Fairy Tales
9 Capítulo VI - Moonlight Lullaby
Notas iniciais
A mão pequena de Mu seguiu cautelosamente em direção à capa vermelha embolada dentro da bolsa de couro do líder. Seus olhos vazios e nublados fitavam intensamente a vestimenta rubra que era exatamente o que o seu subconsciente ordenava-lhe para roubar.
Assim que seus delicados dedos tocaram o tecido grosso, uma mão grande e forte segurou o seu pulso fino com firmeza, fazendo-o despertar do encantamento e soltar um gemido alto de dor. Seus olhos agora voltando ao normal, desviaram-se para o dono da mão que o apertava, encontrando Máscara da Morte a fitá-lo com uma expressão muito séria e zangada.
– O que pensa que está fazendo? Hãm? – indagou a voz grave num tom de ameaça que fez Mu perder a fala e arregalar os olhos, sem desviar do olhar daquele homem enorme e intimidante. – Eu fiz uma pergunta! – exclamou, assustando o menino e apertando seu pulso entre os dedos ásperos até fazer o garoto libertar um grito e alarmar todo o acampamento.
Aiolia acordou num rompante, levantando-se com tudo para fora da tenda, mesmo sem camisa, vestindo apenas a calça costumeira. Seu coração falhou com aquele grito tão familiar e a sensação de acordar com o vazio entre seus braços, lugar onde seu anjo deveria estar, fez com que ele se desesperasse completamente.
Ikki e Shura também acordaram sobressaltados, equipando-se rapidamente com suas armas. Milo que cochilava recostado na árvore, acordou num susto, segurando a lança firme entre as mãos e ficando preparado para o pior.
Os quatro homens viram, para sua surpresa, Máscara a arrastar Mu pelos cabelos para fora da tenda e em seguida em direção a jaula onde estava Afrodite. O líder estava mais do que decidido a colocar o garoto lá dentro de novo. Sabia que tinha sido uma idéia ridícula tê-lo deixado fora da jaula.
A dor que o leonino sentiu no peito ao ver o SEU pequeno ser arrastado daquela forma e os gritos de dor que saiam da boca dele, o fez se enfurecer de tal maneira que ele chegou a ficar irreconhecível. Não pensou em mais nada, apenas rumou em direção ao líder e fechou o punho, socando o lado direito do rosto de Máscara da Morte com força.
Fora o choro de Mu, não havia sequer um barulho no acampamento. Todos os guerreiros ficaram sérios e em silêncio após o ato. O líder apenas endireitou a cabeça, estalando o pescoço uma ou duas vezes e levando a mão ao rosto, massageando de leve o maxilar anguloso. Nas mãos, ainda segurava os cabelos do garoto que estava meio ajoelhado sobre o chão de terra seca.
– Solta ele. – ordenou Aiolia, num tom extremamente sério e profundo, encarando o líder sem medo, a respiração alterada, fazendo seu peito desnudo subir e descer a cada inspirada, graças à fúria que estava sentindo. O rosto másculo meio avermelhado de raiva, numa expressão desafiadora.
Máscara obedecera ao pedido, mas não por causa de Aiolia, e sim para revidar com um soco duas vezes mais forte, fazendo o leonino ceder dois passos para trás, desequilibrando-se. Não demorara muito tempo para os dois se atacarem de maneira feroz e descontrolada, socando-se e medindo forças como quem defende território.
Após um corte no supercilio, um roxo na bochecha esquerda e o nariz sangrando Aiolia fora segurado por Shura, enquanto Ikki e Milo tentavam com dificuldade segurar Máscara da Morte, que terminou com um corte no rosto, e o lado interno da boca estourado, o que fez com que este cuspisse um pouco de sangue, antes de desvencilhar-se dos braços dos dois parceiros e se afastar um pouco, tentando se recompor.
– Você passou dos limites Aiolia. – concluiu o líder, normalizando a respiração e enxugando a testa suada com as costas da mão. – Está na hora de separar o casal de namorados. – informou, olhando para Aiolia que se encontrava no mesmo estado cansado, ainda sendo segurado por Shura, e depois para Mu que estava completamente assustado, sentado no chão, segurando o pulso machucado com a mão livre. — Milo, coloca a criatura de volta na jaula. – falou, vendo a expressão derrotada de Aiolia, retomar fôlego e este voltar a se debater.
