Fairy Tail: Raven Rises
8 Fairy Spirit
Notas iniciais
O céu sobre Magnólia ainda estava tomado pelas nuvens negras que a tempestade do Behemoth havia convocado. Relâmpagos silenciosos cortavam o horizonte, e o ar tinha o gosto metálico de magia densa. No centro da cratera deixada pela explosão, Makarov Dreyar, em sua forma titânica, encarava a criatura que um dia fora seu filho.
A coisa que restava de Luwan não era mais um homem. Seu corpo estava coberto por uma carapaça de penas escuras como a noite, garras de obsidiana retorcendo-se onde antes havia dedos, e um par de asas colossais que pareciam feitas de fumaça solidificada. Seus olhos — ou o que restava deles — brilhavam em um roxo profundo, sem qualquer traço de humanidade. O Behemoth rugiu, e o som fez as janelas de Magnólia tremerem.
Jura Neekis, o mago santo, estava caído a alguns metros, segurando o ombro deslocado. Ele havia tentado conter a criatura com suas defesas de madeira, mas o poder do Behemoth era de uma ordem que ele não enfrentava desde a aparição de Zeref há décadas atrás.
— Makarov... — começou Jura, com a voz rouca pela dor. — Ele não está mais lá. Você precisa...
— Eu sei, Jura. — A voz de Makarov, amplificada pela magia titânica, soou como um trovão. — Eu entendo o que preciso fazer.
Ele ergueu o punho. A luz do sol refletiu em sua pele enrugada, e por um momento, o velho mestre sentiu o peso de todas as décadas de sua vida. Ele havia enfrentado dragões, demônios e deuses. Mas nada disso se comparava a erguer a mão contra o próprio filho.
O Behemoth avançou.
E então, o mundo parou.
Do outro lado da cidade, no quarto 209 do Hospital Central de Magnólia, Mirajane Strauss novamente abriu os olhos.
Ela não sabia quanto tempo havia se passado. O quarto estava vazio — Laki havia corrido para ajudar no que podia, e Lisanna, ainda sob os efeitos residuais do feitiço, dormia em uma maca no corredor cujo corpo estava mantido preso pelos ramos lenhosos da Magia de sua amiga. Mira sentiu o corpo pesado, os músculos doloridos, mas algo dentro dela se recusava a ficar deitado.
Ela sentiu.
Não era uma sensação física. Era algo mais profundo, mais antigo. O vínculo que ela havia criado com Luwan desde que o conheceu brevemente na guilda e depois da confusão que ocorreu nos arredores da cidade — as noites que passou pensando nele, as conversas que nunca tiveram, o beijo ao se reencontrarem — esse vínculo agora pulsava como uma corda esticada até o limite, vibrando com uma angústia que não era dela.
"Luwan." — Ela pensava com carinho.
Mira arrancou os lençóis e colocou os pés no chão. O mundo girou por um momento, e ela precisou se segurar na cabeceira da cama. O Veneno que um servo da Bruxa usou contra ela ainda se encontrava em seu sistema, mas os efeitos estavam diminuindo — ela sentia a magia do seu Take Over queimando nas veias, tentando expulsar o que restava da toxina.
Foi então que ela viu.
Sobre à mesinha de cabeceira, havia um pequeno frasco de vidro azul. Ao lado dele, um bilhete escrito com a caligrafia apressada de Luwan:
"Se você acordar antes ou alguma coisa me acontecer, por favor, beba isso. Vai ajudar a limpar o veneno. Não faça nada estúpido. — Luwan."
Mira pegou o frasco. O líquido dentro brilhava com uma luz suave, e ela reconheceu o cheiro — era uma infusão de ervas mágicas que a Wendy havia preparado para o estoque da guilda, misturada com algo mais. Algo que só podia ser a magia do próprio Luwan.
Ela bebeu tudo de uma vez.
O efeito foi imediato. O peso nos membros diminuiu, a névoa na mente se dissipou, e Mira sentiu a magia do seu Satan Soul voltar a fluir com força total. Ela não estava 100%, mas estava inteira. E inteira era o suficiente.
