Faking

3 Capítulo III


Notas iniciais
Muuito obrigada pelos comentários :3 Eu troquei esse capítulo de lugar, desculpem a confusão :)

– Acorda, filha — chamou minha mãe.

Parecia que eu não tinha dormido nem 5 minutos, mas eu dormi por 4 horas depois de chorar por 3 horas e dormir de tédio. Chorar cansa. Eu olhei para o relógio e percebi que estava 30 minutos atrasada. Eu era sempre uma das primeiras a chegar pra dar tempo de revisar minhas coisas antes de entrar para a sala, mas naquele dia não daria mais tempo.

Me levantei e minha mãe tomou um susto ao olhar para o meu rosto.

– Meu Deus, você tá horrível! — ela gritou.

Eu geralmente não vejo minha mãe antes de sair por acordar cedo demais, então não tenho tempo de levar bronca por estar com os olhos inchados por que chorei a noite toda. Minha mãe iria falar muito no meu ouvido.

– Vai tomar banho e eu já te mostro como vamos esconder essas olheiras! — ela ordenou.

Eu tentei reclamar, mas antes de conseguir ela já estava me enxotando para o banheiro.

Quando terminei ela me esperava do lado de fora, me carregou até o quarto correndo e me sentou na cadeira da minha escrivaninha. Haviam vários estojos de maquiagem encima da escrivaninha. Se querem saber uma coisa sobre a minha família, televisão e Internet não pode, mas as maquiagens da mamãe não podem faltar.

Eu nem tive tempo de protestar e dizer que não queria aquilo, pois ninguém me notaria mesmo, e ela já estava me enchendo de pó e rímel. Depois de 10 minutos ela parou e pegou um espelho para que eu me visse, pelo modo como ela sorria eu devia estar parecendo o capeta. Mas não, eu estava linda. Sem olheiras, sem manchas na pele, sem aquelas espinhas irritantes, tudo sumiu. Nos meus olhos não tinha nada mais que rímel e o que me pareceu uma sombra dourada bem fraca, eu juro que quase não a vi. Minha mãe era a maga da maquiagem. Pelo menos eu iria morrer bonita na escola, pelo menos eu iria ser espancada pela Ísis bonita. Eu coloquei o cabelo de lado como Daniel fez comigo e minha mãe parecia ter alargado o sorriso ainda mais. Agora sim estava perfeita.

– OK, agora corre pra se vestir por que não dá tempo pra mais nada! — mandou minha mãe toda alegre. Ela sempre adorou me maquiar, mas eu odiava e eu acho que isso a magoava, mas naquele momento ela estava feliz e era isso que importava.

Eu me vesti como sempre (talvez hoje eu tentasse chamar menos atenção, assim eu não iria ser espancada) e peguei minha bolsa, arremessando meus livros ali dentro e me calçando ao mesmo tempo.

Quando eu cheguei na escola pensei que não ia dar mais tempo pra entrar, tinha ido correndo e achava que ainda assim eu iria ficar pra fora da sala, mas não, as pessoas ainda estavam ali fora. Olhei para o relógio imenso que ficava na frente da escola e descobri que ainda faltavam dez minutos para as aulas começarem. Minha mãe me mandou cedo para que todo mundo me visse de maquiagem. Ela sempre quis ter uma filha bonita como a Angelina Jolie ou algo assim, mas no fim ela só conseguiu eu, e desde então faz de tudo pra que eu me sinta mais bonita comigo mesma, ela acha que assim vou deixar de ser tímida demais.

Eu relaxei e comecei a andar até a minha sala.

Sabe quando você tem aquela sensação estranha de estar sendo observada a cada passo que dá? E sabe quando você nunca foi notada e agora de repente todo mundo estava olhando pra você? Bem, aposto que esse último não, mas o primeiro talvez e era exatamente assim que eu me sentia. Sempre que eu virava para trás as pessoas se mexiam e quando eu virava para frente o mundo parecia parar para me observar. Eu me senti desconfortável. Achei que fosse por causa da maquiagem e se fosse eu iria tirá-la o mais rápido possível.