– Ele tem nome! – gritou, tentando se soltar dos braços fortes do ferreiro. – Fica longe dele! Tira as mãos dele! – urrou.
– Calma cara, calma! Fica quieto que eu te ajudo a contornar a situação. – interviu Shura, falando não muito alto, para não chamar a atenção dos outros. Apenas para ele e para o leonino ouvirem. Aiolia aos poucos foi cedendo, vendo Milo abrir a jaula onde a sereia estava e colocar Mu junto do loiro. Pelo menos o garoto não ficaria com Misty.
– Que grande merda você fez aqui... Mas por enquanto ainda preciso de você. – afirmou, estranhamente calmo. – Você ainda me obedece. Faz parte do meu grupo, então vai fazer o que eu mandar. – explicou, andando até sua tenda e pegando o mapa nas mãos. — Você vai partir em direção as terras do sul, em busca de qualquer vestígio, qualquer cheiro que lembre o fedor de sangue que os demônios exalam. Entendeu? – ordenou Máscara, encarando Aiolia com raiva e sendo retribuído no mesmo nível pelo leonino. — Quando achar alguma coisa, certifique-se de que é aquilo que nós estamos procurando, veja onde se esconde, e então volte. – pausou. — Com a velocidade que você alcança em forma de leão, é provável que em menos de três dias você consiga fazer o trajeto que nós, que precisamos carregar essa porcaria dessas duas jaulas, faríamos em uma semana. – explicou Máscara, dando as instruções para a viajem que Aiolia faria sozinho. Afinal, a intenção era separar o caçador de Mu e ao mesmo tempo fazê-lo localizar o Succubus com seus instintos felinos aguçados.
Aiolia não teve outra escolha. Mu estava com Máscara agora, e ele ainda fazia parte do grupo. Precisava cumprir suas obrigações e era melhor mesmo dar uma trégua por enquanto. Pois pelo que Shura disse, os dois cultivavam do mesmo pensamento de fugir com os prisioneiros. Agora precisava de uns dias para ele e o ferreiro conversarem direito e pensarem juntos em um plano de fuga.
– Me deixe ao menos... Me despedir dele. – pediu Aiolia, não dando brechas para oposição e indo direto em direção à jaula onde o seu pequeno estava.
Antes que o leonino pudesse se despedir de Mu, dentro da segunda jaula, uma figura extremamente furiosa estava vendo seu plano ruir completamente. Misty chegou ao auge de sua irritação e fora obrigado a recorrer à sua última alternativa.
Estreitou seus olhos na escuridão, fitando o líder com raiva e entreabriu os lábios carnudos, emitindo um sonar agudo, estridente, como um grito, incrivelmente alto, ensurdecedor. Ondas sonoras extremamente altas que ultrapassavam completamente a capacidade auditiva dos ouvidos humanos, fazendo todos por perto caírem de joelhos ao chão, cobrindo os ouvidos numa tentativa inútil de impedir aquele som terrivelmente cortante de penetrar em seus cérebros, embaralhando seus sentidos.
O grito da Banshee estremeceu a terra ao redor e do chão começaram a surgir rachaduras, rasgando o barro seco em vários lugares e formando estreitas e profundas crateras escuras.
Quando o grito tornou-se torturante o bastante para fazer com que filetes de sangue escorressem pelos ouvidos de alguns dos caçadores, Misty cessou, sentindo um forte esgotamento físico e mental graças ao uso excessivo de poderes.
Mas em compensação ao seu esforço. Das fendas que nasceram no chão, mãos esqueléticas começaram a surgir, enfiando os dedos de carne apodrecida na terra, ajudando os mortos a escalarem e saírem dos vários buracos profundos e sombrios. Seus corpos desfigurados pelo tempo, com alguns ossos à mostra, poucas mechas de cabelo que ainda estavam grudadas ao couro cabeludo e alguns com vestígios do que seriam vestes, há muitos anos atrás.
– Mas que diabos está acontecendo? – indagou Milo, espantado com a situação e olhando para o líder que se recuperava aos poucos do incomodo que o som agudo tinha lhe causado, assim como os outros.