Ela vestiu o casaco que estava pendurado na cadeira — o casaco de Luwan, que ele havia deixado para trás — e caminhou até a janela. Do quinto andar, ela podia ver a cratera a leste da cidade, o clarão roxo que pulsava como um coração doente, e a silhueta colossal de Makarov.
Ela não sabia o que estava acontecendo. Mas ela sabia que precisava estar lá.
O Behemoth golpeou Makarov com uma força que fez o titã recuar três passos. A carapaça de penas negras cortou o ar como lâminas, e Makarov sentiu o gosto de sangue na boca. Ele não podia vencer aquela luta. Não sem matar o próprio filho.
— Makarov! — Jura se levantou, cambaleando, e erguu as mãos. — Eu vou selá-lo. É a única maneira.
— Não! — A voz de Makarov foi cortante. — Se você tentar selá-lo, a magia vai consumir o que resta da mente dele. Luwan desaparecerá para sempre.
— Então o que você propõe? Deixar que ele destrua a cidade?
Makarov não respondeu. Porque ele não tinha resposta.
E então, uma voz cortou o caos.
— LUWAN!
Todos se viraram. Mirajane Strauss estava na borda da cratera, o casaco preto de Luwan pendurado nos ombros, os cabelos brancos bagunçados pelo vento. Ela não estava em sua forma de Satan Soul. Estava humana. Frágil. E ainda assim, avançou.
— Mira, não! — gritou Makarov. — É perigoso estar aqui.
Mas Mira continuou andando. O Behemoth virou a cabeça monstruosa na direção dela, e por um momento, o roxo em seus olhos pareceu vacilar. Como se algo dentro daquela criatura tivesse reconhecido a mulher que se aproximava.
— Eu sei que você está aí, baka — disse Mira, com a voz embargada mas firme. — Eu sei que você está lutando. Sempre esteve.
O Behemoth rugiu. Um rugido de dor, não de fúria. As garras de obsidiana se ergueram, mas não atacaram. Tremiam.
— Você me disse uma vez — continuou Mira, dando mais um passo — que a escuridão dentro de você era grande demais. Que você não sabia se conseguiria controlá-la. E eu te disse que não importava. Que eu ficaria ao seu lado de qualquer maneira.
Ela estendeu a mão.
— Eu ainda estou aqui, Luwan. Estou aqui por você.
Por um momento, o Behemoth permaneceu imóvel, a carapaça negra brilhando sob a luz do sol bloqueado. E então, algo aconteceu.
Foi Wendy que sentiu primeiro.
Ela estava a alguns metros, ainda lutando contra Lilith, a última das irmãs demônios. A pequena Dragon Slayer do Céu havia conseguido igualar o ritmo da oponente, mas não conseguia vencer. Lilith era rápida demais, cruel demais, e Wendy estava exausta.
Mas então, a magia mudou.
— O que...? — Lilith parou no meio de um ataque, os olhos arregalados. — O que é essa sensação?
Wendy não respondeu. Porque ela também sentiu. Era como se o próprio ar tivesse mudado de textura. Uma onda de magia pura, limpa, sem qualquer traço de escuridão, estava se espalhando pelo campo de batalha. E vinha de duas fontes.
Mira e Lucy.
Lucy Heartfilia havia chegado à cratera minutos antes, guiada pelo faro de Natsu e pela própria intuição. Ela viu Mira avançando em direção ao Behemoth, viu a criatura vacilando, e entendeu o que precisava fazer.
— Mira! — gritou Lucy, correndo até ela. — Espere aí, eu estou com você!
Ela não sabia exatamente o que estava fazendo. Mas quando colocou a mão no ombro de Mira, sentiu algo. Uma conexão. A magia de Mira — o Take Over, a escuridão controlada do Satan Soul — e a magia de Lucy — os espíritos celestiais, a luz das estrelas — não eram opostas. Eram complementares.
— Luwan! — Lucy ergueu a mão livre, e o símbolo da Fairy Tail brilhou em seu pulso. — Você me ensinou que a escuridão pode ser controlada. Que o poder não define quem você é. Então prove isso! Prove que você é mais forte do que essa maldição!