– Você tá aqui — falou Paola aparecendo do meu lado, ela devia ter estranhado meu atraso.

– É, eu me atrasei totalmente! -desculpei-me.

– Você tá de maquiagem? — perguntou Paola, parando no corredor para me analisar. — E esse cabelo jogado pro lado? O que você fez?

– Ah, isso foi minha mãe, eu chorei ontem à noite e ela insistiu em me passar esses troços hoje pra não aparecer — sussurrei para ninguém escutar e revirei os olhos, que coisa estúpida de se contar para os outros.

– Podia ter me ligado.

– Com que telefone? — perguntei, ironizando minha situação crítica.

Paola riu até chegarmos na sala. Lá também todos estavam olhando para mim. Me senti pior ainda. Ísis tinha virado a escola inteira contra mim, só podia ser isso.

– Eles estão te olhando — avisou Paola, como se eu não soubesse.

Eu tentei me esconder entre meu cabelo castanho escuro, mas minha pele branquela cismava em aparecer. O que aquela gente tanto olhava?

– Preciso te contar uma coisa — falei para Paola no meio da terceira aula quando já não aguentava mais ver as pessoas me olhando e depois rindo ou cochichando com caras surpresas.

– O quê? — ela perguntou, curiosa como só ela.

– Eu contei tudo para a Ísis ontem, eu acho que é por isso que ela não está aqui hoje. Eu acho que ela tá montando um plano pra me assassinar!

– Que tudo que você contou?

– TUDO, Paola, tudo que ninguém tinha contado antes, sobre o namorado dela o Ian, sobre os boatos da anorexia, sobre as amigas falsas dela, tudo!

Ela fez uma cara de surpresa maior que a da asiática do dia anterior.

– Não acredito!

– Sim! Eu fiz! É por isso que tá todo mundo me olhando! Eu nem acredito que fiz isso, Pola, eu sou um monstro!

– Você fez a melhor coisa e tá mal? — Ela riu como se fosse uma piada.

O professor tossiu na nossa frente.

– Com toda licença, senhorita Campbell, odeio ter que estragar o papo das senhoritas, mas se está tão interessante podia ajudar em algo na nossa aula, não é?

O professor me olhava com cara de quem tinha acabado de ganhar uma briga e na loteria ao mesmo tempo. Todo mundo fez silêncio pra escutar o que eu iria dizer sobre o nosso assunto. Paola se encolheu na cadeira e eu olhei para o quadro. Era uma conta de baskara simples para descobrir o ângulo X de um triângulo isósceles. Eu já tinha feito aquele dever, sabia a resposta.

– Não era nada, senhor Bart, só queria dizer que a resposta é: x igual a 56 — falei, girando o lápis nos dedos e cruzando as pernas como sempre fazia depois de ganhar qualquer coisa.

Eu passei toda a minha vida sendo zoada depois que eu fazia aquilo e eu sentia que naquele momento eu poderia levar ovadas na cabeça e tomates na cara, mas a turma inteira fazia silêncio enquanto o senhor Bart terminava a conta na cabeça olhando para o quadro. Eu quis olhar para ver se as pessoas não estavam rindo de mim baixinho e esperando o momento certo pra me zoar, mas eu sentava na frente, nas primeiras carteiras, e não queria me virar.

– Está certo, senhorita Campbell... — E foi só isso que eu ouvi do professor antes de todos começarem a gritar e falar que eu "tinha conseguido mais uma vez", mas o tom não era ironia, o tom era de aplausos.

Eles estavam me ajudando e zoando o professor e não eu. Me senti a dona do mundo, a dona de tudo. E o sinal tocou avisando que a aula tinha acabado e era recreio. Paola olhou para mim surpresa e feliz e eu olhei pra todos vitoriosa.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3