– Era só uma lenda, mas dizem que o grito da Banshee é tão forte que pode levantar os mortos, acordá-los novamente, por certo tempo. Mas eles só usam esse poder em ultimo caso, graças à energia necessária para conjurá-lo. – concluiu Máscara, desembainhando sua espada lentamente, sem tirar os olhos dos zumbis que estavam levantando e começando a andar em direção a eles.
– Parece que tem alguém aqui que está com muita raiva de você Máscara. – brincou Shura, alfinetando o líder e lançando em seguida um olhar rápido em direção à jaula, onde Misty estava ajoelhado, com as duas mãos espalmadas no chão e a cabeça abaixada, respirando com dificuldade, fazendo com que seus cabelos escorressem por sobre os ombros e caíssem em frente ao seu belo rosto, ocultando-o.
Os caçadores não tiveram outra opção, Ikki equipou-se de seu martelo, Milo jogou uma de suas lanças para Shura e Aiolia se transformou em leão, preparando-se para atacar o pequeno exército de mortos vivos.
Os cadáveres traziam consigo variados tipos de armas, de diferentes épocas. Desde espadas curvadas de piratas, até arcos e flechas de civilizações antigas. Em alguns deles ainda era possível identificar o tipo de roupa que usavam, como chapeis de corsários e armaduras já danificadas de cavaleiros que morreram nas inúmeras guerras ocorridas no passado.
Diferentes dos zumbis comuns, estes não eram lentos e decadentes como a maioria, pois mantinham a velocidade e habilidade que possuíam ainda em vida, tornando-se mais fortes, resistentes e difíceis de derrotar.
Já devidamente preparados, o pequeno exército começou a avançar em direção ao grupo de cinco caçadores, gritando e correndo para o acampamento, enquanto alguns levantaram seus arcos, mirando as flechas ao céu noturno e atirando em uníssono.
Afrodite estava completamente assustado, mas não deixou transparecer, apenas virou o rosto para o lado oposto da luta e começou a cantar baixinho, tentando não prestar atenção aos gritos horrendos que aquelas criaturas terríveis liberavam antes de ter suas cabeças arrancadas pelas lâminas das armas do caçadores.
Mas rapidamente lembrou-se de que não estava mais sozinho agora, tinha ficado tão desnorteado com aquele ataque repentino que havia esquecido sobre o garoto de cabelos lavanda que fora trancado na mesma jaula que ele.
Olhou para sua frente encontrando um garoto provavelmente mais novo do que ele, encolhido contra a grade de ferro, abraçando as pernas e enterrando o rosto entre os joelhos enquanto chorava dolorosamente, soluçando e respirando com certa dificuldade.
Sentiu-se muito mal em ver o estado do menino com os joelhos ralados e uma marca roxa muito dolorida no pulso direito. Não sabia se deveria ou não se preocupar com algo que não era da sua conta, mas sua personalidade gentil o impedia de manter-se indiferente à dor dos outros.
Por isso, mesmo sabendo que estava sendo precipitado, aproximou-se um pouco do menor, tocando-lhe cuidadosamente o ombro, o que mesmo assim causou uma forte rejeição por parte do mais novo, que se assustou e levantou os olhos rapidamente, fitando Afrodite e se afastando um pouco mais.
– Não tenha medo... – sussurrou Afrodite, expressando um leve sorriso triste, porém naquele momento, fez o melhor que pode. – Vamos... Não chore... Assim você me deixa triste também... Deixa-me ajudá-lo. – insistiu, observando o pequeno Mu que o fitava com desconfiança e medo, mas que mesmo assim estava cedendo aos poucos.
– Vem... – chamou, tocando-lhe o braço novamente com sua natural delicadeza, — Não vou te machucar... – afirmou, ao perceber um pouco de recusa por parte do menor.
Por fim, conseguindo convencê-lo, sentou-se no chão de madeira da carroça e trouxe o mais novo para o seu colo, sentando-o de lado sobre suas coxas e deitando a cabeça dele sobre seu peito liso, enquanto o abraçava com os braços aconchegantes, cobrindo-lhe os ouvidos para que não escutasse os sons ruins que ecoavam pelo acampamento.
Encostou de leve a sua bochecha sobre a testa de Mu e começou a balançar seu corpo sutilmente, para frente e para trás, tentando lembrar-se da letra de uma bela canção de ninar da qual havia escutado há muito tempo.