O Behemoth rugiu. As garras de obsidiana cortaram o ar, mas não acertaram ninguém. A carapaça de penas negras começou a rachar, e uma luz dourada emergiu das fissuras.
Mira deu o último passo. Ela estava agora a menos de um metro da criatura. Podia sentir o calor da magia negra, o cheiro de queimado, o peso da escuridão. E ainda assim, ela não recuou.
— Você me prometeu uma vida juntos — sussurrou ela, com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Não vai quebrar essa promessa. Não agora.
Ela tocou o peito do Behemoth.
A magia que explodiu naquele momento não tinha nome nos livros da guilda. Mais tarde, os membros da Fairy Tail a chamariam de Fairy Spirit — a manifestação do vínculo mais puro entre dois magos que se amam. Não era um feitiço de ataque. Não era uma magia de cura. Era algo mais simples e mais poderoso: a afirmação de que duas pessoas, juntas, podiam enfrentar qualquer escuridão.
O Behemoth gritou.
Não de fúria. De dor. Mas também de alívio. As penas negras se desintegraram, as garras de obsidiana se dissolveram, e o corpo colossal começou a encolher. A luz dourada engoliu a escuridão, e quando finalmente se dissipou, o que restou no centro da cratera não era um demônio.
Era Luwan.
Ele estava caído de joelhos, o corpo coberto de feridas, a respiração irregular. Sua pele havia voltado ao normal, e seus olhos — castanhos, humanos, cansados — fitavam Mira como se ela fosse a primeira coisa boa que ele via em anos.
— Mira... — a voz dele saiu fraca, quase inaudível. — Você... você não devia estar aqui.
Mira caiu de joelhos ao lado dele, segurando o rosto de Luwan entre as mãos.
— Baka — disse ela, rindo entre lágrimas. — Você realmente achou que eu ficaria na cama enquanto você lutava sozinho?
Luwan soltou uma risada rouca, que rapidamente virou uma careta de dor. Ele tentou se levantar, mas as pernas não obedeceram. Mira o segurou antes que ele caísse.
— Eu quase... — começou ele. — Eu quase perdi o controle. De novo.
— Mas não perdeu. — Mira acariciou sua face. — Você voltou. Porque você é mais forte do que essa coisa.
Ela o beijou. Um beijo suave, terno, e carregado de significado. Quando se separaram, Luwan tinha lágrimas nos olhos.
— Eu vou consertar isso — disse ele, com a voz firme apesar do cansaço. — A Bruxa. Vou encontrá-la e eliminá-la. Depois disso... — Ele hesitou. — Depois disso, eu não sei se vou voltar.
Mira abriu a boca para protestar, mas alguém se adiantou.
O silêncio que se seguiu para escutá-lo foi diferente. Não era o silêncio tenso de antes da batalha, nem o silêncio pesado de quem espera um ataque. Era o silêncio de uma guilda que acabara de ver um demônio se transformar em um homem, e que agora esperava para entender o que aquele homem tinha a dizer.
Luwan ainda estava de joelhos, com Mira ao seu lado. Ele respirou fundo, sentindo o peso do olhar de todos sobre si. Natsu, Gray, Erza, Wendy, Elfman, Lisanna, Laxus... e Makarov, que havia retornado à sua forma normal e agora se aproximava lentamente, com os olhos vermelhos e o passo pesado de quem envelheceu dez anos em uma tarde.
O Behemoth havia desaparecido. No lugar da criatura colossal, restava apenas um homem caído de joelhos, coberto de feridas, respirando com dificuldade. A poeira ainda não havia assentado, e o clarão dourado da magia que Mira e Lucy haviam conjurado estava se dissipando lentamente no ar.
Makarov deu um passo à frente. Jura, que havia se recuperado o suficiente para ficar de pé, segurou o braço do velho mestre.
— Espere — disse Jura, com a voz baixa. — Não sabemos se ele está estável.
