Fairy Tail: Operation Fairy Back

11 Capítulo 11 — As sombras da capela


Notas iniciais
1º Peço desculpas pela demora, estou focado em meus projetos e às vezes esqueço simplesmente de atualizar minhas fics. 2º Confesso que apesar de ter um planejamento adiantado, fiquei meio perdido e sem saber por onde começar a narrar esse capítulo. Mas consegui, isso é o que interessa. 3º Não tenho previsões para o lançamento dos próximos capítulos e confesso que só continuo escrevendo sobre Fairy Tail para afogar às mágoas. Esse ano tem sido muito difícil para mim e escrever virou o meu refúgio.

A calmaria após a tempestade que foi a avaliação da Erza durou menos do que um cigarro aceso em dia de ventania. Depois de toda a confusão no hotel, das provocações da ruiva e do relatório de conduta que quase colocou o meu pescoço e o da Mira na guilhotina da burocracia, fomos formalmente encarregados pelo Diretor Makarov de cumprir uma nova e peculiar diretriz: ser os guardas-costas em tempo integral do garoto Eustace.

Não que o pivete precisasse exatamente de babás, considerando o estrago que ele fez no heliporto contra o Laxus, mas, após a destruição parcial da cobertura e as represálias do seu tio, o Mago Santo Jura Neekis, a ordem era clara: mantê-lo sob observação constante para evitar que ele resolvesse bancar o vigilante das ruas ou se meter em mais problemas com as autoridades locais.

A manhã em Londres ostentava aquele típico tom acinzentado, com uma garoa fina caindo sobre o asfalto enquanto eu e a Mira caminhávamos pelo pátio do colégio particular onde o rapaz estudava. Trajávamos ternos civis sob medida com corte tático, óculos escuros e ponto eletrônico oculto no ouvido. De longe, parecíamos dois analistas forenses ou diplomatas internacionais acompanhando o expediente.

— Olha só para ele, Yuu. Nem parece o mesmo garoto que quase colocou o prédio da MI-Fairy abaixo — comentou Mira, esboçando um sorriso sereno enquanto ajustava a gola da sua jaqueta. Ela observava Eustace rindo com três colegas de classe perto das traves do campo de futebol e se relembrava em curtos flashes do ocorrido na base.

— Não se deixe enganar pela pose de bom moço, parceira — respondi, arrumando a armação dos meus óculos. — Aquele tampinha tem mais truques na manga do que muito agente veterano da casa. Se bobearmos um segundo, ele se enfia nos dutos de ventilação e some de novo.

Nossos comentários foram interrompidos quando a inspetora do colégio se aproximou em passos rápidos, com a expressão amarrada e uma prancheta em mãos.

— Os senhores são os novos responsáveis legais pelo jovem Eustace Neekis, correto? — perguntou ela com tom de poucos amigos. — A Sra. Pendleton, nossa diretora, exige a presença imediata de vocês na sala da administração. E é um assunto de extrema gravidade.

Olhei de relance para a Mira, que apenas assentiu com a cabeça.

Seguimos a mulher até o segundo andar do prédio histórico. Ao adentrarmos no escritório atapetado, fomos recebidos por uma senhora de cabelos grisalhos coqueados, a postura rígida e óculos na ponta do nariz.

— Sentem-se — ordenou a diretora, sem rodeios. — Vou ser breve e direta. O jovem Eustace apresentou um comportamento inaceitável nas últimas 48 horas. Mas o que me preocupa de fato são os exames médicos de rotina da instituição. Nossas enfermeiras detectaram queimaduras de primeiro e segundo grau e hematomas severos na região torácica e nos braços do rapaz. As marcas são condizentes com eletrocussão de alta voltagem.

Senti meu pescoço suar frio. Obviamente, eram os vestígios da armadura de raios do Laxus da batalha do dia anterior.

