de poucos amigos.
-Pois eu estou me divertindo à beça.
-Está pagando mico, isso sim. Mico, não, gorila. Vaza, mãe. Vaza agora se não quiser me matar de vergonha, está todo mundo olhando, apontando e rindo. Vaza, vaza!
-Eu hein! Era só o que me faltava. Vim aqui dançar com você, toda feliz, e você quer me expulsar da sua rodinha dance? Nem pensar. Uepaaaa! Adoro essa música.
-Uepa!? Mãe, sai daquiiiiiiiiii, por favooooor! E para de mexer os braços para trás como se quisesse voar! Ou nadar, sei lá!
-Deixa de ser boba, Maria de Lourdes, estou só dançando.
-Não parece. Neste exato momento, por exemplo, parece que você está querendo imitar uma garça com prisão de ventre.
Nossa! Como será uma garça com prisão de ventre? Deixa para lá! O fato é que ela quase não abria a boca para falar. As palavras, meio choradas, meio ordenadas, meio murmuradas, saíam por entre os dentes. Os olhos, que pararam de piscar havia um tempo, mal olhavam para mim. Só olhavam em volta.
-Sair, o quê? Não saio. Com essa música dá para fazer meu passinho preferido, preta atenção, Maria de Lourdes.
-Não, mãe., passinho, não! Eu te imploro, eu suplico. Faço tudo o que você me pedir, mas passinho, não!
Nesse momento, tomei abuso de Maria de Lourdes! Vê se pode! Quere mandar em mim, assim, só porque acha que eu estou pagando mico. Não estou nem aí. Carreguei essa metidinha nove meses na barrigga e é isso que eu ganho em troca? Não mesmo! Resolvi volsta a ser criança (afinal, tudo em volta contribuía para isso) e fiz, com muito gosto, exatamente o contrário do que a pirralha me pedira.
-Cinco, seis... e cinco, e seis, e sete, e oito. Braço esquerdo, braço direito, perna, chute, ombro. Cabeça, cabeça, revola até embaixo, chute de novo. U-huuuuu! Lembro de tudo! Tinha a sua idade quando rolava eee passinho, Maria de Lourdes! De novo! Braço, braço, perna, chute, ombro. Parou. Cabeça, cabe...
-Mãe, minhas amigas estão perguntando se você sempre se comporta dessa maneira ridícula. Agora entendi por que o Mamá quase se mata para convencer o papai de ir com ele nas festas.
-O Mário Márcio e a Malena gostam mais do seu pai, isso é fato. Você, não. Você me ama incondicionalmente desde bebê. Nós temos essa conexão especial desde que você nasceu.
-Conexão sacal, você quer dizer!
-Primogênito é sempre superprotegido, filha.
-Supersofredor, isso, sim.
-Nossa, como você gosta de reclamar, Maria de Lourdes!
-As minhas amigas estão te achando uma bêbada maluca e sem noção! Já falei que você não bebe álcool, só refrigerante, mas ninguém acredita!
-Ô, filha, assim você magoa a mamãe. Eu não bebo refrigerante, é cafona e dá celulite.
-Cafona é você comprar roupa de gente da minha idade. Calça baixa, mãe? Onde você estava com a cabeça?
-Eu fico muito bem de calça baixa, disfarça meus quadris, tá?
-Em que espelho?
- No meu! Maria de Lourdes, no meu! – subi o tom de voz algumas notas. Baixei novamente. – Você não vai conseguir me irritar e me expulsar da pista. Eu estou felicíssima hoje, daqui não saio mesmo.
-Ah, é? Então, já que vai continuar fazendo isso que você chama de dança, pelo menos, tirar a pochete...
-Que pochete, Maria de Lourdes? Enlouqueceu? Eu odeio pochete, quase mato o seu pai quando ele resolve usar.
-Ai, mãe! O que eu quis dizer foi: “encolhe a barriga!” Você sabe que a sua barriga está parecendo uma pochete, não sabe? E daquelas bem lotadas.
Se a pirralha não fosse minha filha eu apelaria para um linguajar desclassificado e a chamaria de vaca com todas as minhas forças. Mas mãe de vaca, vaca é. Portanto, achei melhor continuar minha dança, era tudo o que podia fazer para irritá-la mais do que ela estava me irritando.
-Eu tenho três filhos, Maria de Lourdes! Não dá para ter a barriga lisa depois de três filhos.
-Fala sério, mãe! Claro que dá, você que não soube manter seu corpo.
O quê!? Ouvir isso de uma nanica de nove anos de idade é quase morte, mas me mantive no salto.
-Não pira, caipira! Filhos acabam com o corpo da gente. Mas um dia você vai saber.
-Não pira, caipira? Que é que é isso? Ai, mãe, que vergonha! Em que ano você vive? Que expressões são essas que você usa? De onde você desenterra isso? O que as minhas amigas vão pensar?
-Ah, Maria de Lourdes, se liga! Não estou nem aí para você e para as suas amigas. Quero é dançar e ser feliz, você está me atrapalhando. Os incomodados que se mudem.
-A festa é para gente da minha idade, não para velho. Outra coisa, senhorita, não existe gente da sua idade.
-Velho? E onde é que você está vendo velho aqui? O que existe é criança da sua idade. Na sua idade as pessoas parecem gente, se acham gente, agem como gente, falam como gente, mas não passam de pirralhas.
-Pirralhas? Onde é que você está vendo pirralhas aqui? Pirralhos têm cinco anos. Eu tenho nove!
-Então, tá, pirralha de nove anos. Agora vamos calar a boca e ouvir a música? Estou a fim de me soltar, de mexer o esqueleto! Seu pai não me leva para dançar nunca.
- E o que é que eu tenho a ver com isso? Amanhã no colégio vai todo mundo comentar o mico que a mãe da Malu pagou na festa.
-E você liga para o que as pessoas comentam? Fala sério, Maria de Lourdes! Tenha personalidade. Você tinha de se orgulhar por ter uma mãe moderna, empolgada, animada, divertida, cheia de ginga. Eu sou um espetáculo, isso sim. E sou a melhor mãe do mundo! Sou uma mãe do balacobaco!
Do balacobaco foi horrível, eu sei. Isso é do tempo do Onça. Ops! Do tempo da minha avó, digamos assim. O fato é que Maria de Lourdes arrumou uma forma de se afastar de mim aos poucos e, quando dei por mim, estava dançando sozinha na pista. Tudo bem, pelo menos eu estava dançando. E, como não tinha nenhuma pirralha sem sal para me recriminar, pude me soltar, deslizar, sapatear, rodopiar, flutuar. Feliz da vida. Afinal, foi uma tarde única, dancei pela primeira vez com a minha filhota e ainda descobri que ela é cheia de suingue. Pena que a boboca morre de vergonha de dançar comigo. Mas isso passa. Um dia, tenho certeza, ela vai gostar de sair para balançar o corpo com a mãe. E eu vou amar quando isso acontecer.
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