— Ele está — respondeu Mira, sem hesitar. Ela estava ao lado de Luwan, uma mão em seu ombro, os olhos fixos nos membros da guilda que começavam a se aproximar. — Ele voltou.
Natsu foi o primeiro a chegar. Ele parou a alguns metros, os punhos ainda cerrados, as chamas dançando ao redor de seus braços. O olhar dele ia de Mira para o homem caído no chão, e a desconfiança era evidente.
— Mira — disse Natsu, com a voz tensa. — O que está acontecendo? Quem é ele? E por que diabos eu sinto o cheiro de magia negra vindo dele?
Gray chegou em seguida, com a mão direita coberta de gelo. Erza veio logo atrás, a armadura ainda equipada, a espada empunhada. Wendy se aproximou com cautela, os olhos arregalados. Elfman veio na frente da irmã, o corpo ainda parcialmente transformado em sua Beast Soul. E Laxus fechou o grupo, os olhos faiscando eletricidade, a postura tensa de quem está pronto para atacar.
— Responde, Mira — disse Laxus. — Quem é esse cara? Um demônio? Um inimigo?
Mira respirou fundo. Ela não tinha tempo para explicações longas. A Bruxa ainda estava lá fora. As irmãs demônios talvez pudessem ainda representar uma ameaça. E Luwan ainda precisava de cuidados.
— Não — disse ela, firme. — Ele não é o inimigo.
— Então quem é? — insistiu Natsu.
Mira olhou para Luwan. Ele ainda estava de joelhos, a cabeça baixa, o corpo tremendo. Ele não tinha forças para se explicar. Não ainda.
— O nome dele é Luwan Dreyar — disse Mira. — Ele é filho do nosso mestre Makarov e meio irmão do Ivan. É o seu tio, Laxus.
O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som do vento.
Laxus deu um passo à frente, os olhos arregalados.
— O quê? — A voz dele saiu mais baixa do que o normal. — Isso não é possível. O velho nunca mencionou...
— Eu sei — disse Mira. — Eu também não sabia até esta semana.
Ela se virou para encarar o grupo. O tom de voz mudou. Ficou urgente, mas também carregado de algo mais profundo — a necessidade de que eles entendessem.
— Ele reapareceu no hospital há algumas horas. A Lisanna estava sendo controlada por um feitiço da Bruxa. Ela tentou explodir o quinto andar do Hospital Central com uma bomba mágica. — Mira fez uma pausa, e a voz falhou por um instante. — Ele percebeu. Ele tirou a bomba das mãos dela. Depois se teleportou para longe da cidade e absorveu a explosão sozinho para que ninguém morresse.
Os olhos de Natsu se arregalaram. Gray baixou a mão de gelo. Erza apertou a espada, mas o olhar dela mudou.
— Ele salvou a Lisanna e Laki— continuou Mira. —, Luwan salvou todo mundo naquele hospital. E depois, quando a Bruxa o forçou a se transformar naquela coisa... — Ela apontou para a cratera ao redor. — Ele lutou contra si mesmo. Ele tentou não machucar ninguém.
Ela se virou para Laxus.
— Ele não é o Ivan. Ele nunca foi. Eu sei que você tem todos os motivos do mundo para desconfiar dos Dreyar. Eu também teria. Mas esse homem... — Mira engoliu seco. — Esse homem me protegeu. Ele protegeu a minha irmã. Ele protegeu membros da nossa guilda.
Laxus ficou em silêncio. A eletricidade ao redor dele diminuiu, mas os punhos continuavam cerrados. Ele olhou para o homem caído no chão. Para o rosto cansado, as feridas, o corpo que tremia.
Ele não disse nada. Mas algo nos olhos dele mudou.
— Se o que você está dizendo é verdade — disse Laxus, por fim, com a voz mais controlada —, então por que ele não disse nada? Por que ele não procurou o velho? Por que ele se escondeu esse tempo todo?
Mira abriu a boca para responder, mas uma voz fraca a interrompeu.
— Porque eu tinha vergonha.
Todos se viraram. Luwan havia levantado a cabeça. Os olhos castanhos estavam vermelhos, mas firmes. Ele olhou para Laxus, depois para Makarov, depois para a guilda inteira.
