Fairy Tales
6 Capítulo IV - Do Fundo do Oceano
Notas iniciais
A Baía das Espumas era uma grande piscina natural de água salgada, cercada por terra e vegetação com uma pequena abertura para o oceano. Cristalina e de um tom azulado, a piscina continha uma pequena praia de areias finas e muito brancas. No cantinho dessa praia havia um amontoado de rochedos onde as sereias geralmente costumavam ficar.
O grupo de caçadores, acompanhados de Shura, parou a uma distância suficiente para que as sereias não notassem sua presença. Deixaram os cavalos amarrados numa árvore e se aproximaram por trás da densa vegetação, espiando por entre os galhos a praia virgem e imaculada.
- Va bene... Agora io fiquei uma fera. – vociferou Máscara franzindo o cenho e desviando o olhar da praia para Shura.
- Calma cara, eles sempre ficavam aqui, eu juro! Eu não sei o que houve... – argumentou Shura, não entendendo o porquê das sereias não estarem na praia.
- Caspita! Estás tirando com a minha cara?! Cadê a porra destes putos d’água? – indagou, agarrando Shura pelo decote da camiseta e prensando-o contra o tronco da árvore.
- Ei ei! Que isso?! Eu sei lá onde eles estão, devem estar na água, eu não sei! Me larga! – ordenou, dando um empurrão no mais velho.
Máscara não hesitou em desembainhar a espada enorme das costas e apontá-la na direção do pescoço de Shura, que arregalou os olhos assustado, levantando as mãos em sinal de que não iria tentar nada.
- Escuta aqui! Você vai nos ajudar a capturar uma sereia viva e trazê-la para a praia, entendeu? – falou devagar, fazendo Shura engolir em seco.
- Espera ai! Você disse que não ia fazer mal a eles! Eu não vou fazer parte disso! – retrucou o mais novo.
- Ou faz ou morre. – afirmou, naturalmente.
- Quê?! Você enlouqueceu? O único modo de atrair eles é à noite, e se entrarmos na água a noite, vamos morrer todos nós! – exclamou, começando a ficar nervoso. Olhou para o lado em busca do apoio de Ikki e Milo, mas os dois estavam apenas de braços cruzados sobre o peito observando a discussão. Não pareciam nem um pouco a fim de contrariar o líder.
- Ué, você não é homem? Achei que fosse... Bem, de qualquer jeito nós vamos entrar na água logo à noite, e você vem também. – concluiu, aproximando mais a ponta da espada contra o pescoço de Shura, que parecia não ter muita escolha.
- Você vai se arrepender! Quando estiver na água com eles! Vai se arrepender! – argumentou uma última vez, tentando fazê-lo mudar de idéia.
- Estou morrendo de medo. – ironizou Máscara, tirando a espada do pescoço do outro e embainhando. –Milo, vamos buscar um barco! Ikki, você fica e toma conta dele. E você não tente nenhuma gracinha. – ordenou, montando no cavalo negro.
~~*~~
Sleep priestess, lie in peace
(Durma, sacerdotisa, descanse em paz)
Sleep priestess, lie in peace.
(Durma, sacerdotisa, descanse em paz)
If you cry, the boat you'll ride
(Se você chorar, o barco vai te conduzir)
The last trip to the other side.
(À última viagem para o outro lado)
Once you get there, sacred marks you'll bear.
(Quando você for para lá, marcas sagradas você ostentará)
They shall be peeled off, should you fail to lie still.
(Elas deverão ser arrancadas e você falhará em permanecer quieta)
Sleep priestess, lie in peace.
(Durma sacerdotisa, descanse em paz.)
Sleep, priestess, lie in peace.
(Durma, sacerdotisa, descanse em paz.)
If the priestess wakes from her dream
(Se a sacerdotisa acordar de seu sonho)
Perform the rite of stakes her
(Execute o rito das estacas em seus)
limbs pinned tight
(membros pregando-as bem forte)
Lest the doors open wide and
(Afim de que as portas não se abram e)
Suffering unleashed on all...
(o sofrimento se descontrole sobre tudo...)
Go to the other side.
(Vá para o outro lado)
Go to the other side.
(Vá para o outro lado)
Cast the boat, take a ride.
(Lance o barco, faça a viagem)
Cross the rift to the other side.
(Para além da fenda, para o outro lado.)
Further and further to the other side.