– Ssh... Não precisa chorar mais... Tudo ficará bem agora... – sussurrou. Começando aos poucos a cantar docemente, abafando com as mãos os ouvidos do menor e fazendo com que ele só pudesse escutar a sua encantadora voz.
It's gonna be alright...
(Tudo ficará bem...)
Just close your eyes
(Apenas feche seus olhos)
And dream away the night
(E sonhe durante toda a noite...)
It's gonna be alright
(Tudo ficará bem...)
Let your worries fly
(Deixe suas preocupações flutuarem)
Like candlelight
(Como a chama das velas)
Aquela canção... Era como um sonho distante... Lenta e sentimental. E mesmo que Mu não pudesse entender nada do que a letra realmente significava, soava tão mágico... Tão reconfortante. A voz da sereia era extremamente clara, macia e suave... E mesmo que Afrodite fosse um garoto, ainda soava como um menino, um doce menino que ainda não tivera a voz estragada pela puberdade.
All this love that you feel...
(Todo esse amor que você sente...)
It's in you...
(Está em você...)
It's in me...
(Está em mim...)
In the moonlight...
(Na luz do luar...)
On your blue sky eyes...
(Em seus olhos azuis cor do céu...)
In the starlight, under sea
(Na luz das estrelas, sob o mar...)
E aos poucos, mesmo que não conhecesse aquele que o segurava em seus braços, Mu não pode evitar começar a sentir um grande afeto por ele. Pois além do seu amado Aiolia, ninguém mais ali ousara tratá-lo com tanto carinho quanto Afrodite. Graças a ele, seu medo estava passando agora. E mesmo que suas lágrimas ainda não houvessem cessado completamente, ele já podia sentir o leve torpor do sono a alcançar-lhe, espalhando-se por todo o seu corpo.
Let dreams surround you...
(Deixe os sonhos te envolverem...)
While you sleep...
(Enquanto você dorme...)
Go to sleep...
(Vá dormir...)
Go to sleep...
(Vá dormir...)
A poder de voz de Afrodite era muito forte, fazendo com que suas cordas vocais vibrassem com potência, derramando lentamente seu sortilégio do sono sobre o pequeno garoto, aliviando assim as suas dores e medos, de um modo que pudesse esquecer um pouco as suas preocupações.
It's gonna be alright...
(Tudo ficará bem...)
Just close your eyes
(Apenas feche seus olhos)
And dream away the night
(E sonhe durante toda a noite...)
Mu já estava ressonando em seu peito agora... Mas mesmo assim, Afrodite concluiu o último verso, num sussurro baixo, só para si.
De olhos fechados, cessou a canção de ninar, fechando seus grossos lábios vermelhos e suspirando cansado. Por fim, deixou sua cabeça pender levemente para trás, encostando-a na grade de ferro e desejando em seu intimo que tudo aquilo pudesse acabar logo.
...
A brisa fraca e fresca da manhã passou por entre as grades de ferro, percorrendo seu corpo numa carícia gostosa e reconfortante, fazendo-o se arrepiar. Sentia ao seu lado uma presença quente lhe abraçando, mas não sabia quem era. Os passarinhos cantavam alegres e animados e o sol já estava quase nascendo. Sinceramente, não parecia nem de longe que tivera uma noite péssima da qual não gostaria nem de mencionar. Sua vontade naquele momento era só continuar deitado do mesmo jeito que estava. Retribuindo o abraço e o calor que aquele outro corpo o estava proporcionando.
Mais uma vez o vento fraco voltou a deslizar sobre a sua pele nua, fazendo-o se arrepiar novamente, e sem querer, revelar um sorriso tímido no canto dos lábios, enquanto ainda deitado, começava a abrir de leve seus grandes olhos azuis piscina.
A primeira coisa que pode enxergar aquela manhã fora o rosto tranqüilo e fofo de Mu, que ainda lhe abraçava, deitado de lado, de frente para ele. Ficou analisando preguiçosamente os traços do rosto do menor, tão diferentes dos seus.
A boca era pequena, de lábios levemente grossos, porém não tanto. O nariz combinava perfeitamente com o rosto na opinião critica de Afrodite. Já as sobrancelhas eram engraçadas, tão finas que quase chegavam a ser imperceptíveis, e também havia dois pontinhos lilás da cor do cabelo no cenho dele. Algo bem estranho, na sua concepção, o que não deixava de ser muito bonito é claro, mas estranho... Curioso.