— Eu tinha vergonha do que eu me tornei — disse ele, com a voz rouca. — E vergonha de que, quando eu finalmente tentei consertar as coisas, eu só piorei tudo.
Ele respirou fundo. Doeu. Mas ele continuou.
— Você não precisa contar agora — disse Mira, segurando a mão dele. — Não precisa se forçar.
— Desculpe, Mira, mas eu preciso. — Luwan apertou os dedos dela. — Eles merecem saber. Depois de tudo o que viram... depois do que eu quase fiz... eles merecem entender.
Ele levantou a cabeça. Encarou Makarov primeiro. Depois Laxus. Depois a guilda inteira.
— Meu nome é Luwan Dreyar. Sou o segundo filho do seu mestre Makarov. meio-irmão do Ivan Dreyar. Tio do Laxus. — Ele fez uma pausa, como se estivesse se acostumando com as palavras. — E eu sou a razão pela qual a Bruxa que atacou esta cidade está livre.
Ninguém falou. Nem mesmo Natsu.
— Quando eu era criança, o Ivan me procurou. — Luwan fechou os olhos, e as memórias voltaram como uma enxurrada. — Eu tinha uns sete, oito anos. Ele me disse que o nosso pai havia nos abandonado. Que o Makarov tinha escolhido a guilda em vez da família. Que se eu quisesse ser forte, se eu quisesse ser alguém, eu precisava seguir o caminho que ele me mostraria.
— Luwan… — Makarov murmurou baixinho, em um voz quase inaudível.
Makarov deu um passo à frente, mas Luwan ergueu a mão.
— Por favor, pai. Deixe-me terminar.
O velho mestre parou. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas ele assentiu.
— O Ivan me iniciou nas artes das trevas,e, através dela, eu aprendi a magia do Take Over. — continuou Luwan. — Ele me disse que era a magia mais poderosa que existia. Que se eu dominasse aquilo, eu nunca mais seria fraco. Nunca mais seria abandonado. E eu acreditei. Eu era uma criança idiota que só queria ser amada.
Ele riu, mas não havia humor naquele riso.
— O que ele não me contou foi que o Take Over que ele me ensinou não era uma magia normal. Era um ritual. Um contrato. — Luwan abriu as mãos, e por um momento, uma sombra escura pulsou em suas palmas antes de desaparecer. — Ele me amarrou a uma entidade chamada Behemoth. Um demônio antigo, de uma era antes do Zeref. Algo que a Bruxa havia despertado séculos atrás e que o Ivan queria usar para os próprios planos.
— Espera. — Laxus deu um passo à frente, os olhos faiscando. — Você está dizendo que o meu pai... o Ivan... te usou como cobaia?
— Sim. — Luwan encarou o sobrinho. — E quando eu descobri, já era tarde demais. O Behemoth já estava dentro de mim. Ele sussurrava. Ele prometia poder. Ele me dizia que eu só precisava me enfurecer o suficiente para que ele assumisse o controle. E eu... eu quase deixei.
Ele fechou os punhos.
— Mas eu conheci uma mulher. Uma bruxa, velha e poderosa, que dizia poder me libertar. Ela disse que conhecia o ritual para remover o Behemoth. Que eu só precisava confiar nela. E eu confiei. Como eu confiei no Ivan. — Ele olhou para Makarov. — Como eu confiei em todo mundo que me prometeu uma saída.
— A Bruxa... — murmurou Wendy, os olhos arregalados.
— Ela não queria me libertar. Ela queria me usar. — Luwan endireitou as costas, mas a voz falhou por um instante. — O Behemoth não era o objetivo final. Era o recipiente. A Bruxa queria que eu me enfurecesse o suficiente para que o demônio assumisse o controle completamente. Porque só assim o selo que a mantinha presa em outra dimensão poderia ser quebrado.
Ele ergueu a mão direita. No centro da palma, uma marca em forma de serpente brilhava em um roxo doentio.