(Mais adiante e adiante, para o outro lado)
It must sail, bearing your tattoos
(Ele deve navegar levando suas marcas)
And our offering of tears.
(E nossa oferenda de lágrimas..)
A voz suave entoava uma canção para a lua cheia que já estava no céu, porém a noite ainda não tinha caído completamente, o céu estava com uma tonalidade laranja-avermelhada e os pássaros voavam alto circulando entre as nuvens.
Era Misty quem cantava a canção numa língua estranha da qual Mu não conhecia. Seus belos lábios avermelhados moviam-se e de sua garganta saia o som macio e afinado, entoando uma cantiga de bruxas, sobre um ritual antigo de sacerdotisas. Sua voz era suave, porém misteriosa, e depois que ele terminou de cantar, apenas fechou seus lábios, cantarolando a melodia, enquanto olhava a lua ao longe.
Aiolia tinha saído rapidamente para caçar algum animal, e ordenou a Mu que não se aproximasse da gaiola. Mas o menor estava curioso com a canção. Não conhecia bruxas, e Misty parecia ser tão interessante. Talvez ele pudesse ensinar-lhe a cantar aquela música também.
- Bela canção... Eu costumava cantar canções de ninar para meus irmãos... – comentou o menino de cabelos lavanda, sorrindo levemente, observando o outro da pedra onde estava sentado.
- Gosta de canções? – indagou Misty, com um brilho diferente nos olhos azuis. Ele estava encostado de lado sobre a grade, com a cabeça recostada folgadamente no ferro nada confortável. Suas pernas lisas estavam meio esticadas, e suas mãos levemente apoiadas sobre sua barriga, enquanto seus cabelos loiríssimos escorriam pelas costas e pelos ombros, em leves ondas douradas e compridas que ajudavam a cobrir o corpo magro e o sexo.
- Gosto sim... São lindas. – afirmou, sorrindo um pouquinho. Mu estava vestindo um pano enrolado no corpo nu, com uma corda amarrando-lhe a cintura, sem apertar muito. Os cabelos longos e lisos estavam soltos e espalhados pelo chão onde ele estava sentado.
O barulho dos grilos na floresta já podia ser ouvido. A noite estava caindo.
- Verdade...? – Misty sorriu de lado, — Eu posso lhe ensinar uma... Se você me contar um segredo... – ofereceu, aproximando-se da grade oposta e fitando o outro mais novo.
- Um segredo? – questionou Mu, ingênuo.
- Aham... – balançou a cabeça positivamente. – Me conte qual é o seu maior medo... E ai... Eu te conto qual é o meu. – propôs, sua voz era implícita, cheia de segundas intenções.
- Sinto muito... Mas não compreendo o sentido disto... – comentou o mais novo, hesitante. Pensou no por que Aiolia estava demorando tanto, desviando seu olhar para o interior da mata, mas a voz do mais velho o fez voltar seus olhos para a jaula.
- Vamos nos tornar mais íntimos se você me contar um segredo seu... E conseqüentemente criar uma amizade... Mas se você não quiser ser meu amigo, eu vou entender... – declarou Misty, fazendo uma expressão triste, e baixando os olhos azuis.
- Não, não é isso, eu quero, mas...
- Então me diga... Do que você tem medo? – interrompeu ansioso, tendo um brilho estranho a iluminar seus olhos novamente, mas Mu era ingênuo demais para perceber.
O menor não precisava pensar para responder aquela pergunta. Mas ficou em silêncio alguns segundos, decidindo se deveria ou não dizer...
- Scrunts... São meu maior medo... – definiu. — Quando meus irmãos me contavam histórias sobre o quão assustador eles eram, eu não acreditei. Mas quando eles me atacaram, acho que nunca senti tanto pavor na minha vida... – compartilhou, apertando uma mão na outra de forma nervosa. – E o seu? – indagou, pensando que Misty o diria o seu medo agora, como num jogo de perguntas e respostas.
O sorriso de Misty se alargou. – Vem mais perto, não quero que ninguém ouça... – pediu, vendo o menor se aproximar devagar.
Misty esfregou uma mão na outra disfarçadamente, fazendo um pó azul nascer entre elas, então ele fechou a mão, guardando o pó dentro dela.
- Vem... – chamou, fazendo sinal com a outra mão para que o menor chegasse mais perto. –Quero contar no seu ouvido... – disse, fazendo o menor aproximar-se o suficiente.
