Fairy Tail! Aratana Densetsu!
85 Soa como uma despedida
“Não aperte a mão dele”. “Fiquei longe”. “Corra”.
“Não
Aperte
A mão
Dele.”
A cabeça de Nick disparava sinais de perigo imparáveis, insistia, implorava que ele ficasse longe daquele homem. E ele queria… Só que não conseguia se mexer.
Quem era Daniel Fullbuster?
Ficou fincado no chão, olhando para a mão ainda estendida para ele.
— Entendo… — Edmond enfim desistiu de cumprimentá-lo. — Creio que seria estranho se você apertasse minha mão, depois de tudo.
Nick tentava se encontrar no meio do furacão. Precisava perguntar coisas a ele. Por que matou seus pais? Por que quis roubar seu poder? Por que estava ali agora? Por quê?
Mas o que saiu fracamente de sua garganta foi:
— Você matou meus pais.
Não conseguia olhar no rosto de Edmond, então perdeu a expressão indiferente que ele manteve. O homem ajeitou o chapéu, depois alisou no terno, e cruzou as mãos atrás das costas.
— Deixa eu te contar uma história. — Isso já foi de arrepiar; naquele sonho, o vira dizendo que contaria uma história de ninar antes de Nick apagar. — Séculos atrás, no ponto mais subterrâneo do Submundo, existiam formas de vida tão microscópicas quanto poeira. Não colaboravam com o ambiente, mal se mexiam, a única coisa que faziam era se alimentar: se alimentavam dos resquícios de poder mágico que chegavam até elas.
“Mas, quanto mais nós comíamos, mais fome tínhamos. Comecemos a nos obrigar a crescer para conseguir comer mais. Cada vez maiores, cada vez mais famintos. Chegou ao ponto em que os confins da existência não eram mais o bastante para suprir nossa fome; começamos a subir na superfície, a dançar pelas camadas mais altas do Submundo, engolindo os fragmentos de magia obscura e ardente que contaminavam o ar. E ainda não era o suficiente. Precisamos subir à superfície.”
Nick conseguiu se fazer olhar de frente para Edmond, só que agora ele estava de lado, olhando para o céu como se a história lhe trouxesse muita nostalgia.
— Tornamo-nos a poeira deste mundo. Parecia que tínhamos voltado à estaca zero, mas o poder mágico daqui era diferente… Mais fresco, mais suculento. E durante o período do auge da comunidade mágica, cada dia era um banquete: foi o bastante para conseguirmos assumir a forma humana. Passamos a viver entre vocês, e descobrimos que, se chegássemos perto o bastante, podíamos devorar a energia de um mago individualmente, de pouco em pouco. Nós nos espalhamos para aproveitarmos mais. Porém, quando aquele auge passou, já estávamos muito acostumados com a fartura…
Edmond passou a língua pelos lábios.
— Decidimos ir atrás dos magos mais fortes e devorá-los até perecerem. Comi bem nessa época, mas o destino tinha algo a mais reservado para mim: o herdeiro de um dos magos mais fortes da maior guilda do país, e uma portadora poderosa da Magia das Explosões: Nathan e Evelyn Fullbuster, um casal tão forte quanto ingênuo. E um presente a mais… O filho deles era um raro caso de uma criança nascida com o poder de Dragon Slayer.
Nicolas sentiu as pernas vacilarem, depois um nó do estômago até a garganta. Edmond chegou bem perto dele, encostou a boca no lado do seu ouvido, e disse palavras que fizeram sua alma se remexer:
— Seus pais foram uma refeição deliciosa.
Antes que se desse conta, o punho já tinha ido em direção ao rosto do homem, mas ele o parou com uma mão.
— Por quê… — Nick grunhiu. — Por que não me devorou também, já que era assim?
— “Por que”, hein… Digamos que algumas refeições têm que ser guardadas para momentos especiais. — Edmond empurrou o punho do rapaz. — Daniel. Um dia, eu e meus colegas vamos devorar todo esse mundo até ficarmos completamente satisfeitos. Nosso apetite continua pedindo mais e mais. Quando o grande dia chegar, quero coroar esse momento com o banquete perfeito; era para isso que queria guardar seu poder. Mas então aquela maga interrompeu a operação…
— Então você ainda está buscando aquela merda de lacrima.
— Lacrima? Não seja ridículo. Não deu tempo de transferir mais do que 20% do seu poder naquilo.
Nick recuou um pouco, com a testa franzida.
— Não sou idiota. Se fosse assim, eu ainda conseguiria usar meu poder.
— E você conseguiu usar duas vezes desde que soube dele, não é? — Edmond apertou uma das pontas do bigode. Nick conteve o impulso de perguntar como ele sabia disso. — A grande parte da magia de Dragon Slayer do Gelo continua adormecida dentro de você, porque você mesmo a bloqueou. Ainda assim, consigo sentir o cheiro…
Sentindo vergonha do quão covarde era, Nicolas recuou mais um passo. Mais envergonhado ainda ficou do quanto queria implorar para que Edmond o deixasse em paz.
Mas o sorriso terrível do homem estava ali.
— Quer saber de mais uma coisa sobre meu povo? Somos muito orgulhosos. — O escuro dos seus olhos pareciam devorar a luz da tarde. — Se decidimos comer uma coisa, vamos comer, não importa o que aconteça. Então, Daniel… É por isso que eu ainda vou devorar você.
Coração acelerado, respiração vacilando, pernas tremendo. Uma raiva estabelecida no fundo do coração. O nome do que Nicolas sentia era medo.
— Vamos continuar nos alimentando, até chegar o momento certo de podermos devorar o seu poder e dos amigos. Até lá, continuarei de olho em você.