— Eu sou a chave. — A voz dele saiu fria. — Enquanto eu viver, a Bruxa pode tentar voltar. E enquanto ela existir, eu nunca vou estar seguro. Nunca vou ser confiável. Porque basta um momento de fraqueza... um momento de raiva... e ela usa isso para me puxar de volta.
O silêncio voltou. Mais pesado que antes.
— Foi por isso que você ficou tanto tempo longe — disse Makarov, a voz embargada. — Por isso você nunca me procurou.
— Eu não queria que você visse no que eu me tornei, pai. — Luwan olhou para o pai, e pela primeira vez, sua voz rachou. — Eu tinha vergonha. Eu ainda tenho.
Ele abaixou a cabeça.
— Quando eu descobri que a Bruxa havia envenenado a Mira... que ela havia usado um lacaio que assumiu minha aparência para atacar a mulher que eu amo... eu perdi a cabeça. Eu usei a magia proibida para alcançar o Behemoth sem o controle necessário. E foi exatamente isso que a Bruxa queria. — Ele cerrrou os punhos. — Eu quebrei o selo. Eu a libertei. E agora ela está solta, reuniu três demônios no caminho, e a culpa é minha.
Ele levantou a cabeça, e os olhos castanhos estavam vermelhos, mas firmes.
— Eu vou consertar isso. Vou encontrar essa Bruxa e então, irei eliminá-la. — Ele fez uma pausa, e a próxima frase saiu como um sussurro. — E depois disso... ou eu estarei morto, ou vou desaparecer para sempre. Porque eu não vou permitir que ela use mais ninguém através de mim.
O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som que ninguém esperava.
Laxus Dreyar riu.
Não foi uma risada de deboche. Foi uma risada curta, seca, quase raivosa. Ele deu dois passos à frente, parou na frente do tio e o encarou de cima.
— Tsc. Continua o mesmo idiota de sempre.
Laxus Dreyar caminhava pela borda da cratera, as mãos nos bolsos, os olhos faiscando eletricidade. Atrás dele, vinham Natsu, Gray, Erza, Wendy, Elfman— praticamente toda a guilda estava lá, assistindo à cena.
Luwan olhou para o sobrinho. Abriu a boca para dizer algo, mas Laxus continuou.
— Eu ouvi o que você disse. Sobre o meu velho. Sobre a Bruxa. Sobre essa maldição que você carrega desde antes de eu nascer. — Ele parou, cruzou os braços e encarou o tio. — E eu vou te dizer uma coisa. Você não é como ele. Você nunca foi.
Luwan piscou e disse. — Laxus...
— Eu cresci odiando aquele desgraçado. Cresci sabendo que ele era um verme que usava todo mundo para os próprios planos. E agora que eu descobri que você existe — que o velho tinha outro filho— eu pensei: "ah, então é mais um problema de família Dreyar". — Laxus soltou uma risada seca. — Mas aí eu soube, então, que você protegeu a Mira. E depois a Lisanna. E percebi que você não é igual a ele. Você é um idiota, sim. Mas um idiota que se importa.
Ele deu um passo à frente e estendeu a mão.
— Você não vai enfrentar essa Bruxa sozinho. Nós somos a Fairy Tail. Nós não abandonamos ninguém. Nem mesmo um tio problemático que resolveu aparecer do nada.
Luwan olhou para a mão estendida. Depois olhou para Mira, que sorria. Para Natsu, que estava com os punhos cerrados e um sorriso de orelha a orelha. Para Lucy, que assentia com os olhos marejados. Para todos os membros da guilda que estavam ali, reunidos, prontos.
Ele não merecia aquilo. Ele sabia disso. Mas, por algum motivo, eles estavam oferecendo mesmo assim.
— Você é um idiota — disse Luwan, pegando a mão de Laxus e se levantando com dificuldade. — Mas... obrigado.
Foi então que Natsu deu um passo à frente.
— Ei, tio do laxus! — disse ele, com aquele tom de voz exaltado que só o Natsu tinha. — Você disse que essa Bruxa machucou a Mira, a Lisanna e a Laki. Certo?
— Exatamente.