— E para piorar — continuou a Sra. Pendelton, apoiando os cotovelos na mesa —, ao ser questionado, o menino inventou uma história absurda de que foi sequestrado por um serviço secreto de inteligência e salvo por uma vigilante loira trajando orelhas de coelho! Como diretora, meu dever moral e legal é notificar o serviço de proteção infantil e a polícia imediatamente por suspeita de maus-tratos ou envolvimento em redes ilegais.

Mira suspirou de leve. A reação parecia ter sido friamente calculada por ela. Em vez de inventarmos uma desculpa esfarrapada, a albina deu um passo à frente, retirou do bolso interno do terno um distintivo de couro negro com o brasão dourado da Coroa e da MI-Fairy e o repousou sobre a mesa da diretora, acompanhado de um credencial de nível de acesso 5.

— Sra. Pendleton — a voz de Mira mudou instantaneamente do tom amável para a frieza cortante de uma espiã de elite —, o que a senhora tem em mãos é um arquivo sob sigilo de Segurança Nacional. As marcas no garoto foram adquiridas em um incidente tático sob custódia do Estado contra ameaças internacionais. O relatório oficial já foi homologado pelo Gabinete do Primeiro-Ministro. Caso a senhora efetue qualquer ligação para a polícia ou a imprensa, a senhora estará violando o Ato de Segredos Oficiais e o prédio desta instituição será interditado em menos de dez minutos por forças federais. Fui clara?

A diretora empalideceu no mesmo instante, encarando o documento e a autoridade inquestionável nos olhos azuis da albina. Engoliu em seco e guardou a prancheta.

— Entendido... O caso será arquivado internamente sem maiores perguntas.

— Agradecemos a sua cooperação — finalizou Mira com um sorriso impecável, recolhendo o distintivo.

Ao sairmos do prédio após o término das aulas, Eustace caminhava ao nosso lado com as mãos nos bolsos da calça do uniforme, chutando uma pedrinha pelo caminho.

— Puxa vida, vocês foram incríveis lá dentro! — disse o moleque com os olhos brilhando. — A cara da Sra. Pendleton foi impagável! Mas, por favor, não contem nada disso para o meu tio Jura... Ele vai me fazer encerar o chão da academia por uma semana até os meus braços caírem!

— Fique tranquilo, tampinha. Seu segredo está a salvo conosco — comentei, dando um cascudo leve na cabeça dele. — Agora vamos para a base antes que o trânsito piore.

— Espera! — pediu Eustace, parando no meio da calçada. Ele olhou para o chão com um semblante surpreendentemente maduro e contrito. — Será que a gente podia fazer uma parada rápida antes? Tem uma capela aqui perto... Eu costumo frequentar para colocar minhas obrigações religiosas em dia e... bom, queria fazer uma oração.

Mira e eu nos olhamos. Era um pedido genuíno e inofensivo.

— Tudo bem, Eustace. Mas vinte minutos, nada mais — concordou Mira.

Caminhamos por mais três quarteirões até dobrarmos numa rua mais quieta. A capela era uma construção antiga de pedras escuras e vitrais coloridos, cercada por um pequeno jardim. Porém, ao nos aproximarmos da entrada de carvalho, o som de gritos, objetos quebrados e madeira estilhaçando vindo do interior do templo acendeu todos os meus alertas táticos.

Troquei um olhar rápido com a Mira. Ela posicionou a mão discretamente na cintura e eu avancei, empurrando a porta de madeira.

No centro do salão da capela, entre bancos revirados e castiçais caídos, três homens corpulentos trajando jaquetas de couro e ostentando tatuagens no pescoço encurralavam uma jovem freira contra o altar.

— Fique sabendo, irmãzinha, que a paciência do chefe acabou! — esbravejava o sujeito mais alto, segurando a freira pelo colarinho do hábito. — O velho do seu Padre está sumido há uma semana e a dívida da capela só aumenta! Se o dinheiro não aparecer até amanhã, nós vamos quebrar este lugar pedra por pedra e vender os vitrais no mercado negro!