Subitamente Misty levou a mão fechada na altura dos olhos de Mu e a abriu, soprando com força o pó azulado que se espalhou pelo ar entrando nos orbes esverdeados do menor.
- Meus olhos! – o menor se assustou, cobrindo os olhos com as mãos e se afastando alguns passos para trás. Balançava a cabeça de um lado para o outro, gritando por causa da ardência que a poeira causava. – Não consigo enxergar! Me ajuda!
Ainda se debateu alguns segundos até conseguir reabrir os olhos devagar, enxergando tudo nublado e disforme. Escutou um rosnado familiar atrás de si. Seu coração gelou, e seus batimentos cardíacos começaram a acelerar. Ele virou o rosto lentamente para trás, até enxergar um lobo enorme rosnando entre dentes.
Ao seu redor estava tudo coberto de neblina, não conseguia ver nada além de si e do Scrunt a sua frente. Foi recuando devagar e se afastando, tentando não irritar o animal, e então começou a correr, corria muito e só via névoa para todo lugar que olhava. O Scrunt atrás de si parecia se multiplicar absurdamente rápido, transformando-se em uma matilha de lobos zangados.
As folhas no chão abafavam a corrida do menino que fugia desesperado procurando por Aiolia, mas com aquela neblina toda não conseguia enxergar mais nada, só mesmo ouvir os uivos das criaturas que o perseguiam. Não demorou muito até um deles o alcançar e agarrar sua capa, fazendo o menino soltar um grito de medo e cair ao chão, logo sendo rodeado de lobos. Seus cabelos estavam todos espalhados entre as folhas e suas vestes começavam a se rasgar por causa das mordidas e puxões que os Scrunts causavam. Mu gritava por Aiolia e tremia, tentando se levantar do chão, mas toda vez que tentava os lobos o derrubavam de novo.
O líder Scrunt pulou sobre Mu, colocando as duas patas dianteiras do lado de sua cabeça e rosnando bem perto de seu rosto, fazendo um fio de saliva escorrer e pingar na bochecha do menor. Aqueles olhos amarelos e ferozes estavam tão perto que os olhos esverdeados do menino se arregalaram de pavor, e ele os fechou em seguida, esperando o pior.
As lágrimas já estavam escorrendo abundantemente e Mu chorava de olhos bem fechados, conformado, esperando ser devorado pelo animal. Quando se sentiu ser sacudido.
- Ei! Ei! Olha pra mim! Mu! Anda olha pra mim! – gritava Aiolia que estava debruçado sobre o menino caído ao chão. O mais velho sacudia o menino pelos ombros, estapeando-o de leve na bochecha e tentando acordá-lo do choque. – Pelo amor de Deus, acorda! Fala comigo! – pediu o leonino, começando a ficar preocupado.
- Aiolia? – murmurou choroso, abrindo de leve os olhos e notando sua salvação logo ali. Rapidamente se agarrou ao maior e caiu num choro dolorido, sendo rapidamente retribuído e apertado nos braços fortes do moreno.
~~*~~
- Isso é loucura... Nós todos vamos morrer aqui... – comentou Shura, sentado no fundo do pequeno barco e cobrindo o rosto com as duas mãos em sinal de preocupação.
- Se você não calar a boca eu mesmo vo te jogar na água. – avisou Máscara, que estava abaixado e com a espada em mãos, esperando o momento chegar. Se Milo estivesse ali, com certeza teria rido do modo como o italiano chegava a ser engraçado de tão grosseiro.
Ikki também estava ali. Porém estava quieto, segurando o machado e atento às águas. Tinham conseguido um barco na cidade, e Milo estava esperando na praia com uma grande rede feita de corda.
A lua estava enorme, e o céu limpo, deixando todas as estrelas e constelações amostra. As águas calmas, de ondas levinhas batiam contra o casco do barco pequeno, fazendo um barulho agradável. Ali onde estavam não era muito longe da praia, talvez uns quinhentos metros. Mas era bem fundo, e ao lado esquerdo, um pouco distante, havia rochedos dentro d’água. Uns três ou quatro, amontoados, como se estivessem flutuando. No horizonte só se via a linha reta do oceano escuro, e a praia ali era bem grande, já que não estavam mais na Baía das Espumas.
Depois de uma ou duas horas, quando já estavam cansados de esperar. Da água escura iluminada pela luz da lua, surgiu um menino de cabelos negros, chamando a atenção dos rapazes que ficaram alerta, observando-o. O jovem estava só com o rosto e os ombros fora da água, e seu corpo descia e subia levemente com o balançar de sua cauda. A pele levemente bronzeada brilhava sob a luz da lua e sua boca era pequena e de lábios carnudos.