— Então ela machucou a nossa família. — Natsu cerrou os punhos, e chamas laranjas começaram a dançar ao redor de seus braços. — E ninguém machuca a nossa família e sai impune.
— Concordo. — Erza apareceu ao lado dele, com a armadura já equipada. — Essa Bruxa ameaçou nossa cidade, nossa guilda e nossos amigos. Ela será julgada.
— E se ela quiser brigar... — Gray estalou os dedos, e uma camada de gelo cobriu o chão ao seu redor. — Bem, eu tô precisando de um aquecimento.
Wendy assentiu, o cabelo azul balançando. — Eu vou ajudar também. Se ela usou um veneno contra a Mira-san, eu quero entender o que era. Talvez eu possa criar um antídoto.
— E eu vou quebrar a cara dela. — Elfman cruzou os braços, os músculos tensionados. — Isso é coisa de homem!
— Nós vamos com você, Luwan. — Levy sorriu, abrindo um livro de runas. — Para onde quer que essa Bruxa tenha fugido, nós vamos encontrá-la.
Lucy deu um passo à frente, o símbolo da Fairy Tail brilhando em sua mão.
— Você não precisa bancar o idiota para sempre, sabe? — disse ela, com um sorriso manso. — Todo mundo aqui já passou por situações difíceis. O Jellal, o Gajeel, o Laxus... até eu. A Fairy Tail é uma família. E família não abandona família. Não importa o que você tenha feito ou o que carregue.
Ela ergueu a mão, e o símbolo da guilda brilhou.
— É o que você mesmo me ensinou. Lembra? A boa amizade pode superar qualquer obstáculo.
Um por um, os membros da Fairy Tail ergueram as mãos, formando o símbolo da guilda. Natsu, Gray,Erza,Wendy,Laxus, Elfman, Levy, Cana,Juvia, Freed, Bickslow e Evergreen. Até Makarov, ainda em sua forma titânica, mas com lágrimas escorrendo pelo rosto enrugado. Mesmo Jura, que não era da guilda, mas que entendia o significado daquele gesto.
Luwan olhou para todos eles. Para a família que ele nunca soube que tinha. Para a guilda que o aceitava apesar de tudo. E pela primeira vez em anos, ele não sentiu a escuridão dentro de si.
Ele ergueu a mão. Seus dedos, ainda trêmulos, formaram o símbolo da Fairy Tail.
— Eu... — A voz dele falhou. Ele limpou a garganta e tentou de novo. — Eu prometo. Vou pagar pelos meus erros. Vou encontrar essa Bruxa e vou eliminá-la. E depois disso... — Ele olhou para Mira, que assentiu com um sorriso. — Depois disso, eu volto. Para ficar.
Mira deu um passo à frente e o abraçou. Luwan hesitou por um momento, mas então envolveu os braços ao redor dela e a puxou para perto. O abraço foi apertado, desesperado, como se ele estivesse tentando se agarrar à única coisa sólida em um mundo que não parava de desmoronar.
A guilda explodiu em aplausos e gritos. Natsu correu para cima deles, seguido por Gray, Erza, Wendy e o resto. Até Laxus, que normalmente mantinha a pose de "durão", deixou escapar um sorriso de canto.
— Ei, tio — disse Laxus, quando Luwan finalmente se soltou de Mira. — Só uma coisa.
— O que foi?
— Da próxima vez que você tentar se sacrificar, avisa. Porque eu assim eu posso te surpreender, caso tente me derrubar com um chute, como o fez naquele dia em que nos enfrentamos.
Luwan piscou. Depois riu. Uma risada genuína, que pareceu limpar algo dentro dele.
— Combinado.
E assim, na cratera que um dia havia sido palco de destruição, a Fairy Tail se reuniu. Não como uma guilda. Não como um grupo de magos. Mas como uma família.
E Luwan Dreyar, o filho esquecido de Makarov, o amaldiçoado, o homem que carregava o peso de uma dívida impagável, finalmente entendeu o que significava pertencer a família.
Ele pertencia.
Fim do Capítulo 7.
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