A jovem freira — de cabelos roxos claros e olhos assustados — tremia, mas mantinha a postura digna.

— Por favor... O Padre não está aqui! Eu já disse que não sei onde ele se encontra! Deixem a casa de Deus em paz! — suplicava ela.

— Chega de ladainha! — rosnou o sujeito, levantando a mão para desferir um tapa no rosto dela.

Antes que a mão do brutamontes atingisse a mulher, movi-me com a velocidade que treinei no serviço militar. Peguei o pulso do sujeito em pleno ar, torcendo-o para trás com força precisa até ouvir um estalo seco. O homem urrou de dor, caindo de joelhos.

— Que pena... Pelo visto a sua mãe não te ensinou a ter modos dentro de uma igreja — comentei com uma voz calma, aplicando uma leve pressão no braço torcido.

Os outros dois comparsas levaram as mãos às cinturas para puxar canivetes e sacaram suas armas, mas a Mira já estava atrás deles. Com dois movimentos fluidos e elegantes, ela bateu com a palma da mão na nuca de um e desferiu um chute certeiro na junta do joelho do outro, deixando os dois desacordados no chão antes mesmo de entenderem o que os atingiu.

— Caiam fora daqui, agora. Antes que eu decida prender vocês por extorsão e profanação — ordenei, soltando o líder do bando. O sujeito se arrastou pelo chão, recolheu os comparsas tontos e saíram tropeçando pela porta principal.

Eustace correu em direção à esbelta mulher.

— Irmã Roselyn! Você está bem? Eles te machucaram? — perguntou o garoto com genuína preocupação.

— Eustace? Graças a Deus... Eu estou bem, meu jovem. Graças aos seus amigos — disse a freira, ajeitando o hábito com as mãos trêmulas e dirigindo um olhar agradecido a mim e à Mira. — Muito obrigada, meus senhores. Eu sou a Irmã Roselyn.

— Mirajane e Yuu — apresentou-se a albina com tom amável, ajudando a levantar um dos bancos de madeira. — O que exatamente está acontecendo aqui, Irmã? Quem eram aqueles homens?

A freira suspirou, sentando-se em um dos assentos restaurados.

— Aquele grupo trabalha para agiotas locais. Há cerca de uma semana, o Padre encarregado desta capela desapareceu sem deixar vestígios. Ele não levou seus pertences, roupas ou documentos. Desde então, aqueles homens vêm aqui diariamente afirmando que o Padre devia uma quantia alta em dinheiro e me ameaçando se eu não quitar o valor.

Senti uma sensação incômoda no estômago. O padrão não batia com uma simples dívida de jogo ou cobrança de agiotagem. O sumiço repentino de um clérigo sem deixar rastros digitais ou corporais era uma anomalia forense clássica.

Sem pensar duas vezes, retirei o celular do bolso e acionei o canal encriptado de um velho amigo, o Inspetor Greg da polícia local.

— Greg? É o Yuu. Preciso que você rode uma busca de dados sigilosa no sistema central sobre o paradeiro do Padre responsável pela capela de St. Jude. Sim, caso de desaparecimento não registrado. Vou assumir a investigação em campo por minha conta.

Desliguei o aparelho e encarei a freira.

— Irmã Roselyn, eu vou descobrir o que aconteceu com o Padre e resolver essa situação dos agiotas.

Mira me puxou suavemente pelo braço, afastando-me alguns passos em direção à entrada do templo. Suas sobrancelhas estavam franzidas e seu olhar denotava uma mistura de apreensão e repreensão profissional.

— Yuu, o que pensa que está fazendo? — sussurrou ela. — Nossa missão é apenas monitorar o Eustace! Nós não temos autorização da base para abrir um caso voluntário de investigação sem ordem direta do Diretor Makarov. Você está se envolvendo emocionalmente de novo!

— Mira, olha para este lugar — retruquei no mesmo tom. — Há algo errado nessa história. O sumiço do Padre tem o mesmo padrão de camuflagem digital que estudei nos arquivos do crime organizado. Eu não posso simplesmente virar as costas e fingir que não vi nada.