Desvencilhando-se cuidadosamente de seus braços para não acordá-lo, o loiro se sentou na madeira fria da carroça, com os olhos ainda um pouco inchados e semi-fechados de sono. Os cabelos então, mais bagunçados não poderiam estar.
Esfregou bem o rosto, para tentar acordar direito, e depois olhou ao redor, encontrando o acampamento quase vazio. Apenas estavam Máscara, Ikki e Aiolia agachados perto da brasa do que restara da fogueira da noite anterior, traçando no velho mapa a melhor direção para a viajem que Aiolia faria sozinho.
Shura e Milo não estavam, mas o restante parecia bem tranqüilo. Apesar de que agora prestando mais atenção, Afrodite podia notar o braço enfaixado de Ikki, assim como os cortes superficiais e curativos na barriga do líder. Já Aiolia tinha o rosto um pouco roxo e inchado por causa do desentendimento de ontem, e alguns machucados no corpo por causa da luta, mas nada de realmente importante.
Já um pouco mais acordado, o loiro passeou o olhar sobre o restante do acampamento. Notando os vestígios do combate que ainda estavam frescos em sua memória. Os galhos de árvore quebrados, armaduras velhas e danificadas espalhadas pelo chão, junto de machados, tridentes, espadas, escudos e o cheiro de morte que agora estava sentindo.
Afrodite não entendia como aqueles caçadores podiam agir como se nada demais tivesse acontecido, sentados ali no meio da bagunça planejando o próximo passo de sua caçada. O fato é que aqueles homens ali já estavam tão acostumados com aquele tipo de acontecimento, com aquela situação em que viviam, com a morte, que já não lhes causava mais nenhum tipo de comoção ao que estava vinculado à guerra.
Bem, o loiro realmente não lembrava mais em detalhes o que havia ocorrido ontem, mas a única coisa que tinha certeza é de que não queria relembrar. Então tratou de esquecer logo aqueles pensamentos desagradáveis e procurar alguma coisa mais interessante para observar.
Em meio aos seus devaneios nem havia notado que Aiolia já tinha terminado o que estava fazendo e agora se aproximava timidamente da jaula. Afrodite levou seu olhar azulado em direção ao caçador, observando como mancava sutilmente e detinha um ar de preocupação do qual ele já imaginava o porquê.
– Ele está bem? – indagou o leonino depois de um tempo em silêncio sem desviar o olhar de Mu que ainda não havia acordado.
– Está. – afirmou simplesmente, mantendo seu rosto sério e imparcial. Achou o sentimento de amor daqueles dois muito lindo, mas já tinha se envolvido demais para o seu gosto.
– E você? Está bem? – questionou Aiolia, agora voltando seu olhar para Afrodite que se surpreendeu internamente, arregalando levemente os olhos por causa da pequena preocupação inesperada do caçador para consigo.
– E-Estou... – respondeu um pouco surpreso e confuso, mas tentando manter o Afrodite tagarela que costumava falar até pelos cotovelos preso internamente. Por enquanto.
Aiolia voltou a direcionar seu olhar para o menor, levando a mão cuidadosamente por entre a grade para poder tocar no ombro de Mu e acordá-lo. Estava na hora de se despedir.
Tendo seu ombro balançado de leve e a voz grave do leonino lhe chamando o menino se remexeu um pouco, despertando. Abriu os olhos verdes aos poucos enxergando o maior que o observava.
– Aiolia! – agitou-se ao conseguir raciocinar, levantando rápido do chão e aproximando-se da grade para ficar perto dele. – O que aconteceu com seu rosto?! Está doendo muito? Você está machucado em mais algum lugar? Está bem? – lançou uma série de perguntas seguidas e preocupadas enquanto tentava abraçar o maior com dificuldade graças à grade os separando.