De tudo o que se passava na cabeça de Nick, o que conseguiu falar foi:
— Por que você está me contando tudo isso?
— Porque você disse que queria saber.
Ali estava de novo, o nó no estômago, a vontade de vomitar.
Edmond finalmente deu passos para trás. De novo, ajeitou o chapéu e bateu as mãos no terno.
— Agradeça aos seus amigos por mim, pela refeição que me deram na Batalha das Fadas.
E assim, como se nada tivesse acontecido, se virou para ir embora.
— Até logo, Daniel. — Ele começou a andar, mas parou depois de poucos passos, e disse ainda de costas: — Ah, já ia me esquecendo. Seu aniversário foi mês passado. — Levantou a mão em um aceno. — Mas feliz aniversário, de qualquer forma.
Dez passos: Nicolas contou porque estava em estado de alerta total. Dez passos, e Edmond desapareceu no ar.
E agora?
Se continuasse seguindo em frente, chegaria na Fairy Tail para a festa de aniversário que Yume e todos tinham preparado. Seria impossível disfarçar toda a sua agitação, então eles ficariam preocupados, insistiriam em saber o que aconteceu, e quando soubessem, decidiriam lutar contra Edmond. Nicolas não conseguiria impedi-los de fazer isso e muito menos conseguiria manter o inimigo longe deles desse jeito.
“Até lá, continuarei de olho em você.”
Pegou o caminho oposto.
. . .
Já era noite e o barulho dentro da guilda se transformara numa agitação coletiva de preocupação; atrasos não combinavam com Nick, ainda mais quando era algo combinado com Yume. Ela mesma não saía da porta da guilda, olhando de um lado para o outro.
— Nenhum sinal ainda, né? — Heather se aproximou dela.
— Não… Ele não te disse nada?
— Pior que não. Você tem alguma ideia do que pode ter acontecido?
— Nenhuma. — Yume olhou de um lado para o outro mais uma vez. — Acho melhor ir atrás dele. Com meu olfato de Dragon Slayer, devo conseguir encontrá-lo.
Heather assentiu com a cabeça.
— Conto com você.
— Lucky! — Gritou para o Exceed que estava prestes a encher a boca de salgadinho. — Me ajuda a procurar o Nick?
— Aye!
Os dois ascenderam ao céu escuro sobre Magnolia. Yume pediu para Lucky começar voando na direção da casa do namorado e se concentrou na memória do cheiro dele enquanto farejava.
Até que achou um rastro.
— Lucky! — O gato parou. — Para a direita!
— Aye sir!
Por que o cheiro de Nicolas levava até a estação de trem? Lucky deixou Yume no chão e ela o segurou nos braços para correr entre as pessoas na direção que o rastro indicava.
E realmente ele estava ali, na fila para entrar em um dos trens… E carregando duas malas.
— Nicolas!
Todo mundo olhou, mas o próprio Nicolas desviou o olhar quando viu Yume.
— O que está fazendo? Para onde está indo?
— Desculpa, Yume. Deixei uma carta explicando tudo na minha casa, peço por favor que você leia.
— Carta? Eu estou aqui agora, falando com você!
— Não dá para falar aqui…
Yume avançou até ele, segurou seu queixo e o obrigou a pelo menos olhar nos olhos dela. No toque o tremor dele era palpável, mas nem precisava; a ansiedade Nick podia ser sentida de longe. Ele parecia prestes a chorar. Mas ainda assim, Nicolas não agia daquele jeito.
Lucky voou para se afastar deles.
— Me fala — disse Yume, tentando equilibrar a firmeza com o carinho.
— Aquele… É aquele homem do meu sonho, Yume. Edmond. Ele apareceu e me contou seu plano, e deixou claro que está me seguindo. Se eu ficar com vocês, vou colocá-los em risco também. Prometo que vou voltar na hora certa, mas agora eu preciso ficar longe.
— O quê?! — Alguém na fila reclamou para Nick andar para frente. — Que hora certa você acha que é essa?!
— Ainda não sei.
— Nick, somos sua família, e somos fortes! Se ele aparecer, podemos nos defender… E principalmente, queremos proteger você! Você não tem que carregar nenhum peso sozinho!
Fitou o rosto de seu namorado a encarando com toda aquela cautela, aquele jeito como nunca o viu antes. Nick parecia ter muito o que dizer, mas quando a fila andou, ele seguiu e se virou para frente. Só tinha mais duas pessoas entre ele e o trem.
— Eu não posso contar com você dessa vez.
Entendia que aquelas palavras vinham de um lugar de profundo medo, só que ainda assim, elas atravessaram Yume dolorosamente. Como assim, “não posso contar com você”?
— Nick, sou eu.
Ele não respondeu.
— Por que você tá fazendo isso?
Mais um passo à frente.
— Me responda, Nicolas!
— Porque estou com medo! — Alguém resmungou sobre a gritaria, mas seria ridículo Yume se preocupar com isso, vendo todas aquelas lágrimas do seu amado na frente. Não era só medo, era desespero. — Não aguentaria saber que eu causei dor a mais pessoas que amo. Desculpa, Yume, mas estou com medo.
Ela queria chegar mais perto e abraçá-lo com força, fazê-lo ficar com ela, dizer que tudo ia ficar bem e que não iria permitir que ninguém mais sofresse. Precisava que ele soubesse que sua ausência é o que seria mais doloroso. Mas quando se mexeu, Nick entrou no trem e sumiu de vista.
Yume só percebeu que estava paralisada depois que o trem partiu.
Mas ele não tinha feito uma promessa?
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