— Mas esse não é o nosso papel agora! Se o Mestre/Diretor souber que estamos usando os recursos da agência para um caso não autorizado, as consequências para a sua carreira serão desastrosas!

— Então me deixe assumir o risco sozinho, parceira — respondi, fitando os olhos azuis dela com firmeza. — Eu não vou recuar.

A teimosia da minha decisão não passou despercebida por muito tempo. Preocupada com a minha estabilidade emocional e temendo que eu acabasse suspenso da MI-Fairy, Mira fez o que qualquer espiã responsável faria: entrou em contato com a base. Contudo, em vez de me entregar diretamente ao Mestre/Diretor Makarov, ela acionou o protocolo de contenção interna e pediu o suporte da pessoa que sabia como colocar ordem na casa sem burocracia: Erza Scarlet.

Menos de duas horas depois, enquanto eu colhia depoimentos nos arredores da capela com o Inspetor Greg, a ruiva surgiu no local. Ela trajava sua armadura reluzente com a saia escura e trazia a espada embainhada na cintura. Ao seu lado, Mira já vestia o seu traje tático de combate.

— Vejo que o idiota continua confundindo os deveres da inteligência com seus impulsos estúpidos. — declarou Erza com sua voz imponente ao se aproximar.

— Erza? O que você está fazendo aqui? — perguntei, surpreso.

— Estou garantindo que você não destrua a sua reputação, seu idiota — respondeu a ruiva, estreitando os olhos. — A Mira me colocou a par dos fatos. O Diretor Makarov autorizou o envio do meu reforço para isolar o perímetro enquanto investigamos a fundo o que há por trás dessa capela. Vamos resolver isso rápido e de forma limpa.

Pela primeira vez em muito tempo, vi as duas maiores magas e espiãs da MI-Fairy deixando de lado suas antigas rivalidades de infância para atuarem em perfeita sintonia tática.

Voltamos ao interior da capela ao anoitecer. O silêncio do ambiente era quase sepulcral.

Roselyn continuava ajoelhada diante do altar, rezando em sussurros sob a luz das velas.

Erza deu alguns passos à frente, o som de suas botas de metal ressoando pelo piso de pedra

— Irmã Roselyn — chamou a ruiva com autoridade —, ou deveríamos chamá-la pelo seu verdadeiro codinome nos arquivos da segurança internacional?

A freira parou de rezar. Ela não se virou imediatamente, mas o tom de sua postura mudou por completo. A aura dócil e indefesa desapareceu, dando lugar a uma pressão mágica densa, fria e extremamente opressiva que fez o ar no salão ficar pesado.

— Impressionante... — murmurou Roselyn, levantando-se devagar. Quando se virou para nós, seus olhos já não eram mais castanhos, mas sim de um vermelho carmesim vibrante. — Eu imaginei que cães farejadores da inteligência demorariam mais tempo para decodificar os traços do meu disfarce.

— O Padre nunca devia dinheiro a agiotas — declarei, dando um passo à frente. — O relatório do Inspetor Greg confirmou. O Padre descobriu que você estava usando o subsolo desta capela como ponto de apoio para células terroristas e lavagem de dinheiro do crime organizado. E quando ele tentou denunciar, você o sequestrou e assumiu o controle do local usando magia de manipulação.

— Exatamente — admitiu ela com um sorriso cruel e sádico. — E é uma pena que três espiões intrometidos tenham descoberto.

— Take Over: Demon Tri-horn Soul! — bradou Roselyn.

Uma nuvem monstruosa de magia negra explodiu ao redor do corpo da mulher, estilhaçando os vitrais da capela. As roupas religiosas se rasgaram, dando lugar a uma forma demoníaca de escamas escuras, chifres pontiagudos e garras afiadas. A pressão do seu poder mágico fez as colunas de pedra do templo racharem.