Ele se aproximou lentamente do barco, como um animalzinho curioso, apoiando os seus braços sobre a borda de madeira e observando os três homens mais de perto. Seu rosto era incrivelmente belo, com uma expressão séria e seus cabelos negros eram muito compridos, estavam molhados, colando-se às costas.
Atrás dele, mais afastados, começaram a surgir outros, talvez dez, ou mais. Ficaram todos parados olhando os caçadores. Flutuando em silêncio. Com aqueles olhos brilhando na escuridão, como felinos.
- Que Deus nos ajude... – murmurou Shura, observando aqueles seres surreais.
O menino que estava quieto pareceu ouvir algo com sua audição aguçada, e do nada o pequeno se assustou. Ele se afastou devagar, seus olhos violetas mostravam preocupação e ele emitiu um som agudo com a boca, como um sonar usado pelos golfinhos para se comunicar uns com os outros. Ao som do aviso do menino, os outros jovens apavoraram-se, e saltaram para as profundezas do mar escuro, sumindo rapidamente.
- Mas que diabos! O que está havendo? Estamos perdendo eles! – gritou Máscara, fazendo menção de saltar na água, porém foi interrompido pelo braço forte de Shura.
-... – O ferreiro o olhou assustado. – Não são as sereias que estão fazendo isso. – afirmou apontando para a maré que começava a se agitar como se uma tempestade estivesse para começar. As ondas começaram a balançar o barco e subitamente o céu noturno estrelado se fechou em uma escuridão densa e pesada, que começou a cair em forma de chuva e trovões.
- Máscara é melhor a gente voltar! – gritou Ikki com dificuldade, por causa do vento que começava a soprar forte agitando seus cabelos.
- As sereias não fugiram por nada! Eles estavam assustados! Alguma coisa está vindo! Precisamos ir! – recomendou Shura, observando Máscara que não tirava os olhos de uma rocha ao longe. Ele não conseguia ver direito por causa da escuridão, mas o pouco que via era o suficiente para saber de quem se tratava.
Encima da rocha, agachado em posição de gárgula, estava uma figura parecida com um homem, porém de suas costas nasciam duas grandes asas de morcego, e ele os observava de longe. Quieto, a espreitar. Máscara o conhecia muito bem, era aquele ser que ele procurava desde que o mesmo matara seus pais.
- Se você quer lutar, por que não vem até aqui seu desgraçado! Pare de brincar! – gritou Máscara. Sabia que era Gambit, só não sabia o motivo de ele resolver reaparecer.
A água agitou-se do lado do barco e dali se ergueu um tentáculo gigante, elevando-se o máximo para então descer pesadamente encima da pequena navegação, obrigando os caçadores a se lançarem nas águas conturbadas.
O primeiro a emergir foi Shura, inspirando abundantemente. Olhou para os lados procurando os outros dois, mas não conseguia ver nada com aquelas ondas altas e a chuva que batia contra seu rosto.
- Máscara! – chamou, esperando ouvir a resposta de alguém.
- Estou aqui! – a voz grave do líder pode ser ouvida não muito longe.
- Precisamos nadar até a praia! O barco se foi! – afirmou.
- Vá você! Tenho que encontrar o Ikki! – declarou, mergulhando na escuridão.
Shura hesitou um pouco em ir e deixá-los, mas quem o tinha arrastado para aquela enrascada eram eles, que se virassem sozinhos. Começou a nadar em braçadas fortes, tentando vencer a maré, mas o vento estava dificultando.
O polvo gigante emergiu na superfície, revelando seus tentáculos compridos e seus grandes olhos redondos e amarelados. Ikki estava longe de Máscara, e na mira do polvo gigante, que sinuosamente aproximou um de seus tentáculos por debaixo da água, envolvendo o corpo de Ikki e elevando-o no ar.
O moreno contorceu a expressão em dor, tensionando seus músculos, para impedir que o aperto o esmagasse. A água abundante escorria de suas roupas encharcadas, pingando no mar. O polvo trouxe Ikki em frente a um de seus olhos, fitando-o, e Ikki começou a tentar com dificuldade pegar uma adaga que carregava consigo no cinto.