– Acalme-se meu anjo... Ta tudo bem agora. – disse ele carinhosamente, retribuindo o abraço do menor e deixando um sorriso de leve aparecer no canto dos lábios ao notar a preocupação que Mu nutria em questão a ele. Depois se separou apenas alguns centímetros para poder segurar o rosto do menor entre as mãos e observá-lo um pouco, tentando buscar coragem para dizer o que precisava dizer. – Mu... Que bom que está bem, eu fiquei com tanto medo. – declarou comovido, depositando um beijo repleto de sentimentos na boca do mais novo, apenas um encostar de lábios demorado, enquanto fechava os olhos fortemente como se já pudesse sentir toda a saudade antecipada. – Eu não posso adiar mais meu amor... Você tem que saber. – pausou, — Eu vou ter que fazer uma viagem de três dias ou mais. Sozinho. – explicou, vendo a expressão de Mu tornar-se confusa e seu cenho franzir levemente enquanto o olhava escutando-o com atenção.
– O quê...? Viagem...? – repetiu começando a cair em si, sentindo um frio a tomar conta do seu interior. – Não... – sussurrou não querendo acreditar. – Não... Não, não, não, não. Por favor Aiolia, não me deixa aqui! Por favor... – começou a se desesperar, sentindo seus olhos arderem com o inicio de choro, mas não queria chorar mais. – Não... Por favor... – sussurrou, fechando as pálpebras com força para segurar as lágrimas que lhe encheram os olhos. – Eu não quero ficar sem você...
Aiolia sentiu o coração falhar presenciando aquele desespero que de certa forma ele já sabia que viria, mas não sabia que iria doer tanto dentro de seu peito. Desde que conhecera aquele pequeno, todas as vezes em que se separaram um do outro, acabaram em graves problemas. Mas não havia uma alternativa, não havia uma saída. Se o que ele realmente queria era poder ficar com Mu para sempre quando tudo aquilo acabasse, então teria que fazer o que lhe fora ordenado.
– Por Deus... Mu, não faz isso comigo... Olhar pra ti só torna tudo mais difícil. Eu não sei mais o que devo fazer... Não tenho mais certeza de nada... Só consigo pensar em ti. – pausou, — Mas se nós não nos separarmos agora, nem que seja por pouco tempo, então vamos ter que nos separar no futuro para sempre... – declarou Aiolia, com a testa encostada na do menor, seus olhos fechados apenas confirmavam o temor que sentia de que se olhasse nos olhos do mais novo e recebesse aquele olhar desesperado e magoado de antes, isso o fizesse desistir. – Céus, eu o amo tanto! E mesmo que fiquemos longe um do outro você vai estar sempre aqui comigo... Sempre! – concluiu, segurando a mão pequena de Mu entre as suas e levando-a até seu peito firme, sobre seu coração que batia acelerado.
Mu apenas fechou os olhos por mais alguns momentos, e então enxugou uma única lágrima da bochecha direita, antes de olhar fixamente nos olhos de Aiolia e levar a mão ao seu rosto, trazendo-o para um ultimo beijo diferente de todos os outros que o leonino já recebera.
Quando seus lábios se tocaram mais uma vez, Mu projetou todo o seu amor e preocupação naquele ato, fazendo seus cabelos lilases começarem a brilhar sutilmente, elevando-se no ar e flutuando como se estivessem dentro da água. O brilho arroxeado das suas mechas e das suas mãos que estavam espalmadas no peito do maior começaram a fazer efeito, curando lentamente, uma por uma, as feridas do leão.
O rosto roxo e inchado voltou a parecer intocado, e os cortes no corpo foram desaparecendo, assim como a perna machucada, restando apenas as antigas cicatrizes de lutas passadas. A força foi sendo restaurada por completo. Mu estava doando a energia do seu corpo para reavivar o corpo cansado e esgotado de Aiolia, resultando no final, em um leonino completamente refortalecido, vivaz e descansado.
Assim que o beijo cessou, os cabelos do menor voltaram ao normal, caindo sobre seus ombros, e ele teve que se apoiar nas grades com as mãos para não cair devido a sua fraqueza.
Aiolia ainda completamente surpreso com o ato inesperado do menino voltou à realidade rapidamente ao notar o esgotamento físico e mental que o menor havia se submetido por sua causa.
– Não devia ter feito isso... – declarou preocupado, tentando de algum jeito amparar Mu por detrás daquelas malditas grades.
O menor apenas levantou a cabeça, tirando a franja comprida para poder observá-lo nos olhos, e sorriu. – É um presente... – sorriu, tentando passar confiança no olhar gentil. – A prova de que não importa o que aconteça, eu vou estar para sempre aqui te esperando. – concluiu. Voltando a sorrir docemente.