— Ela é uma usuária de Take Over de alto nível! — alertou Mira, ativando instantaneamente o seu Take Over: Satan Soul. As asas demoníacas da albina se desdobraram e sua aura negra colidiu contra a da inimiga.

— Reequipar: Armadura da Imperatriz do Trovão! — enunciou Erza. Em um piscar de olhos, a ruiva trajava sua armadura azul e empunhava a lança elétrica, saltando diretamente contra a vilã.

O combate que se seguiu foi avassalador. A capela virou um verdadeiro campo de batalha. Roselyn demonstrava uma força bruta aterradora, bloqueando os golpes da lança de Erza com suas garras e revidando com esferas de energia negra que destruíram o teto do templo. Mira voava em alta velocidade, trocando golpes de punho direto contra a demônio, enquanto as chamas e rajadas mágicas iluminavam a noite de Londres.

Contudo, a vilã percebeu que não conseguiria vencer as duas no combate corpo a corpo. Com um rugido ensurdecedor, Roselyn fincou as garras no solo, canalizando todo o seu poder mágico restante para acionar uma técnica de expansão de área.

— Malignant Expulsion! — gritou ela. Um círculo mágico gigante cobriu o quarteirão inteiro por fora da capela. Se aquela onda de choque detonasse, consumiria a vida de centenas de civis inocentes nas redondezas.

— Droga! Não dá tempo de evacuar o perímetro! — alertou Erza, fincando a espada no chão para tentar erguer uma barreira protetora com a Mira.

Foi no exato segundo em que o círculo mágico estava prestes a explodir que o Fator Surpresa da nossa operação se revelou da forma mais espetacular possível.

Do alto de um prédio a quase quinhentos metros de distância, cruzando os céus noturnos como meteoros cintilantes, uma chuva massiva de mais de trinta flechas mágicas de cor azul cobalto perfurou o teto destruído da capela. As flechas fincaram-se precisamente nos pontos centrais do círculo mágico de Roselyn no solo.

— Flecha Número #108: Bloqueio de Magia! — entoei a distância, mantendo a minha aljava mágica ativa do meu ponto cego no topo do edifício.

As flechas disparadas por mim liberaram uma onda de choque cristalina que neutralizou e dissolveu a magia destrutiva da vilã em pleno ar antes que ela detonasse.

— O quê?! Mas como?? De onde vieram essas flechas?! — rugiu Roselyn, desesperada e perplexa ao ver seu ataque ser completamente cancelado.

Tentando localizar a posição do arqueiro, a vilã baixou a guarda por um fração de segundo. E esse foi o seu erro fatal.

Uma última flecha especial, disparada em linha reta, atingiu o centro do salão. Porém, antes de tocar o chão, a flecha brilhou intensamente e se transformou instantaneamente na figura do pequeno Eustace, trajando sua máscara e capa temáticas de vigilante — o disfarce clássico do assalto ao banco.

— Martelo de Hércules: Impacto Absoluto! — bradou o garoto no ar.

Eustace girou o martelo mágico com toda a força do seu corpo, desferindo um golpe avassalador direto no peito de Roselyn. A onda de energia mágica do martelo esmagou o Take Over da vilã, arremessando o corpo da demônio contra os destroços do altar e deixando-a completamente inconsciente e derrotada.

Antes que o garoto colidisse contra as pedras pela força do recuo, a figura do encapuzado misterioso — o Flecha Azul — surgiu das sombras em um salto rápido, amparando Eustace nos braços e pousando com segurança no solo.

Erza encarou Mira por um breve momento e em seguida, dirigiu o seu olhar para a figura do encapuzado. Surpresa, ela pergunta:

— Mira, mas quem diabos é esse aí? — Questionou a ruiva espadachim, franzindo o cenho.

— Um amigo em comum. — Respondeu sem mais delongas.

O garoto apenas esboçou um sorriso meigo no rosto.

— É bom ver que estão bem, senhoritas. — Ele assentiu, colocando o garoto em segurança no chão e se retirando. Antes que Erza pudesse fazer mais perguntas.