Fez um enorme esforço para mover-se, alcançando a arma afiada e fincando-a na pele gosmenta do monstro, fazendo o sangue correr e a fera se agitar, afrouxando o aperto e deixando Ikki cair na água.
Enquanto o polvo estava ocupado com Ikki, Máscara agarrou-se a um dos tentáculos enquanto eles se movimentavam, sendo erguido no alto até passar por cima do corpo do animal. Então saltou, caindo encima da cabeça grande e arredondada. Escorregou até ficar perto de um dos olhos e ficou em pé equilibrando-se. Pegou sua espada de suas costas e a levantou acima de sua cabeça, descendo-a e perfurando o olho do polvo com a lâmina.
A besta soltou um barulho agudo, assustador e agoniado, agitando seus tentáculos e procurando Máscara que estava correndo por cima do animal tentando chegar ao outro olho. Antes que chegasse lá, fora atingido por um dos oito braços, sendo arremessado nas ondas novamente.
Ikki também fora atingido por um tentáculo que veio de cima, atordoando-o. Ele afundou inconsciente, descendo cada vez mais para as profundezas do oceano escuro.
Máscara não desistiu, voltando a subir insistentemente em cima do corpo do animal, dessa vez desviando dos golpes um tanto lentos do polvo. Correu por cima da pele escorregadia, equilibrando-se e então alcançou o segundo olho.
De baixo da tempestade que revirava seus cabelos molhados, e a chuva que castigava seu rosto, ele mirou dentro do grande olho amarelo da besta, e levantou a espada mais uma vez. Um trovão clareou o céu no momento em que ele atacou impiedosamente, perfurando o tecido fino que revestia a íris, atravessando o olho do monstro com a espada larga e cegando-o completamente.
Nesse momento a besta enfureceu-se, desesperada, contorcendo-se de dor e sangrando pelas fendas que antes eram seus olhos. Seus tentáculos todos se levantaram sobre a água e ele os bateu contra a superfície, formando ondas grandes e violentas. Máscara lançou-se na água, mergulhando e emergindo logo após, ficando afastado do monstro, que depois de alguns segundos se contorcendo, afundou revirando a água e desaparecendo.
Máscara olhou em direção a rocha onde Gambit continuava agachado, observando-o. Ele tinha certeza que ele tinha induzido o polvo a atacá-los. Estava testando-os.
- EU NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ! FILHO DE UMA PUTA! EU ACABEI COM SEU MONSTRINHO DE MERDA! VEM ME PEGAR DESGRAÇADO! ACABEI COM ELE E ACABO COM VOCÊ TAMBÉM! – urrou, usando os braços e as pernas para se manter sobre a superfície, que já começava a se acalmar. As ondas foram parando aos poucos, e a chuva foi cessando, assim como o vento, os trovões e tudo o que estava fora do normal, restando apenas a maré calma de antes, com o céu se abrindo e a lua voltando a aparecer e refletir na água escura e misteriosa.
Gambit ao longe continuou no mesmo lugar por alguns minutos, ouvindo os insultos do caçador, depois exibiu um meio sorriso e abrindo suas grandes asas membranosas, saltou no ar, batendo-as várias vezes e indo embora na direção do horizonte. Sumindo na noite.
- Codardo di merda! – praguejou, virando-se e procurando com o olhar algum sinal de Ikki, do qual não encontrou em nenhum lugar, começando a ficar preocupado.
Após mergulhar e mergulhar várias vezes, buscando-o, Máscara deu-se por vencido e começou a nadar para a praia, com esperança de o outro rapaz ter escapado durante a confusão e nadado para lá sem ele ter visto.
~~*~~
Enquanto Máscara lutava contra o polvo, Ikki afundava lentamente para a escuridão, ainda estava semi consciente, mas não conseguia se mover. Iria morrer, e a única coisa que conseguia pensar era em seu irmão, e implorar mentalmente para que ele o perdoasse. Seus cabelos curtos e pretos emolduravam seu rosto flutuando, assim como suas roupas, e sua blusa que subiu levemente enquanto afundava, mostrando parte de seu abdômen definido e marcado por uma ou duas cicatrizes. O cinto de couro em volta de sua cintura estreita, e a calça do qual o tecido escuro ondulava levemente. Estava tudo perdido. Ikki fechou os olhos e se entregou...
Porém, dois braços brancos e graciosos o abraçaram por trás, segurando de leve em seu peito e puxando-o para a superfície.