Aiolia ficou sem reação diante de cena tão linda. Porém ainda não havia aceitado o fato de Mu ter se prejudicado para ajudá-lo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, sentiu o dedo indicador do menino sobre seus lábios. – Shh... Eu vou ficar bem... Agora vai. – pediu, desejando que ele fosse de uma vez antes que mudasse de idéia e estragasse tudo... – Vai. – repetiu, dando ênfase. Tirando o dedo dos lábios de Aiolia e vendo-o se afastar devagar, contrariado, andando sem virar as costas, ainda o olhando, até estar preparado, e num rugido transformar-se no grande leão que vivia dentro de si, saindo em disparada pela floresta, deixando para trás o menor que ainda estava sentado no mesmo lugar, com o olhar perdido em direção ao local onde Aiolia havia desaparecido de sua vista.
Afrodite estava quase se derretendo em lágrimas com aquela cena extremamente romântica, fofa e açucarada em níveis tão altos que quase o estava matando por excesso de drama. O problema, é que ele adorava um drama. Mas mesmo assim se fez de forte e de certa forma imparcial. Cedendo apenas no ato de aproximar-se do menino de cabelos lilases e tocar-lhe o ombro em ato de apoio.
– Quatro dias passam rápido... – comentou. – Podemos fazer companhia um ao outro até lá. – propôs, começando aos poucos a libertar seu lado sentimental e meio tagarela.
– Obrigado... – agradeceu Mu sorrindo de leve e direcionando seu olhar ao mais velho. – Por tudo... Obrigado mesmo, você foi extremamente gentil comigo ontem. – declarou sincero.
– Tudo bem. Afinal, acho que estamos no mesmo barco não é... – brincou, rindo de leve e sendo retribuído pelo menor. – Seu pulso ainda dói? – indagou, pegando delicadamente a mão do mais novo entre as suas e analisando a marca roxa escura na pele branca.
– Não muito... – deixou-se ser analisado pelos dedos cuidadosos de Afrodite, até que lhe passou pela cabeça que ainda nem sabia o nome do seu mais novo amigo. – Desculpe não ter perguntado, acho que não tive ainda uma oportunidade, mas qual o seu nome? – indagou, olhando o maior.
– Oh, você fala tão bonitinho! – riu Afrodite, fazendo Mu rir sem jeito, o que só o fez ter ainda mais vontade de apertar as bochechas do menino. – Meu nome é Afrodite, e o seu, pelo que pude ver, é Mu... Por que você não usa aquele poder que você usou agora a pouco para poder curar o seu pulso? – indagou confuso, mudando de assunto tão repentinamente que acabou deixando o mais novo surpreso.
– Não posso. – sorriu, — Só funciona com os outros, não dá para eu usar em mim mesmo. Preciso ter de onde tirar energia. No caso quando eu curo alguém, eu tiro energia do meu corpo, mas para me curar, não há fonte de energia. – explicou, — Por isso fico esgotado depois de usá-lo, e se eu exagerar pode causar a minha própria morte. – concluiu, suspirando levemente, sentindo seus olhos pesados. – Se você não se importar, eu acho que vou voltar a dormir agora... Mas quero que saiba que você é uma ótima pessoa Afrodite. – sorriu de leve, voltando a se deitar devagar e fechando os olhos.
Afrodite sorriu em retribuição, logo se ajeitando com as costas encostadas nas barras de ferro e encolhendo as pernas de coxas grossas para não ficar com frio. Passeou seu olhar pelo acampamento notando que Máscara agora estava desmontando as tendas, e Ikki, bem Ikki estava vindo em sua direção.
– Lá vem o garoto problema. – resmungou soprando a franja para cima no que pareceu ser uma bufada infantil, e depois cruzando os braços e mudando sua expressão para uma emburrada.
– Também não vou com a tua cara, mas infelizmente tenho que conviver, então desfaça esse bico de pirralho infantil e coma alguma coisa. – afirmou Ikki, com sua típica indelicadeza, porém com certa paciência um pouco ofuscada pelo seu jeito marrento. Depositou uma bolsa com algumas frutas que tinha apanhado na floresta e um pote de madeira com água limpa, e depois cruzou os braços também olhando de cara feia para Afrodite. – Vamos, não tenho o dia inteiro. E tem tempo que você não come. – concluiu severo, porém por dentro havia uma pontada de preocupação. Mas é claro que ele não admitiria isso.