Cerca de duas horas depois, com a área devidamente isolada pela polícia local sob o comando do Inspetor Greg e os feridos atendidos, a paz parecia ter retornado. Roselyn fora algemada com contenção anti-magia e levada pela equipe de custódia federal. Após um longo interrogatório, ela cedeu a localização do cativeiro e as equipes de resgate puderam encontrar o Padre, e trazê-lo de volta em segurança.

Voltamos para a sede da inteligência MI-Fairy para apresentar o relatório do caso. O clima no hall principal, contudo, não era de comemoração. A atmosfera estava estranhamente pesada, silenciosa e gélida.

Ao adentrarmos na sala de reuniões do quinto andar, deparamos-nos com a figura do Diretor Makarov sentado à cabeceira da mesa. Ao seu lado, de pé, estava ninguém menos que Gildarts Clive — Um dos agentes mais fenomenais e conselheiro da casa. O olhar de Gildarts, geralmente descontraído e brincalhão, trazia uma gravidade que fez o sangue de todos gelarem.

Sobre a mesa de madeira, repousava uma caixa metálica prateada com o selo de segurança do departamento de custódia prisional.

— Yuu... — chamou Makarov com uma voz rouca e cansada. — Aproxime-se, meu filho.

Dei passos lentos e incertos em direção à mesa. Mira e Erza permaneceram alguns passos atrás, em silêncio absoluto. Já estava pronto para receber minha punição, por tantos desvios de conduta e suspeitas fundamentadas.

Gildarts deu um passo à frente e deslizou a caixa metálica até a minha direção.

— Eu acabei de retornar de uma missão de verificação na penitenciária de segurança máxima da ala sul — começou Gildarts, com a voz pausada — Esta caixa contém os únicos pertences pessoais autorizados que estavam sob a guarda de sua mãe.

Senti um aperto violento no peito. Minha respiração ficou curta.

— Minha... mãe? — perguntei, tentando soltar uma risada fraca e sem graça.

— Yuu — interrompeu Gildarts com uma firmeza dolorosa, pousando uma de suas mãos pesadas sobre o meu ombro. — Lamento ter que informar que sua mãe faleceu em sua cela essa manhã. A causa oficial foi parada cardiorrespiratória repentina... As investigações já foram iniciadas.

O mundo ao meu redor pareceu girar em câmera lenta. O som das vozes se tornou um zumbido distante e abafado. Encarei a caixa metálica, vendo o nome da minha mãe gravado na etiqueta de identificação. A negação tomou conta do meu ser com uma violência incontrolável. A dor, a mágoa, as perguntas não respondidas ao longo de uma vida inteira de ausência desabaram sobre a minha mente como uma montanha de ferro.

Não disse uma única palavra. Não consegui olhar para a Mira, para o Mestre/Diretor ou para o Gildarts. Numa reação instintiva e desesperada de pura fuga emocional, dei meia-volta, empurrei as portas duplas da sala de reuniões e saí correndo em disparada pelos corredores da sede.

— Yuu! Espera! — gritou Mira, o tom de sua voz transbordando desespero e compaixão.

A albina deu dois passos rápidos para correr atrás de mim, disposta a atravessar o prédio inteiro para não me deixar sozinho naquele inferno.

Porém, antes que ela cruzasse a porta, uma figura alta e musculosa se colocou diretamente em seu caminho, bloqueando a passagem com o próprio corpo. Era o seu irmão mais novo, Elfman Strauss.

— Me deixa passar, Elfman! — suplicou Mira, tentando empurrá-lo, com lágrimas já escorrendo descontroladamente pelo seu rosto lindo. — Ele precisa de mim! Eu não posso deixar o Yuu sozinho agora!

Elfman permaneceu firme como uma rocha. Seus braços estavam trêmulos e seus dentes cerrados com força. Ele mantinha a cabeça baixa, evitando a todo custo encarar os olhos desesperados de sua irmã mais velha.