Ikki pode ver de relance uma mecha de cabelo comprido e dourado como o ouro. A pele dos braços que o seguravam era tão branca que parecia que a própria lua tinha se derramado sobre ela, e esta a absorvera, ficando da cor do leite.
A cauda esverdeada, com uma grande barbatana transparente agitava-se, golpeando a água em movimentos fortes e rápidos, levando os dois em direção ao reflexo disforme da lua até conseguirem sair num impulso. Ikki inspirou o ar fortemente, o máximo que podia, aliviando-se.
O abraço em torno do seu corpo apertou-se, e o estranho começou a levá-lo para terra firme. Ainda não conseguia assimilar as coisas direito, estava meio zonzo. Apenas quando foi levado para a areia, e sentiu-se ser empurrado com dificuldade para um local raso é que Ikki se deitou de costas para o chão, fechando os olhos e respirando um pouco, com a mão encima da barriga. Normalizando a sua respiração.
Ao abrir os olhos se deparou com um par de orbes azulados próximo a si, de alguém que o fitava curiosamente.
O ser dos cabelos loiros era um menino, novo, de uns dezessete anos no máximo. O rosto era simplesmente perfeito e de bochechas levemente coradas, nariz pequeno e gracioso, com uma boca de lábios carnudos, tão rubros quanto uma rosa vermelha. Os olhos pareciam duas piscinas azuis de água cristalina, que brilhavam mesmo não recebendo a luz da lua diretamente. As mechas onduladas e muito compridas caiam sobre o corpo pálido deitado ao seu lado, e o pequeno apoiava os dois cotovelos na areia, para olhá-lo de cima.
Os dois olhavam-se fixamente. Os orbes do menino expressando extrema curiosidade, e os do caçador expressando completa confusão. Afinal, por que ele o salvara?
-... S-sabe falar? – depois de mais de um minuto de silêncio, Ikki o quebrara, indagando numa voz baixa, apoiando-se também com os cotovelos na areia e levantando o rosto. Foi só então que percebeu a cauda do menino, que começava um pouco abaixo do umbigo, e terminava numa barbatana parecida com as dos peixes, só que maior. A cauda era esverdeada e escamosa, e brilhava muito, recebendo a luz acinzentada da lua. Ela movia-se involuntariamente, ondulando, como se ainda estivesse dentro da água. Devia ser somente movimentos inconscientes.
- Sei. – respondeu o menino, convicto, sua voz era tão linda e suave que ainda parecia ser de uma criança. Não era atoa que era uma sereia, deveria saber cantar também.
- Por quê... Por que você... Me salvou? – indagou incrédulo, lembrando do que falavam sobre sereias serem más, devorarem homens e destruírem navios. Estava inconformado, afinal exatamente quem ele pretendia fazer mal, o salvou. – Você tem que ir! – afirmou, temendo que Máscara e os outros viessem e o encontrassem.
Mas foi tarde demais. A rede foi lançada repentinamente sobre o menino assustando-o e fazendo com que ele produzisse um chiado com a boca, exatamente igual a um felino encurralado. O pequeno se debateu e tentou se livrar da rede, mas sem poder se levantar ficava meio difícil.
- Solta ele! – gritava Shura, agitado, sendo segurado por Milo. – Você prometeu que não ia fazer mal a eles! VOCÊ PROMETEU! – berrou, jogando na cara do líder a promessa não cumprida.
- Olha... Por essa eu realmente não esperava. Mas que tremenda sorte! – declarou, colocando as duas mãos na cintura e mirando de cima, com superioridade, o menino jogado ao chão que o fitava ferozmente, exibindo as duas presas afiadas.
Ikki olhava a tudo, sem ação. Droga! Tudo tinha dado errado. O menino salvou sua vida e agora ao invés de salvar a dele, estava ali impotente, sem poder ajudá-lo.
Máscara puxou a rede de pesca para a areia seca com o menino dentro, e por fim retirou-a, deixando o pequeno exposto.
Sob o olhar dos quatro homens, a cauda do menino ainda ondulou mais uma ou duas vezes e então começou a se desmanchar lentamente, como se fosse água, transformando a superfície escamosa em uma pele lisa e branca, e o rabo de peixe se separou em duas belas pernas, de coxas grossas e macias.
Na medida em que ia se transformando, o pequeno se encolhia, envolvendo seu corpo com os braços e dobrando suas pernas, para esconder sua nudez dos olhares um tanto espantados dos caçadores.