Afrodite olhou de canto de olho para as frutas, depois para a água limpa, estava morrendo de vontade de comer alguma coisa, mas na frente dele não o faria! Deu outra bufada infantil e virou o rosto, fazendo a pouca paciência de Ikki acabar e seus nervos começarem a ferver, mas antes que pudesse enfiar comida pela boca a baixo do menor, o sol despontou no horizonte, e os primeiros raios de luz dourada bateram no rosto de Afrodite.
– Oh! Não! – protestou Afrodite levando os braços em frente ao rosto para se proteger da luz forte, porém o que não queria era voltar a ter a cauda fora da água de novo, era doloroso. – Ainda é cedo! Me de mais tempo! – brigou com o sol como se isso pudesse mudar alguma coisa.
Assim que os raios atingiram as pernas do garoto, umas pequenas ondulações de um brilho dourado começaram a nascer ao redor da pele branca enquanto Afrodite tentava se cobrir inutilmente, e em pouco tempo as pernas se juntaram em uma só, ganhando uma aparência esverdeada recoberta por escamas brilhantes, e seu comprimento aumentou levemente, somando à barbatana um pouco transparente que nascera no final, se desenrolando aos poucos como se estivesse desabrochando.
Afrodite soltou um baixo gemido entre dentes. Passar pela transformação sem água, ali, seco daquele jeito era um pouco doloroso, mas parece que teria que se acostumar de agora em diante. Tornar-se metade sereia todos os dias só o fazia confirmar quem ele realmente era, e isso doía em outra parte. Seu coração. E pensar que há três dias ainda estava no seu amado oceano, com seus irmãos, com seu pai, banhando-se ao sol nos rochedos das praias, conversando com seus amigos sobre coisas banais e superficiais das quais as sereias adoravam falar. Isso já fazia tanta falta.
Lembrando-se disso ele suspirou conformado, um pouco triste na verdade, baixando a cabeça e deixando-se recostar de novo na grade e descansar. Voltando do seu estado alegre, para o estado taciturno
Ikki ainda tinha seus olhos levemente arregalados de surpresa diante da cena que presenciou, afinal, o que estava acontecendo ali? O menor pareceu sentir dor assim que se transformou ou fora apenas imaginação sua? Aquele rosto triste ali era difícil ignorar. Mas mesmo que quisesse confortá-lo de alguma forma, não o faria. E sabia bem disso, seu orgulho era quase inabalável. Ao invés disso soltou uma das suas ironias comuns para disfarçar o verdadeiro sentimento.
– Ué? Pensei que um peixe iria ficar feliz de ter sua cauda de volta. – riu.
– Ficaria... Se estivesse exatamente no lugar onde um “peixe” deveria estar. Mas, não posso... – pausou sério, levantando a cabeça devagar e mirando Ikki nos olhos. –... Porque você tirou isso de mim. – declarou firme e tranquilamente, devolvendo o ato na mesma moeda.
...
(AFRODITEEEEEEEEEEEEE MEU LINDÂOOOOOO! Tem coisa mais perfeita? Ok, parei... Agora vamos às explicações... Sim! eu cortei a luta com os zumbis por que, gente, eu não sou boa com ação, eu fiquei encalhada dias naquela cena então resolvi pular... A tradução do título significa "Canção de Ninar da Luz da Lua" E o link para escutar ela tá aqui >>> http://www.youtube.com/watch?v=UHkSowMUKYM PORRA SE VOCÊS NÃO ESCUTAREM EU METO A PORRADA EM VOCÊS, afinal não faz sentido eu colocar uma música no capitulo e colocar o Link, para as pessoas lerem e não escutarem... Então POR FAVOR né. Valorize o meu trabalho... (ATRASADO) ahuahuahuhauhuahuahuahu. Beijokas, AHHHHH, e NÃOOOOOO! O Afrodite e o Ikki não vão ter caso nenhum, eles são só amigos, e o sentimento deles é de amizade, embora eles tenham começado com o pé esquerdo, eu pretendo endireitar isso depois. Beijokaaaaaaas de novo. Até... )
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