— Não, Nee-san... — disse Elfman, a voz embargada e dolorida, mas mantendo a postura de um homem que sabia exatamente o peso do que estava fazendo. — Você não pode ir atrás dele.

— O quê?! Elfman, você ficou louco?! É do Yuu que estamos falando! — esbravejou ela, aos prantos.

— Eu sei exatamente de quem estamos falando! — Urrou Elfman, finalmente erguendo o rosto, revelando o próprio olhar marejado de dor. — E é justamente por ser o Yuu que você precisa ficar aqui! Aquele cara passou a vida inteira carregando os demônios da família dele nas costas em silêncio! Ele sempre agiu como o durão, como o engraçadinho, para proteger todo mundo ao seu redor!

Elfman segurou suavemente nos ombros da irmã, sua voz baixando para um sussurro quebrado:

— O Yuu acabou de perder a mãe sem ter tido a chance de fazer as pazes com o passado dele, Nee-san. O orgulho e a dor daquele homem estão destruídos em mil pedaços agora. Se você for atrás dele neste exato segundo, ele vai tentar parecer forte na sua frente... Ele vai tentar engolir o choro para não te preocupar. E se ele fizer isso, ele vai quebrar por dentro para sempre. Pela primeira vez na vida... deixa aquele idiota chorar sozinho. Deixa ele enfrentar o próprio inferno e juntar os pedaços do coração dele. Se você realmente o ama, Nee-san... respeite a dor dele e espere.

— “Além do mais, nós já temos a nossa própria dor para lidar.” — Pensou Elfman, desviando o olhar por alguns instantes e olhando em direção a um ponto específico da sede, um lugar especial que ficou guardado em suas memórias, onde sua irmã mais nova falecida costumava brincar ao lado de Natsu e os outros. Depois do árduo treino na academia dos espiões.

Mira travou. As palavras do irmão mais novo atingiram a alma da espiã com a força de um impacto direto. Ela abaixou as mãos, soluçando baixinho, enquanto assistia à dobra do corredor vazia por onde eu havia acabado de desaparecer.

O vento gélido do fim de tarde soprava suavemente entre os ciprestes do cemitério secular na periferia de Londres. O céu, coberto por uma manta espessa de nuvens acinzentadas, parecia compartilhar do silêncio sepulcral que dominava o lugar. A chuva fina caindo em orvalho deixava o ar pesado, impregnado com o cheiro de terra molhada e flores recém-cortadas.

A poucos metros da sepultura, encostada no tronco de uma carvalho antigo e sob a proteção de um guarda-chuva negro, Mirajane Strauss permanecia imóvel. Seus olhos azuis, profundamente marejados em lágrimas que teimavam em escorrer por suas róseas maçãs do rosto, fixavam-se na figura solitária do homem que amava. Ela respeitara o conselho do irmão; não se aproximou, não tentou abraçá-lo ou consolá-lo com palavras vazias. Apenas estava ali, sendo a presença silenciosa e o porto seguro que ele precisaria quando a tempestade interior perdesse a intensidade.

Lá na frente, diante do caixão de madeira escura prestes a ser sepultado, Yuu Dawnford mantinha uma postura rigidamente ereta. Trajava um sobretudo preto sobre o terno sob medida, com as mãos afundadas nos bolsos e os ombros tensos. Por fora, a imagem era a de um soldado frio, de um espião de elite esculpido para suportar o peso do mundo sem vacilar. Mas por dentro, cada fibra do seu ser estava se desfazendo em mil pedaços.

Lentamente, Yuu retirou a mão direita do bolso. Entre seus dedos calejados, brilhava um pequeno e delicado crucifixo de ouro pendurado em uma corrente fina — a única lembrança intacta guardada na caixa metálica que Gildarts lhe entregara.