Depois de recuperado do momento tenso, Máscara olhou para aquela coisa pequena e frágil deitada de lado no chão e sentiu uma coisa estranha no estômago. Não sabia definir o que era, mas obrigava-se a acreditar que era desprezo.
Os cabelos do pequeno estavam espalhados por toda a areia, formando um manto dourado de fios ondulados e brilhantes, que caiam parcialmente sobre o rosto, e pelos ombros. O menino estava muito envergonhado, se sentindo humilhado, mas não demonstrou. Apenas ficou ali, esperando para saber o que iria acontecer em seguida.
- Muito bem Ikki! Ótimo trabalho, agora o carregue e vamos embora. – o líder o parabenizou, batendo de leve em suas costas e recolhendo a rede, encaminhando-se para o lugar onde estavam os cavalos.
Um pouco hesitante, porém obedecendo, Ikki retirou sua blusa e se aproximou devagar do menor, agachando-se ao seu lado e colocando-a sobre os ombros do mais novo, para cobrir sua nudez constrangedora. O torso definido e bronzeado de Ikki ficou exposto, e ele pegou o menino no colo, levantando-se da areia e segurando-o em seus braços.
O mais novo levantou o olhar para o homem que o segurava, seus olhos azuis aparentavam extrema decepção, e seu rosto estava triste. – Eu salvei você... – sussurrou, suplicando com o olhar para que o maior fizesse o mesmo, mas não houve resposta. Então o menino baixou o olhar novamente, e levemente encostou a cabeça de lado sobre o peito do maior, deixando as lágrimas escorrerem, mas sem emitir nenhum barulho, seria pior ainda ser visto chorando numa situação daquelas.
Quando Ikki ouviu a voz do menor, não pode evitar sentir um aperto no peito. – “Droga! Mas que inferno!” – pensou, suspirando pesadamente. Era verdade que o menor o havia salvado, porém ele não poderia trair Máscara, pois foi ele, apesar de ser rude e mal humorado, foi somente ele que o acolheu quando não tinha mais ninguém, e o treinou. Foi ele a figura mais próxima que Ikki tivera de um pai, e não iria decepcioná-lo. Apesar de seu coração amolecer ao notar as lágrimas que escorriam do rosto daquele pequeno loiro.
Inconscientemente o apertou um pouco mais em seus braços e sussurrou um “Me desculpe” contido, sem olhá-lo no rosto. Aquele pequeno gesto já era extremamente difícil para si, graças ao seu orgulho e dureza emocional. Mas já era alguma coisa.
~~*~~
- Você está melhor? – indagou Aiolia, num tom preocupado, acariciando os longos cabelos de Mu que estava deitado em seu colo.
O leão estava recostado sobre um tronco de árvore, sentado em meio às folhas, e o mais novo apoiava a cabeça em suas pernas, mantendo os olhos bem abertos e uma das mãos agarrada ao tecido da calça de Aiolia.
- Eu não sei... – sussurrou, continuando a fitar vagamente as chamas da fogueira.
- Como assim? Ainda está com medo? – indagou, levando a mão ao rosto de Mu e virando-o delicadamente em sua direção até que o menor o fitasse.
O pequeno ficou em um silêncio torturante por algum tempo, olhando nos olhos do caçador.
- Tem algo de errado comigo Aiolia... – afirmou, continuando a olhá-lo. – Posso sentir... Está aqui... Dentro... – concluiu, levando suas duas mãos à lateral da cabeça. – Posso ouvir eles sussurrando...
- Quem? – indagou Aiolia, arregalando os olhos levemente, já estava começando a se preocupar novamente.
- Eu não sei... – sussurrou, olhando-o por mais alguns segundos e então se virando, e voltando a posição que estava antes, perdendo seu olhar na luz do fogo avermelhado que iluminava parcialmente o seu rosto.
De longe, dentro da jaula, sentado num canto, e observando os dois à distancia, oculto na escuridão, estava Misty. Seus lábios se contorceram levemente em um sorriso vitorioso, e seus olhos cintilaram na noite, aguardando o momento chegar...
~~*~~
(Owww! Essa fotinha ai é do Dite, e a de baixo é da cauda dele! A cauda dele e a barriga dele é exatamente igual essa da segunda imagem! =D Cavaleiros do Zodiaco pode ser do Kurumada, mas o AFRODITE É MEU! SÓ MEU! PRA SEMPRE! *possessiva* AUHUHAUHAHU'')
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