No instante em que seus olhos contemplaram o metal reluzente, a mente de Yuu foi arrancada do presente de forma avassaladora, tragada por um flashback doloroso e vívido de sua infância:

A luz alaranjada do pôr do sol entrava pela janela da pequena sala de estar da antiga casa da família. Ele, com não mais que sete anos de idade, e seu irmão caçula ajoelhavam-se sobre o tapete macio. Atrás deles, a figura jovem e serena de Glória Dawnford repousava suas mãos suaves sobre os ombros dos dois meninos. Com uma voz doce e confortante que parecia afastar qualquer medo da escuridão, ela juntava as mãozinhas deles ao redor daquele mesmo crucifixo.

— Fechem os olhos, meus amores — dizia a mãe, sussurrando com o cheiro acolhedor de lavanda que sempre a acompanhava. — Não importa o quão difícil o mundo lá fora se torne, ou o quão distantes estejamos... A fé e o amor que guardamos em nossos corações são a única ponte que o tempo jamais poderá se destruir. Prometam que sempre vão rezar um pelo outro.

A lembrança ecoou em seu subconsciente como um golpe físico no peito. A voz da mãe, o toque quente de suas mãos, o sorriso que ele não ouvia há mais de uma década... A ilusão da postura rígida desmoronou em um milésimo de segundo.

Sua respiração engatou na garganta. Yuu tentou segurar o choro, travando o maxilar com tanta força que os músculos de sua face tremeram, mas fora absolutamente em vão. A armadura do homem durão trincou. Uma primeira lágrima pesada e ardente escapou de seus olhos, trilhando o caminho pela bochecha até pingar na madeira do caixão. Em seguida, os ombros do jovem espião finalmente cederam, caindo ligeiramente enquanto soluçava em silêncio.

O peso dos bons momentos que passaram juntos na infância, as risadas, os conselhos e o amor puro de uma mãe antes da tragédia dividi-los falaram infinitamente mais alto do que qualquer discussão inútil, ressentimento ou anos de separação.

Com os dentes cerrados e os olhos marejados fixos na madeira, Yuu deu um passo à frente. Inclinou o corpo devagar e depositou o pequeno crucifixo dourado com extrema delicadeza sobre o caixão de Glória.

Tudo o que ele mais desejava naquele momento... a única coisa que pediria aos céus se tivesse o poder de barganhar com o destino, era ter apenas mais cinco minutos. Mais um instante para lhe contar de suas proezas como espião, para vê-la desviar o olhar com orgulho disfarçado e ouví-la resmungar como sempre fazia quando ele se gabava de suas artes. Queria ouvir sua bronca uma última vez. Queria ter dito que, apesar de tudo, ele nunca deixara de amá-la.

— A gente se vê algum dia... mãe. — sussurrou Yuu com a voz completamente embargada, mal conseguindo enunciar as palavras.

Ele deu dois passos para trás, fechando os olhos e deixando que a chuva fina lavasse o seu rosto misturando-se às suas lágrimas. Ao longe, Mira fechou o guarda-chuva por um momento, sentindo a mesma chuva e partilhando em silêncio de cada grama daquela dor, sabendo que a partir daquele instante, estaria ao lado dele para ajudá-lo a reconstruir cada pedaço de sua alma.


Fim do Capítulo 11.


Notas finais
1º Para esse Halloween, pretendo escrever uma one-shot original com temática de Bruxas. Espero que vocês curtam. 2º Quem quiser me apoiar no projeto, entre em contato pelas redes sociais. Também tenho discord, se alguém se interessar. 3º Espero que vocês gostem desse capítulo, sinto se não atendi as expectativas. Nem Jesus agradou a todos, então, quem sou perto de nosso pai amado? Um mero pecador, apenas. 4º A minha ideia original e que sigo em essência, é tentar readaptar os arcos do mangá. Porém me distanciando, evidentemente, de alguns erros que o autor cometeu no processo e me guiando a partir da minha própria experiência com a obra, sem fugir da premissa que criei para essa história. Sei que já vacilei um pouco, agora não irei mudar minha decisão por desgosto de alguns fãs.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.